MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
domingo, 8 de setembro de 2013
ORIGEM DO TROVÃO
Eu, quando guri, sempre brigava com as malditas nuvens que vomitavam chuva.
Dizem que de louco e físico cada um tem um pouco, mas disso tudo eu fui lesado. Definitivamente não sou físico, mas vou explicar de como eu entendia, quando criança, aquele barulhão filho de uma puta que acontecia lá nas alturas do céu. Muito das coisas aprendi com minha mãe.
O trovão já era tema de muitos estudo pelos antigos filósofos e, segundo pesquisa, foi Aristóteles, pai que era de muitos filhos, ao ser inquirido a origem do trovão, imediatamente, para se livrar da molecada, deu uma explicação plausível sobre a barulheira toda que acontece lá pelos altos.. Ele disse para seus filhos, e depois dizia para seu alunos, que o trovão é o som provocado pela trombada das nuvens umas contra as outras.
Era bem engraçado, mas eu imaginava as nuvens como carros, soltos, desgovernados, de um lado para outro, lá nas alturas.
Quando era guri pequeno entendia que as nuvens eram dirigidas pelos anjos e almas boas que moravam nela, mas pelo jeito traquinas, e com pouca experiência no trânsito, provocando assim as focinhadas das nuvens.
Lendo Aristóteles fico imaginando, nestes choques violentos das nuvens, os anjos e almas caindo lá do alto. Talvez seja por isso que anjos e almas nascem novamente ou vem povoar as casas mal assombradas.
Tenho uma vaga lembrança de uma aula de física que assisti, na qual o professor dizia que, o trovão é um evento, que acontece pela velocidade incrível do raio, que vai passando, e rasgando tudo pelo caminho criando um vácuo super aquecido que acaba explodindo.
Depois desta aula, eu olhava para o céu nublado e via o raio, sendo montado por um imbecil qualquer - uma dessas almas que não tem o que fazer. O raio xucro, querendo derrubar a alma inoportuna, galopava feito um lazarento, como se tivesse pimenta no fundilho, peidando feito um doido.
Corcoveia daqui, corcoveia dali!
Corcoveava e ao passar corcoveando em alta velocidade, provocava uma confusão entre as nuvens, as quais ao se chocarem, derrubavam muitas almas e muitos anjos, em forma de chuva na terra. Os urros nas nuvens, na realidade eram os gritos de desespero das almas que tentavam se segurar para não caírem.
Uma vez alguém me disse que o trovão é um gigantesco empurrão de ondas sonoras. Eu olhava para as nuvens, e via as almas mais saradonas surfando estas ondas, e com isto provocando o som do trovão.
De todas estas figuras, entre Aristóteles, professor de física e outros, a minha mãe foi a que mais me convenceu com sua sábia teoria.
- Meus filhos, dizia ela explicando a origem do trovão, é São Pedro lavando o céu e afastando os móveis.
Imediatamente eu imaginava a nossa casa sendo lavada.
E continuava ela na sua didática explanação:
- A chuva é a água que São Pedro lava o céu.
Quando a nossa casa era lavada, eu via debaixo do assoalhado a água vazando pelas frestas em forma de chuva.
Era a prática na teoria.
Eu sempre imaginava todos os santos e anjos empurrando, de um lado para outro, os imensos móveis lá no céu. Pelas frestas do assoalhado do céu eu via a água que corria em profusão. Quando trovoava, incontinente pensava:
- Lá vem a turma fazer faxina!
Ao ameaçar um temporal, minha mãe imediatamente nos punha por debaixo da mesa, e corria, medrosa, queimar alguns ramos verdes.
Ela dizia para nós, justificando a mesa como proteção:
- Quando estão lavando o céu é muito perigoso para nós as coisas que acabam caindo lá de cima!
De fato, as chuvas de pedra me davam medo. Para minha mãe era apenas o medo do temporal destelhar a casa, e cacos de telha cair por cima de nossas cabeças.
Ainda hoje, quando avisto alguma nuvem que passa sorrateira, rápida, ziguezagueando pelo céu, com saudade vejo minha mãe toda feliz brincando nela.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
sábado, 31 de agosto de 2013
SENTA QUE O LEÃO É MANSO!
Isto vai dar merda!
Minha mãe era especialista, entre muitas coisas, a de contar piadas e causos engraçados para nós.
Eu me acercava dela e me divertia, me deliciava pelo modo como ela fazia a narrativa; Era uma verdadeira atriz nas representações, nos trejeitos e nas caretas. Suas palavras eram mágicas, e eu conseguia ver as cenas como se dentro delas estivesse.
Ela contou muitos causos e nos divertiu muito. Muitos deles ela criou, outros ela retirou do almanaque de farmácia.
Tenho na lembrança muitos deles e vou me deliciar como se ao lado dela estivesse ouvindo seu falar, suas graças e seu riso solto, na causo lúdico, ou talvez medonho, de um circo.
Ela sempre começava assim: Era uma vez.
Se acocorem, sentem-se onde der, e ouçam a história que ela um dia me contou!
Era uma vez um rapaz muito relaxado que andava maltrapilho, não porque não pudesse se vestir bem, mas porque desta forma gostava de se apresentar. Muitas vezes acabava dando vexame mostrando aos outros as partes íntimas que não deveriam estar em exposição.
Uma vez de cócoras, jogando bolinha de gude, deixou dependuradas ao relento suas bolas. O balançar daqui e dali despertou o apetite de um gato que por ali passava e nhac, cravou com os dentes uma das bolas. O rapaz deu um berro, impulsionando um salto mortal levando consigo o gato grudado na bola.
Muitos dias tiveram que passar até a completa cura de seu grão perfurado e inchado, mas mesmo assim ele não aprendeu a lição, e deixava os ditos cujos de seu saco livre para quem quisesse ver, ou para provocar repudio de virgens e viúvas santificadas.
As meninas evitavam se aproximar dele, e por isso o apelidaram de o "saco pelado".
Um dia apareceu na cidade um circo. Era um circo com muitos animais, e o espetáculo principal era o domador de leão exibindo-se dentro da jaula, fazendo o rei da floresta obedecê-lo e urrar violentamente.
O saco pelado deu um jeito, e conseguiu furar o cerco dos vigias adentrando sorrateiramente no circo.
O picadeiro estava circundado pela arquibancada, em tábuas de madeira, que recebia milhares de bundas, que se assentavam aguardando o início do espetáculo.
O saco pelado olhou perscrutando um lugar para acomodar seu fundilho quase desnudo. Olhou aqui, olhou acolá, e vislumbrou um lugar. O lugar tinha sido rejeitado porque era o encontro de duas tábuas, gerando assim um certo desconforto bundal. O saco pelado não pensou muito, foi lá e se assentou folgadamente, de saco solto, como sempre se assentava.
- Minhas senhoras e meus senhores agora o ponto alto do espetáculo! gritou no meio do picadeiro o dono do circo.
Abriu-se a cortina, e trouxeram para o centro do picadeiro uma jaula com um leão enfurecido. Do lado de fora o domador vinha estalando o chicote.
O povo medrosamente aplaudiu
A portinhola da gaiola abriu-se dando permissão para a entrada do valente domador.
O leão esfomeado pensou:
- Lá vem este filho de uma puta novamente estalando este chicotinho de merda! Urrou ameaçando dar um tapinha no domador.
O povo em silêncio, roendo a unha pensava em uníssono:
- Isto vai dar merda!
E deu.
O leão deu uma dentada no braço do seu tirano carrasco, sentou em cima dele dando uma bela mijada. Com duas patadas destruiu a jaula, e se pós na arquibancada no meio do povo, que em pavorosa de pé tentava se livrar da fera. E o leão enfurecido com um tapinha aqui, uma abocanhada ali, ia se suprindo de pedaços de carne humana.
E o povo, em debandada correria, gritava desvairado.
No meio da confusão, uma voz desesperada se ouviu clamorosa:
- Sentem que o leão é manso! eu conheço este bichinho!
Mas ninguém o escutava.
O povo ao levantar fez com que as tábuas envergadas voltassem ao normal juntando-se uma as outras, deixando do lado de baixo os grão do saco pelado.
Ele sentado, com o saco preso entre as tábuas, continuava gritando desesperado.
- Sentem por favor, que o leãozinho é manso!
Mas o leão, não estava nem aí, uivava, fazendo a festa.
O saco pelado nunca mais foi visto, apenas encontraram dele os grãos preso debaixo da arquibancada.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
sábado, 24 de agosto de 2013
Sempre gostei dos animais de um modo geral. Já tive até um cavalo, fruto que foi da troca por uma bola. Era tão velho, e desdentado que o infeliz acabou morrendo, no portão de minha casa, logo após a permuta.
Era menino ainda, e pedia insistentemente ao meu pai um cachorro, para que eu pudesse com ele brincar pelas pradarias, pular valetas e se banhar nos riachos. Seria meu companheiro para todas as horas, e dormiria no meu quarto ao pé da cama.
Meu pai resistia a idéia. Não queria ter mais uma boca para alimentar, e também não queria aumentar os latidos e uivos noturnos de que a rua era campeã.
Mas eu não abandonava meu desejo. Meu sonho era ter comigo este companheiro. Vivia arquitetando em sonhos como seria nossos folguedos.
Era um dia chuvoso, que despencava cinzento e friorento lá no horizonte.
Meu caminhar era solitário como solitários são todos os caminhares das crianças.
Absorto divagava com o meu imaginário companheiro, e nesta fantasia doida, corria alegre jogando pedaços de pau para que ele, aos pulos e feliz latindo trouxesse para mim.
Flutuando meus pensamentos ao sabor do vento, andava a esmo quando ouvi, ali na valete, esquelético, sarnento, quase sem a pelagem, uivando melancolicamente um cachorro pedindo misericórdia.
Olhei demoradamente para aquele animal pestilento, perdido em pulgas, e constatei que ele não representava o companheiro que tanto tinha idealizado. Alem de feio, pulguento, estava completamente combalido.
Continuei olhando, e me veio na lembrança dos cuidados com que minha mãe tratava de meus ferimentos, e com que rapidez eu me restabelecia. Pensei, olhando demoradamente para o cachorro:
- Vou levá-lo, e minha mãe vai tratar dele, e por certo vou ter rapidamente curado o companheiro que tanto quero.
Peguei-o com cuidado acomodando em meus braços, e ele ganiu, não sei se de dor ou sabe lá Deus porque.
Olhei para ele, mais uma vez agora já em meus braços e disse:
- Você vai ser meu grande amigo, e companheiro! olhava condoído para ele que, quase desfalecido, se dependurava em meus braços.
Meus passos eram agora mais vigorosos e rápidos. Minha ansiedade era maior ainda.
Pensava nele já curado, e serelepe pulando, de um canto ao outro, nos folguedos comigo. O pensamento era tão real que meu coração se descompassou.
Esbaforido cheguei em casa e fui apresentar o cão a minha mãe; Ela quase caiu de costa quando viu aquele canino quase cadáver, feito uma gelatina pendurado em meus braços, e me perguntou:
- O que isto meu filho! Você trás para casa um animal sarnento, quase morrendo! O que faz ele em seus braços? Por favor, vá imediatamente tomar um banho, completou ela.
- Eu o trouxe para a senhora tratar dele! - incontinente respondi.
Minha mãe olhou, com seu olhar de compaixão, primeiramente para mim e em seguida para o pobre animal e sentenciou:
- Mas ele está morrendo! não podemos fazer nada.
Brotou em mim um desespero e gritei:
- Não, não é verdade! ele é meu companheiro e não vai morrer!
E eu continuava sustentando o animal em meus braços.
Minha mãe se acercou de nós, colocou sua mão em meu ombro, e partilhando de meu sofrimento não disse mais nada.
Eu desesperado, aflito, olhando o cachorro moribundo, vi, que num esforço medonho, ele levantou a cabeça, olhou-me com um olhar de felicidade, lambeu minha mão, pendendo morto sua cabeça em meus braços.
por: MARIO DOS SANTOS LIMA
sábado, 10 de agosto de 2013
UMA SAUDADE, UMA ESPERANÇA E UMA LÁGRIMA
UMA SAUDADE, UMA ESPERANÇA E UMA LÁGRIMA
Lá estava ela, arquejada, maltrapilha, sentada a beira da praia, impassível de olhos perdidos no horizonte, e de mil pensamentos misturados com o murmurar das ondas. Seus cabelos brancos e em desalinho, brigavam com a brisa úmida do mar.
Absorta, perdida no tempo, ninguém a tirava daquele lugar.
Seu único filho, no vigor dos seus 18 anos fôra convocado para lutar numa tal guerra bem longe dali.
Em súplicas ela tinha desesperadamente implorado ao general que não levasse seu filho. Ela era viúva e clamava de mãos postas, lágrimas nos olhos e de olhar fixo no dele. Quase se ajoelhando pedia com insistência:
- Não leve, não leve meu filho! Ele é meu tesouro, o único que tenho! Por favor meu senhor, tenha piedade de mim!
- A pátria precisa dele, respondeu o implacável general.
O jovem todo orgulhoso ansiava pela partida. Para ele era a coisa mais linda e bela defender, em luta, a sua pátria, mas para a mãe era o perigo eminente de perder a coisa mais preciosa que ela tinha.
Os dias passaram rápidos e o grande e sofrido momento chegou.
O navio no cais esperava aquele bando inocente que, com certeza, estavam indo para o holocausto, por uma luta que nem mesmo eles sabiam contra quem e porquê.
Todo feliz, caminhando em direção ao cais, lado a lado com sua mãe, nem percebeu as lágrimas que corriam do rosto dela.
Num abraço demorado, quase sem palavras ele disse para sua mãe, beijando-lhe a mão:
- Não fique triste mãezinha! um dia voltarei e ficaremos juntos, muito bem, e felizes.
Mais um abraço demorado aconteceu, e muitas lágrimas em soluço se perderam.
Ele em silêncio enxugou com seus dedos as lágrimas que corriam em sua face, e aproveitou para enxugar as lágrimas do rosto de sua mãe também. Olhou demoradamente para ela, num sorriso desconexo, virou-se, e perdeu-se no meio da tropa.
Como cordeiros para a imolação, um a um, em fila indiana percorriam a pinguela até serem engolidos pelo navio.
O navio, impassível, de bojo cheio, roucamente apita dando sinal da partida.
Milhares de lenços branco acenando enquanto, pouco a pouco, ele vai desaparecendo na curva que a água faz lá mais adiante.
Todos se foram, apenas ela permaneceu, por longo tempo, como que petrificada, olhando tristemente o horizonte perdido no azul do mar.
Voltou tal qual robotizada para casa.
Os dias, um a um, foram consumindo a alegria de viver daquela mulher. A cada barco que ancorava, a cada apito de navio rescendia nela a chama da esperança, e lá ia ela aguardar pacientemente a chegada do filho amado que nunca vinha.
Um dia, bateram a sua porta.
Ela abriu-a vagarosamente, e viu a sua frente um oficial do exército. Ele trazia em seus braços uma bandeira e um comunicado:
- Sentimos muito, mas seu filho morreu heroicamente em combate. Perfilou, fez continência e entregou a bandeira.
Num primeiro momento ela gritou, chorou, amaldiçoou e em seguida começou a gritar:
- E mentira! É mentira! o meu menino não morreu! Ele disse que vai voltar! Eu sei que ele vai voltar.
Dias após dias, anos após anos, resmungando palavras desconexas, lá ia ela até o cais. Sentada num banquinho tosco, permanecia o tempo todo olhando ansiosa o horizonte perdido nas águas do mar. E nessa espera, um dia, alguém a encontrou sem vida, mas viu que de seu rosto desprendia um lindo sorriso, e de seus olhos semi abertos ainda corriam algumas lágrimas.
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