sábado, 18 de outubro de 2014

BALA PERDIDA

Um corpo é atingido, e alguém desesperado grita: - Está morto! Foi bala perdida! Mas foi mesmo uma bala perdida? Perdida é um termo muito pejorativo, ultrajante. Hoje não sei, mas nos meus lindos e idos tempos de criança, quando se falava em perdida era para simplesmente se referir aquela mulher vadia que resolveu, por prazer ou negócio, usar seu corpo em deleites mil, proibitivos pela sociedade. Perdeu a virgindade fora do leito nupcial era uma perdida. Mas e a bala? Será que ela perdeu alguma prega? É ela uma desvairada que por isso anda as tontas matando esse e aquele vivente? A bala tem vontade própria? E a dúvida permaneceu até que resolvi conversar com uma dessas tresloucadas. E fui. Um corpo inerte teimava em permanecer numa poça de sangue. Pulei por cima dele, e fui ao encontro da bala perdida. Lá estava ela estatelada presa na parede. Cheguei, medrosamente de mansinho, e vi a insana tentando desesperadamente se desprender da parede em que se alojou. Trazia ainda resquícios do sangue da vítima que ela miseravelmente atravessou. - E aí sua perdida, satisfeita com o que acabou de fazer? - Não sou perdida! Respondeu-me ríspida a bala toda deformada presa na parede. Parou de se movimentar, olhou-me demoradamente e continuou no seu sibilar: - Sou o acaso, mas não sou o caos! Estou na malquerença de um corpo inocente que apodrece! Não me controlo; a direção se estabelece a partir de um maldito estampido! Sou ejetada, e pelo caminho ouço gemidos e só paro esfacelada grudada nas paredes. Parou um pouco e perguntou: - Sou apenas isso! Sou perdida por isso? Não respondi, tal era meu ódio por ela. - Sou fruto de desavenças, de descontroles; culpam-me para desculpar a mão assassina destreinada! Parou um pouco pensativa e continuou no seu zumbido. - O corpo que ali está estendido ninguém sabe quem matou, mas todos gritam em uníssono: -“Foi a bala perdida!”. Pensou um pouco e continuou. - Destruam todas as armas de fogo, e todas as balas perdidas desaparecerão! Silenciou, não quis mais conversa comigo. Num último esforça ela se desprendeu de onde estava e foi se acomodar no chão. Minha vontade foi de pisar nela. Não o fiz porque não deu tempo. Ouço um tumulto, gritos e estampidos; Uma bala sibila perto de mim e um corpo gemendo se estatela no piso. Joguei-me apavorado onde estava, de bruços, com a mão na cabeça. Quando o rebuliço se amainou, levantei vagarosamente a cabeça olhando de um lado e de outro, e apenas vi alguém, que curvado sobre a vítima, gritava por socorro. Perguntei para meus botões: - Puta merda, será que foi outra bala perdida? POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

domingo, 12 de outubro de 2014

AS MENINAS DE PROGRAMA

Estas criaturas, sirigaitas da vida, existem desde que Deus perdeu o controle da humanidade para o capeta. No tempo de Jesus elas eram sumariamente apedrejadas até a morte, com exceção de uma ou de outra que fora salva pelo Bom Pastor, mas hoje estas piranhas safadinhas estão soltinhas por aí, e por incrível que pareça até se discute no congresso nacional a aprovação de uma lei regulamentando a profissão de prostituta como uma atividade prestadora de serviço. Perguntaram ao Papa o que ele achava destas vadias ele disse: - Quem sou eu para condenar se nem Jesus Cristo condenou? No meu tempo de moleque elas tinham permissão, para num dia x da semana, sair de seus puteiros para compras na cidade e exibir seus predicados. As boas e santas senhoras de família, neste dia, se fechavam em casa, rezando terços e cuidando atentamente de seus filhos que ainda eram desprovidos de pelos nos sacos. Hoje estas assanhadas sexuais lamentavelmente se misturam nas famílias, nas igrejas, ruas, escolas e na política. Será que o mundo virou um prostíbulo? As mariposas pecadoras se esgueiram pelas sombras na busca de uma tênue luz para iluminar seus devassos prazeres. Os incautos caem como moscas no mel. E assim caminha a humanidade. Ainda não conhecia meu vô Moises, e por certo bateu nele uma vontade louca de conhecer seus netos desconhecidos que moravam na distante cidade de Apucarana, e resolveu viajar. Meu avô combinou com seu filho Hugo, meu tio, irmão de meu pai, e programaram a viagem para o norte do estado. Embarcaram no vapor em São Mateus, e em Porto Amazonas pegaram o trem para Curitiba. Depois de quase três dias de cansativa viagem chegaram finalmente de trem em Apucarana. Meu tio Hugo era ainda glabro, pois pela pouca idade de seu esqueleto, era de rosto e saco completamente pelado. Eu tenho uma lembrança um tanto vaga desse tempo, mas sei que foi uma bela festa, e muita alegria com a chegada do vô Moises e tio Hugo. Vô Moises era um caboclo muito curioso, e gostava de desvendar todos os segredos da vida. Havia muitas novidades que ele foi pesquisando e anotando. Um dia, depois do café da manhã, saiu ele em companhia do tio Hugo para uns passeios de reconhecimento. O almoço chegou, e ficamos preocupados com a ausência dos dois. Um celular nesse momento ajudaria bastante, mas naquela época nem telefone existia, apenas o telégrafo. Almoçamos e a mãe teve o cuidado de deixar dois pratos prontos na beira do fogão à lenha. Já na boca da noite chegaram os dois. O vô Moises sério e o tio rindo. A um canto meu pai e os dois confidenciavam alguma coisa e lembro que o pai perguntou: - Mas como é que vocês caíram nessa? Pelo desenrolar da conversa entendi que meu avô acabou perdendo todo o dinheiro que tinha para umas alegres meninas. Só sei que meu pai teve que financiar a volta dos dois. Cogitando cá com meus botões eu construí alguns cenários. Ou era dia de permissão para as garotas do prazer andarem zanzando, sacolejando seus quadris pela cidade na busca de auxílio, e meu avô resolveu ajuda-las caridosamente com alguma quantia de dinheiro. Ou então uma putinha, vadia safada, resolveu aplicar o golpe amoroso nele. Meu pai nunca me revelou o que realmente aconteceu, mas eu sei que ele sabe, lá isso ele sabe com precisão, o que aconteceu com o pai e irmão dele naquele dia. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

domingo, 5 de outubro de 2014

CONVERSANDO COM DEUS

Corta profundamente meu coração ver um idoso solitário sentado num banco de praça. Era um daqueles entardecer gelado, com um chuvisco ordinário molha trouxa, que eu, de passos largos, atravessava a praça quando deparo com uma figura simpática, mas um tanto triste, de um velhinho de barba branca desalinhada, um tanto maltrapilho. Acerquei-me dele, pedindo licença, e sem cerimônia sentei. O peso, dos agasalhos que eu tinha nas costas, aliviei-o colocando nas costas do miserável, e com ele tabulei uma conversa: - Que olhar triste é esse meu bom velhinho? Você não tem casa ou família? Ele olhou-me demoradamente, e num suspiro respondeu. - Tenho sim, mas me expulsaram dela. - Mas como isso aconteceu? Vamos já conversar com sua família! Novamente ele me olhou nos meus olhos, e lamentou: - Eu sou Deus, e cada um de vocês me expulsou-me de seus corações, de suas casas! Eu achei isto bastante espirituoso do bom velhinho, e dessa forma resolvi alimentar a sua imaginação entrando no mesmo espírito de conversa. - Eu acho que você era muito severo! Iniciei minha argumentação para justificar a expulsão dele dos corações e das casas dos viventes. Sem tirar seus olhos fixos no chão perguntou-me. - Como muito severo? Resolvi fazer de conta que isto tudo era um teatro, e assim, eu criatura dando conselhos ao seu criador no palco da vida. Acomodei melhor meu corpo virando-me para o lado dele. Com voz firme desabafei: - Quando criança você para mim era um monstro, me assustava muito; Castigava severamente; mandava as crianças para o inferno, e dizia que era nosso pai! Você não era meu pai, era meu algoz! Eu confesso que tinha medo daquele olho grande desenhado nas Igrejas onde você dizia “Eu vejo tudo”. E via mesmo! Eu não podia fazer qualquer peraltice que minha mãe ficava logo sabendo, e como castigo recebia umas chineladas na bunda. Confesse, você fuxicava para ela, eu sei! Olhei para ele, e percebi que de seus olhos escorriam lágrimas, mas cruelmente completei: - Eu tinha raiva de você! Eu queria que você morresse! Ele então me interrompeu dizendo: - E sou o criador de tudo, e de todos, e amo cada célula, cada molécula que existe nesta vida. A imagem de pai severo não fui eu que criei. Mas confesso que mesmo assim eu gostava dessa analogia de pai severo, de pai que castigava, porque desta forma era lembrado e venerado pelos mais velhos. Hoje o seu deus é outro monstro, um monstro construído na imaginação perversa da humanidade que vive do imaginário, e não do real. Eu fui trocado por lobos, por bichos papão, pelo homem do saco, pela feiticeira. E continuou choroso: - Já nem estou mais nas igrejas com meu cruel olhar! Já não sou mais lembrado nas orações da noite ao deitar, ou na hora das refeições! E completou amargamente: - Sou apenas uma terrível ficção! Sou um zé ninguém! Ele abaixou a cabeça, e eu continuei na minha representação teatral. - Não! Você não é uma ficção, você é uma realidade visível! Você é real na maravilha que a vida é! Você é real na beleza tanto do amanhecer, como do entardecer! Você é real no mistério da vida! Você é o mistério que procuramos entender! E completei. - No próprio ódio, na própria desavença você é real no amor que deve existir. Você é o todo nas parcelas que cada um de nós somos. Ele olhou-me admirado, levantou-se vagarosamente, colocou a mão em minha cabeça como se estivesse me abençoando, e em passos lerdos foi se afastando, e como uma figura brilhante na tênue neblina desapareceu. E a peça terminou! Fiquei então me perguntando: - Será que falei com Deus? POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

domingo, 28 de setembro de 2014

MÃO SUJA

Imagino que eu era uma pessoa mais ou menos teimosa quando criança. Tinha por certo uma personalidade marcante. O teimoso normalmente se recusa a aceitar as evidências, e comigo acabou acontecendo isso uma vez. Meu pai um dia contou um caso interessante que aconteceu comigo, e eu me lembro ainda da cena. Deus por certo quando começou a pintar o planeta errou na dose de tinta ao colorir a terra na região de Arapongas. É de um marrom sangue de boi amanhecido. É tão grudento, mas tão grudento que acho ser pior que o capeta tentando o vivente pecador. A terra daquela região deve ter alguma substância ácida, pois quando criança, nossos pés, pelos folguedos descalços, viviam encardidos com sulcos doloridos quase sangrando. Minha mãe sempre dizia: - Não brinquem descalço nesta terra! Criança obedece? Só quando dorme. Muitas vezes minha mãe ficava endoidecida com minha desobediência, e rolava então umas chineladas doidas na bunda. As chineladas tinha a função de avivar assim o cérebro, lá na parte das lembranças, das coisas que podia e das que não se podia fazer. Era sintomático, depois das chineladas amorosas recebidas, lá ia eu fazer exatamente o que minha mãe não gostava ou que tinha proibido. Fazia por birra ou por vingança, nem sei. Ironicamente eu a provocava chafurdando na terra que Deus errou na receita da cor. Enxovalhava-se todo em represália ao castigo recebido dela. Minha mãe não se dava por vencida. Mais chineladas na bunda, e aí eu me rendia num choramingar ranhoso, grudado nas pernas dela. A arma da criança é saber precisamente o que os pais não gostam, para usar exatamente isso como forma de contestação, ou para simplesmente conquistar alguma coisa. E eu continuei por muito tempo tentando conquistar isto ou aquilo, sujando meus pés e minhas mãos naquela grudenta terra vermelha. Certa feita, fomos visitar pessoas ligadas ao nosso sangue, as quais meus pais chamavam de parentes. Elas moravam em São Mateus. A viagem de vapor de Porto Amazonas a São Mateus durava uma noite. Para mim era quase um século. Convenhamos que para uma criança tanto tempo presa, ou no camarim ou sendo monitorada no convés, ultrapassa o limite da paciência. Pouco santo que era, devo ter aprontado poucas e boas nesta viagem, e recebido algum corretivo um pouco menos santificante. O vapor atracou finalmente no porto. Eu, preso pelas mãos cuidadosa e atentas de minha mãe, desci lépido pelo trapiche já com o plano infernal arquitetado. - Agora vou à desforra total! Acredito que, raivoso naquele momento, pensei. Imediatamente me desgrudei dela, e para mostrar toda minha força, e me vingar me joguei feito um doido naquela terra, esfregando sofregamente minhas mãos nela. O povo parou por momentos imaginando que fosse a apresentação de alguma performance. Minha mãe gargalhou, num gargalhar gostoso acompanhado de meu pai. Como o riso é contagiante o povo riu ruidosamente também, principalmente quando me levantei, e assustado verifiquei que minhas mãos continuavam limpas. Detestei aquela terra argilenta que não me sujou as mãos; Deus, com certeza, descuidado esqueceu-se de colocar nela a tinta vermelha. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA