MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
sábado, 5 de janeiro de 2013
O FIM DO MUNDO EXISTIU?
E agora?
Se eu escrevi esta crônica depois do fim do mundo, e você está lendo-a, é sinal evidente que o dito cujo não teve o seu final como prometido. Que bom, não acham?
Mas muita gente não gostou nada deste engodo. Fez dívida, deu calote, xingou o vizinho, o chefe, a mulher e a sogra; Saiu pelado mostrando as genitálias; Desacatou autoridades; Cagou nas soleiras das portas; Tocou campainhas e saiu correndo; E agora José? você se fodeu!
Cientistas do mundo todo estão reunidos com o papa e com os espíritas querendo uma explicação louvável dos mortos astecas e de Deus por que o mundo não terminou.
Reunião e mais reunião nos centros espíritas e no vaticano. Deus está de saco cheio pela incompetência do povo, e as almas astecas putas da vida com a perturbação.
Bem, ninguém descobriu o que realmente aconteceu, mas eu estive de corpo e alma, ou melhor, de alma na hora em que aconteceu a coisa, e vou apresentar os fatos.
O mundo realmente acabou neste dia.
Deus deu uma cochiladinha, tipo pescadinha, e o universo acabou ficando a deriva; Os planetas e sistemas se chocaram uns com os outros e tudo terminou numa enorme fila de gente e bichos esperando para entrar no céu.
Tudo estava tranqüilo com aquela fila enorme, com mais de 6 bilhões de almas, aguardando pacientemente para o chekin. Os velhos, as grávidas e crianças tinham o privilégio e estavam na frente. No céu ainda não há nada informatizado e São Pedro, já bastante velho e cansadão, recebia cada um, e pacientemente ia anotando algumas coisas num livro enorme e apontava para a bendita alma o lugar em que ela deveria ficar.
Bem, tudo ia indo muito bem, mas os brasileiros, esquecendo que do outro lado não existe tempo, começaram a gritar palavras de ordem. Começaram a distribuir panfletos informando que as pessoas não poderiam ficar mais que trinta minutos em fila de espera. Que isto, e que aquilo.
Os argentinos se somaram aos brasileiros com os panelaços.
E Deus, na sua imensa bondade, ainda descansava a sono solto.
Os políticos brasileiros aproveitando a situação armaram um palanque e começaram a prometer um monte de coisas. Os mais espertos, os do mensalão, foram se chegando e chamaram São Pedro a um lado e enfiaram muito dinheiro na cueca santificada dele. São Pedro não entendeu muito a coisa, mas quando viu que o capeta ria as tontas, a seu lado, desconfiou que a coisa cheirava sacanagem, e deu umas bengaladas nos mensalistas.
A confusão estava implantada.
O Genoino queria o poder a qualquer custo, e se atracou em luta corporal com São Pedro. O Barbosa tentou ajudar, mas o capeta se intrometeu e o Genuíno assumiu o posto de porteiro do céu.
Aí teve início a verdadeira sacanagem, começou a entrar no céu as empreiteiras, os corruptos, os mensaleiros, os políticos e traficantes.
E Deus acordou. Acordou, esfregou os olhos, coçou a barba, e ficou transtornado com o cheiro forte de maconha e com a putaria implantada no céu. Deu um berro que estremeceu o universo:
- Quem foi o filho da puta que fez isto?
Aquela multidão toda apontou para o Genoino.
Lula respondeu que não sabia de nada e que não viu nada.
Deus então, mais acordado, tomou conhecimento dos fatos, da confusão reinante, e resolveu cancelar o final do mundo. Estabeleceu as ordens do universo e sentenciou.
- Seus desordeiros, cafajestes, vocês são tão incompetentes que nem para o final do mundo estão preparados. Todos devem voltar para suas casas! Vocês não se lembrarão de nada do que aconteceu aqui, e olhando, com um olhar faiscante para o povo brasileiro sentenciou:
- Vocês são os piores, não sabem votar, seus incompetentes, irresponsáveis, desonestos, filhos de uma puta, e por isto, como castigo vão provar do próprio veneno e completou:
- O Genoino vai participar do governo de vocês como deputado.
Houve estrondos e relâmpagos e cá estou eu escrevendo esta crônica, e o Genuíno assumindo uma cadeira de Deputado Federal.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
A MALA SUSPEITA
Meu amigo Dario era uma figura impoluta e completamente irreverente. No início da década de sessenta o namoro era sagrado no manto do respeito e dignidade. Pegar na mão da gatinha, logo nos primeiros encontros era coisa para os taradões e aproveitadores. Se você revelasse a ele o início de um namoro ele imediatamente perguntava se você mostrou a ela o bilau e passou a mão nas cochas dela. Se você ficasse indignado com isto, ele imediatamente te chamaria de viado, frouxo. Ser pederasta era, naquela época, alguma coisa além de pecaminoso perante as severas leis da igreja. Era uma coisa ainda não tão abertamente aceita, discutida e comum como hoje é. Veado era um vocábulo pesadamente ofensivo, completamente discriminatório. Na realidade ser alcunhado de veado, naquele tempo era uma ofensa pior do que chamar a mãe de puta, e ele, todo machão, com um tratamento preconceituoso, fazia questão de xingar e chamar de veado. Pegava pesado mesmo e seu xingamento era raivosamente truculento.
Às vezes em grupo, passeando com ele pelas ruas quando menos se esperava a clássica pergunta vinha de alguém: “Cadê o Dario?” Era como se ele tivesse sido sugado, abduzido. E lá mais atrás estava o filho de uma puta discutindo calorosamente com alguma menina, tentando agarrá-la e assim, muitas vezes, levando tapas no pé da orelha, esculachos e outras coisas mais. Voltávamos correndo para conferir a cena e ajudá-lo.
- O que aconteceu agora? Era a pergunta freqüente que fazíamos a ele.
- Esta cadela olhou para mim e eu vim conversar com ela.
A menina injuriada se desvencilhava dele, e saia numa xingação danada.
Era um taradão de primeira linha. Se a menina ao cruzar por ele despejasse um olhar curioso, ou furtivo, ele entendia isto como se ela estivesse pretendendo um relacionamento horizontal com ele. E ele ia firme para o ataque, e é claro, sempre recebia a contra ofensiva.
Ele estava fazendo um estágio de um mês em Tremembé, e com poucas habilidades, principalmente no quesito de lavar roupas, foi deixando-as acumular para ao retornar a São Mateus, levá-las para o serviço em casa.
E o dia do retorno chegou!
A mala desorganizadamente arrumada teve que ter a ajuda de pelo menos oito pessoas que a pisoteando oferecesse condições de fechá-la. Ficou estufada, pesada e uma verdadeira armadilha ao abrir. Uma catapulta fedorenta engatilhada.
Era véspera de carnaval e a rodoviária de São Paulo estava uma verdadeira loucura. Era um vozeio e um tumulto do caralho. A mala do Dario tinha que ser conduzida por duas ou mais pessoas e isto despertou a atenção de muita gente e principalmente da polícia. Um policial acompanhado de uma policial chegou como quem não quer nada e foi perguntando ao Dario: - “O que você carrega de tão pesado nesta mala?”.
O Dário, sem muita cerimônia estendendo seu braço por cima dos ombros da linda policial foi logo dizendo: - “Você é linda demais para lavar minhas roupas sujas, mas se insistir eu posso levar você para casa”.
A policial não quis acreditar no que estava ouvindo, e pela abordagem truculenta que estava sofrendo, sacou da arma e fez o Dario se recompor, e outro policial já foi gritando: - “Abra a mala seu vagabundo!” Nesta hora o turbilhão da rodoviária parou para apreciar a cena. Era um teatro melodramático e de graça. O povo nos envolveu e ficaram nós, a polícia e a mala no meio de um círculo humano. A arena estava montada.
- Abra a mala seu vadio! Insistiu o guarda
- Eu não vou abrir, e tão pouco não vou deixar que alguém abra, completou o Dario.
Neste momento o batalhão de choque chegou para dar apoio logístico à operação, e o povo em coro gritava:
- Abra, abra esta mala, queremos ver a droga que tem!
- Circulando!, circulando! Gritava a polícia, mas o povo ávido por novidade permanecia petrificado no lugar.
Como a policial, para mostrar seu poder, deu uma olhada fulminante no Dario ele, incorrigível como sempre tentou abraçá-la, mas foi impedido pelos policiais que o imobilizaram.
- Já que você não quer abrir nos vamos abri-la na marra, petulantemente urrou um policial, e se prostrou por cima da miserável mala, que contrita assistia a tudo isto jogada naquele chão imundo da rodoviária.
- Se você abrir esta merda vai ter que fechar depois! Alertou aos berros o Dario preso entre musculosos braços de ordinários policiais.
- Abra, abra a multidão em corro gritava e...
A mala foi desvirginada pelo nojento guarda naquele imundo piso da rodoviária. A mala se contorceu, gemeu e finalmente explodiu. Puff e lá vão pelos ares e por todas as partes sujas e fedorentas as cuecas, meias, camisas e calças. O mau cheiro tomou conta do ambiente e o povo se arredou um pouco com as narinas tampadas. Os guardas entreolharam-se e quiseram sair de fininho fugindo do mico que estavam pagando, mas o Dario aos berros gritou:
- Nenhum filho de uma puta vai sair daqui sem antes fechar a minha mala.
E o povo, que gosta de ver um fervo foi logo gritando:
- Fecha, fecha esta mala polícia de merda.
Os policiais e o batalhão de choque, frente a esta pressão não tiveram outro jeito. Fizeram a operação nojenta de catar cuecas e meias sujas pelo chão nojento da rodoviária. Tiveram que levar a mala para ser compactada numa prensa hidráulica para o fechamento final.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
UM MENDIGO FELIZ NUMA NOITE TRISTE NATAL
Lá estava ele, como sempre esteve em todos os santos dias, acomodado sobre papelões velhos, ensebados e encardidos, sob a marquise daquele velho prédio. Não entrava nele porque as portas foram atijoladas.
Comia restos que colhia aqui e acolá ou que alguma alma caridosa lhe viesse servir. Cabelos brancos, sujos e em desalinho que caiam mal cortados pelo rosto sulcado e pelos ombros arquejados, davam-lhe um aspecto mais envelhecido do que era.
Acreditava em Deus, e em suas preces almejava um dia passar um natal em família. Queria ser adotado por apenas um dia, e sentir o prazer da magia da noite de natal.
Não conheceu o pai, e sua mãe? bem, era uma prostituta, morreu quando ele era ainda pequeno. Viveu sempre na rua . Fisicamente era feio, mas, creio eu, que por dentro era uma boa alma.
Nas noites que antecedia o natal, o piscar das luzes das árvores e dos enfeites das casas exercia nele uma magia inexplicável. O que mais lhe tocava o coração era ver as crianças correndo felizes para o abraço de seus pais. Ele nunca fora abraçado por ninguém.
Ficava ali sentado, matutando e se vendo feliz no meio daquelas famílias.
Se lhe dessem a oportunidade para escolher um presente ele pediria apenas um abraço. Este era o presente que mais desejava na vida.
Na noite em que antecedeu o Natal, já quase adormecendo, após suas suplicantes preces, a esse Deus que ele nunca viu, mas que acreditava existir em algum lugar, percebeu que alguém vinha caminhando em sua direção.
Envolto em luz, e com sorriso maravilhoso, foi se achegando. Colocou-se de joelho, para ficar da mesma altura, e colocando sua mão no ombro dele disse:
- Vim lhe dar um abraço e desejar uma boa noite, e um feliz natal.
Fez o mendigo se levantar e num amplexo divinal permaneceram por longo tempo entrelaçados.
E a divinal criatura completou:
- Agora você deve ir a cada casa e dizer que você é o próprio Jesus; Peça para entrar e ficar um pouco na festa que celebram para você.
O mendigo não conseguiu entender e respondeu
- Mas como eu, um pobre mortal, insignificante criatura possa ser Jesus?
- Apenas faça o que digo.
A criatura foi se afastando aos poucos e desapareceu mais adiante.
Entre admirado e incrédulo resolveu fazer o que a divinal criatura lhe tinha pedido.
Nunca tinha feito isto antes, abandonar o seu próprio território, mas criou coragem e foi.
Bateu palmas na primeira casa e um casal atendeu, com a porta entre aberta perguntando.
- O que você quer? Não temos nada!
- Sou Jesus e vim para a minha festa!
- Some daqui! vamos chamar a polícia.
Foram muitas as casas e muitas foram as ameaças.
Na última tentativa, da casa surgiram duas crianças que vieram inocentes, contentes perguntar o que ele queria.
- Eu sou Jesus e vim para a festa que estão celebrando pelo meu nascimento.
As crianças felizes correram para casa, e puxando o mendigo pelo braço gritavam.
- Mamãe, papai Jesus está aqui. Ele existe e veio festejar conosco o seu aniversário.
Na porta de entrada estavam o pai e a mãe que recolheram de imediato as crianças, e dando uma descompostura, puseram o mendigo prá fora do portão.
- Mas pai, ele é Jesus e veio para a festa dele.
- Deixem de besteira, ele é um vagabundo que vive na rua.
- Mas ele é Jesus, ele disse para nós, insistiram as crianças.
- Vocês acham que Jesus é tão feio e mendigo? e bateu a porta com violência.
Ele ainda conseguiu escutar estas últimas palavras.
Ficou triste e foi se embora.
Já era madrugada, e ainda em muitas casas a festa continuava.
Num caminhar desolado foi chegando ao seu canto que num canto deste recanto era o canto maravilhoso que tinha.
Comeu alguma migalha que lhe restava e repartiu este pouco com o cachorro vadio que se achegou.
Adormeceu feliz lembrando do único abraço que tinha recebido em toda sua vida. Sentia ainda o calor dele.
No dia seguinte a Prefeitura recolhia um corpo inerte, mas que trazia estampando no rosto um belo sorriso.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
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