MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
domingo, 18 de maio de 2014
UMA CASA SURREAL
Você é um abestado se pedir para uma virgem que explique em detalhes como é a dor do parto; é o mesmo que perguntar para um representante nosso no governo o valor exato do salário mínimo. Isto é inócuo, pueril e vexatório.
Quem faz é aquele que sabe!
Meu filho, o Conde Baltazar, deliberou com ele mesmo, que o mundo é muito complexo e aparentemente sem sentido e absurdo. Resolveu então dar significado a sua vida e vive-la de maneira sincera, pura e selvagem construindo tão e simplesmente uma cabana no meio da floresta.
Foram tantos os conselhos meus, mas contra argumentados fortemente pela sua axiomática fé e inabalável decisão de seguir em frente com seu projeto salvador da vida. Queria com isso, de qualquer forma, chegar a uma vida gratificante, saudável, ultrapassando para isso qualquer obstáculo que se opusesse.
Não valeram meus insistentes apelos nem minha experiência. Ele se jogou de corpo e alma na realização de seu inocente sonho.
Para fugir do arquétipo mundo nojento e cheio de amarras resolveu ser simples, e ele mesmo construir o que ele chamaria de berço natural e livre da natureza. Foram muitos dias de árduo trabalho para abrir uma picada na mata densa, e ao final dela uma clareira. Dias e dias batalhou, suou a cântaros, criou calos doloridos nas mãos, e aos poucos se rendeu vindo pedir arrego e algumas sugestões.
Ajudei logisticamente na compra do material que faltava e dei alguns conselhos práticos:
- Não se esqueça do plumo, nível e esquadro na hora da construção.
Tentou iniciar a obra.
Só tentou.
Vencido pela pouca experiência em construção, pediu arrego a um assentador de pedras. Por sinal, vi alguns trabalhos em pedra desse artífice e me rendi ao capricho dele.
- Ele vai assentar as pedras e levantar para mim as paredes.
- Mas meu filho! Comentei preocupado com ele.
- Ele é um artista da pedra e não da madeira.
Tão pouco ligou para mim.
A casa foi construída. Pequena, singela, mas infernalmente radical.
Um artista surrealista jamais usará um esquadro, plumo ou nível em suas obras.
Incrivelmente a casa existe. Para quem olha de longe é uma verdadeira pintura surrealista – Bisonha, irreal, exótica plantada disforme no meio da floresta.
Eu acho que o Conde Baltazar não concorda mesmo com nada deste mundo, pois acabou transgredindo ao por violentamente as leis de Newton em xeque.
A casa projetada para ser uma figura retangular acabou sendo um trapézio. As paredes que eram para ser perpendicular ao eixo do horizonte acabaram pedindo arrego, inclinadas para deitar.
Mas esta casa existe e resiste. Está lá soberba e amparada.
Permanecerá de pé, gloriosamente grotesca, enquanto as quatro árvores que a sustentam não forem abatidas.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
quarta-feira, 7 de maio de 2014
CARTA PRO MEU PAI NOS SEUS 99 ANOS
- Meu querido e amado pai Francisco! Respeitosa e humildemente beijo-lhe a mão.
Todo o amor que devoto ao senhor será sempre insuficiente para mostrar à eterna gratidão pelo pai amoroso, desvelado, respeitoso e exemplar que tive, e que por uma benção especial de Deus ainda tenho.
Não me canso de agradecer ao nosso Criador pelo maravilhoso e inestimável presente em mantê-lo entre nós, assim tão lúcido e capaz aos noventa e nove anos.
Aqui no meu canto, tão longe daí, fico muitas vezes matutando, e assim me perco num passado gostoso, aprazível e distante de minha infância querida. Recordo-me do pai atencioso, afável e preocupado com seus filhos; Vejo-o amoroso, com devotada proteção, cercando de mil cuidados, conversando com minha mãe.
Meu querido e amado pai, quantas vezes ao falar em público, citando o exemplo forte de um homem que admiro, que venero, e que me acompanha, passo a passo, na minha vida, vem alguém fascinado curiosamente perguntar:
- Quem é esse homem maravilhoso? Diga por favor!
E eu então, todo orgulhoso, estufando o peito não me canso de falar.
Ele é o homem em que me espelho, é o meu eterno guru, que soube me educar, e que tem uma vida exemplar, impecável, para eu seguir. É o homem que soube mostrar o que é o amor e o carinho por uma mulher, respeitando e amando gentilmente minha doce mãezinha.
É o homem que me ensinou, com sua paciência e exemplo, como educar um filho; Nunca nos confundia com suas determinações, pois seu sim era sim e seu não era não.
Aprendi com ele a ser um pai presente. Quantas vezes vi meu pai quase esmagado pela multidão, de pescoço esticado só para me ver marchando em desfiles comemorativos pela escola. Naquele momento eu queria parar o desfile, e gritar para todo mundo ouvir, apontando para aquele gigante, de bigode preto, bem alinhado, esticando-se todo para me ver:
- Aquele ali é meu pai! Aquele é meu pai!
Sufocava meu grito, enxugava minhas lágrimas e todo garboso, marchava firme, batendo mais forte ainda meu pé ao som dos tambores, sabendo que meu pai me seguia com o olhar.
Aprendi, pelo seu exemplo, o ato nobre da caridade.
Quantas vezes o acompanhei nas caminhadas longas de domingo, após a missa, para visitar famílias e pessoas necessitadas. Sou testemunho, me comovendo com a alegria das pessoas quando ele chegava. Pacientemente ele ouvia cada um, anotava e aconselhava confortando suas penúrias. Distribuía o que era necessário, orientava a regularização de documentos e encaminhava os doentes ao médico.
É o homem que pelo seu modelo de vida me ensinou a respeitar os mais velhos, os animais e a natureza. Foi ele que me ensinou a magia da leitura.
Orgulhosamente sou professor de tanto ouvi-lo dizer para nós:
- O professor tem nessa terra uma missão divina! Temos que ouvir, respeitar e seguir seus conselhos se pretendemos ser alguma coisa na vida.
Foi ele que nos ensinou que o presente de Natal não é o Papai Noel que nos trás. Pela magia da primeira estrela que surge no céu, o presente aparece ao lado do presépio, enquanto contritos, ajoelhados, rezávamos o Pai Nosso no pedido de misericórdia pelos inocentes pecados cometido.
Nada o deixa triste! É temente a Deus e de uma fé inabalável. Quando moleque nunca o vi chorar, mas um dia estas lágrimas apareceram e apareceram em profusão. Sua irmã Judith desenganada pelos médicos entregava, pouco a pouco, sua alma a Deus e então esse grandioso homem despencou em lágrimas, o vi chorar pela primeira vez copiosamente. Estas lágrimas abriram caminho para outras tantas. Quando minha mãezinha faleceu eu vi, contristado, muitas lágrimas lavarem o seu rosto envelhecido ao lembrar com saudade da sua companheira de tanto tempo, de tantas lutas, de tantas realizações.
As pessoas se encantam ao me ouvir contar isso com tanta emoção, e muitas vezes comentam:
- Você é abençoado por ter um pai assim! Quem me dera ter um pai igual a esse fabuloso homem!
Ah! Meu lindo pai, meu querido índio velho, tenho tantas lembranças suas de quando era menino que se narradas todas daria um enorme livro.
Algumas são fortes e que me parece aconteceram ontem. Por exemplo, aos domingos no programa da rádio Nacional “Quando os ponteiros se encontram” lá estava você todo, atento de ouvidos pregado no rádio, para ouvir o rei da voz Francisco Alves. Tomei gosto pela música e admirava o cantor das multidões. Vi sua fisionomia contristada em setembro de 52 quando o cantor morreu em acidente. Fiquei triste também.
Meu querido e amoroso pai, só tenho boas lembranças suas.
Hoje, me achego através desta carta para respeitosamente beijar sua mão e pedir uma benção muito especial, para este filho que o ama, que o venera e o admira muito.
Parabéns pelos seus bons, graciosos e lindos noventa e nove anos.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
domingo, 27 de abril de 2014
CORRENDO ATRÁS DO VENTO: A MANDIOCA MUITO ESTRANHA
CORRENDO ATRÁS DO VENTO: A MANDIOCA MUITO ESTRANHA: - Que merda é esta? Você quer matar a tribo toda? O elemento, de que será alvo a minha crônica, é nada mais, nada menos que a apetitosa...
Mario dos Santos Lima
Mario dos Santos Lima
A MANDIOCA MUITO ESTRANHA
- Que merda é esta? Você quer matar a tribo toda?
O elemento, de que será alvo a minha crônica, é nada mais, nada menos que a apetitosa raiz tuberosa comestível.
A índia velha vivia, como qualquer outra, na tribo envolvida em suas atividades normais. Um dia casou, e levou seu amado para longe da tribo. Trocou a floresta verde com todos seus mananciais de águas cristalinas e o voar de lindos passarinhos, pela floresta em concreto armado de águas turvas e fedorentas, e de passarinhos engaiolados.
Na floresta de pedra e concreto nada se planta, nada se arranca da terra, tudo é retirado da entranha dos prédios. A terra, já desnuda das árvores e matos rasteiros, é revestida de um manto preto chamado asfalto. A casca das árvores e frutas foi substituída por latas ou plásticos.
Na floresta de pedra tudo é diferente da floresta verde. A floresta de cimento aprisiona e maltrata os costumes e conhecimentos da floresta verde tornando-os inúteis e incompreensíveis.
O tempo é cruel, e a índia velha foi se desvestindo de sua cultura indígena e se vestindo desta roupagem maldita da cidade.
Um dia, a índia velha foi acometida de uma saudade enorme das coisas de sua tribo. Viu a reportagem de um povo primitivo colhendo mandioca e quebrando suas ramas. No final da reportagem muita gente se deliciando com pedaços do tubérculo.
Ela se encantou, lágrimas brotaram de seus olhos, e teve uma ideia.
- Vou fazer o mesmo para a minha tribo!
Pegou seu amado índio, companheiro das solidões da imensa floresta de pedra, e foram visitar seus amigos, e parentes saudáveis na tribo distante lá na floresta verde.
- Tenho uma surpresa para vocês! Hoje a gororoba quem faz sou eu. Falou toda animada e saudosa a índia Velha para a tribo reunida.
Um pouco desnorteada, e um tanto fora dos costumes da tribo, olhou de um canto ao outro e perguntou.
- Onde tem um pé de mandioca por aqui?
A índia se perdeu no imenso quintal como se dissipa a mente em mil pensamentos. Colheu o que precisava, e se acomodou no fundo da oca. Tudo estava ardendo na panela de ferro pendurada na trempe.
O fogo lambia o fundo da panela enquanto a fumaça ordinária, correndo de um lado ao outro, tentava escapulir de dentro da oca.
A índia velha queria fazer uma grande surpresa para a índia maior, mãe de seu amado.
E fez.
Os índios de cócoras, em volta da trempe, ao iniciar a comilança começaram a rir.
A índia mãe do amado da índia velha ao tentar experimentar a macaxeira, puta da vida, pergunta:
- Que merda é esta? Você quer matar a tribo toda?
A índia velha saiu desenxabida, macambuzia de dentro da oca, e seu amado foi logo em seguir e disse amorosamente.
- Meu amor, eu pensei que você soubesse cozinhar mandioca! Ou melhor, eu pensei que você soubesse o que é mandioca!
- O que é que eu fiz de errado?
- Você, ao invés de cozinhar a raiz cozinhou as ramas!
A índia mãe só deixou seu filho voltar para a selva de pedra depois que a índia velha fez na tribo um curso completo de botânica.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
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