terça-feira, 20 de março de 2012

BEIJA-ME

Beija-me... beija-me num beijo sem fim...
Deixa que os seus lábios repousem nos meus...
Deixa que meu corpo enlaçado no seu
Se perca em delírio e êxtase assim...

Que importa da vida e o que nela existe?...
Esquece tudo... beija-me amor, beija apenas
com este amor sublime que pra nos consiste
num sonho dourado que vem as centenas...

Beija-me amor, que o seu beijo me faz
esquecer as dores e os penares da vida...
Que me importa o resto se eu encontro a paz

quando você me beija?... ah! se você soubesse
o que sinto quando nos meus braços vencida
num beijo seu corpo no meu estremece!

por:Mario dos Santos Lima

domingo, 18 de março de 2012

O SOLIDÁRIO VIZINHO

Minha mãe, pelos atos e fatos, bem que poderia ter pertencido à associação das mulheres protetoras dos animais. Era zelosa e prestimosa com os irracionais. Fazia com amor e desvelo.
Escrevo isto porque presenciei certa feita, minha mãe costurando o lombo de uma penosa que tinha sido estuprada por um enorme e tarado galo de espora grande e afiada. Em outra ocasião, minha mãe, sem qualquer estudo na área de medicina, recuperou pacientemente fazendo fisioterapia num gato que nasceu troncho. E eu amei quando a vi fazendo de palito de fósforo uma tala, deixando um pássaro preto com suas finas pernas em condições de uso.
Ela amava incondicionalmente os animais dedicando carinho especial quando principalmente algum deles vinha até ela suplicando ajuda.
Ela só não se embrenhou nas florestas porque tinha seus filhos para cuidar e educar.
Na redondeza, onde ela morava, todos a conheciam como o anjo bom dos animais.
Um dia, ao tentar atravessar a estrada um tatu fêmea e seus 4 filhotes foram atropelados por um caminhão. O motorista freia desesperado o caminhão, e volta correndo para ver e acudir a família que jazia esmagada no chão. Apenas uma criança escapou. Ela chorava esfaimada tentando buscar uma teta no meio de uma carcaça esmagada.
O motorista em lágrimas pega o tatuzinho e de imediato lembra-se da salvadora, do bom anjo dos animais, a dona Maria.
- Dona Maria, este tatuzinho precisa de seus cuidados e alimentação. Contou a tragédia para minha mãe e foi embora.
Minha mãe acolhe o pequeno bebê tatu galinha com cuidado esmerado, e de imediato pega um conta gota e começa injetar na goela dele porções de leite.
O tatu foi crescendo cercado de cuidados, sempre dentro de casa numa caixa grande de papelão forrada de panos.
Para aquele animal minha mãe era sua mãe. Ela pegava-o no colo toda vez que ele choramingava a um canto pedindo comida. Dava bichinhos, frutas e leite, e passava carinhosamente o dedo indicador na cabeça do tatu que fechava os olhos no ato de aceitação.
E o tatuzinho cresceu e foi levado para o lado de fora da casa e solto livre no jardim.
Ele feliz começou a cavar alguns buracos, mas sempre vinha até a boca receber a aprovação de minha mãe. Ela batia palmas para ele e conversava conversas tantas que só os dois entendiam. Minha mãe era uma poliglota, pois além do português e polonês ela falava e entendia bem o conversar tatuguês.
Todos os dias o tatu fazia-se presente na boca do buraco esperando o alimento que minha mãe trazia, e os dois batiam felizes aquele papo animal que só ele e minha mãe compreendiam.
O vizinho da casa de meus pais trabalhava com máquina escavadeira na prefeitura e era muito atencioso e solidário. Sempre pronto para o que desse e viesse.
Um dia meus pais tiveram que viajar e, é claro, recomendaram ao vizinho os cuidados da casa, mas esqueceram de recomendar ao vizinho a atenção ao tatu.
Minha mãe, antes de sair, preparou o lanche do animal para dois dias e água suficiente. Conversou o conversar de sempre fazendo algumas recomendações ao bicho. Foi um papear de despedida.
Mas viajou tranqüila.
Voltou saudosa e quase caiu de costas quando viu o muro da casa derrubado e enormes escavações pelo jardim.
Aflita procurou por entre os buracos o seu tatu. Chamou e gritou por ele. O eco de sua voz suplicante perdeu-se sem resposta na imensidão.
E aparece no portão o vizinho, como se fosse um herói , segurando numa das mãos o seu troféu e garganteia.
- Dona Maria, cuidei bem da sua casa, mas tive que agir em defesa do seu patrimônio; todo orgulhoso inicia seu papo dos efeitos heróicos praticados aguardando, quem sabe, uma medalha de honra ao mérito.
E continuou a descrição de sua aventura protetora.
- Vi alguma coisa estranha em movimento em seu quintal - enfeitava a descrição para dar maior valor ao seu ato, e continuou a narrativa:
- O bicho parecia perigoso e por isto peguei minha espingarda e descarreguei no lombo dele vários tiros. Mesmo ferido o monstro se escondeu em algum buraco – suspirou um pouco para dramatizar a história e continuou:
- Tive que buscar a retro escavadeira para desenterrar a fera.
Parou a narrativa, ergueu o troféu com a mão direita e se aproximou de minha mãe dizendo:
- Como prova da verdade que digo cá está a carcaça; a carne eu comi.
Minha mãe petrificada olhou aquilo na mão do filho de uma puta; Identificou aquela peneira reconhecendo o querido tatu que ela dedicava tanto amor e carinho. Não suportando a dor, deixou duas lágrimas rolarem pela sua face.

por: Mario dos Santos Lima

segunda-feira, 5 de março de 2012

UM LADRÃO ASSUSTADO

A noite descia célere, escorregando pelas encostas, engolindo o sol que tristemente morria por trás das colinas. A estrada poeirenta, sulcada pelo rodado dos poucos carros e carroças que por ali trafegavam, era contornada por uma renda verde de capim que passava rasteira por debaixo da cerca de arame farpado e ia brincar com as pernas dos muares e bovinos que ainda teimavam na pastagem.
O trote apressado mostrava a angustia do viajante em querer chegar logo ao destino.
Sem apear abriu a porteira, e mais perto do rancho bateu palmas e gritou:
- Oh de casa!
O rancho de barro batido e coberto de palha, sombreado e amparado por dois coqueiros retorcidos pelo vento, era o único que reinava pelas cercanias, e por esta razão sempre tinha um viandante que cansado ou com fome pedia um abrigo.
A porta se abre gemendo, se arrastando pelo chão batido. De pé, com a mão no batente da porta, como se quisesse escorá-la, uma senhora gorda, grisalha, com outra mão no sobrolho em proteção do sol, olha demoradamente o cavalheiro que chega, e diz:
- Vamos entrando seu moço!
Ele apeou, livrou o eqüídeo dos arreios e soltou-o no pasto contiguo. Pegou o arreamento e sua espingarda e adentrou a choupana.
- Aqui não precisa desta coisa não, meu senhor, diz um velho sentado a um canto.
- Esta é a minha proteção, respondeu de pronto o viajante. Olhou a espingarda demoradamente, deslizou cuidadosamente sua mão em carinho pela coronha e a fez descansar encostada na parede.
O jantar transcorreu-se num religioso silêncio. Ouvia-se o raspar das colheres mendigando comida no fundo das gamelas. O lampião fumegante iluminava parcamente o ambiente. O fogo no fogão de taipa crepitava cansado.
Lá fora a noite era clara e quente. A lua brincava com as estrelas na imensidão distante. Uma coruja piou agourenta num pau seco lá mais adiante.
O velho abraçou sua viola e sentou-se num toco do lado de fora. Olhou demoradamente a lua, cismou com alguma coisa e num dedilhar suave cantou canções tristes e saudosas.
O cavalheiro ao pé da porta ouviu alheio algumas canções e sem fazer qualquer comentário pegou a lamparina e se recolheu no quarto preparado para ele.
Pelas frinchas das paredes o luar iluminava mais que a própria lamparina e por isto resolveu apagá-la. Pelo tamanho das fendas a janela parecia uma grade.
Em cima do catre tinha um colchão de palha que cuidadosamente foi remexido.
Colocou a espingarda do lado da cama e estendeu seu esqueleto cuidadosamente por cima do colchão.
A coruja já não piava mais, apenas alguns cachorros vadios uivavam em serenata para a lua.
De olhos fechados rendia-se ao sono quando de repente um barulho estranho fez se ouvir. Abriu os olhos e ficou atento.
Um vulto do lado de fora, iluminado pelo luar, tentava abrir a janela.
Esfregou os olhos para ficar certo de que não estava sonhando e, vagarosamente sentou-se na cama pegou a espingarda e aguardou o desfecho.
Pelo processo insistente o viajante entendeu que o vadio queria mesmo concluir a operação e invadir, sabe lá deus por qual razão o quarto dele.
Revestiu-se de raiva, mas com muita cautela preparou a sua arma. Posicionou-a a um palmo da cabeça do intruso. Queria apenas dar um belo susto no ordinário. A alça da mira passava pela fenda e o miserável nem percebeu.
Ouviu-se primeiro um cleck e em seguida ao forte clarão a carga de pólvora deflagrada originou um tremendo disparo.
O estrondo ecoou por todos os lados. O uivar dos cachorros assustados dava o toque final da confusão. A coruja sonolenta voou. A lua que calmamente descansava rapidamente se escondeu por entre nuvens. Enquanto a fumaça se dissipava no quarto o viajante viu duas figuras de olhos arregalados, assustados na porta de seu quarto. Gaguejando o casal de velhos pergunta:
- O que aconteceu?
- Meu anjo protetor vomitou chumbo num invasor filho de uma puta.
O casal de velhos não quis acreditar imaginando que o viajante acometido por sonambulismo tenha atirado a esmo.
Logo de manhã, num trote acelerado lá na curva da estrada desaparecia o viajante que ainda se deu ao trabalho de erguer a mão num adeus agradecido, e na cerca de arame farpado, logo adiante, via-se enroscado um pedaço de roupa, provavelmente da calça e um pedaço de carne, provavelmente da perna de algum apressado.

por: Mário dos Santos Lima

ADEUS

Inutilmente esperei ouvir que me chamasse...
Inutilmente... e assim como nada mais existe
Entre nós... tudo acabado, vou caminhando triste
Além da ponte na esperança q’esta dor infinda passe...

Pr’ atras nem me atrevo olhar... inútil são meus prantos...
Tantos foram que chorar já nem consigo mais...
Te implorei... mil planos fiz... foram loucos, foram tantos
De tanto amor que eu tinha não te esquecerei jamais...

Meu caminhar é trôpego... tenho visões de louco...
Te vejo na escuridão imensa, toda contente
Querendo me abraçar... mas, a visão, pouco a pouco

Desaparece e assim, apenas, dos sonhos tantos
Ficou a saudade enorme de cada momento ardente
Que vivemos os dois... e meus olhos se cobrem em prantos.

por: Mario dos Santos Lima