sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A MALA SUSPEITA

Meu amigo Dario era uma figura impoluta e completamente irreverente. No início da década de sessenta o namoro era sagrado no manto do respeito e dignidade. Pegar na mão da gatinha, logo nos primeiros encontros era coisa para os taradões e aproveitadores. Se você revelasse a ele o início de um namoro ele imediatamente perguntava se você mostrou a ela o bilau e passou a mão nas cochas dela. Se você ficasse indignado com isto, ele imediatamente te chamaria de viado, frouxo. Ser pederasta era, naquela época, alguma coisa além de pecaminoso perante as severas leis da igreja. Era uma coisa ainda não tão abertamente aceita, discutida e comum como hoje é. Veado era um vocábulo pesadamente ofensivo, completamente discriminatório. Na realidade ser alcunhado de veado, naquele tempo era uma ofensa pior do que chamar a mãe de puta, e ele, todo machão, com um tratamento preconceituoso, fazia questão de xingar e chamar de veado. Pegava pesado mesmo e seu xingamento era raivosamente truculento. Às vezes em grupo, passeando com ele pelas ruas quando menos se esperava a clássica pergunta vinha de alguém: “Cadê o Dario?” Era como se ele tivesse sido sugado, abduzido. E lá mais atrás estava o filho de uma puta discutindo calorosamente com alguma menina, tentando agarrá-la e assim, muitas vezes, levando tapas no pé da orelha, esculachos e outras coisas mais. Voltávamos correndo para conferir a cena e ajudá-lo. - O que aconteceu agora? Era a pergunta freqüente que fazíamos a ele. - Esta cadela olhou para mim e eu vim conversar com ela. A menina injuriada se desvencilhava dele, e saia numa xingação danada. Era um taradão de primeira linha. Se a menina ao cruzar por ele despejasse um olhar curioso, ou furtivo, ele entendia isto como se ela estivesse pretendendo um relacionamento horizontal com ele. E ele ia firme para o ataque, e é claro, sempre recebia a contra ofensiva. Ele estava fazendo um estágio de um mês em Tremembé, e com poucas habilidades, principalmente no quesito de lavar roupas, foi deixando-as acumular para ao retornar a São Mateus, levá-las para o serviço em casa. E o dia do retorno chegou! A mala desorganizadamente arrumada teve que ter a ajuda de pelo menos oito pessoas que a pisoteando oferecesse condições de fechá-la. Ficou estufada, pesada e uma verdadeira armadilha ao abrir. Uma catapulta fedorenta engatilhada. Era véspera de carnaval e a rodoviária de São Paulo estava uma verdadeira loucura. Era um vozeio e um tumulto do caralho. A mala do Dario tinha que ser conduzida por duas ou mais pessoas e isto despertou a atenção de muita gente e principalmente da polícia. Um policial acompanhado de uma policial chegou como quem não quer nada e foi perguntando ao Dario: - “O que você carrega de tão pesado nesta mala?”. O Dário, sem muita cerimônia estendendo seu braço por cima dos ombros da linda policial foi logo dizendo: - “Você é linda demais para lavar minhas roupas sujas, mas se insistir eu posso levar você para casa”. A policial não quis acreditar no que estava ouvindo, e pela abordagem truculenta que estava sofrendo, sacou da arma e fez o Dario se recompor, e outro policial já foi gritando: - “Abra a mala seu vagabundo!” Nesta hora o turbilhão da rodoviária parou para apreciar a cena. Era um teatro melodramático e de graça. O povo nos envolveu e ficaram nós, a polícia e a mala no meio de um círculo humano. A arena estava montada. - Abra a mala seu vadio! Insistiu o guarda - Eu não vou abrir, e tão pouco não vou deixar que alguém abra, completou o Dario. Neste momento o batalhão de choque chegou para dar apoio logístico à operação, e o povo em coro gritava: - Abra, abra esta mala, queremos ver a droga que tem! - Circulando!, circulando! Gritava a polícia, mas o povo ávido por novidade permanecia petrificado no lugar. Como a policial, para mostrar seu poder, deu uma olhada fulminante no Dario ele, incorrigível como sempre tentou abraçá-la, mas foi impedido pelos policiais que o imobilizaram. - Já que você não quer abrir nos vamos abri-la na marra, petulantemente urrou um policial, e se prostrou por cima da miserável mala, que contrita assistia a tudo isto jogada naquele chão imundo da rodoviária. - Se você abrir esta merda vai ter que fechar depois! Alertou aos berros o Dario preso entre musculosos braços de ordinários policiais. - Abra, abra a multidão em corro gritava e... A mala foi desvirginada pelo nojento guarda naquele imundo piso da rodoviária. A mala se contorceu, gemeu e finalmente explodiu. Puff e lá vão pelos ares e por todas as partes sujas e fedorentas as cuecas, meias, camisas e calças. O mau cheiro tomou conta do ambiente e o povo se arredou um pouco com as narinas tampadas. Os guardas entreolharam-se e quiseram sair de fininho fugindo do mico que estavam pagando, mas o Dario aos berros gritou: - Nenhum filho de uma puta vai sair daqui sem antes fechar a minha mala. E o povo, que gosta de ver um fervo foi logo gritando: - Fecha, fecha esta mala polícia de merda. Os policiais e o batalhão de choque, frente a esta pressão não tiveram outro jeito. Fizeram a operação nojenta de catar cuecas e meias sujas pelo chão nojento da rodoviária. Tiveram que levar a mala para ser compactada numa prensa hidráulica para o fechamento final. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

UM MENDIGO FELIZ NUMA NOITE TRISTE NATAL

Lá estava ele, como sempre esteve em todos os santos dias, acomodado sobre papelões velhos, ensebados e encardidos, sob a marquise daquele velho prédio. Não entrava nele porque as portas foram atijoladas. Comia restos que colhia aqui e acolá ou que alguma alma caridosa lhe viesse servir. Cabelos brancos, sujos e em desalinho que caiam mal cortados pelo rosto sulcado e pelos ombros arquejados, davam-lhe um aspecto mais envelhecido do que era. Acreditava em Deus, e em suas preces almejava um dia passar um natal em família. Queria ser adotado por apenas um dia, e sentir o prazer da magia da noite de natal. Não conheceu o pai, e sua mãe? bem, era uma prostituta, morreu quando ele era ainda pequeno. Viveu sempre na rua . Fisicamente era feio, mas, creio eu, que por dentro era uma boa alma. Nas noites que antecedia o natal, o piscar das luzes das árvores e dos enfeites das casas exercia nele uma magia inexplicável. O que mais lhe tocava o coração era ver as crianças correndo felizes para o abraço de seus pais. Ele nunca fora abraçado por ninguém. Ficava ali sentado, matutando e se vendo feliz no meio daquelas famílias. Se lhe dessem a oportunidade para escolher um presente ele pediria apenas um abraço. Este era o presente que mais desejava na vida. Na noite em que antecedeu o Natal, já quase adormecendo, após suas suplicantes preces, a esse Deus que ele nunca viu, mas que acreditava existir em algum lugar, percebeu que alguém vinha caminhando em sua direção. Envolto em luz, e com sorriso maravilhoso, foi se achegando. Colocou-se de joelho, para ficar da mesma altura, e colocando sua mão no ombro dele disse: - Vim lhe dar um abraço e desejar uma boa noite, e um feliz natal. Fez o mendigo se levantar e num amplexo divinal permaneceram por longo tempo entrelaçados. E a divinal criatura completou: - Agora você deve ir a cada casa e dizer que você é o próprio Jesus; Peça para entrar e ficar um pouco na festa que celebram para você. O mendigo não conseguiu entender e respondeu - Mas como eu, um pobre mortal, insignificante criatura possa ser Jesus? - Apenas faça o que digo. A criatura foi se afastando aos poucos e desapareceu mais adiante. Entre admirado e incrédulo resolveu fazer o que a divinal criatura lhe tinha pedido. Nunca tinha feito isto antes, abandonar o seu próprio território, mas criou coragem e foi. Bateu palmas na primeira casa e um casal atendeu, com a porta entre aberta perguntando. - O que você quer? Não temos nada! - Sou Jesus e vim para a minha festa! - Some daqui! vamos chamar a polícia. Foram muitas as casas e muitas foram as ameaças. Na última tentativa, da casa surgiram duas crianças que vieram inocentes, contentes perguntar o que ele queria. - Eu sou Jesus e vim para a festa que estão celebrando pelo meu nascimento. As crianças felizes correram para casa, e puxando o mendigo pelo braço gritavam. - Mamãe, papai Jesus está aqui. Ele existe e veio festejar conosco o seu aniversário. Na porta de entrada estavam o pai e a mãe que recolheram de imediato as crianças, e dando uma descompostura, puseram o mendigo prá fora do portão. - Mas pai, ele é Jesus e veio para a festa dele. - Deixem de besteira, ele é um vagabundo que vive na rua. - Mas ele é Jesus, ele disse para nós, insistiram as crianças. - Vocês acham que Jesus é tão feio e mendigo? e bateu a porta com violência. Ele ainda conseguiu escutar estas últimas palavras. Ficou triste e foi se embora. Já era madrugada, e ainda em muitas casas a festa continuava. Num caminhar desolado foi chegando ao seu canto que num canto deste recanto era o canto maravilhoso que tinha. Comeu alguma migalha que lhe restava e repartiu este pouco com o cachorro vadio que se achegou. Adormeceu feliz lembrando do único abraço que tinha recebido em toda sua vida. Sentia ainda o calor dele. No dia seguinte a Prefeitura recolhia um corpo inerte, mas que trazia estampando no rosto um belo sorriso. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

domingo, 9 de dezembro de 2012

UM AVIÃO ATEU OU NACIONALISTA

por: Mario dos Santos Lima Eu só preciso confirmar a data, mas isto não vai invalidar o que vou narrar aqui. Vou registrar, então, que foi em 1918. A Europa vivia numa situação econômica extremamente adversa, imersa na pobreza com grandes conflitos, intolerância religiosa e sob a pressão do nacionalismo irracional, aforante, é claro, a guerra. A pequena cidade de Maria Augusta, próspero porto do Rio Iguaçu, crescia harmoniosa sob a batuta dos imigrantes, principalmente poloneses que vinham fugidos das agruras de seus países de origem. Vinham em busca do paraíso para seus familiares. Vinham despidos de tudo, trazendo apenas seus conhecimentos, suas práticas e uma vontade ímpar, próprio dos primeiros empreendedores. Eram, na sua grande maioria, católicos, e extremamente religiosos respeitando as tradições, costumes e ritos do catolicismo. A sexta feira santa era o ponto alto da servidão a Deus. O povo vestia a melhor fatiota, enfeitava suas carroças, seus cavalos e vinham com a família para a cerimônia e procissão do senhor morto. Naquele tempo as formas de diversão não eram tão perigosas quanto as que existem hoje. Rachas e outros esportes radicais ainda não faziam parte do cotidiano da simplicidade da cidade, mas existia na época um sujeito, que por certo forçou a coisa, lá no além com os espíritos, e acabou nascendo fora do tempo dele. Nasceu muito antes, e aprontou e se deu mal. Ele gostava de brincar e se divertir com a forma simples e natural de viver do povo. Foi piloto de guerra, mas um acidente fez com que ele recebesse baixa e voltasse puto da vida para casa. Para ele a guerra era um esporte para lá de radical. O filho de uma puta, que Deus o tenha agora em um bom lugar, não chegou a viver para ver o final da primeira grande guerra mundial. Sexta feira da paixão. A cidade se aquietou e se vestiu de luto pela morte de Cristo. Nas Igrejas os santos se cobriam de roxo e o povo, falando baixinho, contritos se aglomeravam ao lado da Igreja para a procissão. E a procissão saiu da porta da capela para percorrer algumas ruas e retornar a Igreja. O piloto era ateu e detestava esta quietude. Detestava a cidade vestida de luto. Resolveu dar um corretivo no povo. Arquitetou um diabólico plano e enquanto o revia se divertia com antecedência. Emprestou um teco-teco de um amigo que conheceu na guerra e deixou-o preparado para a cerimônia da sexta feira santa. Faria vôos rasantes sobre a procissão para ver os cavalos em disparadas e o povo em polvorosa. A cidade toda compareceu. Com velas nas mãos, muitos com lágrimas nos olhos, contritos acompanhavam a procissão. De repente, quebrando aquele sacro-santo momento, ouviu-se o ronco de um motor de avião. A concentração já não era a mesma e os fieis, com seus semblantes carregados, demonstravam contrariados com aquilo. O avião fez um rasante quase decepando as cabeças dos cavalos e das pessoas. O povo se dispersou mudando o tema da oração - rogavam pragas e amaldiçoavam o piloto. O padre arregaçou a batina e bateu em retirada. Os cavalos assustados, em disparada, relinchando desesperados levavam atrás deles as carroças vazias. Abandonaram o esquife no meio da rua, e Jesus não teve outro jeito, saiu correndo também. A balburdia estava implantada. O avião fazia os rasantes e dava para ouvir as gargalhadas do energúmeno e encapetado piloto. Muita gente se jogou ao chão imaginando que os terríveis nacionalistas húngaros estivessem ali para dizimá-los. Foram momentos cruéis - ronco do avião sem o silencioso, relinchos, gritos e barulhos das carroças se quebrando. De repente um estrondo. Seguiu-se um silêncio sepulcral. Lá na esquina, em meio a uma intensa poeira, um avião beijando o chão era consumido por labaredas enormes que subiam altas lambendo o céu. Cristo voltou, deitou no esquife, e o povo retornou à cerimônia.