domingo, 10 de junho de 2012

O GRANDE CIRCO

O circo, segundo a literatura velha, empoeirada e estocada em bibliotecas e também perdida em prateleiras particulares por aí, diz-se dele que é uma empresa itinerante que congrega artistas de diferentes especialidades, tais como malabaristas que faz desaparecer dinheiro, documentos e outras coisas de forma habilidosa; os funâmbulos que vivem na corda bamba, mas não caem; os ilusionistas que enganam o povo com suas habilidades, e principalmente os engraçados palhaços. Ah! Os palhaços como eu gostava e me divertia com eles. Todos estes artistas faziam a graça e a diversão do povo que sentados na arquibancada, em tábuas rústicas ao derredor do picadeiro, aplaudiam e riam à beça. A família, os amigos e os vizinhos estavam juntos. Suas interpretações teatrais não apenas demonstravam interesses individuais e sim despertavam a consciência mútua, sobre o amor, o respeito e a honestidade. Era singelo, mas eficaz. Uma das características do circo era sua lona. De longe a gente avistava-a e se empolgava. Ela exercia um fascínio inexplicável e funcionava tal qual um imã. O circo já fez história por mais de quatro mil anos; Foi praticamente institucionalizado pelos romanos, antes de Cristo, que tinham como política, para conter a insatisfação do povo, pão e circo, e por fim profissionalizado pelos ingleses no século dezoito, e agora?... No meu tempo de guri o circo chegava barulhento na cidade, mas sempre em temporada curta. A petizada curiosa corria e ficava em derredor dele apreciando os animais e vendo, como num passe de mágica, a lona ser erguida. O circo quando se instalava na cidade era assunto sério na pauta de qualquer discussão familiar. - Cuidado com as crianças! Sempre o pai cuidadoso alertava em casa. A lenda era de que o pessoal do circo roubava as crianças e dava de alimento aos animais, mas o certo mesmo é de que a cachorrada vadia da cidade e alguns gatos eram pratos prediletos das onças e outros animais e não as crianças. O circo além da graça que apresentava tinha por função ser o predador natural dos vira-latas e gatos abandonados. Eu tenho saudade dos circos de minha época de meninice. Os donos eram verdadeiros empreendedores e estrategistas. Eles sabiam organizar bons espetáculos, fazer boas propagandas e estabelecer o tempo de permanência no local antes que curva de demanda caísse. Era da bilheteria a renda para sustentar as despesas com alimentação aos bichos, salários aos artistas e manutenção dos fatores de operação. Ninguém ganhava por fora e a platéia concordava com o valor da entrada. O circo foi se transformando para atender as exigências do público e foi, aos poucos, se encolhendo sufocada principalmente pela televisão. Da grandiosidade e importância do circo de antigamente hoje, pequeno e na palidez do desterro luta heroicamente para sobreviver nas mãos de alguns circenses que quase no anonimato, com suas lonas velhas, furadas sustentadas parcamente por ferros enferrujados, se apresentam em cenas bizarras de pouca expressão. São valentes nesta luta inglória. A luta é inglória e por quê? Fazendo uma analogia, o circo hoje é um anão desarmado que se embate contra um gigante fortemente municiado. Quem é este gigante invejoso que veio buscar das lonas o aprendizado e roubar seu público inocente? O gigante tem dois tentáculos – A televisão e os políticos. A lona virou o teto de nossa casa, a arquibancada o nosso sofá, e o picadeiro a tela da televisão. E os ilusionistas, os mágicos, os equilibristas e os palhaços? Ah! Estes graciosos artistas de antanho hoje são vermes que empobrecem nossos anseios e enche de imundície a nossa vida. Deixam aniquilados os cérebros de nossas crianças. São vazios na essência do saber e nos encharcam a alma de banalidades, de imoralidades e desrespeito com nossos ideais. O picadeiro se individualizou e se multiplicou pela casa. Nós nos drogamos lentamente sozinhos. O gigante hoje quer apenas ganhar dinheiro e embrutecer o nosso espírito. A telinha está rica de inutilidades e a lona que vemos em cada cidade, em cada estado e capital do país está cheia de malabares, de mágicos e de palhaços que lá os empregamos com nossos votos. Cada um de nós é o grande circense que tem o poder de colocar estes canalhas que se prestam ao ridículo como vereadores, prefeitos, deputados, senadores e presidente sob a grande lona de seus palácios. Eles nos representam? Desta forma, nós é que somos os palhaços, travestidos nestes velhacos, rindo da própria desgraça no grande circo que instalamos. O circo se institucionalizou. por: Mario dos Santos Lima

quinta-feira, 24 de maio de 2012

UM LADRÃO MUITO FEDIDO Quando nos deixamos levar pelo pavor, muitas vezes as conseqüências disso podem dar em merda. Pela afinidade o medo, o pavor e a ansiedade são irmãs que saíram do mesmo saco escrotal. O medo nos põe em estado de prontidão pelo receio de que alguma coisa física possa nos atacar. A reação do medo é o pavor que às vezes é trágica e fedida. Quem olha o medroso, no momento da ansiedade, da cintura para baixo, poderá notar quase sempre, líquido ou sólido escorrendo por entre as pernas. Como o medo é uma reação obtida através do contato com algum estímulo físico, sempre gera uma reação pandemônica. O pânico se instala. Meu amigo, de alta patente da aeronáutica, é um desses cagões que passam a vida em pânico. Vive com medo até da própria sombra. Sua casa é uma verdadeira guarnição. Ele, a mulher e os três filhos cada um tem o porte de pelo menos cinco tipos de armas. Na frente de sua casa está estacionado um tanque de guerra e uma guarita fortemente armados. Lá com seus defeitos, mas é um protetor ferrenho dos animais e faz questão de propagar isto, tem seus animais muito bem protegidos. O cachorro mora numa casinha de paredes a prova de balas. O coitado do guaipeca tem uma armadura e um capacete que o coíbe de se locomover com certa velocidade. O gato, coitado, não tem condições de dar as trepadinhas na gata da vizinha porque a vestidura de proteção que ele usa é de espessura que ultrapassa o tamanho do membro reprodutor do bichano. Até o papagaio usa farda da aeronáutica e colete a prova de bala. A casa está pronta para qualquer contenda. As armas na residência de meu amigo estão posicionadas estrategicamente em todos os pontos. As janelas e portas alem das grades de proteção, em aço especial, são trancadas a sete chaves. Todas as noites, antes de dormir, meu amigo dá a ordem unidade e todos juntos, mulher, filhos e animais fazem a oração da noite pedindo ao poderoso dos altos céus muita proteção. É um medroso convicto! Certa vez, ao entardecer, enquanto o lusco fusco das lâmpadas dos postes brigava com o manto escuro que a noite trazia, alguma coisa estranha acontecia no telhado de sua casa. Todos juraram que eram passos bandidos de um filho de uma puta qualquer tentando apropriar-se sabe lá deus do que. O pulguento ganiu assustado, o gato deu uma miada esganiçada e o papagaio tremeu e caiu do poleiro. Era o fim do mundo! Estava decretada a batalha. Alguns tiros foram dados em direção ao teto da casa que era em madeira e a besta sem qualquer questiúncula fugiu apavorada. Algumas goteiras se fizeram presente anunciando que alguém deve ter atingida a inocente caixa d’água. O encanador não levou mais que trinta minutos para corrigir o acidente, e disse: - Se vocês forem praticar tiro, não o façam nesta área. Demarcou com giz, no teto onde ficava a caixa d’água. No dia seguinte a tarde quente novamente chegou permitindo que o destemido e audaz larápio voltasse para conseguir o que fora interrompido na noite anterior. E o barulho de passos se fez ouvir no teto. Pareciam que olhos perscrutavam nos orifícios deixados pelos projéteis. O pavor tomou conta da casa. Respeitando a zona proibida pelo encanador, novamente uma saraivada de balas sibilou por entre o vazio do forro e o telhado quebrando muitas telhas. Após todo este forféu o silêncio sepulcral meteu medo nos moradores da casa sinistrada. Montou-se rodízio de guarda a noite toda. Meu amigo, por certo deve guardar alguma coisa muito preciosa despertando a ganância do gatuno. Pela terceira noite seguida ele veio marcar ponto no peneirado teto da casa dele. Pareciam muitos lá em cima que olhavam pelos furos, com olhos em brasa e riam do pavor da família reunida. Antes de tomar uma providência um pouco mais violenta, chamou o quartel, o corpo de bombeiros e a polícia montada. - Eu chamei a polícia seu filho de uma puta! Meu amigo gritou a todo pulmão olhando para o teto, tentando amedrontar o safado. O bandido desconheceu a ameaça e continuou fazendo sabe lá deus o que, e isto tornou meu amigo mais possesso ainda, e feito um capeta sapecado foi lá fora, posicionando o canhão do tanque para o lado do telhado, gritando mais uma vez: - Seu filho de uma puta, saia daí ou mando você para os quinto dos infernos. Fez-se silêncio lá fora, mas no teto da casa o bandido parecendo surdo continuava no seu incansável laborar, e isto fez meu amigo tomar a decisão final. - Você quer guerra, então vamos a ela! Muitos tiros de canhão reboaram pela amplidão escura. A polícia chegou assustada juntamente com um destacamento do exército e o corpo de bombeiro, e nada pode fazer. A parte do telhado e caixa d’água estavam completamente destruídos. Foi encostada a escada e o bombeiro subiu para apanhar o que restou do corpo do miserável gatuno. Por entre os entulhos do telhado com a lanterna na mão o bombeiro finalmente encontrou o animal, juntamente com sua fêmea, ferido na perna. Tapou o nariz, pegou os dois e apresentou ao meu amigo um fedido e inocente casal de gambás. por: Mario dos Santos Lima

quinta-feira, 26 de abril de 2012

CRONICAS AO SABOR DO TEMPO

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