quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O DONO DA FESTA

Que este Natal e Ano Novo sejam mais do que confraternizações porque todos os momentos, em especial este novo ano, deverão ser iluminados, abençoados e que os 365 dias, sejam vividos na sua totalidade. Já que Natal significa: renascer. Paz, conquista, compreensão, reflexão, prosperidade. Feliz Natal e Ano Novo! NÃO ESQUEÇAM DE CONVIDAR O DONO DA FESTA.

sábado, 13 de dezembro de 2014

A BAILARINA

Um dia parei no sinal e não vi a bailarina. O movimento da rua era normalmente intenso. Esse era o trajeto que eu percorria todos os dias ao trabalho. Sempre eu passava e via a mesma pedinte. Lá estava ela, desleixada, mal dormida, tresloucada, cantarolando, curvando seu corpo, imitando uma bailarina, ao estender sua mão suja implorando alguns trocados. Seu sorriso desdentado era sincero. Passava, com os vidros do carro quase fechados, sem dar trela a seus rogos. - Moço, estou com fome, dizia ela numa voz límpida e angelical, e sempre completava, por favor, só uma moedinha. Certa feita eu não resisti, e enquanto o sinal não abria, abaixei o vidro, e perguntei por perguntar, dando alguns trocados a ela. - E a tua família? - Tenho família não, seu moço. Ela, ali pertinho, sorrindo permaneceu de mão estendida; pude notar suas feições bem feitas; Sua rudimentar tez morena; Seus lindos olhos verdes que se perdiam naquele rosto sujo; Seu cabelo desalinhado dava a entender que havia uma tremenda desavença com o pente. Por debaixo daquele espectro podia-se perceber uma formosa mulher, se fosse, é claro, bem cuidada. Seu corpo esguio emagrecido pela bebida e pelas drogas não era um bom argumento para revelar sua idade. Digamos quinze anos. O sinal abriu, segui meu caminho. Toda vez que por ali passava, controlava a velocidade do carro com a intenção de pará-lo exatamente no sinal, e assim poder bater um papo com aquela figura. Queria saber mais sobre ela, talvez para poder ajudá-la! Certa feita, entre uma indagação e outra, perguntei pelo seu nome. - Meu nome é bailarina, respondeu-me ela de pronto, toda frajola fazendo trejeitos com seu corpo. - Bailarina? Mas como bailarina? Perguntei sorrindo para ela. - Sim, todos me chamam assim. - Mas por quê? Insisti. O sinal abriu, alguém apressado buzinou, e eu coloquei em marcha o carro. Ansiosamente no dia seguinte eu parei no sinal e lá veio ela. Rapidamente me contou que quando pequena sua mãe fazia limpeza numa escola de dança levando-a junto. Ficava encantada vendo as meninas dançando. O sonho dela era ser bailarina. No lugar da amarelinha, esconde-esconde, e outros jogos, ela se divertia dançando nas ruas imitando as bailarinas. A história dela eu fui construindo aos poucos entre os vermelhos e os verdes do sinaleiro. Não conheceu o pai, e sua mãe morreu quando era ainda pequena, e assim, sem ninguém por ela, foi morar na rua. - E você ainda quer ser bailarina? Certa feita eu perguntei. - É o meu sonho, seu moço! E vou conseguir! Percebi que para ela eram importantes aqueles momentos de confidência e de desabafo, pois ao me avistar vinha correndo feliz ao lado de meu carro. E para mim o que significavam esses momentos? Por incrível que parece para mim se tornou uma necessidade obcecada em vê-la, aconselhá-la, dar alguns mimos. Certa vez dei de presente uma sapatilha usada dizendo: - Um dia quero ver você dançando um balé nas pontas dos pés! Ele pegou e toda feliz foi mostrar aos amigos mendigos que por ali se encontravam. Enquanto ela se afastava pensei. - Como seria linda e elegante se fosse bem cuidada! Muitas vezes me surpreendia em mil pensamentos. Outras vezes fazia plano para retirá-la da rua e matriculá-la numa escola de dança. Meus pensamentos divagavam céleres, e assim, como num passe de mágica, eu a via rodopiando, rodopiando freneticamente num espetáculo lindo, e num final brilhante o povo delirante de pé aplaudindo. - Esta é a minha bailarina! Concluía feliz, todo orgulhoso, a minha divagação. Um dia parei no sinal e não vi a bailarina. – “Deve estar em qualquer lugar por aí”! Justifiquei para mim a sua ausência. Minha preocupação aumentou quando nos próximos dias não a encontrei. Um dia parei no sinaleiro, desci do carro e olhei esperançoso para todos os lados, e quando já estava voltando ao carro chegou um moleque magrelo, todo maltrapilho, dizendo-se amigo da bailarina, entregando uma sapatilha dizendo. - Seu moço, antes dela morrer pediu que eu entregasse isso ao senhor. Peguei a sapatilha enxugando as lágrimas que tristemente umedeceram meu rosto. Olhei para o céu e me confortei num pensamento: - Lá em cima, com certeza, tem um anjo que feliz está nas pontas dos pés rodopiando ao som de uma angelical música para mim. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

domingo, 7 de dezembro de 2014

E O CAVALO TROPICOU

Das histórias que meu pai me contou, esta aconteceu comigo, diz ele sério na sua fala entusiasmada. Não me recordo disso, talvez porque naquela época ainda de cueiro, ficaram confusos os registros e por isso, neste momento, não tenho acesso a eles na minha memória. Assim ele me contou, e eu a escrevo da minha maneira. Montar e se locomover de um lugar ao outro no lombo de um cavalo, para meu pai era maneiro como se tivesse dirigindo um carro qualquer. Era um transporte seguro e rápido para a época. Praticamente toda a logística dependia do cavalo. As carroças e os lombos dos muares povoavam as estradas poeirentas. Meu velho adorava galopar. Quando sentou praça, foi encarregado pelo comando geral do 5º Batalhão de Sapadores, por ser o mais experiente cavaleiro do batalhão, para conduzir uma tropa de mulas de Pedra Preta*1 a Lages. Levou mais de um mês cavalgando. As mulas chegaram vivas e com boa aparência ao destino, principalmente pela competência de seu condutor. Meu pai, com certeza, tinha naquela época uns calos na região carnuda das nádegas. Grande parte de seu dia morava em cima do cavalo. Certa feita, só para matar a minha vontade, experimentei pilotar um pangaré, por alguns minutos, e acabei saindo de pernas abertas, todo assado, meio troncho com dores horríveis na bunda. Meu pai desde pequeno já acompanhava meu avô, pai dele, pelas cercanias onde morava no lombo de um cavalo, seja para passear ou então para conferir o que estava sendo produzido pela roça. Montava em pelo como ninguém, e com facilidade conduzia o animal no ritmo que ele queria. Aos bailes e aos encontros com minha mãe, lá ia ele, todo garboso, senhor absoluto de si, galopando o seu bom galopar, pelas veredas sinuosas, durante o dia ou durante a noite. Quando nasci meu pai gostava de sair para fazer os passeios troteando seu alazão. Sempre me levava preso em seus braços. Ele era um ginete dos bons. Se o cavalo aporreado velhacava com ele, sabia como ninguém domar o animal, pondo-o obediente à rédea. Olhando-o na montaria, parecia uma pintura clássica, de tão altivo e nobre que era. Minha mãe ficava encantada, mas não deixava de fazer suas recomendações. Foi numa destas tardes mornas quando o sol ao longe pungia tristemente os campos, que meu pai resolveu dar uns galopes comigo em seu braço. Tudo parecia normal e agradável. O cavalo não era nem velhaco e nem aporreado, mas de repente alguma coisa tirou o animal do sério. Meu pai acha que foi uma serpente, que por ali rastejava, a causa da confusão. O cavalo deu uma tropicada, relinchou assustado, peidou soltando o que tinha em excesso nas tripas, e de forma inesperada empinou, corcoveou feito um maluco como se seus grãos estivessem sendo esmagados pelo arreamento. Meu pai permanecia grudado em seu lombo me protegendo, mas no momento em que o cavalo se dispôs a iniciar uma eletrizante correria, meu pai saltou, deu um meio rodopio no ar caindo em pé na estrada, um pouco desequilibrado se apoiando no chão com uma das mãos; Eu permaneci são e salvo preso em seu braço forte. O espetáculo foi rápido. A cena, pelo seu incrível acontecimento, seria digna de registro cinematográfico. Ainda não refeito do susto, coração acelerado, vendo seu cavalo troteando lá mais adiante, e como um cisco desparecer no meio da poeira da estrada, olhou preocupado para mim acomodado em seu braço como que para conferir se tudo estava bem. Ficou admirado do que viu, e sorrindo beijou minha testa. Meu pai completou a história dizendo: - Você estava rindo muito feliz batendo palmas como se tivesse aplaudindo tudo aquilo pedindo para que eu fizesse novamente. *1 - Pedra Preta hoje é Tunas do Paraná. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

domingo, 30 de novembro de 2014

O DESENCONTRO

Sentado, ali ao seu lado, saboreando um gostoso chimarrão, pedi que meu pai contasse mais alguma coisa de seus tempos idos; Ele pigarreou, franziu a testa e contou mais uma interessante história dele. Escutei atento, fazendo algumas anotações. Escreverei tentando ser ao máximo fiel a sua narrativa. Assim... Ainda vivendo os pungentes momentos do falecimento da mãe, Francisco resolve servir o exercito. Sua noiva Gertrudes tentou demovê-lo da ideia, mas tudo foi inútil. Todo jovem, no fervor incandescente de seus 20 anos se apaixona doidamente, inconscientemente, mas especificamente no caso do Francisco foi muito mais a carência dos carinhos que sentia de sua amada mãe do que um amor verdadeiro desperto. Foi um amor fugaz e inconsequente. Ele conheceu Gertrudes num baile em Bonito. Pé de valsa como era, não perdia oportunidade, e sempre ia lá acompanhado do Armandinho Ribas, um velho amigo casado com sua prima. No exército, lá de quando em quando algumas cartas trocadas, e nas folgas algumas horas juntos. Era véspera de carnaval quando recebeu um recado da Gertrudes informando que ia passar uns dias na casa do tio dela na Lapa. Ótima oportunidade para se reverem. No exército a disciplina é rude e não perdoa deslizes. Francisco tinha consciência disso. Ganhou uma licença, mas não poderia arredar o esqueleto de Curitiba. Maquinou uma estratégia e foi a Lapa ao encontro da Gertrudes. Era um risco que deveria valer a pena. Chegou à boca da noite na casa do tio dela e a encontrou com umas tantas amigas, todas prontas para o baile. - Já deixei a cama arrumada para você! Disse ela ao noivo já se despedindo dele. Francisco um tanto chateado e magoado perguntou: - Mas você vai mesmo a esse baile? - Sim! Amanhã se vemos. E elas lépidas, rindo atafulhadas, se despediram de Francisco. E ele, acabrunhado, olhou aquelas meninas, feito potrancas soltas no pasto, se afastar rapidamente perdendo-se na curva da estrada. Desenchavido pelo atrevimento da noiva, e com pouco assunto no momento, apenas trocou evasivas palavras com o tio dela, deu meia volta e bateu em retirada. Era uma boa pernada até a pensão na Lapa. Passou pelo clube dos alemães; A festa de carnaval estava rolando solta e muito animada, convidativa; Isto foi o suficiente para ele parar e entrar. Afogou as mágoas dançando o bom dançar como só ele sabe fazer. Trocou a cama arrumada lá da casa do tio dela pela cama da pensão que ficava perto da estação do trem. O sol ainda preguiçoso não tinha dado as caras, e o dono da pensão bateu na porta dizendo: - Acorda soldado que o misto já tá chegando! O misto parou, deu um tempo, e num apito rouco, nervoso, como se dissesse pelo jovem Francisco o adeus a Gertrudes. Preguiçosamente o trem, preso nos trilhos, resfolegou ganhando velocidade despejando no ar um negrume da chaminé da máquina, deixando para trás a saudade, o amor e a ingratidão. Francisco retornou sem problemas ao quartel. Remoeu, meditou e decidiu. Uma carta breve endereçada a sua noiva dizia. - “Se suas amigas e o baile foram mais importantes para você do que eu, considere rompido o nosso compromisso”. Ao final da narrativa aplaudi, dando um abraço no meu pai dizendo: - Ainda bem que isso aconteceu meu pai, fico feliz em ter tido como minha mãe a doce e meiga Maria, a linda menina dos olhos azuis. por: MARIO DOS SANTOS LIMA