domingo, 9 de novembro de 2014

MINHA VÓ ROSÁLIA

Se nesta vida existiu alguém otimista, animada com tudo e com todos, entusiasmada e de bem com a vida, este alguém, com certeza foi a simpática e alegre senhora dona Rosa – a cartomante - como era conhecida a minha eterna vozinha. Viúva que fora, não desfrutava das benesses da aposentadoria, e desta forma, como forma de sobrevivência, usava de seu dom natural de clarividência. As cartas, as quais tenho ainda carinhosamente guardadas, serviam como mecanismo de disfarce para suas visões. De certa forma as cartas exerciam um fascínio misterioso nas pessoas que a procuravam. Para elas eram as cartas, cortadas e embaralhadas metodicamente, a porta que se abriam para dar informações das sinas ou sortes de um porvir enigmático. Do meu quarto, que era contíguo à sala das revelações, eu muitas vezes ouvia-a descrevendo o que as visões mostravam para o futuro – sempre boas, mas quando ela via nuvens negras no porvir, com habilidade disfarçava isso orientando com bons conselhos. As pessoas saiam felizes. Ela foi minha madrinha de batismo. Quando nasci, presenteou-me com uma pena de aço para escrever dizendo para meus pais: - Este guri vai ser um grande homem! Realmente sou um grande homem, tenho um metro e oitenta de altura; Dela, através de minha mãe, é que herdei os lindos olhos azuis que tenho. Ela pedia, e ficava feliz quando lia as poesias e crônicas que eu constantemente escrevia. Talvez meu fascínio por escrever tenha como elo a pena de aço que recebi. Esta pena é o pacto indelével que se fez entre mim e a minha doce e graciosa vozinha. Ela era extremamente elegante tanto no trato como na fala. Ela não se intimidava com as adversidades que se apresentavam, e numa sabedoria toda dela, dizia tranquilamente: - Deus dá o frio de acordo com as cobertas que temos! Muitas vezes esta frase serviu-me de alento quando me via apavorado em situações que pareciam não ter saída. De estirpe nobre, mesmo nas condições de necessidade, conservava a essência do bom viver com as pessoas. Não era altiva, mas o suficiente corajosa nas adversidades. Morei com ela muito tempo. Fui adotado quase como filho. Eu era o seu protegido, e seu confidente. Gostava de ouvi-la! De absorver a sua dócil presença. Quando ela se casou, era uma menina de treze anos. Até o dia do casamento tinha visto meu avô apenas três vezes. A primeira apenas de costas, observando-o da janela do sótão quando ele saia de sua casa acompanhado dos pais. A segunda quando se oficializou o noivado, ela a um canto com seus pais e ele no outro canto com os pais dele. - Não houve nem uma troca de palavras entre vocês? Perguntei curioso para ela. - Não, apenas nos olhamos furtivamente. A terceira, no altar, no dia do casamento. Ela me confidenciou que não sabia nada de sexo quando se casou, e então afoito, não pude deixar de perguntar. - E como foi a primeira noite? Ela rindo, não muito a vontade, respondeu. - Foi uma confusão danada! Confesso que fiquei bastante assustada. Foram tantas as boas prosas e os bons conselhos. Lembro-me contristado do último encontro, alguns dias antes dela falecer. Num abraço bom, carinhoso, batendo de leve nas minhas costas disse amorosamente: - Lembre-se que para chegar a onde queremos, percorremos uma estrada, que muitas vezes se apresenta cheia de pedras e poeirenta! POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

domingo, 2 de novembro de 2014

MINHA MÃE, A GENEROSA DOUTORA DOS ANIMAIS

O médico é um ser vocacionado que fica entre a bondade máxima do homem e a pureza indiscutível dos anjos. É um iluminado no cumprimento de seus afazeres, no restabelecimento cuidadoso do enfermo, ou então no triste dever de assistir o moribundo no desfecho final, e depois consolar seus amigos e familiares. Minha mãe em medicina não era de diploma formada, mas suas mãos de fada, mágicas até, e porque não, santas também, nos curavam das feridas fruto de nossas inúmeras peraltices. Pela sua doçura, e delicadeza no trato, a dor se tornava insignificante. De minha mãe eu tenho na lembrança a generosidade e o amor que ela tinha pelos animais. Na mão dela os animais feridos se deliciavam anestesiados pelo seu desvelo. Um dia ela salvou um pássaro preto, que já estava abocanhado por um felino. Agonizante, quase depenado, com uma das pernas quebradas, parecia implorar ajuda. Minha mãe, docilmente afagou em suas mãos dando-lhe calor e agua para seu bico entreaberto. Sua perna dilacerada foi recomposta com dois palitos de fósforo como tala, e um esparadrapo para dar firmeza e a condição de cura. Este pássaro, por muito tempo, foi o enlevo de minha mãe, pois o farto e bom prato tornou-o por demais pesado para que fosse suportado pelas suas asas nas alturas. Preferiu, desta forma, o conversar tranquilo com minha mãe do que o voar perigoso neste mundo cruel de seus predadores. Paciência é o que não faltava para ela. Um dia o gatinho nasceu troncho, e o conselho geral era o sacrifício da matança. - Este gato vai morrer a mingua! Diziam para minha mãe. Mas ela, com a generosidade que cabia em sua alma benevolente, deu uma oportunidade de vida aquele infeliz bichano. Cuidava da mamadeira feita de vidro de remédio e como chupeta, o conta-gotas. Três vezes ao dia fazia fisioterapia no animal. E ela conseguiu o que parecia impossível. Gato não tem o dom da fala para mostrar gratidão ao que minha mãe fez por ele, além do que este bichano já está morto. Morreu de morte natural correndo atrás dos ratos, e subindo em árvores tentando pegar os passarinhos. Minha mãe no quintal tinha umas galinhas, e um galo safadão sarado, possuidor de uma espora enorme, para dar assistência sexual a elas. Eu acho, que pelo ato cruel que praticou um dia, este galo deveria ser um tarado enrustido, ou então já não estava gostando de se relacionar mais com as mesmas galinhas. Certa feita alguém deixou uma franguinha para minha mãe cuidar. Ela foi, inocentemente, solta no quintal junto às outras galináceas. Quando o senhor galo descobriu aquela coisinha, cheirando ainda a ovo, solta no meio de outras galinhas, não teve por onde, perdeu o controle, e feito um doido correu atrás dela. Desvirginou impiedosamente a pobre franguinha, que ficou estatelada no chão. O maldito galo, com suas enormes esporas e de peso avantajado acabou dilacerando toda a pele do dorso da coitadinha. Depenou-a de alto a baixo sem misericórdia. Lá vai então minha mãe em socorro da pobre franguinha. As costelas estavam à amostra. - Termine de matar e vamos fazer uma canja! Alguém sugeriu. Mas minha mãe viu ainda vida naquela coitada. Prendeu os pés da franguinha no meio de suas pernas, passou mercúrio e com uma agulha começou o processo de costurar a pele despenada solta. A cada agulhada e franga cacarejava croc, croc. Feia, sem as penas no lombo, se tornou senhora do terreiro. Depois de muitos ovos esta franguinha um dia transformou-se numa gostosa canja. Muitas, e muitas histórias teria eu para contar desta generosa e linda mulher! A suave presença de minha mãe com sua benevolência, sua delicadeza, seu altruísmo, seu desapego e sua ternura me faz muita falta hoje. Os animais feridos aqui da terra tem saudade dela; Eu tenho certeza que São Francisco a levou para cuidar dos animais lá no céu. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

sábado, 25 de outubro de 2014

HOMEM DO SACO

Eu duvido que exista algum vivente vivo ou morto, respirando ou não, nesse imenso universo, que não tenha sido ameaçado pela sua mãe, pela sua tia ou pela avó com o aterrador homem do saco. - Se você fizer isso! Se você aquilo! Se você etc. e etc. e tal, o homem do saco vai pegar você! O homem do saco era assustador! Vinha sorrateiramente e ensacava as traquinas crianças. Que medo filho de uma puta eu tinha dessa indecente, e misteriosa figura que nunca tive o desprazer de conhecer. Eu acho que tinha mais medo do homem do saco do que do capeta. O capeta, conforme aprendi, sempre foi o cara das travessuras, das sacanagens, e eu sempre fui muito ligado às estripulias, e as confusões. Se fosse preciso eu seria amigo do capeta e mandava matar o homem do saco. Eu o imaginava um monstrengo desfigurado que pegava as crianças, e as transformava em pasteis que vendia nas feiras. Por isso nunca gostei de pastel! Sabe-se lá deus o que tem dentro deles. Certa feita, moleque ainda, sem os pelos no saco, caminhava lado a lado com meu pai. O destino era a Igreja. Avistei, dirigindo-se a nós, um arquejado e debilitado andarilho. Trajava imundos e rotos trapos. Uma barba imensa, desalinhada, cobria sua face. Trazia sofregamente um saco sujo e enorme nas costas. - São as crianças arteiras que ele pegou! Imaginei medrosamente olhando aquele saco. Meu pai, de passos largos, fazia com que aquele monstro se aproximasse mais rapidamente de nós. Grudei nas calças dele e comecei a choramingar. - Não deixe esse cara me pegar! Não quero virar pastel! Puxava ainda mais forte a perna da calça olhando suplicante para meu pai. - Eu prometo! Vou ser bonzinho! Como estava atrapalhando o andar de meu velho, ele retirou minhas mãos da calça dele me repreendendo. - O que é isso moleque? O que está acontecendo com você? Nesse momento a figura indescritível já estava próxima de nós, e eu, petrificado, apenas pude e tão somente apontar com o dedo para a figura horrorosa. Não me lembro, mas devo ter evacuado e mijado nas calças quando aquilo se dirigiu para meu pai. No momento pensei: - Pronto, meu pai vai me entregar a esse asqueroso velho, e eu vou estar dentro do saco dele junto com outras crianças, e desesperado conclui: - Vou virar pastel! O maldito homem do saco não morre, é eterno, deve ter milhares de anos, e milagrosamente ainda está muito bem. O amaldiçoado, que se dirigiu ao meu pai, ainda caminhava muito bem, e sem auxilio da bengala. Por sorte meu pai não me entregou a ele. Concluo que naquele momento ele já estava com o saco cheio, viso que simplesmente pediu ao meu pai uns trocados para comprar comida. Meu pai deu a esmola, e graças a Deus tal qual ele chegou desapareceu. Cheguei são e salvo a Igreja. Agradeci pelo milagre de ainda estar vivo e não ter virado pastel. Nas minhas orações fervorosamente pedi para que o monstro sempre estivesse de saco cheio, e com muita fome. Sempre gostei de desafios, e por isso continuei, por muito tempo ainda, fazendo traquinagens. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

sábado, 18 de outubro de 2014

BALA PERDIDA

Um corpo é atingido, e alguém desesperado grita: - Está morto! Foi bala perdida! Mas foi mesmo uma bala perdida? Perdida é um termo muito pejorativo, ultrajante. Hoje não sei, mas nos meus lindos e idos tempos de criança, quando se falava em perdida era para simplesmente se referir aquela mulher vadia que resolveu, por prazer ou negócio, usar seu corpo em deleites mil, proibitivos pela sociedade. Perdeu a virgindade fora do leito nupcial era uma perdida. Mas e a bala? Será que ela perdeu alguma prega? É ela uma desvairada que por isso anda as tontas matando esse e aquele vivente? A bala tem vontade própria? E a dúvida permaneceu até que resolvi conversar com uma dessas tresloucadas. E fui. Um corpo inerte teimava em permanecer numa poça de sangue. Pulei por cima dele, e fui ao encontro da bala perdida. Lá estava ela estatelada presa na parede. Cheguei, medrosamente de mansinho, e vi a insana tentando desesperadamente se desprender da parede em que se alojou. Trazia ainda resquícios do sangue da vítima que ela miseravelmente atravessou. - E aí sua perdida, satisfeita com o que acabou de fazer? - Não sou perdida! Respondeu-me ríspida a bala toda deformada presa na parede. Parou de se movimentar, olhou-me demoradamente e continuou no seu sibilar: - Sou o acaso, mas não sou o caos! Estou na malquerença de um corpo inocente que apodrece! Não me controlo; a direção se estabelece a partir de um maldito estampido! Sou ejetada, e pelo caminho ouço gemidos e só paro esfacelada grudada nas paredes. Parou um pouco e perguntou: - Sou apenas isso! Sou perdida por isso? Não respondi, tal era meu ódio por ela. - Sou fruto de desavenças, de descontroles; culpam-me para desculpar a mão assassina destreinada! Parou um pouco pensativa e continuou no seu zumbido. - O corpo que ali está estendido ninguém sabe quem matou, mas todos gritam em uníssono: -“Foi a bala perdida!”. Pensou um pouco e continuou. - Destruam todas as armas de fogo, e todas as balas perdidas desaparecerão! Silenciou, não quis mais conversa comigo. Num último esforça ela se desprendeu de onde estava e foi se acomodar no chão. Minha vontade foi de pisar nela. Não o fiz porque não deu tempo. Ouço um tumulto, gritos e estampidos; Uma bala sibila perto de mim e um corpo gemendo se estatela no piso. Joguei-me apavorado onde estava, de bruços, com a mão na cabeça. Quando o rebuliço se amainou, levantei vagarosamente a cabeça olhando de um lado e de outro, e apenas vi alguém, que curvado sobre a vítima, gritava por socorro. Perguntei para meus botões: - Puta merda, será que foi outra bala perdida? POR: MARIO DOS SANTOS LIMA