quinta-feira, 25 de julho de 2013

A DELICIOSA COMIDA DE MINHA VÓ

A vontade ou o desejo é a capacidade através da qual tomamos posição frente ao que nos interessa custe o que custar. É a intenção forte levada para um determinado objetivo. É ver, por exemplo uma apetitosa guloseima e partir com tudo para conquistá-la ou saboreá-la. Minha vó Francisca era, dentre muitas qualidades que tinha, uma eximia mestre cuca. Suas deliciosas comidas, feitas com esmero e carinho, trazia não só os famintos de casa à mesa, mas também, atraídos pelo irresistível aroma desprendido das panelas de ferro da cozinha dela, os apreciadores da boa comida, que por ventura pelo caminho ao derredor estivessem passando. Ninguém resistia, muito menos o meu pai, moleque pequeno ainda. Meu vô Moises, lapiana da gema, além de cuidar dos afazeres do sítio, quase sempre, pelo seu caráter, pelo seu exemplo impecável de vida, era convidado a fazer parte do corpo de jurados. Encilhava seu cavalo e punha pé na estrada até a cidade. O sítio distava perto de légua e meia da Lapa. Muitas vezes o trabalho do conselho de sentença se prolongava noite a dentro, fazendo com que meu avô retornasse tarde para casa. No caminho ele já vinha, antecipadamente, se deliciando com a comida quentinha que minha avó preparava para esperá-lo. O trote cadenciado do animal ia paulatinamente engolindo a estrada diminuindo a distância. Nas noites de luar a lua, lá no alto acompanhava o trotear e abençoava o cavaleiro com sua luz. Nas noites escuras, ou chuvosas, apenas o piar das corujas saudava o destemido caminhante. Ao vencer a última curva da vereda, lá estava, pendurado na varanda iluminando todo pátio, o lampião a querosene. Pelo ruído do patear, e o resfolegar alto do animal, minha avó apreçava a janta arrumando a mesa, e ia ao pé da porta, no alpendre esperar sorrindo meu avô. Aos poucos o vulto escuro, lá na curva, se aproximava tomando luz e tomando forma. - Como foi o júri hoje? perguntava minha avó abraçando-o carinhosamente. - Fui escolhido novamente, respondia com um sorriso afetuoso. Tirava as botas, ajudado pela vó Francisca, lavava os pés e alargava as narinas para perceber melhor o aroma que vinha da panela e dizia. - Pelo cheiro temos aquele arroz gostoso que só você sabe preparar! não é mesmo? - E o Chiquinho? pergunta meu avô pelo meu pai. - Já está dormindo. Sempre que meu avô tardava em chegar, meu pai, fazia suas manhas, rolando e teimando daqui e acolá; Era posto a deitar pela minha avó, mas, lamentavelmente, o cheiro do tempero delicioso do arroz que ela preparava era o antídoto que vinha perturbar o sono dele. Esgueirado por detrás da porta do quarto, sondava pela fresta o momento da chegada de seu pai Moises. E a cena se repetia sempre como numa ensaio de teatro. O Chiquinho surgia da penumbra do quarto, com a cara lambuzada de sono, e os olhos morteiros de culpa pedindo clemência para sua mãe, puxava a cadeira e sentava incontinente ao lado de seu pai. - E você ainda não dormiu, moleque? Dizia sua mãe entre amorosa e brava. Sorria para meu avô como que dizendo: - Este menino não tem jeito não! Dando uma piscadela, meu avô passava a mão na cabeça de meu pai. No silêncio da noite no crepitar das brasas do fogão, e amparada pelo fumegar do lampião pendurado na parede, os dois sofregamente comiam aquele manjar preparado por mãos divinais. Minha vó, a um canto da mesa, feliz acompanhava a cena. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

sábado, 6 de julho de 2013

O LADRÃO EUNUCO

Ela dá uma cutucada e grita: - Seu filho de uma puta! Para quem não sabe, eunuco não é um viado. Eunuco é, segundo relatos antigos, o servo castrado para cuidar das mulheres do rei. O eunuco não tendo condições de ter qualquer tipo de relação sexual, não poderia, por esta razão, dar umas trepadinhas nas beldades do monarca. Quanto a isto o soberano ficava tranqüilo. É claro que o castrado recebia, de quando em quando, uns trocadinhos por fora, e facilitava os tarados necessitados do castelo. Bem, a história é outra. Minha filha Izabela freqüenta um curso noturno para os semi analfabetos na língua inglesa. Do local do curso até a casa dela tem uma boa distância, pessimamente iluminada, e freqüentada por malandros e vadios cachorros que se amoitam na calada da noite. Ela desenvolve ações sociais, e é portadora de um bom coração. Adotou, por segurança, um desses vadios quadrúpedes desta rua. O adotado, já sabia o horário do final da aula, deixava o coral de uivos e vinha para frente da escola esperar minha filha. Com um olhar de puta velha carente, de rabo abanando, ficava de olho na porta de saída. Ela saia e ele a acompanhava até a entrada de seu condomínio. Tudo isto ele fazia por conta de um pedaço de pão ou bolacha. E o inesperado aconteceu. Amanheceu um dia incrivelmente frio e chuvoso, e o maldito chuvisqueiro não parou hora alguma. A aula de inglês termina, a porta se abre, e lá estava ele, todo molhado, feliz abanando a cauda. Minha filha, debaixo do guarda chuva, arremessa um pedaço de pão, passa a mão na cabeça dele, e a largos passos se dirige a sua casa. A chuva caia pesada, e os dois rumo à casa. Aqui e ali, um ou outro pedinte, e malandros por debaixo das marquises. A cachorrada enciumada, não se sabe, ladrava enlouquecida para ela ou para seu amigo pulguento. Destemido o guapeca, olhava seus semelhantes, mas seguia fiel a sua protetora. Por certo pensava: - Hei de protegê-la com unhas e dentes! O sarnento molhado seguia os paços encharcados nas poças de água. Era o próprio escudeiro seguindo seu herói. De repente um carro para, e salta dele um truculento, que via, na bolsa que minha filha carregava, o dinheiro transformando-se em fumaça. Derrubou minha filha agarrando sua bolsa. A luta era desigual. Por certo o cachorro entendeu que o miserável queria o pão ou a bolacha que ela carregava. Latiu primeiro para impor respeito. Seu latido fraco e esganiçado de nada adiantou. Então avançou e começou com dentadas para tentar afugentar o ladrão. A luta era ferrenha agora. Minha filha defendendo a bolsa, o cachorro defendendo seu pão e o ladrão querendo o dinheiro. Ela, no alto poder de sua raiva, quebra o guarda chuva nas canelas do ladrão enquanto o cachorro gruda, com uma dentada, o saco do miserável Ela, num golpe certeiro,dá uma cutucada nos grãos dele, e grita: - Seu filho de uma puta! Ouviu-se um grito de terror e o som de dois plim, plim no chão. O bandido eunuco fugiu deixando o carro e as bolas perdidas no asfalto. Minha filha, perdida em lágrimas, deitada no asfalto, toda molhada, era consolada pelo seu adotado que lhe lambia o rosto e suas mãos, dizendo feliz: - Parabéns Izabela, você lutou valentemente defendendo meu pão e minhas bolachas. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

sábado, 22 de junho de 2013

UM PAÍS DE MULAS

Conta a lenda que em um certo lugar, prá lá de distante, e desconhecido, viviam as mulas, numa situação cômoda, relinchando feliz. Muita pastagem e água limpa à vontade. Esta terra era coberta por um verdejante e viçoso capim, cercada de rios e lagos que da cor deles se confundia com a do céu. Estas mulas não se incomodavam com nada pois tinham nas verdes pastagens a alimentação, e bem alimentadas, é claro, tinham saúde. Estas mulas tinham muito espaço disponível. Dormiam juntas ao relento, porque não tinham teto, no entanto, na santa ignorância delas, eram felizes. Eram analfabetas e só sabiam relinchar. A educação básica e profissionalizante era proibida pelos deuses. Não precisavam se alfabetizar e nem se incomodar com coisa alguma, visto que seus deuses proviam tudo, com uma tal bolsa grama. Os deuses eram mulas aceitos e eleitos pelo povo mula. Eram mais sabidas, tinham foro privilegiado e queriam o poder pelo poder. Os deuses viviam em campos muito mais verdejantes e saudáveis e comiam manas especiais produzidas pela grama com imposto pago pelas mulas, e dormiam em cocheiras foliadas em ouro. Tudo ia indo muito bem, até que um dia o monstro chamado maldição desceu sobre este longínquo lugar. A maldição veio transvestida de uma mula enorme, de tamanho descomunal que ressurgiu, com certeza, dentre os mortos. Trazia, como arma, uma inveja e ganância do tamanho de seu tamanho. O congresso dos deuses mulas legislava sempre em favor próprio. Como não poderia deixar de ser, em primeiro lugar, para melhorar a vida deles, e depois, as migalhas do que sobrava, era destinada então para o povo mula, em forma de bolsa grama, bolsa ignorância, e outras bolsas tantas. A maldição mula, para criar confusão, assoprou na orelha grande de cada deus, sugerindo a construção de um enorme circo nas verdes planícies do povo mula. E os deuses mula viram nessa sugestão uma grande oportunidade para desviar mais e mais grama para o bucho deles, e para as cocheiras fiscais. Concordaram, e anunciaram em rede relincho, ao povo mula a grandiosa obra, mas sem justificar e informar para que serviria esta maldita construção. O circo começou a ser erigido. As mulas analfabetas pastavam despreocupadas. Nos verdes prados nada a elas faltava. Bem alimentadas, com a imensidão de pasto, a saúde vicejava. O sistema de comunicação era de relincho em relincho de uma para outra. No vale verdejante reinava a paz; pertencia ao povo mula sem qualquer depredador mula presente. Mas a extravagante obra tomava forma e invadia espaço.. Os deuses estavam felizes com a construção superfaturada que trazia a eles muita grama para seus celeiros. O circo estava ocupando o pasto, e o canteiro de obras estava depredando a grama existente. A construção atraiu terríveis animais de fora e com isso apareceram os tigres, leões e hienas. As mulas começaram a sofrer agressões, estupros, e mortes. A situação começou a ficar insuportável. A água dos rios e lagos antes limpos agora recebiam detritos fecais, e a grama arrancada aos montões diminuía a olhos vistos. Foi proibido, por decreto, o relinchar para não atrapalhar a concentração dos operários. Sem relincho as mulas não se comunicavam. Enquanto os deuses se refestelavam em doçuras em suas lindas cocheiras, as mulas amargavam um pasto cada vez menor e de grama cada vez mais rala. O povo mula era mutilado, comido pelos terríveis carnívoros que não gostavam de grama. Já magras as mulas começaram a ficar doentes. A estratégia da maldição estava dando resultados. A maldição queria ver o circo pegar fogo, e então começou a futricar nas orelhas do povo mula: - Vocês são bestas filhas de uma égua rampeira! Não devem aceitar esta situação! Devem se reunir em bando patear expulsando os intrusos, e dar um coice no traseiros destes deuses imbecis e aproveitadores. Devem parar a construção deste circo que só está consumindo a grama e não vai trazer qualquer benefícios para vocês. Esta obra não vai servir nem para cocheira. Vocês devem votar contra a PEC ignorância. Pronto! a mulada estava alvoroçada e puta da vida com a situação. A mulada finalmente acordou. As mulas saíram para o pasto relinchando a ordem do dia. - Mulas unidas jamais serão vencidas! Abaixo o circo! Abaixo os deuses! abaixo os miseráveis animais predadores! Queremos o nosso verdejante pasto de volta e nossos rios e lagos despoluídos! Queremos relinchar livremente! Pateando a tropa de mulas cercou o circo, e fez com que os leões, tigres e hienas batessem em retirada. Os deuses apavorados se reuniram, e prometeram em rede nacional desmanchar o circo, e voltar a planície como antes era. A mulada aproveitou e pediu que os deuses mulas fossem fazer festa em outro lugar. Fossem para a rampeira que os pariu. Os deuses em prantos, por ter perdido a teta, se foram. Por unanimidade as mulas concordaram que o melhor também seria mandar junto aos deuses a mula maldição. E assim se cumpriu. A mulada hoje vive sem o desmando dos déspotas mulas deuses, se preparando para votar em outros deuses que tragam a elas paz, prosperidade, saúde, segurança e educação. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

sexta-feira, 31 de maio de 2013

UM FANTASMA ASSUSTADO

O cavalo parou, relinchou, empinou e quase botou o cavaleiro ao chão. Em qualquer situação, quando ficamos assustados, encurralados, o cérebro recebe uma grande descarga de adrenalina. Este neuro transmissor é um cara que acaba barrando funções menos importantes no cérebro, priorizando os mecanismos necessários para escapar da ameaça. Por esta razão, num lapso de tempo, vemos e criamos fantasmas, fazendo coisas que até Deus duvida. Dificilmente num momento de pavor o indivíduo vai merdear as calças, porque este neuro transmissor acaba colocando uma tranca no final do tubo digestivo. Por isto, eu acho, que existe uma ligação que vai do cérebro ao anus. O medo, ou o susto, acaba fechando todas as saídas. Vem daí aí o famoso dito de que está tão fechado que nem agulha passa por lá. Mas, quando depois a situação está dominada, tudo se afrouxa, e até o cérebro vem tripa abaixo deixando o ex-assustado completamente lambuzado e fedido. A madrugada era de pouco luar, mas a estradinha a frente, se exibia sensual deitada se contorcendo de um lado ao outro apoiada pela floresta nativa. O caminho era sinuoso, revelando aqui e ali, nas poças d'água um luar quase apagado. Tudo era silêncio, quebrado apenas pelo vôo rápido de uma ave noturna, e pelo piar tristonho da coruja em um toco qualquer. O sereno da madrugada lambia úmido o rosto do cavalheiro. O vento sorrateiro, brincando com as folhagens, criava vultos fantasmagóricos. O ploc, ploc das patas cadenciadas do cavalo acordava os pássaros e assustava os fantasmas em serviço. De repente, mais adiante, onde a curva da estrada ia morrer, uma moita de araçá cria vida e começa se agitar. Para o cavaleiro e o cavalo, o pouco luar criava naquele pé de araçá um fenômeno, no mínimo assustador. O cavaleiro parou apreensivo. O cavalo, com os olhos maior que a cabeça, resfolegava aflito. - Se for fantasma, nada poderá fazer contra nós, apenas nos assustar, mas se for alguém, tentando nos amedrontar, vai se dar mal, pensou o corajoso cavaleiro. - Eia, vamos embora! Ordenou com um leve passar de escora e um estalo do chicote. Avançaram medrosamente, e quando já perto, a moita, quase saindo do lugar, escandalosamente se movimentou. O cavalo parou, relinchou, empinou e quase botou o cavaleiro ao chão. Por entre a ramagem da moita surgiram, curiosos, medrosos, perscrutando, dois olhos vermelhos, enormes refletidos pela lua. O cavalo deu outra empinada, cuspiu da cela o cavalheiro e saiu feito um raio pelo contorcido caminho. O cavaleiro, incontinente, desconhecendo o perigo, voou para cima da moita. Pelo que parece, naquele momento, o fantasma misteriosamente se materializou, e assustado, numa luta corporal, de vida e morte, grunhiu desesperadamente desfechando, como se fosse de um sabre, um corte no braço do abraço que o cavaleiro estava dando. Ferido, confuso, sozinho e assustado, o cavaleiro pode ver, se perdendo por entre a ramagem o assustado e confuso Javali que ainda, lá de longe, gritou: - Cara doido! querendo me assustar com seu abraço? O susto passou. Sentiu-se sozinho, lambuzado e fedido no meio da moita de araçá.. Riu muito, e voltando a pé para casa, imaginava que história, sobre isto, contaria para seus amigos. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA