quarta-feira, 7 de maio de 2014

CARTA PRO MEU PAI NOS SEUS 99 ANOS

- Meu querido e amado pai Francisco! Respeitosa e humildemente beijo-lhe a mão. Todo o amor que devoto ao senhor será sempre insuficiente para mostrar à eterna gratidão pelo pai amoroso, desvelado, respeitoso e exemplar que tive, e que por uma benção especial de Deus ainda tenho. Não me canso de agradecer ao nosso Criador pelo maravilhoso e inestimável presente em mantê-lo entre nós, assim tão lúcido e capaz aos noventa e nove anos. Aqui no meu canto, tão longe daí, fico muitas vezes matutando, e assim me perco num passado gostoso, aprazível e distante de minha infância querida. Recordo-me do pai atencioso, afável e preocupado com seus filhos; Vejo-o amoroso, com devotada proteção, cercando de mil cuidados, conversando com minha mãe. Meu querido e amado pai, quantas vezes ao falar em público, citando o exemplo forte de um homem que admiro, que venero, e que me acompanha, passo a passo, na minha vida, vem alguém fascinado curiosamente perguntar: - Quem é esse homem maravilhoso? Diga por favor! E eu então, todo orgulhoso, estufando o peito não me canso de falar. Ele é o homem em que me espelho, é o meu eterno guru, que soube me educar, e que tem uma vida exemplar, impecável, para eu seguir. É o homem que soube mostrar o que é o amor e o carinho por uma mulher, respeitando e amando gentilmente minha doce mãezinha. É o homem que me ensinou, com sua paciência e exemplo, como educar um filho; Nunca nos confundia com suas determinações, pois seu sim era sim e seu não era não. Aprendi com ele a ser um pai presente. Quantas vezes vi meu pai quase esmagado pela multidão, de pescoço esticado só para me ver marchando em desfiles comemorativos pela escola. Naquele momento eu queria parar o desfile, e gritar para todo mundo ouvir, apontando para aquele gigante, de bigode preto, bem alinhado, esticando-se todo para me ver: - Aquele ali é meu pai! Aquele é meu pai! Sufocava meu grito, enxugava minhas lágrimas e todo garboso, marchava firme, batendo mais forte ainda meu pé ao som dos tambores, sabendo que meu pai me seguia com o olhar. Aprendi, pelo seu exemplo, o ato nobre da caridade. Quantas vezes o acompanhei nas caminhadas longas de domingo, após a missa, para visitar famílias e pessoas necessitadas. Sou testemunho, me comovendo com a alegria das pessoas quando ele chegava. Pacientemente ele ouvia cada um, anotava e aconselhava confortando suas penúrias. Distribuía o que era necessário, orientava a regularização de documentos e encaminhava os doentes ao médico. É o homem que pelo seu modelo de vida me ensinou a respeitar os mais velhos, os animais e a natureza. Foi ele que me ensinou a magia da leitura. Orgulhosamente sou professor de tanto ouvi-lo dizer para nós: - O professor tem nessa terra uma missão divina! Temos que ouvir, respeitar e seguir seus conselhos se pretendemos ser alguma coisa na vida. Foi ele que nos ensinou que o presente de Natal não é o Papai Noel que nos trás. Pela magia da primeira estrela que surge no céu, o presente aparece ao lado do presépio, enquanto contritos, ajoelhados, rezávamos o Pai Nosso no pedido de misericórdia pelos inocentes pecados cometido. Nada o deixa triste! É temente a Deus e de uma fé inabalável. Quando moleque nunca o vi chorar, mas um dia estas lágrimas apareceram e apareceram em profusão. Sua irmã Judith desenganada pelos médicos entregava, pouco a pouco, sua alma a Deus e então esse grandioso homem despencou em lágrimas, o vi chorar pela primeira vez copiosamente. Estas lágrimas abriram caminho para outras tantas. Quando minha mãezinha faleceu eu vi, contristado, muitas lágrimas lavarem o seu rosto envelhecido ao lembrar com saudade da sua companheira de tanto tempo, de tantas lutas, de tantas realizações. As pessoas se encantam ao me ouvir contar isso com tanta emoção, e muitas vezes comentam: - Você é abençoado por ter um pai assim! Quem me dera ter um pai igual a esse fabuloso homem! Ah! Meu lindo pai, meu querido índio velho, tenho tantas lembranças suas de quando era menino que se narradas todas daria um enorme livro. Algumas são fortes e que me parece aconteceram ontem. Por exemplo, aos domingos no programa da rádio Nacional “Quando os ponteiros se encontram” lá estava você todo, atento de ouvidos pregado no rádio, para ouvir o rei da voz Francisco Alves. Tomei gosto pela música e admirava o cantor das multidões. Vi sua fisionomia contristada em setembro de 52 quando o cantor morreu em acidente. Fiquei triste também. Meu querido e amoroso pai, só tenho boas lembranças suas. Hoje, me achego através desta carta para respeitosamente beijar sua mão e pedir uma benção muito especial, para este filho que o ama, que o venera e o admira muito. Parabéns pelos seus bons, graciosos e lindos noventa e nove anos. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

domingo, 27 de abril de 2014

CORRENDO ATRÁS DO VENTO: A MANDIOCA MUITO ESTRANHA

CORRENDO ATRÁS DO VENTO: A MANDIOCA MUITO ESTRANHA: - Que merda é esta? Você quer matar a tribo toda? O elemento, de que será alvo a minha crônica, é nada mais, nada menos que a apetitosa...

Mario dos Santos Lima

A MANDIOCA MUITO ESTRANHA

- Que merda é esta? Você quer matar a tribo toda? O elemento, de que será alvo a minha crônica, é nada mais, nada menos que a apetitosa raiz tuberosa comestível. A índia velha vivia, como qualquer outra, na tribo envolvida em suas atividades normais. Um dia casou, e levou seu amado para longe da tribo. Trocou a floresta verde com todos seus mananciais de águas cristalinas e o voar de lindos passarinhos, pela floresta em concreto armado de águas turvas e fedorentas, e de passarinhos engaiolados. Na floresta de pedra e concreto nada se planta, nada se arranca da terra, tudo é retirado da entranha dos prédios. A terra, já desnuda das árvores e matos rasteiros, é revestida de um manto preto chamado asfalto. A casca das árvores e frutas foi substituída por latas ou plásticos. Na floresta de pedra tudo é diferente da floresta verde. A floresta de cimento aprisiona e maltrata os costumes e conhecimentos da floresta verde tornando-os inúteis e incompreensíveis. O tempo é cruel, e a índia velha foi se desvestindo de sua cultura indígena e se vestindo desta roupagem maldita da cidade. Um dia, a índia velha foi acometida de uma saudade enorme das coisas de sua tribo. Viu a reportagem de um povo primitivo colhendo mandioca e quebrando suas ramas. No final da reportagem muita gente se deliciando com pedaços do tubérculo. Ela se encantou, lágrimas brotaram de seus olhos, e teve uma ideia. - Vou fazer o mesmo para a minha tribo! Pegou seu amado índio, companheiro das solidões da imensa floresta de pedra, e foram visitar seus amigos, e parentes saudáveis na tribo distante lá na floresta verde. - Tenho uma surpresa para vocês! Hoje a gororoba quem faz sou eu. Falou toda animada e saudosa a índia Velha para a tribo reunida. Um pouco desnorteada, e um tanto fora dos costumes da tribo, olhou de um canto ao outro e perguntou. - Onde tem um pé de mandioca por aqui? A índia se perdeu no imenso quintal como se dissipa a mente em mil pensamentos. Colheu o que precisava, e se acomodou no fundo da oca. Tudo estava ardendo na panela de ferro pendurada na trempe. O fogo lambia o fundo da panela enquanto a fumaça ordinária, correndo de um lado ao outro, tentava escapulir de dentro da oca. A índia velha queria fazer uma grande surpresa para a índia maior, mãe de seu amado. E fez. Os índios de cócoras, em volta da trempe, ao iniciar a comilança começaram a rir. A índia mãe do amado da índia velha ao tentar experimentar a macaxeira, puta da vida, pergunta: - Que merda é esta? Você quer matar a tribo toda? A índia velha saiu desenxabida, macambuzia de dentro da oca, e seu amado foi logo em seguir e disse amorosamente. - Meu amor, eu pensei que você soubesse cozinhar mandioca! Ou melhor, eu pensei que você soubesse o que é mandioca! - O que é que eu fiz de errado? - Você, ao invés de cozinhar a raiz cozinhou as ramas! A índia mãe só deixou seu filho voltar para a selva de pedra depois que a índia velha fez na tribo um curso completo de botânica. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

domingo, 13 de abril de 2014

O TERRÍVEL INIMIGO DO MEU PAI

O medo era tanto que as veias desapareceram do corpo de meu pai. A pneumonia é uma doença inflamatória no pulmão, que ainda hoje, se não tiver os cuidados adequados, o paciente pode esticar as canelas para sempre. Naquele tempo, única saída era a cama e muitas agulhadas na carcaça com penicilina. As agulhas eram grossas, fazendo um rombo filho de uma puta na pele, e o medicamento era cruciante para caralho mesmo. Todo mundo tinha, e por certo, ainda hoje tem medo da famigerada injeção. Meu pai, que hoje goza tranquilo seus noventa e nove anos, lá pelos idos da maldita segunda guerra, cabo reformado pelo exército, era um destemido e corajoso desbravador. O mundo para ele era pequeno e nada o amedrontava. Nada mesmo o fazia tremer de medo. Homem simples do campo, mas de objetivos bem definidos, corria atrás do que queria. De boa leitura e sempre bem informado, conseguia alcançar com sucesso o que pretendia. A vida é uma luta, às vezes inglória para muitos, mas para este homem, virtuoso, temente a Deus, corajoso, a vida sempre foi de muitas vitórias. - Eu tenho medo dessa guerra! Dizia chorosa minha mãe para ele. - Mas medo do que, minha nega? Dizia meu pai afagando carinhosamente minha mãe. - Que te levem para lá! Um minuto de reflexão, e então meu pai dizia: - Estamos na mão de Deus! Meu pai não foi para guerra, mas enfrentou um inimigo muito mais cruel; Acabou adquirindo a cruel e famigerada pneumonia. Ele não tinha medo da guerra, dos desafios que a vida lhe apresentava, mas da maldita agulha da injeção isso era terrível para ele. Uma bala de canhão não era tão violenta e destruidora quanto uma agulha de injeção. Esta guerra contra a pneumonia ele venceu recebendo muitas cutucadas de injeção. Eu até acho que não foi a dita penicilina que o curou, mas o medo do monstro chamado injeção. Este homem forte, valoroso, destemido, sempre pronto para qualquer desafio, quando se defronta com a terrível agulha de injeção, se transforma numa medrosa criança, como se tivesse vendo um fantasma. Nos procedimentos finais do tratamento ele precisou tomar uma série de injeções intravenosa de cálcio. Único médico que ele confiava era o doutor Enzo Bonato. Doutor Enzo além de médico deveria ser um mestre em hipnose, pois aplicava no meu pai as injeções na veia sem muitas delongas. Um dia meu pai foi até ao consultório para tomar uma das últimas injeções e lá não estava o Doutor Enzo, estava seu irmão doutor Hélio. - Francisco, pode entrar! Meu pai olhou para ele com um olhar de vítima condenado a forca, e num esforço supremo sussurrou: - Eu espero o doutor Enzo! - Ele não virá hoje, e pediu para que eu aplique a injeção! Pode vir! Meu pai adentrou o consultório como quem vai ao encontro do pelotão de fuzilamento. Lá estava o terrível inimigo dele! A maldita agulha. - Fique calmo que não vai doer nada! Vai ser uma picadinha de formiga. A agulha, na ponta da seringa, parecia maior que o braço do médico para meu pai. Olhou, aquela coisa enorme, angustiado de tal forma que as nádegas se contraíram prendendo a forração da cadeira. O medo era tanto que as veias desapareceram do corpo de meu pai. Doutor Hélio fez um garrote no braço do meu pai tentando encontrar a veia. Friccionou diversas vezes e nada do vaso sanguíneo aparecer. Tentou ser engraçado contando piadas para que ele se descontraisse, mas em vão. Meu pai suava a cântaros. O suor caia em abundância formando enxurrada pelo piso do consultório. E o homem forte, valente, varonil estava fragilizado diante de uma agulha. E nada da veia! Mas nada pode se esconder em definitivo. E a veia, finalmente, trêmula, pedindo clemencia, aparece no braço descolorido do meu pai. Doutor Hélio aproveita a oportunidade e crau! A agulha levemente tocou o braço, e que foi o suficientemente para meu pai ser nocauteado. Despencou feito um saco de batata desmaiado ao chão. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA