domingo, 11 de janeiro de 2015

A CARTA

Desde pequeno aprendi com meu pai que correspondências dos outros não devem ser violadas. Aprendi também que não devemos transferir aos outros a responsabilidade que cabe a nós resolver, e que só devemos fazer a tarefa do outro quando se tratar de caridade. Jesus teve que carregar a cruz, e não transferiu a tarefa a Cireneu; Foi Cireneu que praticou um ato de caridade ajudando a Jesus carregar o pesado lenho. Meu pai sempre foi, e ainda continua sendo, nos seus quase cem anos de idade, aquele homem cheio de regras e fiel nos procedimentos. Aprendi muito com ele. Um dia, num bate papo gostoso com meu velho, relembrando coisas antigas, perguntei: - Meu pai, conte pra mim sobre aquela carta. Ele olhou demoradamente para mim, franziu a testa, e como que para memorizar a cena, fechou os olhos por alguns segundos. Percebi um sorriso malandro em seus lábios. Ajeitou-se no sofá, e com um ar mais sério do que de costume descreveu o acontecido. Conto com minhas palavras, mas juro que foi bem assim que ele me narrou. Meu pai vivia dias negros de solidão, e desespero completo após o rompimento do noivado com a Gertrudes. Foi uma mulher de poucos princípios, não merecendo o amor de meu pai. Todos, sem conhecer o fato como foi, consideravam o rompimento como um ato absurdo. aquele era o tempo do valor inestimável do fio do bigode. Naquela época valia muito o respeito por compromissos assumidos. Todos os Santos Lima estavam contra meu pai cobrando justificativas. Meu velho é de pouca conversa, e de muita ação. Nada contou sobre seu desapontamento com a moça. Ele preferiu assumir a culpa pelo rompimento a desvendar o verdadeiro motivo pelo qual se fez romper o noivado. Vivia apreensivo com a promessa de uma surra prometida pelos irmãos da noiva safada abandonada. Ela, por certo, não contou para ninguém que tinha deixado meu pai plantado, feito dois de pau, na casa do tio dela, enquanto foi folgadamente se divertir com as amigas num baile de carnaval. Maldita Gertrudes! Meu pai era um moço bem apessoado, elegante e desejado por muitas pretendentes. Faziam isto e aquilo para conquistá-lo. Ele ainda guardava a magoa da decepção de um noivado abominado. Não queria compromisso com ninguém. E o tempo foi passando. Um dia chegou uma misteriosa carta endereçada para meu avô, pai de meu pai. Parece que o conteúdo da tal carta animou a família. Eu acho que meu avô fez a desvenda da tal carta para toda a família antes de vir conversar com meu pai. Alguns dias depois, meu avô, todo enigmático, misterioso. chamou meu pai e disse: - As coisas agora vão melhorar, meu filho! Meu pai, estranhando o jeito mudado repentino do meu avô, simplesmente emite laconicamente um som exclamativo: - Ah! Mas despertou em meu pai a curiosidade e então ele pergunta. - Vão melhorar no que meu pai? Os irmãos, tios, e primos, que sabiam do conteúdo da tal carta, se acomodaram atrás das portas, debaixo da mesa, dentro dos armários; Todos, de ouvidos bem abertos, esperavam ansiosos por saber o desfecho daquele encontro. Todo cerimonioso, meu vô tira a carta do bolso do paletó, prende-a entre o dedo polegar e indicador da mão direita, ergue-a sorridente para que meu pai a visse, e chacoalhando-a diz. - Esta carta, meu filho, vai mudar tudo! Vai mudar sua vida! Meu pai, entre atônito e bestificado pergunta para meu avô. - Mas o que tem ela de tão importante para mudar a minha vida? - Pegue-a! Estendendo para o lado de meu pai, meu avô alcançou a carta. Meu pai pegou-a, e antes de abrir o envelope conferiu a quem estava endereçada. - Mas esta carta veio endereçada ao senhor! Disse meu pai devolvendo-a a meu avô. - Mas é para você! Tentou meu avô convencer meu pai. - Mas como é para mim se no envelope está escrito o seu nome? Meu pai não obteve resposta, e então pergunta um tanto irritado: - O que diz ela de tão importante? E meu avô, percebendo que meu pai não pegaria a carta, medrosamente, tentou fazer um esboço do conteúdo da dita cuja. E assim disse ele: - Meu filho, esta carta é do meu amigo e compadre. Ele tem uma filha, bem prendada, e está oferecendo-a em casamento a você. Meu avô olhou sem jeito para meu pai e perguntou: - E daí, o que você vai responder? Meu pai, que sempre teve o pavio curto, sem delongas respondeu energicamente, antes de virar as costas e ir embora. - A carta não foi endereçada ao senhor meu pai? Eu não conheço a moça, e por isso responda simplesmente ao pai dela dizendo que sinto muito. A decepção tomou conta dos escondidos, e ouviu-se pelos cantos da casa um sonoro e alongado: Ah! POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

domingo, 21 de dezembro de 2014

PRESENTE DE NATAL

Quem é que não gostaria de receber um presente? E se a data for Natal? Melhor ainda, não é mesmo? O presente é sempre uma dádiva, uma oferta em sinal de apreciação. O presente pode ser tudo, um abraço, um sorriso, uma palavra amiga, e até você presente. Quando visitava a casa de repouso para idosos me aprazia muito conversar longamente com o simpático senhor Fran. Descendente de alemães beirava os noventa anos. Cego desde muito jovem não reclamava desta situação, e sim da falta que o neto lhe fazia. Contou-me que ha vinte anos passados vivia feliz com seu netinho Pedro de quatro anos. Embora cego ele possuía uma habilidade incrível de narrar lindas histórias como ninguém; ensinava ler, escrever e tinha seu neto sob sua constante vigilância. Entre avô e neto existia uma unidade muito forte. Era como se dois espíritos comungassem dos mesmos elos, dos mesmos desejos, dos mesmos bem querer. Um dia, através de denúncia, a justiça veio tirar o pequeno Pedro dos braços de seu avô. - Foi como se tirassem um pedaço de mim; foi muito triste. Contou-me ele. - O senhor não tem condições de cuidar de uma criança! Dizia o homem da lei. Ele vai ficar muito bem aonde vamos levá-lo. A cena era comovente, mas os homens da lei permaneciam totalmente impassíveis e cruéis. Vô e neto entrelaçados, num abraço apertado não se desgrudavam. Pedro tremia e chorava convulsivamente sem nada entender. - Não quero ir! Quero ficar com meu vozinho! Dizia gritando o netinho. - Deixe-me, deixe-me! Gritava desesperado o menino! Inconsolável, sem forças para conter a brutalidade daqueles homens, foi desenlaçado do abraço do neto, e soluçando enxugou com a manga da camisa suas lágrimas lamentando. - Não levem o menino de mim! Por favor deixe-o comigo! Para aonde estão levando o meu Pedrinho? Foram inúteis seus apelos. Ainda ouviu ao longe os gritos de seu neto, quase abafado pelo ruído do carro que se afastava. - Quero ficar! Quero meu vozinho! Deixe-me, deixe-me, por favor! Alguns dias depois, sem saber o paradeiro de seu Pedrinho, desalmadamente colocaram-no num abrigo para idosos. Os anos passaram, mas não curou as feridas da separação, apenas sulcaram em seu rosto as rugas da saudade. Quando alguém perguntava para ele o que mais gostaria de ganhar no Natal, respondia esperançoso. - Dar um abraço e um beijo no meu Pedrinho. Aquela figura simpática, magra, cabelos em neve, mal podendo se manter em suas pernas me emocionava as lágrimas pela esperança incontida que alimentava. Passavam-se os natais, muitos deles, e o abraço tão desejado como presente não vinha, mas a esperança transformava o desejo desse momento, único e estático, num sonho imenso de realizações. Aquele Natal não foi diferente. - Ah! O presente? Suspirava longamente dizendo: - Rever meu netinho e dar um abraço bem apertado nele! Aquela tarde estava morna e linda como só nos natais podem estar. O rebuliço no ambiente demonstrava alguma coisa diferente. Muitos cochichos e sorrisos nos lábios. Um jovem, bem apessoado parou na porta do quarto do seu Fran, olhou-o demoradamente, como num ato de reconhecimento, e não se contendo, num sorriso desconcertado enxugou algumas lágrimas. E no mesmo instante... Seu Fran ergueu a cabeça, dirigiu seus olhos cegos para a porta, e como se estivesse vendo alguma coisa fantástica, linda, muito importante, sorriu meio engasgado dizendo: - Meu Pedrinho, é você? Até que enfim você voltou! Muita gente afirma que nesse momento viu uma intensa e brilhante luz que envolveu os dois. Abraçaram-se longamente, num abraço apertado como se fosse uma união de espíritos que finalmente se reencontram. O povo emocionado aplaudiu. Pedro, ainda abraçado, soluçando, diz baixinho no ouvido de seu avô. - Vozinho, vou levá-lo comigo, ninguém mais vai nos separar! POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O DONO DA FESTA

Que este Natal e Ano Novo sejam mais do que confraternizações porque todos os momentos, em especial este novo ano, deverão ser iluminados, abençoados e que os 365 dias, sejam vividos na sua totalidade. Já que Natal significa: renascer. Paz, conquista, compreensão, reflexão, prosperidade. Feliz Natal e Ano Novo! NÃO ESQUEÇAM DE CONVIDAR O DONO DA FESTA.

sábado, 13 de dezembro de 2014

A BAILARINA

Um dia parei no sinal e não vi a bailarina. O movimento da rua era normalmente intenso. Esse era o trajeto que eu percorria todos os dias ao trabalho. Sempre eu passava e via a mesma pedinte. Lá estava ela, desleixada, mal dormida, tresloucada, cantarolando, curvando seu corpo, imitando uma bailarina, ao estender sua mão suja implorando alguns trocados. Seu sorriso desdentado era sincero. Passava, com os vidros do carro quase fechados, sem dar trela a seus rogos. - Moço, estou com fome, dizia ela numa voz límpida e angelical, e sempre completava, por favor, só uma moedinha. Certa feita eu não resisti, e enquanto o sinal não abria, abaixei o vidro, e perguntei por perguntar, dando alguns trocados a ela. - E a tua família? - Tenho família não, seu moço. Ela, ali pertinho, sorrindo permaneceu de mão estendida; pude notar suas feições bem feitas; Sua rudimentar tez morena; Seus lindos olhos verdes que se perdiam naquele rosto sujo; Seu cabelo desalinhado dava a entender que havia uma tremenda desavença com o pente. Por debaixo daquele espectro podia-se perceber uma formosa mulher, se fosse, é claro, bem cuidada. Seu corpo esguio emagrecido pela bebida e pelas drogas não era um bom argumento para revelar sua idade. Digamos quinze anos. O sinal abriu, segui meu caminho. Toda vez que por ali passava, controlava a velocidade do carro com a intenção de pará-lo exatamente no sinal, e assim poder bater um papo com aquela figura. Queria saber mais sobre ela, talvez para poder ajudá-la! Certa feita, entre uma indagação e outra, perguntei pelo seu nome. - Meu nome é bailarina, respondeu-me ela de pronto, toda frajola fazendo trejeitos com seu corpo. - Bailarina? Mas como bailarina? Perguntei sorrindo para ela. - Sim, todos me chamam assim. - Mas por quê? Insisti. O sinal abriu, alguém apressado buzinou, e eu coloquei em marcha o carro. Ansiosamente no dia seguinte eu parei no sinal e lá veio ela. Rapidamente me contou que quando pequena sua mãe fazia limpeza numa escola de dança levando-a junto. Ficava encantada vendo as meninas dançando. O sonho dela era ser bailarina. No lugar da amarelinha, esconde-esconde, e outros jogos, ela se divertia dançando nas ruas imitando as bailarinas. A história dela eu fui construindo aos poucos entre os vermelhos e os verdes do sinaleiro. Não conheceu o pai, e sua mãe morreu quando era ainda pequena, e assim, sem ninguém por ela, foi morar na rua. - E você ainda quer ser bailarina? Certa feita eu perguntei. - É o meu sonho, seu moço! E vou conseguir! Percebi que para ela eram importantes aqueles momentos de confidência e de desabafo, pois ao me avistar vinha correndo feliz ao lado de meu carro. E para mim o que significavam esses momentos? Por incrível que parece para mim se tornou uma necessidade obcecada em vê-la, aconselhá-la, dar alguns mimos. Certa vez dei de presente uma sapatilha usada dizendo: - Um dia quero ver você dançando um balé nas pontas dos pés! Ele pegou e toda feliz foi mostrar aos amigos mendigos que por ali se encontravam. Enquanto ela se afastava pensei. - Como seria linda e elegante se fosse bem cuidada! Muitas vezes me surpreendia em mil pensamentos. Outras vezes fazia plano para retirá-la da rua e matriculá-la numa escola de dança. Meus pensamentos divagavam céleres, e assim, como num passe de mágica, eu a via rodopiando, rodopiando freneticamente num espetáculo lindo, e num final brilhante o povo delirante de pé aplaudindo. - Esta é a minha bailarina! Concluía feliz, todo orgulhoso, a minha divagação. Um dia parei no sinal e não vi a bailarina. – “Deve estar em qualquer lugar por aí”! Justifiquei para mim a sua ausência. Minha preocupação aumentou quando nos próximos dias não a encontrei. Um dia parei no sinaleiro, desci do carro e olhei esperançoso para todos os lados, e quando já estava voltando ao carro chegou um moleque magrelo, todo maltrapilho, dizendo-se amigo da bailarina, entregando uma sapatilha dizendo. - Seu moço, antes dela morrer pediu que eu entregasse isso ao senhor. Peguei a sapatilha enxugando as lágrimas que tristemente umedeceram meu rosto. Olhei para o céu e me confortei num pensamento: - Lá em cima, com certeza, tem um anjo que feliz está nas pontas dos pés rodopiando ao som de uma angelical música para mim. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA