MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
domingo, 14 de abril de 2013
EXCOMUNGADO
Entende-se por excomunhão a punição religiosa aplicada, por quem de direito, para retirar ou suspender um crente descrente, baderneiro de uma comunidade religiosa. A palavra significa literalmente colocar alguém fora da comunhão. A excomunhão, no entender de algum praticante, vai retirar dos braços de um deus o infiel, e jogá-lo no garfo tridente e quente do capeta.
É um jogo político lá dos altos, entre o criador e seu adversário capeta, assessorado pelos praticantes aqui da terra.
Bem, quando garoto eu tinha muito medo da excomunhão, e por isso procurava ser aparentemente obediente, não praticando muitas traquinagens, pelo menos aquelas que ficavam muito na vista. Eu era um verdadeiro santo enquanto dormia, e meus pais tinham verdadeiro orgulho de meu exemplar comportamento debaixo das cobertas.
Por puro interesse, e não para compartilhar com esta divina política, gostava de ajudar o Frei Dionísio nas cerimônias religiosas e alguns afazeres na Igreja. Sempre rolava, depois das rezas, um bom vinho, - o vinho do padre, - acompanhado de uns quitutes que sua boa mãe velhinha fazia.
O Frei Dionísio, além de tempestuoso na lida com seus semelhantes, era extremamente cuidadoso e meticuloso no santo ofício. Toda a cerimônia tinha que seguir religiosamente os procedimentos que ele incansavelmente nos ensaiava, e não poderia ter qualquer deslize.
Qualquer erro era fatal. Nós, coroinhas, subíamos os degraus até ao altar para ajudar na cerimônia, mas sempre se cagando de medo.
- A brasa no turíbulo tem que estar ardendo! repetia sempre ele para os coroinhas.
- Tem que estar quase em labareda! reforçava ainda.
Balançar, de um lado para outro, o turíbulo, e de quando em quando soprar as brasas, era o suficiente para manter as brasas acesas, completamente abrasadas.
Eu curtia tudo aquilo.
O incenso queimando no turíbulo, e em rolos de fumo branco subindo em dança maluca até o teto da Igreja, a água benta aspergida no povo que com sinal da cruz a recebia, a reza em latim que só Deus e o Frei entendiam, tudo, apresentado conforme Jesus Cristo queria, me fascinava imensamente.
Paramentado de vermelho e branco, com aquela saia que se perdia lustrando meus sapatos, era coisa que não curtia muito, mas se era por ordem do altíssimo, que os guris ali no altar teriam que estar travestidos, eu ia para o sacrifício, e sempre, é claro, pensando que depois ia tomar o vinho e comer as guloseimas que a mãe do Frei fazia. Valia o sacrifício!
A cerimônia corria solta, e eu, ao pé do altar fazia o turíbulo voar de um lado ao outro vendo as brasas, quase em chamas crepitarem felizes. Até pareciam crianças que aos gritos perdiam o fôlego no vai e vem do balanço.
O frei fez o sinal para que eu subisse para que ele adicionasse o incenso.
Subi os degraus, medroso, olhando as brasas ainda crepitando.
Posicionei na boa altura o turíbulo e o Frei colocou duas medidas de incenso. Num preciosismo exagerado eu, desesperado, levanto um pouco mais o turíbulo, que ficou posicionado na altura do rosto do frei. Olho o braseiro e não satisfeito, tentando ativar mais ainda as brasas, solto um violento assoprão.
Era tudo o que o diabo queria.
A cinza, como um tufão, foi povoar o rosto do frei que as tontas, completamente cego gritou uns palavrões que estavam completamente por fora do que deveria ser proferido no cerimonial.
Jesus e os Anjos devem ter abandonado a Igreja.
Os fieis em polvorosa se escafederam da cerimônia.
Furibundo, completamente enlouquecido, soltando fogo e cinzas pelas ventas, ali mesmo o Frei Dionísio decretou minha excomunhão.
Com isso, lamentavelmente perdi meu vinho e as guloseimas da mãe do frei, e ainda consegui ver o filho de uma puta do capeta, dançando no altar rindo de mim.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
segunda-feira, 8 de abril de 2013
A PROPINA E OS GUARDAS
Eu sempre fui contra a maldita propina, por duas razões básicas. Considero não ser ético dar e receber suborno, e por outro lado, meu comportamento de pão-durismo impede que meu patrimônio seja dilapidado sem uma razão sublime ou diabólica.
A propina, segundo algum autor - entendido e doutor na coisa - é aquela prática de prometer, oferecer ou pagar a uma autoridade, governante, funcionário público ou profissional da iniciativa privada qualquer quantidade de dinheiro ou quaisquer outros favores (desde uma garrafa de bebida, jóias, propriedades ou até motéis, hotéis, garotas de programa, avião em viagem de férias) para que a pessoa em questão deixe de se portar eticamente com seus deveres profissionais.
Cansativa, mas a viagem transcorria calmamente.
Era próximo das quatro da madrugada quando eu, minha mulher com meu fuscão Fafá de Belém, ao cruzar a rodovia do café, em Ponta Grossa, com destino a Palmeiras, ouvimos dois silvos breves.
A madrugada era parcamente iluminada por uma lua vadia, bêbada, perdida no céu entre nuvens, que se apressava despencar no horizonte.
Como bom motorista que sou, parei de imediato, e na solidão da estrada divisei um carro e dois indivíduos fardados.
O silêncio era sepulcral, respeitado até pela coruja que dormia em algum pau de cerca por ali.
Esperei tranquilamente na certeza de que tudo estava em ordem; Esperei pacientemente até que um deles se aproximou com uma lanterna na mão. Meteu o facho de luz na minha cara, da de minha esposa e iluminou em seguida o banco traseiro.
- "Seus documentos e a do carro", interpelou o guarda.
Olhou os documentos, iluminou todo o carro na ânsia talvez por descobrir alguma coisa em desacordo. O carro era novo e a documentação religiosamente em dia.
- O senhor cometeu uma infração! disse o guarda em tom grave, quase cinematográfico.
Meio confuso, por segundos fiquei tentando imaginar que tipo de infração eu cometi. Parei imediatamente ao sinal do apito; Não ultrapassei em lugar proibido até porque era uma reta, e nenhuma alma viva motorizada estava transitando por aquele ermo lugar, e arrisquei a pergunta.
- Mas que tipo de infração eu realizei, seu guarda?
- O senhor cruzou a rodovia sem ter parado para olhar, colocando em risco a vida de sua família.
Naquele tempo era só eu e minha mulher, meus filhos ainda dormiam a sono solto, confortavelmente nos grãos do meu saco. Com tal informação, um tanto incrédulo e abismado, desci do carro para examinar a tal imprudência que cometi.
De fato tinha cruzado a rodovia do café, mas durante aqueles minutos entre cruzar, parar e atender os policiais ninguém passou por ali a não ser uma ave agourenta, em vôo raso piando estridentemente.
Fiquei indignado com aquilo, visto que havia uma visão ampla, aproximadamente cinqüenta metros, até chegar ao cruzamento da Rodovia do Café, e eu a cruzei em velocidade baixa, uma vez que doutro lado, o trecho de Ponta Grossa até Palmeiras não era asfaltada.
Tentei argumentar, mas em vão.
Chamou-me mais para perto dele como se quisesse segredar alguma coisa longe de minha esposa.
- A sua carteira está limpa, não é mesmo? querendo de mim uma confirmação, e continuou.
- Com esta multa você vai sujar sua carteira! Continuou ele, neste papo aranha, querendo sabe lá deus o que. Finalmente entendi o que o safado estava pretendendo. Estava querendo extorquir o meu sagrado dinheiro com a maldita propina.
Ele argumentou por A mais B a importância de se ter a carteira imaculada, e para isto ele queria uma compensação financeira para, com muito sacrifício, livrar a minha pura e virgem carteira da sujeira que a lei imporia. Minha carteira seria desvirginada, e ele, todo poderoso, com a poção milagrosa do dinheiro reverteria o processo.
- Nada mais justo, pensei eu.
Mas o amor ao meu patrimônio falou mais alto.
Peguei, com certa dor, o dinheiro no bolso de minha jaqueta, e a entreguei ao guarda. A nota de um cruzeiro estava enroladinha como de costume eu tinha em fazer para estas notas de pequeno valor.
- É a única coisa que tenho! disse, temeroso, a ele.
Ele a pegou, e sem olhar colocou rapidamente no bolso, entregou minha carteira ainda virgem, eu agradeci e saí rápido para o carro.
- E daí, o que aconteceu? perguntou minha esposa.
- Quatro horas da madrugada, estes caras ficam nestes lugares ermos querendo arrancar dinheiro dos motoristas otários, respondi a ela.
- E o que você fez? ansiosa questionou-me.
- Dei a ele um cruzeiro!
- E ele aceitou?
- Ele não viu, pegou rápido e enfiou no bolso devolvendo os documentos.
- Você está louco? aflita interpelou-me. E continuou.
- E quando ele pegar o dinheiro para repartir com o companheiro?
A pergunta dela fulminou-me como um raio e perdeu-se no espaço. Veio em mim uma louca vontade em virar um vaga-lume para presenciar a cena dos guardas tentando repartir o dinheiro arrecadado.
Quando liguei o carro, olhando para o retrovisor vi o sinalizador giroflex ligado e o carro da policia se aproximando.
Pisei fundo no acelerador e o fuscão respondeu a contento deixando uma nuvem de pó para trás.
A perseguição não demorou muito, uma vez que tinha cruzado a divisa dos municípios de Ponta Grossa e Palmeiras.
Mais adiante parei para trocar as cuecas e já de volta no carro pensei alto, num sorriso de satisfação:
- Fico imaginando a briga dos dois homens da lei querendo dividir a propina que dei.
- "Se eu pegar este cara eu mato"! com certeza está dizendo o que pegou a propina.
- "Ou você é um otário ou está escondendo de mim o que realmente recebeu"!, deve estar dizendo, possesso e desconfiado, o outro.
Mais de quarenta anos se passaram e ainda hoje tenho medo de cruzar com estes homens da lei. Se não se mataram naquele dia, devem ter arquitetando mil planos para me encontrar e esfolar o meu esqueleto.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
sábado, 23 de março de 2013
O SOBREVIVENTE
O sistema de saúde em nosso país merece a nota dez e com louvor. A modernidade e a qualidade da infra estrutura a serviço do povo é algo de fazer inveja a quem quer que seja. O respeito pelo ser humano e o pronto atendimento é algo inenarrável. Não se registra nesta galáxia algo semelhante.
Não existem bandidos ou ladrões nem nas ruas e nem no congresso. Os governantes pautam pela lisura e ética em suas gestões. Tudo funciona maravilhosamente a contento.
Bem, mas vamos a um caso que aconteceu com alguém em outra dimensão; não foi por aqui, foi num lugar muito atrasado, num lugar bem distante do nosso imenso, glorioso e harmonioso país. Talvez em Xiririca da Serra, não sei bem.
Eu apelidei este alguém, daquela distante terra, de sobrevivente.
Sobrevivente diz-se daquele que sobrevive, que subsiste heroicamente, ou que consegue viver apesar das condições desfavoráveis. Alguém que ao sair de um sangrento embate, ou então, ao ser resgatado de uma avalanche, ou então sair de uma UTI de um hospital público ouve, de seu semelhante admirado, dizer: - "Você está vivo, Isto é um verdadeiro milagre!"
Mas, vamos ao caso!
Era um lugar aparentemente calmo, numa tarde cinzenta, fria e chuvosa. Poucas carruagens circulavam pela redondeza.
O sobrevivente era uma pessoa muito importante na aldeia; Já tinha sido guarda, xerife e exercido o ofício de professor. Estava aposentado, mas tinha que trabalhar para completar seus parcos proventos.
A aldeia em que ele residia tinha passado por uma transformação desumana. Ela ficava geograficamente num ponto estratégico, e com isto, muitos gananciosos empreendedores resolveram investir ali.
Foi a desgraça aprovada, assinada e implantada.
Fábricas e mais fábricas foram erigidas numa poluição monumental. Com as instalações das fábricas criou-se a necessidade de mão de obra especializada, e por isto, com a aprovação do MEC (ministério do ensino capenga), montaram às pressas escolas nas coxas, e selecionaram professores pagando miseráveis salários. Os pais tinham que trabalhar, e por isso deixavam seus filhos à mercê. As crianças, pela lei burra, não podiam trabalhar até os 18 anos, e desta forma pululavam as ruas em busca do que fazer. Estavam assim sendo criados os filhos da rua. O berço com isso foi quebrado e os valores encaixotados. A aldeia de tranqüila e familiar, onde todos se conheciam, ficou agitada, nervosa e desordeira. De um ponto ao outro se criou distâncias, e com isso, uma empresa de carruagens resolveu implantar o sistema de transporte coletivo. Com tarifas abusivas, com excesso de lotação e também maltratando os animais que puxavam as carruagens. O médico da família foi deixado de lado e se criou o SRV (sistema rápido de vida). Os médicos nos hospitais tinham que trabalhar obedecendo um sistema de desempenho - quanto mais pessoas atendiam melhor avaliados seriam. O próprio sistema tinha integração com os governantes, com os ladrões, com a funerária e o cemitério.
Pois é, tudo parecia calmo pela redondeza, mas quando o ilustre sobrevivente estava saindo de sua casa a coisa aconteceu. Ao pegar a sua charrete, e sair do abrigo, foi violentamente espancado e abandonado, depois de levar dois tiros de um filho da rua. Esvaindo-se em sangue ele teve forças ainda para trotear sua charrete até o hospital mais próximo.
O médico ao vê-lo, reconhecendo nele a pessoa ilustre que era, e não querendo se envolver nessa morte, mandou-o, assim, de volta alegando que o cavalo não tinha autorização para fazer este tipo de transporte, e que o indecente animal também tinha desrespeitado o ambiente cagando no pátio do hospital.
O sobrevivente na charrete estava desmaiado, todo ensangüentado sem condições de clamar por socorro. O Cavalo, presenciando toda esta brutalidade, relinchou puteado, deu uns peidos e cagou novamente no pátio, saindo em busca de outro hospital. O hospital que ele foi ao encontro era famoso por abreviar a vida dos pacientes. Mas, infelizmente não tinha outro.
O cavalo em louca disparada pelas vielas, avançando lampiões com a luz vermelha, passando por lombadas, passando pelas proibidas canaletas exclusivas para a circulação das carruagens, chegou afinal ao temível hospital.
"Seria talvez a última esperança de salvar a vida do ilustra personagem", pensou o resfolegante animal.
O cavalo não respeitou nada, foi entrando no saguão, passou pelos corredores e foi parar a charrete na porta da UTI.
E o quadrúpede ruminou:
- Com certeza ele está fudido, mas meu papel de salvador eu fiz!
A médica recebeu o corpo ensangüentado do sobrevivente e disse a seus enfermeiros:
- Mais um trabalhinho para nós! quero que vocês, ainda hoje, descartem o presunto, preciso de espaço para pacientes particulares. Sem olhar o moribundo sobrevivente, mas com cara de poucos amigos disse ao cavalo:
- Se manda daqui, animal imprestável e cagão!
Ao ouvir isto, da pestilenta médica, o eqüino pateou de raiva.
Antes de sair, o cavalo fez questão de marcar o território deixando um belo monte de estrume no meio do corredor. Já lá fora, troteando um nervoso trotear começou a relinchar, a todo pulmão, o que viu e ouviu dentro do hospital.
Enquanto isso, lá dentro da UTI, o nosso sobrevivente respirava parcamente, e se perdia em delírio com a redução do oxigênio e droga ADES (autorização desumana de envenenamento do sangue), injetada nele para abreviar a sua vida.
Este seria o fim do sobrevivente? Pelo jeito nada poderia salvá-lo!
Mas, do lado de fora do matadouro...
O povo, ao ouvir os relinchos angustiantes do cavalo, se armou como pode para invadir o hospital.
O sistema de transporte virou um caos, parou completamente, porque todos os cavalos e éguas deixaram de puxar as carruagens, para ir ajudar seu amigo eqüino lá no hospital.
Os policiais armados de espadas tentavam controlar a tropa eqüina e o povo enlouquecido. O governante aproveitou a oportunidade, subiu num caixote e começou a vomitar promessas: "Eu prometo que vou melhorar a aldeia; vou combater o crime e a desordem; vou..." não chegou a completar a frase recebendo na boca um monte de estrume.
E lá na UTI o sobrevivente já começava dar sinais de que entregava os pontos; Começou a espichar as canelas freneticamente; A médica e enfermeiros, vendo isto, felizes esfregavam as mãos.
E o tic tac de um relógio comia pacientemente o tempo.
Será que o sobrevivente viverá?
E, finalmente o povo, em histeria total, ao som da orquestra de relinchos, invadiu o hospital arrancando da morte o sobrevivente.
Carregaram-no rapidamente até deitá-lo junto a um ancião que tinha sido médico de família.
Aplicou ventosas e deu de beber chá medicinal.
Os cavalos e as éguas, em trote gigantesco, ao adentrarem o hospital, soltaram montes de esterco por todos os cantos, e conduziram, com coices na bunda, a médica e as enfermeiras para o calabouço.
Aquele dia ficou como um marco histórico na aldeia, mas a merda do sistema de saúde, do transporte, do ensino e da governança continua na mesma.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
sábado, 16 de março de 2013
UMA JAPA ENDOIDECIDA
Segundo alguns autores a violência nada mais é do que o uso da força bruta, de forma intencional e de maneira excessiva, com a finalidade de ameaçar ou praticar algum ato que resulte em acidente, morte ou trauma psicológica.
Eu sou pela paz e pelo respeito principalmente às mulheres.
Como estamos cansados de ver, e as vezes até de participar, a violência se manifesta de diversas maneiras, seja em lutas armadas, no trânsito, torturas, em conflitos nas salas de aula entre professor e alunos, nos atos sexuais, etc. É um querendo comer o fundilho do outro.
Afirmam alguns autores que um dos principais fatores que gera a violência urbana é o crescimento acelerado e desordenado das cidades, mas eu acho que estes autores estão redondamente equivocados; Eu digo que a violência é uma conseqüência da má educação que estes filhos de uma puta desordeiros recebem em casa. Não se tem, como dantes, o berço.
Quando a confusão começa e é grande, muitas vezes, Deus se ausenta, por alguns momentos, e acaba levando consigo seus anjos para não se macularem na sujeirada e confusão que as pessoas são capazes de provocar. Fica lá no alto só na espreita.
Dias destes estou de carona com a comportada e paciente portuguesa, como sempre estou, e de repente sou testemunha e participante de uma sangrenta luta campal.
O sinal pediu que os carros parassem. Minha colega parou. Na faixa a esquerda parou outro carro pilotado nervosamente por uma japa. E sem qualquer motivo aparente ela abaixou o vidro e gritou:
- O meu carro é melhor que o seu, sua loira de merda.
Eu acho que ela, ou errou de alvo ou estava completamente alucinada por algum pó que tenha cheirado, ou então estava no processo cruel da tpm.
Minha amiga, nervosa e furibunda com os elogios recebidos, na angustiante tpm resolveu abaixar o nível para xingar a japa quando, entre as duas, aparece um entregador de folder. O coitado ouve solenemente da japa um "não quero nada, vá a merda seu inútil!".
E o sinal teimava em ficar vermelho só para presenciar a troca de palavras amáveis entre as duas.
O entregador de folder saiu de fininho para não apanhar.
E as duas ficaram, por fim, de vidros abaixados, frente a frente uma da outra.
Mas minha amiga saindo do sério aproveitou e disse:
- Sua malcriada, gorda, pérfida, maconheira e capeta encardida!
E o sinal, não se contendo de alegria, abriu passagem para as duas desordeiras.
Eu já me borrava todo presenciando aquela inevitável violência armada.
E os dois carros, alinhados, cantando pneus saíram num racha danado.
Um pouco mais a frente um enorme congestionamento fez com que os dois carros emparelhados reduzissem a velocidade. Nesse pit stop o nosso carro ficou em vantagem alguns metros na frente. Quis descer, mas não consegui.
E aí veio a confusão!
Minha amiga ligou o pisca e embicou o carro para passar na frente da japa. A maldita japa acelerou, bateu uma vez, bateu a segunda vez e quase entrou no banco traseiro do nosso carro. Estrago total.
Minha amiga desceu furibunda do carro, e o que a japa fez também. Os olhos orientais escondidos no risquinho das pálpebras se mostraram fuzilando pretos e arredondados. Seu cabelo negro e liso, como numa ventania de baixo para cima, arrepelou-se todo. Sua boca vomitava impropérios e seus braços ventilavam socos para todos os lados.
O povo parou para ver. Ah! o povo adora uma confusão.
Minha amiga por sua vez foi ao encontro da nojenta e impertinente japa, não para um abraço fraterno, mas para grudar sua garganta e ferrar uma mordida em sua orelha.
- Sua loira desgraçada, você não me pediu para passar! dizia enlouquecida a japa tentando livrar sua orelha dos dentes de minha amiga.
- Sua tarada barbeira, tenho que fazer por escrito o pedido? sua imbecil! rispidamente respondeu a minha amiga.
Os elogios corriam soltos, e os que mais foram ouvidos pela platéia presente variavam de sua biscate, cadela até ordinária prostituta.
E o povo em delírio gritava batendo palmas:
- Dá nela!
Eu, dentro do carro me perguntava:
- Dá o que e em quem?
O povo quer é ver sangue mesmo!
É claro que os anjos e santos, numa hora dessa, bateram em retirada, e rapidamente se escafederam.
E o tumulto estava formado. Quando percebi que minha amiga, já toda ensangüentada, numa dança frenética, quase fundida ao corpo da nipônica, viria fatalmente a óbito, resolvi agir e parti para o embate.
- Tenho que salvar minha amiga, pensei eu.
Tive que usar de violência para apartar as duas e principalmente para salvar minha amiga.
Foi apenas um tapa no ouvido e um soco no queixo e lá estava a japa adormecida. Tive um pouco de trabalho para desgrudar a minha amiga da oriental, tal era o amor brutal entre as duas.
Alguém, o filho de uma puta estraga prazer, não tendo o que fazer, chamou a polícia.
E a polícia chegou bem na hora em que eu estava em ação.
É claro que me fodi! Tudo e todos foram contra mim.
A Japa desmaiada e minha amiga ensangüentada foram encaminhadas ao hospital e eu à delegacia.
Fui preso, paguei fiança e respondo pelo crime Maria da Penha por ter batido em duas mulheres.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
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