sexta-feira, 19 de outubro de 2012

EXAME DA PRÓSTATA

Jamais jogue um bumerangue a esmo, principalmente se você não estiver revestido de todas as habilidades para fazê-lo. Ele vai, volta e te atropela. Conversa de botequim, na grande maioria das vezes é só lamúria, vomitada por boca mole anestesiada pela cachaça, mas, muitas vezes, é um abre coração, um desabafo total. Palavras soltas, bêbadas, para a redação de uma boa crônica. E foi num desses encontros encharcados que meu amigo, um Major aposentado da aeronáutica, já chamando Jesus de Genésio, me contou uma passagem amarga e cruel de sua vida. Este meu amigo tem um conjunto de opiniões pré concebida quanto a raça e quanto ao sexo. Sexo para ele só pode ter dois, masculino e o feminino. O invertido para ele não existe, e ele o abomina. A mulher, quando muito, deverá estar pilotando, mais ou menos, um fogão e nada mais. Quando na ativa, tinha ele por tarefa dar treinamento de todas as manobras em terra aos aspirantes da aeronáutica. Era a primeira fase antes de assumir os treinamentos de vôo nos jatos; O aspirante tinha que ser muito macho e persistente para agüentar e passar pelas agruras da primeira fase com o machista e discriminador meu amigo. Ele pensava e agia assim, e desta forma eram poucos os que sobreviviam. Para ele só os caras de saco roxo poderiam passar para a segunda parte. Um dia a terra se abriu e o inferno veio à tona quando ao responder a chamada uma voz fina, macia, musical se fez presente no meio daqueles truculentos machões da tropa. Ele parou a chamada, ficou em silêncio externo, mas na maior confusão internamente. O batalhão, que conhecia bem suas opiniões, permaneceu sepulcralmente em silêncio aguardando o pior. Meu amigo petrificado grosseiramente perguntou: - Quem é você e o que está fazendo aqui? - Sou médica e aspirante em treinamento para vôo de caça. Aquilo foi o fim da picada para o troglodita. Engoliu à seco a informação e deu início a operação de treinamento, com muito mais rigor com o intuito de eliminar, o mais rapidamente, aquela coisa perniciosa que se fazia presente ali. - Um dia eu como o cu desta filha de uma puta e coloco-a no lugar que ela merece. Ela não vai agüentar o repuxo! pensava raivosamente meu amigo. Dos dez aspirantes em treinamento apenas dois conseguiram sobreviver ao duro calvário imposto pelo Major. Para sua infelicidade a médica conseguiu êxito em primeiro lugar. Imitando Hitler, se negou a entregar o certificado e cumprimentar a aluna. O cu da médica estava intacto. O tempo passou. Meu amigo agora um pouco mais flexível com relação às suas opiniões está aposentado e gozando das benesses do plano médico da aeronáutica. Um dia, o urubu da sorte pousou no ombro dele. Precisou fazer uns exames médicos preocupado com umas dores que sentia entre os grãos do saco e o final do tubo digestivo. Marcou consulta e se apresentou na horta marcada. O enfermeiro preparou-o, deitando-o de costa, só de roupão - aquela vestimenta branca, ordinária, que cobre a frente mas deixa a bunda livre para o vento e para quem quiser ver. Pediu que ficasse com as pernas dobradas e abertas para facilitar o serviço - estava tipo mulher grávida preparando-se para o parto. - A médica já vem, completou o enfermeiro. - A médica? perguntou espantado o Major. Quis levantar, mas foi impedido pelo enfermeiro que disse: - Calma, a médica é um capitão e é muito competente. - Uma mulher vai botar o dedo no meu cu! pensou desesperado o meu amigo. Os minutos que se seguiram foram séculos intermináveis de mil péssimos pensamentos para ele, e eis que surge na porta, colocando uma luva e metendo o dedo na vaselina, vestida de branco uma esbelta e sorridente mulher. - Bom dia professor! cumprimentou-o fazendo solene continência e se dirigindo direto ao orifício final do tubo digestivo do Major. Era sua odiosa aspirante que agora estaria fazendo nele o que ele gostaria de estar fazendo nela. Suava frio, e parecia que o dedo da maldita ex aspirante, ao se aproximar, criava uma dimensão enorme. Ele via no sorriso dela, um sarcasmo parecendo evidente que estava ali, por vingança, e a fim de fazer um estrago. O dedo da médica era maior que ela. Meu amigo jura que ouviu o maldito dedo escrachadamente dizendo ao se aproximar do orifício: - Se prepare machão que agora vou te cutucar. O dedo ria loucamente, e o meu amigo, de pernas abertas, sofria tristemente. A coisa enfim aconteceu. Ou pela dor, ou pela raiva, ou pela vergonhosa humilhação ou até pelo medo incontido, o esfíncter interno não ficou devidamente relaxado fazendo com que a penetração inicial do dedo no orifício anal causasse uma dor insuportável. Mijou na mão da médica e fez questão de desmaiou para não presenciar mais nada. por: Mario dos Santos Lima

SER MÉDICO

É, no despertar da aurora da vida quando tudo ainda é folguedo na vocação incontida, olhar esta meta, e sem medo se debruçar em mil livros para pesquisar e estudar a ciência que os males dos homens vem dar alívio ou curar... É ser sempre uma criança simples, amável e sincera quando no trato dos outros... é ser gente... se compadecer com o sofrimento e agonia do ser que na vida só espera uma mão amiga... forte... na hora extrema de falecer... É ver, por entre suas mãos fugir a vida, tranqüilo, porém estar pelo dever cumprido... é ouvir...ser apoio sempre amigo e jamais ser mercenário... bem receber o rico e o mendigo... É não desistir até o derradeiro suspiro de alguém; É tentar até o impossível... é chorar, abraçar... é ser gente... É suplantar os defeitos... ser anjo de amor sempre presente.

sábado, 6 de outubro de 2012

EXCESSO DE FUNDO QUEBRA O BANCO

A saúde de uma instituição financeira depende basicamente das entradas das aplicações financeiras que são formadas e mantidas por ávidos, finórios e esperançosos aplicadores. Quanto maior for o fundo de investimento mais sólido é o caminho do retorno esperado por estes gananciosos aplicadores. Que eu saiba um banco jamais quebraria por excesso de fundo. A aula transcorria normalmente com minhas informações e discussões a respeito de fundo de investimento, sobre governança do sistema financeiro, sobre a taxa de alavancagem entre os passivos e os ativos da instituição financeira, sobre o risco sistêmico e etc. Pela minha atitude de poucos amigos e de aspecto sisudo a classe com quase setenta alunos permanecia calada na maior abstração. Ou era por não estar entendendo nada ou por medo de se manifestar. Na realidade eu acho que os alunos eram chauvinistas com tendências narcisistas com minomanias extravagantes. Mesmo que fosse uma falácia a minha exposição eles estavam ali quietos e dominados. O ruído do movimento das asas de uma mosca era perfeitamente audível. Até a brisa que atrevida invadia a classe pelas janelas abertas sussurrando coisas incompreensíveis era notada. Nada mais perturbava ou transgredia a minha ordem de silêncio absoluto enquanto decorria o tema. Até a sutil vibração da mudança de pensamento podia-se ouvir. O calor que se fazia era cruel e se podia ouvir o ruído das gotas de suor que caiam das faces angustiadas como se este ruído fosse um crepitar de lenha ardendo. Uma a uma rolavam pelo rosto indo se chocar até ao chão e se evaporando célere no ar. Os alunos hipnotizados não se permitiam nem o piscar. Se fosse pintado ou congelado este momento por certo a cena seria uma pintura quase macabra. Eu me sentia o próprio deus no domínio total da sua criatura. Tudo estava dominado naquele ambiente. Alguém, lá no fundo da sala detentor de um esqueleto que carregava nada mais que cento e cinqüenta quilos de ossos, carne, músculos, tripas e merdas suava a cântaros aguardando em pânico por certo o final da aula. Tanto mexeu de um lado para outro que a pobre cadeira não agüentando simplesmente abriu as pernas fazendo o animal se esborrachar no chão. O baque daquele enorme corpo fez estremecer toda a sala. Este impacto quebrou a inviolabilidade do silêncio imposto. Tudo ficou congelado no tempo e no espaço. As gotas de suor deixaram de cair petrificadas de medo. As moscas se escafederam e a brisa medrosa saiu sorrateira da sala para não levar a bronca inevitável. Em cada aluno havia a expressão angustiada do depois. De bocas abertas estavam todos de olhos fixos em mim. O aluno, de peso avantajado em pânico, todo esborrachado ao chão olhava para mim suplicando clemência. A cadeira toda arrebentada destoando do clima ria feliz da situação. Todos esperavam de mim uma atitude cruel pelo sacrilégio cometido. Agüentei até onde pude para não rir da situação burlesca. Quebrei então o gelo retirando a máscara de bárbaro algoz desenhando então no canto de minha boca um leve, furtivo e delicioso sorriso. Os alunos então perceberam. Descontraíram-se. O cenário se descongelou e num ruidoso e alegre burburinho incontinente se viraram para trás olhando a vítima estendida ao chão em meio à coitada da cadeira quebrada. Voltaram-se então para mim e provocantes disseram: - Mas o professor não afirmou agora a pouco que excesso de fundo não quebra um banco? Tive que admitir a brincadeira e quebrando o protocolo rir com eles. por: Mario dos Santos Lima

O PREÇO DE UMA AULA

Fazendo a analogia do aluno com a matéria prima, eu diria que se no processo de fabricação o produto estiver sendo prejudicado, na sua qualidade, na sua funcionalidade pela porcaria da matéria prima, é dever do gestor eliminar este material para que o produto se apresente a contento lá na ponta de venda. Ou por outro lado, se fizer a analogia do aluno com cliente num processo de compra e venda, e o pretenso cliente não estiver comprando, apenas enxovalhando o produto, este maldito cliente deverá ser descartado. Eu diria que isto nem considero como meu ponto de vista uma vez que é simplesmente a lógica do negócio. A maça podre deve ser eliminada. Bem, eu sou pelo valor intrínseco das coisas, pela ética e pelos bons costumes. Para mim, o aluno deveria vir de boa formação e conduta de berço. Com estes valores sedimentados em casa, ao freqüentar uma escola com o objetivo explícito de conviver, buscar, pela experiência dos mestres, os saberes e práticas para sua vida, estaria apto e preparado adequadamente para servir a sociedade. É isto que acontece? Diria, com raras exceções. O professor é desrespeitado, é enxovalhado, e sempre é considerado um velho que deveria estar aposentado. É ameaçado e muitas vezes vítima de violência. O professor além de não ser valorizado pela grande maioria dos alunos, ele também recebe pouco apoio da instituição em que leciona. É um bucha de canhão. É a bolinha de pingue pongue no vai e vem da vontade das duas partes – alunos e instituição. O professor se amedronta? Acovarda-se? Não, segue convencido, firme, alinhado no seu ideal quase utópico de transformar uma massa sem princípios, sem ética, sem civilidade numa obra prima. Consegue? Por alguns exemplos soltos por aí, acredita-se que sim. Sempre vão existir mestres corajosos e idealistas. Muitas vezes a educação que faltou em casa é necessária corrigi-la em sala de aula. Não que isso seja uma regra, mas muitas vezes a matéria prima pode ser recuperada no processo de transformação. Foi numa atitude corajosa de enfrentamento que um professor – digo aqui o pecado, mas não conto nem quem foi o pecador e nem quem foi o padre. – resolveu, de forma brilhante, dar uma lição num fedelho, mal educado, mau caráter que assistia a sua aula. O fedelho chegou tarde, não se ligou nas explicações e de repente, para perturbar a aula resolveu questionar: - Poderia explicar tudo de novo? Não estou entendendo nada! O professor até aqui calmamente, tendo acompanhado a displicência do criançola mal educada, resolveu interpor dizendo: - A dúvida é a incerteza ou desconfiança em relação a uma idéia, um fato, uma ação, de uma asserção ou de uma decisão, assim, você poderia dizer para mim e para a sala do que estou realmente tratando e onde reina a sua dúvida? O desconexado, de dedo em riste querendo se sair bem da enrascada perante a sala vomita: - Seu babaca, eu pago pelas suas aulas e por isto você tem que explicar as coisas quantas vezes eu quiser! A sala gelou. Ouvia-se o bater das asas das moscas. O professor, sem se alterar, quase como desconhecendo os impropérios ditos pelo mal criado, abriu sua bolsa, sacou uma máquina de calcular e por alguns minutos seus dedos passearam pelo teclado numa dança nervosa e feroz. - Muito bem! Diz o professor já num tom mais de tenor cantando duas oitavas acima. - Você comprava a minha aula! A partir de agora não vendo mais para você. Tirou do bolso duas moedas, dirigiu-se até a carteira do mal criado fedelho, e bateu-as no tampo da mesa e vociferou, apontando para a porta - Está aqui o que você pagou, pode se retirar! A sala em suspense assistiu a cena. O topetudo saiu dizendo: - Você não sabe com quem está se metendo! O desgraçado estava saindo sem as moedas, o professor pegou-as e entregou-as respondendo: - Sei sim com que estou falando! Estou falando com um tremendo mal criado, um desajustado que não teve ou não soube aproveitar a educação que seus pais lhe deram, um egoísta desajustado! O aluno saiu batendo a porta e a sala aplaudiu o professor. O desfecho foi melhor. O desgovernado, pensando ser o senhor da situação tentou entrar em sala de aula algumas vezes, mas recebia, implacavelmente já na porta os centavos. Contou uma história qualquer em casa e os pais vieram furibundos a fim de tirar satisfação com o mestre. Reunião tensa na direção. O monstro, seus pais e colegas de sala. Tornando-se mais plácido, o professor olhando para os pais sentenciou: - Eu aceito o retorno de seu filho desde que ele vá agora, frente à sala de aula, e se retrate. Os pais concordaram, inclusive acompanhando o desgovernado até a sala de aula. A atitude do calhorda serviu para os demais colegas reconhecer a grandiosidade do professor nos míseros centavos que pagam a ele. Nota para reflexão: Visto que a maioria das Instituições pensa muito mais no faturamento que em adicionar conhecimentos, modelar a massa, será que algum professor teria coragem e peito para agir desta forma? E se agir? Qual seria o final da novela? Por: Mário dos Santos Lima