MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
sábado, 19 de janeiro de 2013
A VISÃO DO INFERNO
Eu abri a porta e por pouco não fui engolido pelos espíritos angustiados do local. O bafo quente, cheirando a podre, e gemidos tantos, era a visão do inferno que vi lá.
A sala, a frente, era o próprio inferno materializado.
Segundo a filosofia indiana do baixo Tibet, e eu acredito piamente nela, tudo que existe, por este mundão de Deus, tem espírito. Os bichos, florestas, os minerais, rios, o ar, todos tem uma movimentação molecular que os mantêm vivos e em forma. Uns necessitam de outros para a sobrevivência no estado natural solto na natureza. Mas quando aprisionados necessitam exclusivamente do bicho homem. E o homem é um bicho irracional quando no trato com a natureza. O pássaro na gaiola, a flor no vaso, a pedra que enfeita a parede, a água presa na tina são exemplos de elementos fora de seu habitat natural.
Reza a mesma filosofia que quando aprisionamos qualquer elemento da natureza, a tristeza infinda que se apossa dele é indescritível. É como se arrancasse abruptamente um filho pequeno dos braços da mãe. A mãe morre inconsolável e a criança morre de saudade. É como o lamento da flor à fonte na poesia de Vicente Carvalho.
O pássaro que se prende, a flor que se arranca, a pedra que se tira, a água que se leva é uma iniqüidade que se comete com a natureza.
A visão que tive ao abrir a porta foi a própria iniqüidade.
A um canto, um vaso com a planta pau d'água ressequida, que já tinha entregue o espírito à natureza, estava ladeada pela rosa de pedra, minicactos e bromélias, que mortas de sede choravam sem lágrimas a morte da companheira.
O murmúrio, quase sumido das violetas e antúrios implorando água, cortou meu coração.
Os lírios da paz perderam suas flores, que jaziam secas a seus pés. Eles estavam inconsoláveis, murchos se debruçando amarelos na borda dos vasos.
Tropecei nos ramos secos da trepadeira jibóia e fui ao chão, quase batendo a cabeça no vaso da begônia. A Begônia quase morta, sussurrou em meu ouvido.
- Água por misericórdia - quero água!
Quase todas as flores, em coro, murmuravam aflitas :
- Ai como era boa a nossa vida lá na natureza! Leve-nos de volta para lá! As coisas que aqui acontecem não acontecem jamais lá! Leve-nos, leve-nos rápido para lá!
Peguei o regador.
Aos poucos, fui molhando cada uma delas com um pouco de água, e as que já sem vida estavam reguei para desencargo de consciência.
A vida, aos poucos foi retornando, mas o clamor continuava.
- Leve-nos, leve-nos daqui! As plantas mais restabelecidas, grudando em minhas pernas, em meus braços, gritavam aflitas.
Aquele lamurio cortou meu coração.
- Leve-nos, leve-nos por caridade daqui.
Parei, olhei e duas lágrimas vadias teimaram e sair de meus olhos.
Quase voltei para pegá-las, mas covardemente virei as costas, e fechei a porta sem me importar com elas.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
sábado, 5 de janeiro de 2013
O FIM DO MUNDO EXISTIU?
E agora?
Se eu escrevi esta crônica depois do fim do mundo, e você está lendo-a, é sinal evidente que o dito cujo não teve o seu final como prometido. Que bom, não acham?
Mas muita gente não gostou nada deste engodo. Fez dívida, deu calote, xingou o vizinho, o chefe, a mulher e a sogra; Saiu pelado mostrando as genitálias; Desacatou autoridades; Cagou nas soleiras das portas; Tocou campainhas e saiu correndo; E agora José? você se fodeu!
Cientistas do mundo todo estão reunidos com o papa e com os espíritas querendo uma explicação louvável dos mortos astecas e de Deus por que o mundo não terminou.
Reunião e mais reunião nos centros espíritas e no vaticano. Deus está de saco cheio pela incompetência do povo, e as almas astecas putas da vida com a perturbação.
Bem, ninguém descobriu o que realmente aconteceu, mas eu estive de corpo e alma, ou melhor, de alma na hora em que aconteceu a coisa, e vou apresentar os fatos.
O mundo realmente acabou neste dia.
Deus deu uma cochiladinha, tipo pescadinha, e o universo acabou ficando a deriva; Os planetas e sistemas se chocaram uns com os outros e tudo terminou numa enorme fila de gente e bichos esperando para entrar no céu.
Tudo estava tranqüilo com aquela fila enorme, com mais de 6 bilhões de almas, aguardando pacientemente para o chekin. Os velhos, as grávidas e crianças tinham o privilégio e estavam na frente. No céu ainda não há nada informatizado e São Pedro, já bastante velho e cansadão, recebia cada um, e pacientemente ia anotando algumas coisas num livro enorme e apontava para a bendita alma o lugar em que ela deveria ficar.
Bem, tudo ia indo muito bem, mas os brasileiros, esquecendo que do outro lado não existe tempo, começaram a gritar palavras de ordem. Começaram a distribuir panfletos informando que as pessoas não poderiam ficar mais que trinta minutos em fila de espera. Que isto, e que aquilo.
Os argentinos se somaram aos brasileiros com os panelaços.
E Deus, na sua imensa bondade, ainda descansava a sono solto.
Os políticos brasileiros aproveitando a situação armaram um palanque e começaram a prometer um monte de coisas. Os mais espertos, os do mensalão, foram se chegando e chamaram São Pedro a um lado e enfiaram muito dinheiro na cueca santificada dele. São Pedro não entendeu muito a coisa, mas quando viu que o capeta ria as tontas, a seu lado, desconfiou que a coisa cheirava sacanagem, e deu umas bengaladas nos mensalistas.
A confusão estava implantada.
O Genoino queria o poder a qualquer custo, e se atracou em luta corporal com São Pedro. O Barbosa tentou ajudar, mas o capeta se intrometeu e o Genuíno assumiu o posto de porteiro do céu.
Aí teve início a verdadeira sacanagem, começou a entrar no céu as empreiteiras, os corruptos, os mensaleiros, os políticos e traficantes.
E Deus acordou. Acordou, esfregou os olhos, coçou a barba, e ficou transtornado com o cheiro forte de maconha e com a putaria implantada no céu. Deu um berro que estremeceu o universo:
- Quem foi o filho da puta que fez isto?
Aquela multidão toda apontou para o Genoino.
Lula respondeu que não sabia de nada e que não viu nada.
Deus então, mais acordado, tomou conhecimento dos fatos, da confusão reinante, e resolveu cancelar o final do mundo. Estabeleceu as ordens do universo e sentenciou.
- Seus desordeiros, cafajestes, vocês são tão incompetentes que nem para o final do mundo estão preparados. Todos devem voltar para suas casas! Vocês não se lembrarão de nada do que aconteceu aqui, e olhando, com um olhar faiscante para o povo brasileiro sentenciou:
- Vocês são os piores, não sabem votar, seus incompetentes, irresponsáveis, desonestos, filhos de uma puta, e por isto, como castigo vão provar do próprio veneno e completou:
- O Genoino vai participar do governo de vocês como deputado.
Houve estrondos e relâmpagos e cá estou eu escrevendo esta crônica, e o Genuíno assumindo uma cadeira de Deputado Federal.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
A MALA SUSPEITA
Meu amigo Dario era uma figura impoluta e completamente irreverente. No início da década de sessenta o namoro era sagrado no manto do respeito e dignidade. Pegar na mão da gatinha, logo nos primeiros encontros era coisa para os taradões e aproveitadores. Se você revelasse a ele o início de um namoro ele imediatamente perguntava se você mostrou a ela o bilau e passou a mão nas cochas dela. Se você ficasse indignado com isto, ele imediatamente te chamaria de viado, frouxo. Ser pederasta era, naquela época, alguma coisa além de pecaminoso perante as severas leis da igreja. Era uma coisa ainda não tão abertamente aceita, discutida e comum como hoje é. Veado era um vocábulo pesadamente ofensivo, completamente discriminatório. Na realidade ser alcunhado de veado, naquele tempo era uma ofensa pior do que chamar a mãe de puta, e ele, todo machão, com um tratamento preconceituoso, fazia questão de xingar e chamar de veado. Pegava pesado mesmo e seu xingamento era raivosamente truculento.
Às vezes em grupo, passeando com ele pelas ruas quando menos se esperava a clássica pergunta vinha de alguém: “Cadê o Dario?” Era como se ele tivesse sido sugado, abduzido. E lá mais atrás estava o filho de uma puta discutindo calorosamente com alguma menina, tentando agarrá-la e assim, muitas vezes, levando tapas no pé da orelha, esculachos e outras coisas mais. Voltávamos correndo para conferir a cena e ajudá-lo.
- O que aconteceu agora? Era a pergunta freqüente que fazíamos a ele.
- Esta cadela olhou para mim e eu vim conversar com ela.
A menina injuriada se desvencilhava dele, e saia numa xingação danada.
Era um taradão de primeira linha. Se a menina ao cruzar por ele despejasse um olhar curioso, ou furtivo, ele entendia isto como se ela estivesse pretendendo um relacionamento horizontal com ele. E ele ia firme para o ataque, e é claro, sempre recebia a contra ofensiva.
Ele estava fazendo um estágio de um mês em Tremembé, e com poucas habilidades, principalmente no quesito de lavar roupas, foi deixando-as acumular para ao retornar a São Mateus, levá-las para o serviço em casa.
E o dia do retorno chegou!
A mala desorganizadamente arrumada teve que ter a ajuda de pelo menos oito pessoas que a pisoteando oferecesse condições de fechá-la. Ficou estufada, pesada e uma verdadeira armadilha ao abrir. Uma catapulta fedorenta engatilhada.
Era véspera de carnaval e a rodoviária de São Paulo estava uma verdadeira loucura. Era um vozeio e um tumulto do caralho. A mala do Dario tinha que ser conduzida por duas ou mais pessoas e isto despertou a atenção de muita gente e principalmente da polícia. Um policial acompanhado de uma policial chegou como quem não quer nada e foi perguntando ao Dario: - “O que você carrega de tão pesado nesta mala?”.
O Dário, sem muita cerimônia estendendo seu braço por cima dos ombros da linda policial foi logo dizendo: - “Você é linda demais para lavar minhas roupas sujas, mas se insistir eu posso levar você para casa”.
A policial não quis acreditar no que estava ouvindo, e pela abordagem truculenta que estava sofrendo, sacou da arma e fez o Dario se recompor, e outro policial já foi gritando: - “Abra a mala seu vagabundo!” Nesta hora o turbilhão da rodoviária parou para apreciar a cena. Era um teatro melodramático e de graça. O povo nos envolveu e ficaram nós, a polícia e a mala no meio de um círculo humano. A arena estava montada.
- Abra a mala seu vadio! Insistiu o guarda
- Eu não vou abrir, e tão pouco não vou deixar que alguém abra, completou o Dario.
Neste momento o batalhão de choque chegou para dar apoio logístico à operação, e o povo em coro gritava:
- Abra, abra esta mala, queremos ver a droga que tem!
- Circulando!, circulando! Gritava a polícia, mas o povo ávido por novidade permanecia petrificado no lugar.
Como a policial, para mostrar seu poder, deu uma olhada fulminante no Dario ele, incorrigível como sempre tentou abraçá-la, mas foi impedido pelos policiais que o imobilizaram.
- Já que você não quer abrir nos vamos abri-la na marra, petulantemente urrou um policial, e se prostrou por cima da miserável mala, que contrita assistia a tudo isto jogada naquele chão imundo da rodoviária.
- Se você abrir esta merda vai ter que fechar depois! Alertou aos berros o Dario preso entre musculosos braços de ordinários policiais.
- Abra, abra a multidão em corro gritava e...
A mala foi desvirginada pelo nojento guarda naquele imundo piso da rodoviária. A mala se contorceu, gemeu e finalmente explodiu. Puff e lá vão pelos ares e por todas as partes sujas e fedorentas as cuecas, meias, camisas e calças. O mau cheiro tomou conta do ambiente e o povo se arredou um pouco com as narinas tampadas. Os guardas entreolharam-se e quiseram sair de fininho fugindo do mico que estavam pagando, mas o Dario aos berros gritou:
- Nenhum filho de uma puta vai sair daqui sem antes fechar a minha mala.
E o povo, que gosta de ver um fervo foi logo gritando:
- Fecha, fecha esta mala polícia de merda.
Os policiais e o batalhão de choque, frente a esta pressão não tiveram outro jeito. Fizeram a operação nojenta de catar cuecas e meias sujas pelo chão nojento da rodoviária. Tiveram que levar a mala para ser compactada numa prensa hidráulica para o fechamento final.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
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