terça-feira, 7 de maio de 2013

UM MONSTRO DO RABO PELUDO

Aquele sábado estava ensolarado, um tanto morno, sem qualquer vestígio de nuvens que manchasse a imensidão azul; era de fato um lindo sábado. Enquanto eu iniciava a limpeza geral e lavagem do carro a Alice, puxando o carrinho, seguia até a feira, que ficava ali na esquina próxima, para as compras de verduras. A feira era tradicional aos sábados, e ocupava a rua toda, com as barraquinhas, nas calçadas, de um lado e do outro da rua, formando um corredor entre elas. Nesse corredor fervilhava gente, que aos encontrões, no vai e vem com seu carrinhos e sacolas, comprava coisas aqui e acolá. Os carrinhos de feiras, naquela época eram todos iguais. O fabricante deles deveria ser um empreendedor monopolista; Com certeza um inventor de saco cheio com a mulher, sogra e filhas, que gostavam de ir a feira, e usavam o porta mala do carro dele, uma Ferrari, para transportar as verduras. A Alice, como tantos outros, tinha por hábito deixar o carrinho no corredor, e de um lado ao outro, passando por diversas barracas, buscava pelas verduras e legumes, pesquisando preço e qualidade. O nosso médico proibiu qualquer comida gordurosa e a nutricionista elaborou um cardápio com muitas verduras e legumes. A Alice fazia questão de seguir religiosamente o que estava prescrito. Eu ainda estava no processo do embelezamento do meu fusca 66 quando vejo surgir, do meio da multidão, a minha graciosa loira, puxando o carrinho de feira repleto de compra. Larguei o que fazia e fui ajudá-la. Deixei o carrinho no meio da cozinha e voltei para a minha atividade inicial. Tudo parecia normal, mas de repente ouço um grito de pavor vindo de dentro da casa. O grito ecoou pelas cercanias fazendo os vizinhos saírem à rua, e o povo da feira bater em retirada. De cabelos arrepiados e de expressão assustadora, sai de dentro de casa a Alice gritando: - Tem um monstro peludo lá dentro e ele está no carrinho de verdura! Ela estava desfigurada, em estado de choque. Corri para protegê-la sentando-a no banco do carro. Alguém trouxe água com açúcar para ela. Eu e uma dezena de vizinhos, armados de cacetes, facas e até revolver, fomos cuidadosamente adentrando a casa afim de liquidar o monstro. O pavor é o saco encolhido do medo. O medo cria imagens fantasiosas, e proporciona com isto um estado de alerta e de auto defesa. Desta forma ficamos à mercê da fantasia. Naquele momento, pelo meu anus não passava uma fina agulha de costura, e sentia o gosto de meus grãos, que se recolheram covardes quase na minha garganta. Ao abrir, vagarosamente, medrosamente, a porta da cozinha, o ranger dela fez arrepiar cada pêlo que cobria meu corpo. Eis que lá estava ele, intacto, do jeito que deixei, esperando para ser descarregado e sem vestígios do monstro. Entreolhamo-nos, e nos nossos olhos pairou silenciosa a pergunta: - E o monstro? onde está este famigerado monstro? Procuramos, com cautela, por todos os cantos; atrás das portas; dentro dos guarda-roupas; debaixo da cama, e nem vestígio do maldito. Alguém grita apavorado lá da cozinha: - Encontrei o monstro! o rabo peludo dele está aqui para fora do carrinho. Incontinente, estávamos na cozinha olhando para o carrinho. Enfiado por debaixo das verduras, deixando o rabo peludo vazado por entre as fendas do carrinho, lá estava o monstro. O que estava armado, não perdeu tempo, descarregou o revólver. Aguardamos alguns minutos, e como o monstro não se mexeu, supostamente estando morto, resolvemos, com cuidado, esvaziar o carrinho. Enquanto o processo era executado alguém comenta: - Quero ser convidado para sua feijoada! Olhando curioso para aquele monte de orelhas de porco, pés de porco e rabo peludo de porco que estavam dentro do carrinho, todo perfurado de balas, conclui: - A Alice, com certeza, na hora de vir embora, pegou trocado o carrinho! Já refeitos do medo, olhando uns para outros, caímos na gargalhada. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A MARCA NA FORQUILHA DO ESTILINGUE

O estilingue, na mão de um moleque de práticas perversas, é uma arma de grande poder de destruição da passarada e das vidraças, ou então, apenas um adereço no pescoço de um guri que quer apenas exibi-lo para se impor perante o grupo. Hoje o celular, em tudo, substituiu este artefato - é uma arma de auto-destruição. No meu tempo, um moleque traquinas era paramentado principalmente com um embornal carregado de bolotas de barro queimado e pedregulho, vestido apenas de calção rasgado, e no peito pelado a forquilha do estilingue pendurado no pescoço. Meu pai, preocupado com a educação dos filhos, naquele tempo sempre me dizia: - Meu filho, nós temos dois anjos,um mau e outro bom. Cabe a cada um ouvir e se responsabilizar pela escolha e pelo que se faz. Por conta disso, acabei materializando e posicionando, em cada ombro, os dois anjinhos. O bom, de um lado, todo de branco, de asas lindas e transparentes, um tanto chato e afeminado, vivia dando bons conselhos. No outro ombro, o considerado ruim, todo de vermelho, chifrudo, cornudo por certo, querendo ser amigo, vivia instigando maldades e afirmando que isto era muito divertido. Presenciei e tive que apartar muita contenda entre estas duas criaturinhas. Era de costume marcar no cabo da forquilha os passarinhos abatidos. A forquilha do meu estilingue permaneceu virgem por muito e muito tempo. As oportunidades para desvirginar o cabo não faltavam. O anjinho mau me cutucava sempre quando, lá num galho mais adiante, aparecia um voante: - Mate aquele com tua cetra! Você vai conseguir! O anjo bom gritava no outro ouvido: - Não faça isto com o coitadinho! Sempre o instinto mau vencia e lá estava eu, com a bolota de barro na malha mirando o empenado voante. Shelept, e la ia o projétil, cortando o ar, gananciosamente em busca do alvo. O anjo mau às gargalhadas, sentado no meu ombro, batia palmas observando a pedra, que voava em direção ao pássaro, enquanto isso, o anjo bom, tentava, por todos os meios, desviar a pelota da rota. E conseguia. Eu errava mais uma vez o alvo, e por incrível que pareça, me deixando feliz. Tinha moleque que o cabo da forquilha de seu estilingue era enorme só para conter os milhares de risquinhos, marcando a quantidade de pássaros abatidos. O do meu pobre estilingue era do tamanho normal, apenas ensebado. Se me perguntassem de quantas marcas o cabo de meu estilingue tinha, eu simplesmente respondia: - Este é novo! os outros estão em casa. Um dia a oportunidade surgiu. A tarde já ia dando mostras de cansada, e com isto, aos poucos, se vestia com seu manto escuro. Estava sentado, debaixo de uma enorme árvore, descansando da correria do dia antes de me recolher em casa. Um bando de andorinhas, em revoada aos milhares, procurava abrigo, e foi exatamente nesta árvore que desceram. Com o peso a árvore quase veio ao chão. Eu debaixo dela não acreditava no que via. Estava completamente municiado e tendo o apoio irrestrito do anjinho cornudo que aos pulos no meu ombro gritava: - Hoje você vai fazer muitos riscos no cabo de seu estilingue! O anjinho bom, apavorado, já estava lá em cima na árvore tentando espantar a passarada. A passarada, aos milhares, chilreava já quase dormitando. Carreguei minha arma e a estiquei apontando para o alto. Soltei a pelota. Nesse momento uma grande confusão lá em cima e a passarada iniciava o vôo em fuga, e eu pensei: - Maldito anjinho bom, espantou minhas vítimas! O anjinho cornudo ficou possesso e disse palavrões no meu ouvido. A pelota rasgou o espaço e atravessou a folhagem da árvore. Alguma coisa cruzou na frente da trajetória do projétil vindo despencar lá do alto aos meus pés. Era um gavião enorme, com um pássaro ainda pequeno entre suas garras, e meu anjinho preso no bico. Naquele momento entendi que a passarada entrou em revoada não por causa de meu anjinho e sim por causa da predadora. O gavião estava atordoado e a jovenzinha penada se debatia entre as garras da ave de rapina. Meu anjinho, meio tonto, meio depenado se recompunha aflito a um lado. Enquanto libertava a pequena criatura das garras afiadas da monstrenga, o anjinho mau gritava a todo pulmão: - Mate as duas! Mate! Mate que você poderá fazer dois risquinhos no cabo de sua cetra! Mate! Mate! Neste momento, toda apavorada pousa na minha mão uma passarinha que feliz, com lágrimas em seus olhinhos, choraminga para mim. - Muito obrigado, guri por salvar meu filho querido. Mãe e filho levantaram vôo, e junto com eles lá se foi o risquinho desejado. A pedrada não foi suficiente para quebrar nada no gavião, mas antes de levantar vôo, puto da vida me diz: - Moleque imprestável, você quase me matou, e para completar atrapalhou minha caçada, e agora não tenho comida para levar para meus filhotes. O anjo vermelho ria dando cambalhotas no meu ombro, dizendo: - Bem feito, ficou sem os risquinhos, seu babaca! Puto da vida, meti a mão com força no meu ombro matando de vez o anjinho pestilento. Cheiro de enxofre, e penas vermelhas por todos os lados, foi o que sobrou do maldito. O anjo bom, agora sem emprego, bateu asas e foi morar em outro ombro. Peguei a forquilha e feliz fiz a tão desejada marca pensando. - Na verdade não foi um pássaro que matei, mas o diabinho cornudo, e ele tinha asas , e é como se fosse um passarinho, e completei meu pensamento: - Ninguém vai precisar saber! E fui feliz para casa. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

sábado, 20 de abril de 2013

O PORNOGRÁFICO MENINO HOLANDÊS

A troça, ou chamada comumente de trote, é geralmente uma situação armada para produzir o que seu agressor arquiteta, e imagina que seja um resultado físico ou emocional humorístico, às custas da sua vítima. Hoje em dia isto é crime chamado de bulling. Mas vamos a história. A vítima foi um inocente menino holandês. Moleque no meu tempo de guri, para ser dos bons, tinha que ser arteiro. Aprender e falar besteiras; Pegar ovos dos ninhos das galinhas; Pegar, às escondidas, frutas no pomar de um velho ranzinza; Tocar, e sair correndo, as campainhas das portas das casas; Mostrar, mesmo imberbe, orgulhoso o número de pentelhos que brotavam cobrindo o saco; Andar descalço, sem camisa, de calção rústico e rasgado; Mapear todos os ninhos dos passarinhos; Jogar futebol na rua com bola construída de meia; Andar armado de estilingue no pescoço e bolsos cheios de pelotas; Subir em árvores; Fazer e empinar papagaio; Rodar pião; Jogar bolinha de gude; e quando tinha uma guria no grupo brincar com ela de paciente e médico, e se apaixonar doidamente por uma menina ranheta qualquer. Estávamos, no finalzinho da tarde, brincando de betes quando lá na esquina, meio arredio, medroso, um tanto acabrunhado, se aproximou um moleque de cabelos muito mais loiros que os loiros cabelos do mais loiro da turma. Olhamos desconfiados imaginando que fosse espião de algum outro bando. Corremos até ele, fazendo um círculo a sua volta, indagando: - O que você quer? Com os olhos assustados e lábios trêmulos, numa dicção arrastada, quase incompreensível e um tanto obscuro, tivemos dele, como resposta: - Mim holandês. O entendimento é um processo que se relaciona com a totalidade dos elementos que fazem parte da estrutura do relacionamento. Se você é desprovido da voz ou do ouvido, faz-se entender pelos gestos. Em pouco tempo o menino holandês estava perfeitamente adaptado e enturmado na nossa gangue. Algumas dificuldades de comunicação começaram a surgir, e decidimos que ele deveria aprender a nossa língua. Resolvemos que ele iria aprender tudo, mas seria do nosso jeito moleque travesso. E as aulas começaram quase que imediatamente. O pequeno holandês estava cada vez mais feliz, e nós nos divertindo muito com isto. A mão era pé; A cabeça era bunda; A língua era o pinto; Pão era bosta e assim na maior sacanagem avançávamos no projeto de alfabetização pornográfica para aquele pequeno e inocente gringo. De todas as partes do corpo, eliminamos o cu, pois para o holandês cu era vaca, e com isto não teria muita graça para nós. Paramos completamente, por dias seguidos, de praticar qualquer tipo de jogo ou brincadeira para se dedicar única e exclusivamente à missão hilária de ensinar a língua portuguesa equivocada ao nosso novo integrante. O aluno progredia muito bem ao som de nossas gargalhadas. A rua, palco de nossas brincadeiras, era um verdadeiro big brother. Das janelas semi abertas, olhos curiosos, maliciosos e contestadores vazavam espiando a nossa safadeza. Um dia a coisa deu em merda. O pai do menino levou-o a uma festa religiosa, e todo feliz pediu para que ele exibisse tudo o que tinha aprendido na escola do beco. - Mostra, meu filho o que você aprendeu com seus amigos! Falando em holandês suplicou ansioso o pai. E ele, lamentavelmente começou a falar. As moças, meninas e mulheres horrorizadas, escandalizadas, em debandada correria, como aves assustadas, escafederam-se da sala, e os homens, às gargalhadas, escutavam o pequeno holandês que pedia bosta para comer e no lugar de pedir água para beber, pediu para uma senhora de idade fazer sexo com ele. Os anjos fugiram, mas Deus ria às escondidas. As mulheres se evaporaram da sala, e os homens se divertiam instigando mais e mais o pequeno pornográfico. O pai, todo orgulhoso, querendo entender e participar daquilo tudo, pergunta a um poliglota o que estava acontecendo. O poliglota todo temeroso, medroso, meio constrangido, levou-o até um canto, e ao pé da orelha explicou, tin tin por tin tin, tudo o que estava acontecendo . A reação foi imediata. Pegando pelas mãos o escabreado pai do menino levou-o incontinente para casa. Dias mais tarde, abandonando a nobre missão de professores pornográficos, voltamos as nossas inocentes brincadeiras de rodar pião, jogar futebol com bola feito de meia, brincar de esconde esconde. Nunca mais vimos o menino, mas a lista de reclamações das malditas mulheres, que espiavam curiosas, se masturbando, pelas gretas das janelas, deixou em cada um de nós as marcas das varas de marmelo na bunda como paga pelas aulas ministradas. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

domingo, 14 de abril de 2013

EXCOMUNGADO

Entende-se por excomunhão a punição religiosa aplicada, por quem de direito, para retirar ou suspender um crente descrente, baderneiro de uma comunidade religiosa. A palavra significa literalmente colocar alguém fora da comunhão. A excomunhão, no entender de algum praticante, vai retirar dos braços de um deus o infiel, e jogá-lo no garfo tridente e quente do capeta. É um jogo político lá dos altos, entre o criador e seu adversário capeta, assessorado pelos praticantes aqui da terra. Bem, quando garoto eu tinha muito medo da excomunhão, e por isso procurava ser aparentemente obediente, não praticando muitas traquinagens, pelo menos aquelas que ficavam muito na vista. Eu era um verdadeiro santo enquanto dormia, e meus pais tinham verdadeiro orgulho de meu exemplar comportamento debaixo das cobertas. Por puro interesse, e não para compartilhar com esta divina política, gostava de ajudar o Frei Dionísio nas cerimônias religiosas e alguns afazeres na Igreja. Sempre rolava, depois das rezas, um bom vinho, - o vinho do padre, - acompanhado de uns quitutes que sua boa mãe velhinha fazia. O Frei Dionísio, além de tempestuoso na lida com seus semelhantes, era extremamente cuidadoso e meticuloso no santo ofício. Toda a cerimônia tinha que seguir religiosamente os procedimentos que ele incansavelmente nos ensaiava, e não poderia ter qualquer deslize. Qualquer erro era fatal. Nós, coroinhas, subíamos os degraus até ao altar para ajudar na cerimônia, mas sempre se cagando de medo. - A brasa no turíbulo tem que estar ardendo! repetia sempre ele para os coroinhas. - Tem que estar quase em labareda! reforçava ainda. Balançar, de um lado para outro, o turíbulo, e de quando em quando soprar as brasas, era o suficiente para manter as brasas acesas, completamente abrasadas. Eu curtia tudo aquilo. O incenso queimando no turíbulo, e em rolos de fumo branco subindo em dança maluca até o teto da Igreja, a água benta aspergida no povo que com sinal da cruz a recebia, a reza em latim que só Deus e o Frei entendiam, tudo, apresentado conforme Jesus Cristo queria, me fascinava imensamente. Paramentado de vermelho e branco, com aquela saia que se perdia lustrando meus sapatos, era coisa que não curtia muito, mas se era por ordem do altíssimo, que os guris ali no altar teriam que estar travestidos, eu ia para o sacrifício, e sempre, é claro, pensando que depois ia tomar o vinho e comer as guloseimas que a mãe do Frei fazia. Valia o sacrifício! A cerimônia corria solta, e eu, ao pé do altar fazia o turíbulo voar de um lado ao outro vendo as brasas, quase em chamas crepitarem felizes. Até pareciam crianças que aos gritos perdiam o fôlego no vai e vem do balanço. O frei fez o sinal para que eu subisse para que ele adicionasse o incenso. Subi os degraus, medroso, olhando as brasas ainda crepitando. Posicionei na boa altura o turíbulo e o Frei colocou duas medidas de incenso. Num preciosismo exagerado eu, desesperado, levanto um pouco mais o turíbulo, que ficou posicionado na altura do rosto do frei. Olho o braseiro e não satisfeito, tentando ativar mais ainda as brasas, solto um violento assoprão. Era tudo o que o diabo queria. A cinza, como um tufão, foi povoar o rosto do frei que as tontas, completamente cego gritou uns palavrões que estavam completamente por fora do que deveria ser proferido no cerimonial. Jesus e os Anjos devem ter abandonado a Igreja. Os fieis em polvorosa se escafederam da cerimônia. Furibundo, completamente enlouquecido, soltando fogo e cinzas pelas ventas, ali mesmo o Frei Dionísio decretou minha excomunhão. Com isso, lamentavelmente perdi meu vinho e as guloseimas da mãe do frei, e ainda consegui ver o filho de uma puta do capeta, dançando no altar rindo de mim. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA