MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
domingo, 8 de dezembro de 2013
CORTE DE CABELO
Meti a máquina na cabeça dele e comecei a desastrada operação.
No meu tempo de moleque pequeno, lembro-me perfeitamente que quase todos os filhos, seguiam, por uma razão ou por outra, a mesma profissão do pai. Se o pai era marceneiro o filho seria ótimo em fazer móveis; Se o pai era alfaiate o filho seria hábil na tesoura; e assim por diante. Hoje a coisa está bastante mudada, os filhos rebeldes, cada um segue a carreira que mais se identifica com eles. Mas tem muitos deles, que ainda seguem orgulhosos a profissão do pai.
A tarefa, quando passada de pai para filho, traz a experiência vivida de muitas e muitas batalhas. É, com certeza, uma vantagem competitiva. Assim, com esta bagagem toda acumulada, o filho será o senhor absoluto da situação.
Infelizmente eu não tive de meu pai a experiência de um barbeiro. Ele era do comércio, e por isto me dei mal na aventura de querer ser um barbeiro.
Quando muito, hoje eu sou barbeiro, pelas ruas de minha cidade, na condução da tropa de cavalos e éguas que existe no motor de meu carro.
Se bem, que me lembro ainda, que meus pais tinham uma máquina de cortar cabelo. Quando as cabeleiras, minha e de meu irmão, estavam além do limite, volta e meia, eles davam umas tosadas no topete com a maravilhosa máquina. Parecia incrivelmente fácil. Eu acho que meu sentimento intenso começou por ai, mas, infelizmente, sem nunca ter a oportunidade da prática.
No seminário, com oitenta moleques para cortar o cabelo, sempre tinha alguém, que por experiência vivida, cortava o cabelo da gurizada.
E minha paixão pela profissão aumentava mais e mais.
O crek crek da máquina me hipnotizava.
Aqueles cabelos caindo das cabeças, indo se acomodar no piso, era para mim um espetáculo jamais vivido por alguém.
Embora tivesse vontade, no seminário nunca cortei o cabelo de ninguém , e nem me atrevi pedir para fazê-lo.
Mas um dia de férias, em casa surgiu a oportunidade.
- Silvestre, você precisa cortar o cabelo! escutei minha mãe implorando isto para meu irmão.
Ele tinha medo da máquina de cortar cabelo da mesma forma que o gato escaldado com água quente tem medo de água fria.
- Minha mãe, eu corto o cabelo dele! disse com convicção.
- Mas você sabe fazer isto? perguntou incrédula ela.
- Aprendi, e pratiquei muito no seminário! Disse minha tremenda mentira.
Com muito custo e uma boa lábia, consegui fazer com que meu irmão sentasse no caixote em cima da cadeira.
Peguei a máquina, fiz o sinal da cruz pedindo para que os anjos me ajudassem, mas eu acho que eles estavam de folga ou queriam me sacanear.
A máquina na minha mão se debateu de um lado ao outro gritando:
- Você não sabe fazer isto! Largue de mim seu padreco mentiroso!
- Cale a boca, máquina imprestável! gritei furioso para ela.
Meu irmão, arregalou os olhos, e medrosamente virou uma estátua.
Com a mão trêmula e indeciso me perguntei.
- Como é que eu começo este troço? Será que é de baixo para cima ou de cima para baixo?
Suava frio.
Meti a máquina na parte frontal da cabeça dele. e comecei a desastrada operação.
Deixei a máquina no grau zero e aí comecei o escalpo.
Já nos primeiros clek, clek a máquina de repente parou engastada de cabelos. Um grito de dor soou vizinhança afora. Minha mãe apavorada, saiu prá fora e quando viu aquilo caiu desmaiada.
Meu irmão, com a máquina atolada no meio da cabeleira, com o sangue correndo pela testa, gritava feito um loco de dor. Eu, desesperado, não sabia se o levava ao hospital ou a uma barbearia.
Botei o moleque nas costas e sai em busca de socorro.
O barbeiro, numa operação delicada, livrou a cabeça de meu irmão da maldita máquina. Ele olhou demoradamente para mim decretando seu cruel veredicto, enquanto colocava mercúrio e esparadrapo no ferimento da cabeça de meu irmão:
- Guri, nunca mais pegue numa máquina de cortar cabelo, ela é uma arma perigosa em sua mão!
Morreu, então aí, o desejo meu de ser barbeiro.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
domingo, 20 de outubro de 2013
TIRO DE SAL E PIMENTA NAS COSTAS.
- Você já experimentou colocar sal na ferida? Colocar pimenta no fiofó? Então, com certeza não imagina a dor filho de uma puta, que isto representa. Não imagino, nunca fiz, mas contaram-me isto.
O campo de beisebol japonês achava-se próximo da primeira mata, não muito distante da cidade. Era chamada de primeira, porque este capão de mata virgem localizava-se um pouco antes do segundo capão, que ficava mais além. Bem, o campo de beisebol encontrava-se também tentadoramente próxima a uma chácara. Nesta chácara plantava-se cana para a fabricação de rapadura.
Todo moleque gosta de mascar uma cana.
No campo de beisebol era proibido, para a molecada, praticar futebol, da mesma forma que o chacareiro proibia a retirada de cana. Embora sob o protesto veemente do casal de japoneses, que morava ali a fim de cuidar do campo, a molecada, inclusive eu, sempre praticava as gostosas peladas. Da mesma forma que era terminantemente proibido a retirada de cana da chácara, mas a molecada roubava mesmo assim.
Tudo que é proibido tem um sabor diferente. É mais tentador. Requer estratégia para a execução.
Pelo que tenho lembrança do campo de beisebol, foram muitas correrias com ameaças, ditas em língua estranha, pelo casal de nipônicos. Do canavial, bem do canavial vou relatar agora.
Quase sempre, em final de tarde, lá ia o bando, com bola debaixo do braço, para o campo de beisebol. A estratégia era, enquanto o menos fanático por esporte, tentava ganhar tempo, negociando com o casal nipônico, o restante, com um olho na negociação e outro na bola, jogava futebol naquele enorme campo.
Uma vez que a negociação tinha chegado ao final sem o resultado pretendido, e com o negociador desesperadamente em fuga, a turma se punha em desembalada correria. Passavam pelo canavial, e tal qual um grupo destemido de combatentes, cada qual empunhando sua arma, desfilavam alegres de volta para casa com uma rama de cana de açúcar nos ombros.
A coisa funcionava assim:
Um guri ficava de vigia, só como observador, enquanto restante praticava o delito.
Muito tempo a coisa funcionou bem - o vigia, num eminente perigo, dava o sinal, e a molecada saia, feito uns filhos de uma puta, correndo do canavial.
Mas um dia...
O desclassificado, o inconseqüente chacareiro, colocou de tocaia um jagunço armado com um espingarda de dois canos.
O cerimonial aconteceu como sempre: - a molecada correndo do casal nipônico, mostrando a língua, abaixando os calções para mostrar a bunda, e fazendo o arrastão no canavial.
Naquele dia o vigia não teve tempo de avisar. A emboscada estava pronta. Um tiro fez se ouvir, logo em seguida o outro. Muita correria, e a gritaria da molecada.
Descarregada a arma o mal pago vendo aquela multidão de moleques gritando, assustou-se, e se escafedeu embrenhando-se no canavial.
Lá de cima eu assisti tudo sem nada poder fazer.
Moleques apavorados em fuga para um lado, e jagunço desesperado para outro.
Na batalha, infelizmente houve duas baixas; Um moleque e a bola de capotão.
O infeliz desvalido, todo mijado e cagado, gritando feito um condenado, era trazido carregado por dois companheiros. Tinha levado uma carga de sal grosso nas costas.
A bola estraçalhada ficou para trás.
Com uma bandeira branca, pedindo paz, pedindo trégua, levamos o ensangüentado gritão até a porta da casa do casal nipônico.
A japonesa deixou de lado seu papel de fiel guardiã para assumir papel de mãe e enfermeira. Esfregou as costas do moleque com uma grossa escova, e com uma pinça de madeira, que mais tarde descobri que era o hashi, retirou, um a um, os grãos de sal encravados na pele do desesperado e ensangüentado moleque.
Seus gritos, como uivos, até hoje ainda podem ser captados pelos potentes microfones da NASA.
Não sei se a japonesa rezava, se esbravejava, se xingava ou reclamava, mas acabei entendendo que um tal de Buda, que gosta muito de cana e que não gosta de moleques e de futebol permitiu que o capeta atirasse.
Diz a lenda que o jagunço ficou mais desesperado ainda quando descobriu que o moleque abatido era seu próprio filho, e que a bola pertencia ao filho do chacareiro.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
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