sexta-feira, 19 de outubro de 2012

SER MÉDICO

É, no despertar da aurora da vida quando tudo ainda é folguedo na vocação incontida, olhar esta meta, e sem medo se debruçar em mil livros para pesquisar e estudar a ciência que os males dos homens vem dar alívio ou curar... É ser sempre uma criança simples, amável e sincera quando no trato dos outros... é ser gente... se compadecer com o sofrimento e agonia do ser que na vida só espera uma mão amiga... forte... na hora extrema de falecer... É ver, por entre suas mãos fugir a vida, tranqüilo, porém estar pelo dever cumprido... é ouvir...ser apoio sempre amigo e jamais ser mercenário... bem receber o rico e o mendigo... É não desistir até o derradeiro suspiro de alguém; É tentar até o impossível... é chorar, abraçar... é ser gente... É suplantar os defeitos... ser anjo de amor sempre presente.

sábado, 6 de outubro de 2012

EXCESSO DE FUNDO QUEBRA O BANCO

A saúde de uma instituição financeira depende basicamente das entradas das aplicações financeiras que são formadas e mantidas por ávidos, finórios e esperançosos aplicadores. Quanto maior for o fundo de investimento mais sólido é o caminho do retorno esperado por estes gananciosos aplicadores. Que eu saiba um banco jamais quebraria por excesso de fundo. A aula transcorria normalmente com minhas informações e discussões a respeito de fundo de investimento, sobre governança do sistema financeiro, sobre a taxa de alavancagem entre os passivos e os ativos da instituição financeira, sobre o risco sistêmico e etc. Pela minha atitude de poucos amigos e de aspecto sisudo a classe com quase setenta alunos permanecia calada na maior abstração. Ou era por não estar entendendo nada ou por medo de se manifestar. Na realidade eu acho que os alunos eram chauvinistas com tendências narcisistas com minomanias extravagantes. Mesmo que fosse uma falácia a minha exposição eles estavam ali quietos e dominados. O ruído do movimento das asas de uma mosca era perfeitamente audível. Até a brisa que atrevida invadia a classe pelas janelas abertas sussurrando coisas incompreensíveis era notada. Nada mais perturbava ou transgredia a minha ordem de silêncio absoluto enquanto decorria o tema. Até a sutil vibração da mudança de pensamento podia-se ouvir. O calor que se fazia era cruel e se podia ouvir o ruído das gotas de suor que caiam das faces angustiadas como se este ruído fosse um crepitar de lenha ardendo. Uma a uma rolavam pelo rosto indo se chocar até ao chão e se evaporando célere no ar. Os alunos hipnotizados não se permitiam nem o piscar. Se fosse pintado ou congelado este momento por certo a cena seria uma pintura quase macabra. Eu me sentia o próprio deus no domínio total da sua criatura. Tudo estava dominado naquele ambiente. Alguém, lá no fundo da sala detentor de um esqueleto que carregava nada mais que cento e cinqüenta quilos de ossos, carne, músculos, tripas e merdas suava a cântaros aguardando em pânico por certo o final da aula. Tanto mexeu de um lado para outro que a pobre cadeira não agüentando simplesmente abriu as pernas fazendo o animal se esborrachar no chão. O baque daquele enorme corpo fez estremecer toda a sala. Este impacto quebrou a inviolabilidade do silêncio imposto. Tudo ficou congelado no tempo e no espaço. As gotas de suor deixaram de cair petrificadas de medo. As moscas se escafederam e a brisa medrosa saiu sorrateira da sala para não levar a bronca inevitável. Em cada aluno havia a expressão angustiada do depois. De bocas abertas estavam todos de olhos fixos em mim. O aluno, de peso avantajado em pânico, todo esborrachado ao chão olhava para mim suplicando clemência. A cadeira toda arrebentada destoando do clima ria feliz da situação. Todos esperavam de mim uma atitude cruel pelo sacrilégio cometido. Agüentei até onde pude para não rir da situação burlesca. Quebrei então o gelo retirando a máscara de bárbaro algoz desenhando então no canto de minha boca um leve, furtivo e delicioso sorriso. Os alunos então perceberam. Descontraíram-se. O cenário se descongelou e num ruidoso e alegre burburinho incontinente se viraram para trás olhando a vítima estendida ao chão em meio à coitada da cadeira quebrada. Voltaram-se então para mim e provocantes disseram: - Mas o professor não afirmou agora a pouco que excesso de fundo não quebra um banco? Tive que admitir a brincadeira e quebrando o protocolo rir com eles. por: Mario dos Santos Lima

O PREÇO DE UMA AULA

Fazendo a analogia do aluno com a matéria prima, eu diria que se no processo de fabricação o produto estiver sendo prejudicado, na sua qualidade, na sua funcionalidade pela porcaria da matéria prima, é dever do gestor eliminar este material para que o produto se apresente a contento lá na ponta de venda. Ou por outro lado, se fizer a analogia do aluno com cliente num processo de compra e venda, e o pretenso cliente não estiver comprando, apenas enxovalhando o produto, este maldito cliente deverá ser descartado. Eu diria que isto nem considero como meu ponto de vista uma vez que é simplesmente a lógica do negócio. A maça podre deve ser eliminada. Bem, eu sou pelo valor intrínseco das coisas, pela ética e pelos bons costumes. Para mim, o aluno deveria vir de boa formação e conduta de berço. Com estes valores sedimentados em casa, ao freqüentar uma escola com o objetivo explícito de conviver, buscar, pela experiência dos mestres, os saberes e práticas para sua vida, estaria apto e preparado adequadamente para servir a sociedade. É isto que acontece? Diria, com raras exceções. O professor é desrespeitado, é enxovalhado, e sempre é considerado um velho que deveria estar aposentado. É ameaçado e muitas vezes vítima de violência. O professor além de não ser valorizado pela grande maioria dos alunos, ele também recebe pouco apoio da instituição em que leciona. É um bucha de canhão. É a bolinha de pingue pongue no vai e vem da vontade das duas partes – alunos e instituição. O professor se amedronta? Acovarda-se? Não, segue convencido, firme, alinhado no seu ideal quase utópico de transformar uma massa sem princípios, sem ética, sem civilidade numa obra prima. Consegue? Por alguns exemplos soltos por aí, acredita-se que sim. Sempre vão existir mestres corajosos e idealistas. Muitas vezes a educação que faltou em casa é necessária corrigi-la em sala de aula. Não que isso seja uma regra, mas muitas vezes a matéria prima pode ser recuperada no processo de transformação. Foi numa atitude corajosa de enfrentamento que um professor – digo aqui o pecado, mas não conto nem quem foi o pecador e nem quem foi o padre. – resolveu, de forma brilhante, dar uma lição num fedelho, mal educado, mau caráter que assistia a sua aula. O fedelho chegou tarde, não se ligou nas explicações e de repente, para perturbar a aula resolveu questionar: - Poderia explicar tudo de novo? Não estou entendendo nada! O professor até aqui calmamente, tendo acompanhado a displicência do criançola mal educada, resolveu interpor dizendo: - A dúvida é a incerteza ou desconfiança em relação a uma idéia, um fato, uma ação, de uma asserção ou de uma decisão, assim, você poderia dizer para mim e para a sala do que estou realmente tratando e onde reina a sua dúvida? O desconexado, de dedo em riste querendo se sair bem da enrascada perante a sala vomita: - Seu babaca, eu pago pelas suas aulas e por isto você tem que explicar as coisas quantas vezes eu quiser! A sala gelou. Ouvia-se o bater das asas das moscas. O professor, sem se alterar, quase como desconhecendo os impropérios ditos pelo mal criado, abriu sua bolsa, sacou uma máquina de calcular e por alguns minutos seus dedos passearam pelo teclado numa dança nervosa e feroz. - Muito bem! Diz o professor já num tom mais de tenor cantando duas oitavas acima. - Você comprava a minha aula! A partir de agora não vendo mais para você. Tirou do bolso duas moedas, dirigiu-se até a carteira do mal criado fedelho, e bateu-as no tampo da mesa e vociferou, apontando para a porta - Está aqui o que você pagou, pode se retirar! A sala em suspense assistiu a cena. O topetudo saiu dizendo: - Você não sabe com quem está se metendo! O desgraçado estava saindo sem as moedas, o professor pegou-as e entregou-as respondendo: - Sei sim com que estou falando! Estou falando com um tremendo mal criado, um desajustado que não teve ou não soube aproveitar a educação que seus pais lhe deram, um egoísta desajustado! O aluno saiu batendo a porta e a sala aplaudiu o professor. O desfecho foi melhor. O desgovernado, pensando ser o senhor da situação tentou entrar em sala de aula algumas vezes, mas recebia, implacavelmente já na porta os centavos. Contou uma história qualquer em casa e os pais vieram furibundos a fim de tirar satisfação com o mestre. Reunião tensa na direção. O monstro, seus pais e colegas de sala. Tornando-se mais plácido, o professor olhando para os pais sentenciou: - Eu aceito o retorno de seu filho desde que ele vá agora, frente à sala de aula, e se retrate. Os pais concordaram, inclusive acompanhando o desgovernado até a sala de aula. A atitude do calhorda serviu para os demais colegas reconhecer a grandiosidade do professor nos míseros centavos que pagam a ele. Nota para reflexão: Visto que a maioria das Instituições pensa muito mais no faturamento que em adicionar conhecimentos, modelar a massa, será que algum professor teria coragem e peito para agir desta forma? E se agir? Qual seria o final da novela? Por: Mário dos Santos Lima

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

REUNIÃO DE CONDOMINIO

Tenho certeza que você mora em condomínio ou já morou, e nunca foi a uma reunião. E se foi, jurou, de pés juntos, nunca mais ir num encontro infernal desses. Pelo seu semblante pode-se notar que isto é a verdade. Eu duvido que exista alguém, neste mundão de Deus, que tenha prova concreta de ter participado de uma reunião de condomínio já na primeira convocação. A lei permite, e por isto elas sempre acontecerão no segundo momento com qualquer número de participante. Isto é lei e pronto, ninguém se apresenta na primeira convocação. Nenhuma reunião começa na primeira convocação. Isto é cultural. Afinal, o que é uma reunião ou a que se presta? Segundo alguns atrevidos estudiosos e delirantes pesquisadores, uma reunião nada mais é que um encontro de duas ou mais pessoas com um propósito ou tema pré definido. Mas por que as reuniões dos condomínios acabam sendo putrefatas? Segundo Christian Barbosa, um dos maiores especialistas em gerenciamento do tempo e produtividade pessoal e empresarial, escreveu, certa feita, um artigo, onde relata sete itens para serem aplicados em uma reunião para que ela tenha bom êxito. No fundo, no fundo, sobre reunião de condomínio ele não se atreveu a ressaltar muita coisa. Não trouxe grandes novidades. Vou me ater apenas em um deles. Diz ele que se devem estabelecer previamente os propósitos da reunião para que os condôminos venham preparados, e a reunião seja mais produtiva. Não vejo criatividade alguma, visto que no regimento dos condomínios está escrito que a reunião deve ser marcada com antecedência, e deve apresentar a pauta; Desta forma o Barbosa não está apresentando qualquer novidade. Mas a multidão ínfima, que se predispõe pagar os pecados na reunião, já vem com o último item da pauta na cabeça apenas. Para os condôminos o último item da pauta – outros, é o melhor e mais importante. Outros no final da pauta é como o etc. O etc. e outros sempre é o que sobrou, o que não tem importância, o que não é lembrado, mas para o condômino que está na reunião é o momento mais esperado. É como o orgasmo no ato sexual. É o momento para criar grandes polêmicas sobre pequenas coisas tais como: O Cachorro do visinho late muito fino; A vizinha anda de salto alto no apartamento; A descarga da privada do vizinho é muito prolonga e está gastando água; O pessoal anda falando muito alto no hall dos andares; O elevador está demorando em abrir; O porteiro anda de cara feia comigo; O casal do apartamento de cima anda fazendo sexo muito prolongado e barulhento; A garagem é muito apertada; Roubaram o meu chinelo; Riscaram minha bicicleta; O morador do andar tal é um taradão; etc. Bem, a conclusão é que, se a pauta da reunião tem 10 itens, sempre o mais importante vai ser o último, - o item outros. O outros sempre é o que o morador ao lado faz ou deixou de fazer, mas nunca os pecados do santificado que vem à reunião para vomitar os queixumes. Numa dessas reuniões, marcada com antecedência, constava apenas dois itens na pauta. Um item era sobre segurança e o segundo, outros. A galera do outros compareceu feliz em peso; A reunião não seria enfadonha e os participantes poderiam vomitar impropérios, fazer acusações, reclamações e xingar os vizinhos ausentes. Uma onda de assaltos e invasões em condomínios se alastrava mais que fofoca em salão de beleza. O síndico preocupado com isto convocou a reunião para tratar e resolver especificamente sobre isto. Os condôminos como de praxe, só compareceram para a segunda convocação. E compareceram em peso porque a pauta só tinha dois itens e com isto sobraria mais tempo para o outros. O síndico, seguindo as orientações do Barbosa, de pé colocou um enorme relógio na mesa deixando bem claro o motivo da reunião. - Agradeço a presença dos senhores! O assunto que vamos tratar hoje é bastante delicado e importante, por isto não vamos nos perder em questiúnculas paralelas e vamos controlar o nosso precioso tempo. Foi assim que o síndico iniciou a reunião. - Este cara é um chato! Foi assim que se leu na mente dos emburrados condôminos que ansiosos esperavam pelo item seguinte. Cada um já tinha uma lista enorme de reclamações e atrapalhadas sugestões sobre outros. Nada, absolutamente nada, eles queriam saber ou resolver sobre segurança, sobre os assaltos, sobre o perigo de invasão do prédio. Isto não tem importância! Se eles pudessem em coro gritariam: - Queremos o item outros! Vamos ao item outros. Enquanto o síndico se debulhava apresentando argumentos, e cobrava sugestões, o pessoal tranquilamente dormia a sono solto, mas de antena ligada para o início do segundo item. O síndico era como João Batista falando no deserto. Para ninguém. Para o vento. Quando a reunião já estava prá lá de enfadonha, no entender dos malditos condôminos, que ansiosos esperavam pelo segundo item da pauta, eis que de repente, não se sabe de onde, veio alguém para animá-la. Entrou educadamente, como quem não quer nada, fez questão de assinar a lista de presença, e se colocou de pé ao lado do síndico. Ninguém o conhecia e ele se apresentou de uma forma fantástica. Sacou uma arma e berrou deseducadamente como se todos fossem surdos: - Isto é um assalto! Todos deitados e com a mão na cabeça! Ensacou o que pode e saiu calmamente tal qual tinha entrado. Deixou os homens só de cueca e as senhoras de calcinha. O pessoal, despojado de suas vestes e pertences, refeito do susto, embrulhado em toalhas, encontrou o pobre porteiro pelado, amarrado e amordaçado. Com certeza, na próxima reunião o assunto do item outros vai ser unânime: O síndico é incompetente, e deve ser trocado. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA