quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

SORVETE NO CINEMA

"Quem faz o mal feito sempre dá com os burros n’água", minha mãe sempre me dizia. O tempo passou e tudo mudou! Hoje nos cinemas tudo é liberado; Come-se pipoca; toma-se suco; dá-se os amassos na menina, e se tiver um pouco mais isolado, lá nas últimas fileiras, por exemplo, pode até dar uma rapidinha, e tudo isto, e mais algumas coisas sem ser molestado por ninguém. Nos idos bons tempos de garoto que tive nada disto era permitido dentro da sala de espetáculo. A sala estava apenas disponível para assistir o filme em exibição. O maldito lanterninha mantinha-se sempre a postos para tirar o indivíduo que estivesse praticando qualquer coisa irregular. Até parecia que o desgraçado se multiplicava, pois sempre estava em todos os lugares. A mão da namorada era a coisa mais fácil de se acariciar e segurar, sem muito problema, mas se você quisesse dar uma passadela nas coxas ou no seio dela, isto exigia uma estratégia de ação para lá de perigosa, radical mesmo. Para este procedimento você precisaria estar com a mão boba fazendo a sacanagem, e na vigilância, tanto seus olhos como os ouvidos teriam que estar atentos no lanterninha. Um olho no gato e outro na lingüiça. Certa feita fui ao cine ORAS, com os amigos, assistir a um filme qualquer de faroeste, que por sinal acabei não assistindo. O cine ficava no andar de cima. Não havia elevador, mas tinha uma escadaria, que a gente tinha que vencer, até chegar a ele. Já na sala de projeção, na parte da frente do prédio, havia uma sacada para que o pessoal, antes do início da seção, pudesse conversar, e olhar o movimento da rua. Estávamos acomodados num bom lugar, aguardando o início da projeção quando o vendedor ambulante lá na rua grita: - Olha o sorvete! Sorvete gostoso! Quem vai comprar? O calor estava infernal, e com a tentação gritando lá na rua, baixou o espírito do desejo na turma. Queriam comprar sorvete, mas não queriam perder o lugar. Compra, não compra? O desejo foi maior e resolveu-se comprar, e com isto burlar as normas do cinema. Das tantas coisas que eram proibidas dentro do cinema o sorvete era um dos itens. Como fazer? O desejo e o calor juntos nos sufocavam. Alguém desceria e compraria escondido o sorvete e furtivamente traria para cima ao apagar das luzes. Perdi a aposta no palitinho, e fui o encarregado do sistema logístico de transportar sete sorvetes escada acima. Na saída peguei a senha para poder livremente retornar, e me dirigi incontinente ao carrinho de sorvetes. Como um dos amigos estava na sacada fiscalizando a operação, resolvi, a cada sorvete comprado, lançá-lo até suas mãos. O processo transcorreu-se maravilhosamente bem. Um a um os sorvetes voaram deliciosamente até as mãos dos meus amigos. O meu resolvi transportá-lo cuidadosamente. Era de creme de leite com coco queimado. Eu vestia uma camisa clara de manga curta e uma calça bege em linho. Coloquei o sorvete no bolso da calça e fui adentrando a casa de espetáculo quando vi meus amigos desesperados descendo a escadaria acompanhados do maldito lanterninha. Nesta hora senti meu saco encolhido de medo e congelado pelo sorvete . De imediato percebi que a coisa tinha dado errado. Pensando, ou melhor, sentindo o sorvete procurei me manter calmo, tentando subir a escadaria.. O monstro lanterninha me freia bruscamente a caminhada com sua nojenta mão no meu peito dizendo, quase aos berros, que viu o vôo dos sorvetes, e que os tinha confiscado, um por um, e lambendo os dedos completou: - Você e seus amigos estão expulsos do cinema, e não poderão, por um bom tempo, freqüentá-lo. Enquanto o lazarento ladrava vomitando impropérios por cima de mim, eu sentia uma coisa fria e visguenta escorrendo e lambendo perna abaixo depois de lambuzar o meu saco. Entrei em desespero, e queria que o maldito terminasse fulminado por um raio salvador. Nada disso aconteceu. Eu até acho que ele sabia, e que viu todo contente o sorvete de creme de leite derretendo no bolso de minha calça. O filho de uma puta só foi terminar seu vômito de palavras desconexas quinze longos minutos depois. Com minha calça toda lambuzada como se eu tivesse dado uma bela mijada ou uma ejaculada tamanho elefante, afastei-me rápido, envergonhado, esgueirando-me por entre as sombras das ruas para fugir dos olhares gozadores. Puteado enfiei a mão no bolso para tirar o palito que sobrou do sorvete. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

UM JACARÉ DE ESTIMAÇÃO

Os lindos e queridos jacarés são repteis nojentos que dominam, pela sua força e destreza, o meio ambiente em que habitam. Eles estão em rios e pântanos distantes da civilização. Estes animaizinhos, não muito simpáticos, são terríveis e cheios de manha, e não aceitam, como alimentação, mosquitos. Os mosquitos vivem na sua carcaça tranquilamente; Estes insetos alem de serem de difícil captura, tem pouca carne, e é por esta razão que os jacarés não os comem. O jacaré precisa comer o equivalente a 30% do seu peso. O que causa uma certa intranqüilidade, ao depararmos, frente a frente, com este animalzinho, é o tamanho de sua boca, e a quantidade de dentes que o filho de uma puta tem. Eu nunca cheguei perto para contar. Não sou louco e nem tão pouco sou dentista, mas calculo, pela bocarra, que está próximo dos 100 dentes. Quem leva vantagem com isto são os fabricantes de pasta dental e os dentistas. O jacaré tem duas serventias: Amedrontar o capitão gancho, e quando abatido, sua pele ser transformada em bolsa e calçado. Eu acho que jacaré não tem alma, pois nunca vi algum deles rezando ou pedindo alguma coisa para o deus jacaré. Bem, mas o que quero escrever mesmo é sobre um amigo e seu jacaré de estimação. Este meu amigo, pelo que me parece, não tinha qualquer conhecimento sobre este réptil. Um dia, caçando no Mato Grosso, capturou um filhote de jacaré que tinha acabado de sair do ovo. Levou umas dentadas do pequenino e um carreirão da mãe, que de boca aberta e muitas rabadas tentava salvar seu filhote. Foi em vão, pois o meu amigo trouxe, escondido numa caixa o pequenino réptil que gritava desesperado querendo sua mãe. Passou pela alfândega e veio depositar a pequena criança num tanque no fundo do quintal. Todos queriam ver o projeto de jacaré que prometeu para si não se domesticar. Vivia de bocarra aberta mostrando seus dentes. - Mas, este bicho vai crescer e será um perigo para os vizinhos! sempre tinha alguém que comentava preocupado. - A medida que ele crescer vai se acostumando e será meu animal de estimação! respondia convicto meu amigo. E o animal cresceu! cresceu assustadoramente tanto que já não cabia mais no aquário em que foi colocado anteriormente. Tinha mais de 3 metros e pesava mais de 300 quilos. Do lado, onde ele era mantido como prisioneiro, havia um galinheiro cheio de gordas penosas que o jacaré se apaixonou perdidamente. Todo o santo dia olhava para elas, lambia os beiços, e grunhia faminto dizendo. - Um dia desses eu como vocês. As galinhas estremeciam toda chegando ao orgasmo pensando no peso dele por cima delas. Uma certa noite meu amigo acordou com o cachorro latindo desesperado. Latiu, grunhiu e parou. Silêncio sepulcral. Preocupado, levantou e foi marcar presença no lado de fora para descobrir o que estava acontecendo. Chamou o cachorro e não teve resposta. Foi até o aquário e constatou que o mesmo estava violado e completamente vazio. Passou por ele um frio que subiu do fundo do seu intestino grosso, passando por toda sua espinha indo feder na sua nuca. Correu para dentro de casa, pegou a lanterna, seu revolve e foi em busca de uma resposta. A noite não estava totalmente escura. A lua se fazia presente e foi, com certeza testemunha brilhante do que aconteceu. Meu amigo encontrou um pedaço de perna estraçalhada, que pela pelagem deveria ser a de um homem, o dedo indicador da mão direita, penas das galináceas, e ali perto o rabo ensangüentado do seu cachorro. E a lua que viu tudo contou: - O ladrão era meio cego; pulou a cerca, espantou o cachorro e abriu a porta do jacaré pensando que era das galinhas. O jacaré com uma rabada e uma abocanhada engolir facilmente o abestalhado; Em seguida estraçalhou o cachorro, e foi para a sobremesa no galinheiro. As galinhas felizes fizeram fila para foda gigantesca, facilitando assim o trabalho do jacaré que tranquilamente abocanhou uma a uma. A lua terminou a narrativa, riu e se escondeu atrás de uma nuvem. Meu amigo ficou triste pelo cachorro, mas despreocupado com o perigo. -"O jacaré estava de bucho cheio, e por esta razão não oferecia qualquer risco", pensou meu amigo. - "Comeu um homem, mais de 10 galinhas e o cachorro; isto era mais que suficiente". Acionou a polícia, informando que o bicho era manso, e precisaria ser tratado com muito carinho para ser capturado. Mais de 50 homens, armados até os dentes, fizeram um arrastão completo, pelas redondezas, até ao amanhecer. - O jacaré deve ter se evaporado! alguém comentou. A lua presenciou tranquilamente tudo isto; Cansada e de saco cheio foi se deitar lá no horizonte, por detrás dos altos montes, deixando o sol em seu lugar. Quando tudo parecia sem solução ouve-se um grito de mulher. - Veio daquele casebre! apontou alguém para o local. Todos correram para lá. Abriram a porta e o que viram lá dentro? A mulher foi varrer a casa e ao passar a vassoura por debaixo da cama, trouxe de arrasto, abocanhando a ponta da vassoura, o enorme jacaré. A mulher brigava com o jacaré porque ele não queria largar a sua vassoura. O jacaré não largava a vassoura com medo de apanhar da mulher. De repente um estrondo, muita fumaça , e cheiro forte de pólvora. O bichinho recebeu como recompensa mais de 200 tiros dos policiais amedrontados. - Não precisava fazer isto com o tadinho! reclamou a mulher e completou: - Eu queria apenas que ele me devolvesse a vassoura. Com o dedo indicador achado a policia conseguiu identificar um famoso e contumaz ladrão de galinha. Abriram o jacaré para confirmar a coisa e encontraram as galinhas e o cachorro triturados, mas o ladrão ainda respirava vida. Enquanto o parto era realizado ele apavorado, sem uma perna e sem um dedo contou sofregamente: - Fui roubar as malditas galinhas e abri a porta errada. Mais tarde, meu amigo abriu um processo contra os policiais pela forma bruta, com requintes de maldade, como assassinaram o seu bichinho de estimação. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

sábado, 19 de janeiro de 2013

A VISÃO DO INFERNO

Eu abri a porta e por pouco não fui engolido pelos espíritos angustiados do local. O bafo quente, cheirando a podre, e gemidos tantos, era a visão do inferno que vi lá. A sala, a frente, era o próprio inferno materializado. Segundo a filosofia indiana do baixo Tibet, e eu acredito piamente nela, tudo que existe, por este mundão de Deus, tem espírito. Os bichos, florestas, os minerais, rios, o ar, todos tem uma movimentação molecular que os mantêm vivos e em forma. Uns necessitam de outros para a sobrevivência no estado natural solto na natureza. Mas quando aprisionados necessitam exclusivamente do bicho homem. E o homem é um bicho irracional quando no trato com a natureza. O pássaro na gaiola, a flor no vaso, a pedra que enfeita a parede, a água presa na tina são exemplos de elementos fora de seu habitat natural. Reza a mesma filosofia que quando aprisionamos qualquer elemento da natureza, a tristeza infinda que se apossa dele é indescritível. É como se arrancasse abruptamente um filho pequeno dos braços da mãe. A mãe morre inconsolável e a criança morre de saudade. É como o lamento da flor à fonte na poesia de Vicente Carvalho. O pássaro que se prende, a flor que se arranca, a pedra que se tira, a água que se leva é uma iniqüidade que se comete com a natureza. A visão que tive ao abrir a porta foi a própria iniqüidade. A um canto, um vaso com a planta pau d'água ressequida, que já tinha entregue o espírito à natureza, estava ladeada pela rosa de pedra, minicactos e bromélias, que mortas de sede choravam sem lágrimas a morte da companheira. O murmúrio, quase sumido das violetas e antúrios implorando água, cortou meu coração. Os lírios da paz perderam suas flores, que jaziam secas a seus pés. Eles estavam inconsoláveis, murchos se debruçando amarelos na borda dos vasos. Tropecei nos ramos secos da trepadeira jibóia e fui ao chão, quase batendo a cabeça no vaso da begônia. A Begônia quase morta, sussurrou em meu ouvido. - Água por misericórdia - quero água! Quase todas as flores, em coro, murmuravam aflitas : - Ai como era boa a nossa vida lá na natureza! Leve-nos de volta para lá! As coisas que aqui acontecem não acontecem jamais lá! Leve-nos, leve-nos rápido para lá! Peguei o regador. Aos poucos, fui molhando cada uma delas com um pouco de água, e as que já sem vida estavam reguei para desencargo de consciência. A vida, aos poucos foi retornando, mas o clamor continuava. - Leve-nos, leve-nos daqui! As plantas mais restabelecidas, grudando em minhas pernas, em meus braços, gritavam aflitas. Aquele lamurio cortou meu coração. - Leve-nos, leve-nos por caridade daqui. Parei, olhei e duas lágrimas vadias teimaram e sair de meus olhos. Quase voltei para pegá-las, mas covardemente virei as costas, e fechei a porta sem me importar com elas. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA