MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
ORGASMO DO JOU DU MOULIN
Você já foi acometido de orgasmo jogando trilha? Se a sua resposta for não, com certeza não viveu, não adentrou por lindos momentos na vida; simplesmente está passando em brancas nuvens por este mundo. Tenho dó de você!
Eu joguei muita trilha e meu prazer, fazendo isto, chegou ao alto grau de excitação..
Outro dia perambulando por aí dei de cara com um tabuleiro velho de trilha, ou como se diz em francês: jou du moulin. Era em papelão, mas já com seus cantos carcomidos e suas linhas esmaecidas. Por certo foi muito usado, e tem muitas histórias incrustadas nele. Estava jogado tristemente a um conto da calçada. Peguei-o com cuidado, e assim, em minhas mãos, olhando-o demoradamente, remexeu em mim as boas e doces recordações.
Sentei-me a um canto, na calçada, nem sei se de cansado ou hipnotizado pelo achado, mas só sei que meu olhar, num passe de mágica, atravessou o tabuleiro velho de trilha, e foi morar feliz, lá distante, no meu tempo de meninice. Fui parar em outra dimensão.
Lá estava eu, moleque, ao lado de minha mãe sempre linda e sorridente como era do feitio dela.
Minha mãe era especial. Ela era mestre em estratégia educacional para pirralhos lampinhos. Sabia, como ninguém, com maestria manter a petizada reunida a sua volta.
A cena era linda!
Chamou cada um para as lições de casa enquanto tricotava uma peça qualquer dizendo:
- Quem terminar primeiro vai jogar uma partida de trilha comigo.
Jogar trilha com minha mãe era a coisa mais importante, o clímax da alegria para mim e para minha irmã, e eu sempre terminava primeiro. Minha irmã me ajudava no jogo, e depois eu ajudava a minha irmã para tentar vencer a grande mestra da trilha. A luta era inglória, mas a alegria de estar jogando com ela era o que de melhor a gente tinha e usufruía.
Enquanto eu fazia a tarefa escolar olhava às vezes para minha mãe a um canto tricotando, e outras para o jogo que me aguardava.
O tabuleiro de trilha, riscado com capricho pela minha mãe, estava a postos na mesa com os nove grãos de feijão e de milho esperando pelo grande embate.
Eu acho que o tabuleiro se divertia, porque sabia que, por mais que eu ou minha irmã se esforçasse, a grande vencedora seria sempre ela, a polaca linda dos olhos azuis.
A gente também sabia que ela poderia ganhar rapidamente, mas amorosamente sempre simulava uma dificuldade, ou colocava de propósito uma pedra em local errado só para a peleja ser mais excitante para nós. Algumas vezes ela perdia, e mesmo sabendo que era de mentira a gente feliz ia dormir.
Lá estou eu jogando e vendo minha mãe toda contente por poder estar junto com seus filhos passando conselhos, contando histórias e se divertindo tal qual uma menina.
Eu tenho certeza de que, se a trilha fosse um jogo oficial das olimpíadas, a minha mãezinha seria sempre a campeã indiscutivelmente.
Parece que estou ouvindo-a dizer quando nos via perder a paciência em jogo:
- Meus filhos, o jogo é tal qual a vida; nós temos que ter conhecimento, paciência e persistência nas coisas que fazemos.
E ela continuava:
- As habilidades, com o passar do tempo, nos dão a competência de ser alguém de sucesso, de fazer acontecer às coisas que almejamos, de jogar bem para vencer ou reconhecer na derrota a competência do outro, para assim melhorar sempre e sempre. Tudo depende exclusivamente de nossa vontade, do nosso querer, de nossa aceitação.
O sorriso dela para nós foi sempre como uma benção divina.
Vejo-me neste instante jogando com ela, mas...
Alguém bate no meu ombro pedindo uma esmola e me trás de volta à realidade.
Olhei para ele, quis ficar bravo, mas me contive.
Dei a ele a coisa mais preciosa que tinha na mão.
Ele pegou o tabuleiro de trilha, olhou com ar de recriminação e dizendo impropérios pinchou-o no chão.
Incrédulo pelo ultraje que cometia aquela pobre alma eu pensei:
- Por certo este cara nunca teve orgasmos jogando trilha com a mãe dele.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
sábado, 3 de setembro de 2016
COXINHA OU MORTADELA?
Tiro a máscara
Escondo-me entre quatro paredes que hermeticamente fechadas abafam meus gritos de impropérios contra os fundamentalistas de qualquer ideia filosófica, contra os cínicos hipócritas defensores de classes, de gêneros, de raças, mas o meu grito maior é renegando todas as sufocantes crenças.
As paredes moucas engolem todos meus gritos, e passivamente aceitam, sem reação, meu último apelo: “puta que os pariu! Que merda é essa?”
Agora sinto-me bem.
Calmamente respiro e abro o cubículo.
Recoloco a máscara e com um sorriso pendurado no canto da boca entro no primeiro boteco.
Peço um pão com mortadela acompanhado de uma deliciosa coxinha.
Como a coxinha e saboreio por último o pão com mortadela.
As pessoas, a minha volta, acompanham incrédulas à minha voraz glutonaria, e irritados, aos gritos, perguntam:
- Porra! De que lado você está?
Não me alterei.
Refestelei-me com o que restou da mortadela e coxinha, limpei os lábios com a manga da camisa e saí, mas antes de sair coloquei a máscara de filósofo e disse:
- O muro tem dois lados, e ambos os lados estão certos; O que está errado é estar em cima dele.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
terça-feira, 30 de agosto de 2016
ORAÇÃO DA NOITE
Naquela noite eu saí da sala de aula, antes de seu término, iracundo, espumando pelas ventas. Normalmente sou tolerante, mas aquela turma extravasou qualquer limite de tolerância naquela conturbada noite.
Se tivesse que indicar alguém para qualquer cargo administrativo ou gerencial eu os condenaria completamente. Era o sexto período de administração de um bando de moleques travessos e irresponsáveis!
Eu caminhava, a passos largos até a secretaria a fim de entregar o livro de chamada e justificar a não de minha presença junto aquele bando de desordeiros.
Na época fiquei realmente bravo considerando uma tremenda falta de respeito, coisa sem propósito, mas hoje eu reconheço que eles foram, além de ridículos, atrevidos e ousados. Ao lembrar a cena hilária não consigo prender o riso.
Fico imaginando cá com os meus botões que provavelmente se estivesse estudando junto com eles provavelmente teria experimentado do mesmo sabor daquela balburdia.
Agora estou me recordando que naquele dia preparei com esmero e carinho a aula de produção para aquele sexto período. Saí com um pouco atraso de casa e com isto entraria em sala com alguns minutos depois do início.
Cheguei esbaforido a Faculdade.
Atravessei os corredores para alcançar a sala e percebi que naquela noite as outras turmas por onde eu passava aconchegavam espremidos na porta alunos contagiados de uma alegria sem par. Pareciam cães tarados farejando cadelas no cio. Acotovelavam-se com as cabeças no corredor curiosos e ansiosos olhando para a sala em que eu estava por chegar. O murmúrio era tanto que o vozeio perturbava todo o ambiente.
Estranhei, fiquei curioso, mas me coloquei avante.
A sala foi se aproximando perigosamente à medida que meus passos engoliam o corredor. A luz lá fosca e avermelhada me deu a sensação de estar indo para um lugar proibido. Verifiquei primeiro, com um beliscão no braço se realmente estava acordado e medrosamente me vi no umbral da porta de entrada.
O que vi é indescritível, mas vou tentar relatar.
A sala parecia um amplo dormitório.
Aquelas meninas todas nas suas transparentes camisolas, algumas minúsculas deixando lindas tetas quase de fora abraçando sensualmente seus ursinhos de dormir. Suas pantufas lilás ou rosa choque naqueles pés delicados perturbavam meus olhos que safados se deliciavam lambendo suas lindas cochas morenas.
Deveria ter alguns machos por entre elas que por certo desmunhecaram, mas eu nos os vi e nem fiz questão para tanto. Apenas meus olhos se deliciavam e bolinavam aquelas maravilhosas sereias. Musas infernalmente tentadoras.
Foram momentos que quase me levaram ao mais alto grau de excitação olhando tudo aquilo, mas a responsabilidade e o bom senso me acordaram, e então pude, livre de toda a emoção, de todos os calafrios por que passava meu corpo analisar friamente avaliando aquela esbórnia.
A empresa contratada para a formatura estava a postos em diversos ângulos com suas potentes máquinas filmadoras e fotográficas. Por certo o material depois de revelado deve ter saído uma bosta visto que estes tarados profissionais estavam abundantemente babando muito mais que trabalhando apreciando aquelas bundas, aqueles peitos e aquelas cochas. É justificado, pois concordo que ninguém é de ferro.
Por momento petrificado, confesso que também babei, mas me refiz e adentrei sala para tomar conhecimento da desordem, e entendi ali o porquê de toda a Faculdade estar ouriçada também.
- O que significa isto? Perguntei numa voz esganiçada.
- Estamos filmando para a formatura, responderam-me em coro e continuaram:
- Queremos aula!
Quase perguntei se aquele era um curso de administração ou de sacanagem, mas me contive e disse:
- Eu acho que vocês estão mais para dormir que receber conhecimentos, justifiquei.
Por alguns momentos não sabia se saia correndo, se ia até minha casa buscar meu pijama ou...
- Bem pessoal, com minha voz de comando completei:
- Quero todos de joelho! Vamos fazer a oração da noite!
Incontinente todos se puseram de joelho, ao lado das carteiras repetindo a oração da noite comigo.
Eu acho que Deus também gostou muito em ver aquelas lindas criaturas mal vestidas mostrando suas belas formas. Quem não gostou mesmo foi o Diretor que não sendo convidado para a festa aplicou na turma uma semana de suspensão.
OBS. Deixo de mencionar data e a instituição. Aquele que foram meus alunos na oportunidade com certeza ao lerem lembrarão do fato que por certo está registrado nos seus álbuns de formatura.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
segunda-feira, 15 de agosto de 2016
CARTA AO MEU PAI
Carta ao meu querido e eterno pai.
Meu querido, lindo e anjo pai Francisco,
Respeitosamente e humildemente rogo-lhe proteção.
Era meu desejo que esta carta encontrasse-o muito bem de saúde, mas Deus precisava de um guerreiro, de um valente homem cheio de fé e caridade junto Dele, e o levou. Ao escrever esta carta estou rogando ao Criador de tudo e de todos que na sua infinita bondade e eterna misericórdia acolha-o junto Dele, e derrame muita paz, muita luz e muito amor em nossas vidas.
Poucos são aqueles que tiveram o privilégio do pai presente aos 100 anos, e nós tivemos. Agora temos uma luz muito forte que brilha lá no alto e nos protege.
Vamos então festejar o maravilhoso dom da vida cheia de amor, de exemplos mil que o nosso pai nos deixou.
A solenidade que nós, seus filhos, sobrinhos, netos, irmão e amigos, iriamos celebrando seria um justo tributo aos seus 100 anos de vida. Vida primorosa; vida permeada de exemplos; vida de eterna responsabilidade com tudo e com todos; vida incansável na luta pelo bem, pela caridade, e pela constante preocupação em nos encaminhar pela vereda do bem, do respeito à pátria, pelo reconhecimento e culto aos mais velhos e autoridades, pela verdade por mais sofrida que seja, pelo amor ao próximo, pelo reconhecimento e gratidão de benesses recebida, pelo amor a natureza, e pelo eterno agradecimento ao Eterno criador de tudo e de todos.
Pai, sentimos eternamente orgulhosos pelo que o senhor foi, pelo que o senhor fez, e pelo grande amor que nos dedicou. O senhor sempre foi e sempre será eternamente o nosso guia, o nosso grande guru, o nosso grande mestre. A felicidade não é só sua, principalmente por manter a nossa família sempre unida, sempre respeitosa, mas também é nossa por ter tido como um grande e honrado guia a sua presença entre nós.
Pai, o senhor nos ensinou, nos orientou e nos conduziu sempre para a realização do bem, mas o que marcou mesmo em nós foi seu exemplo de vida. Esta é uma marca indelével que nos direcionará sempre.
Eu acho que Deus nos privilegiou com sua longevidade para garantir que nós, seus filhos, caminhassem o bem caminhar, e hoje, com certeza, lá do céu, junto com nossa meiga mãezinha, estará sempre nos protegendo. Só podemos eternamente agradecer a Deus pelos pais que tivemos.
O senhor, meu lindo e querido pai, em seu pensar, muitas vezes foi um filósofo grandioso.
Outro dia, entre um chimarrão e outro, no bate papo gostoso e ouvindo e anotando suas histórias o senhor me confidenciou:
- Meu filho, tudo passou tão rápido! Sua mãe já nem está mais com a gente!
Meu pai, realmente a vida é um piscar de olhos. Há pouco tempo eu tinha 14 anos e de repente estou com meus 75. A vida é sucessões de momentos. Devemos viver cada um desses momentos intensamente, pois só assim teremos boas lembranças para revivê-las depois. Eu digo também, a sua vida, para nós, passou tão rápida!
Meu pai eu aprendi contigo esta máxima: “Construa agora o lugar que você quer morar depois”. Muitas vezes as dores que temos hoje são mágoas que deixamos passar lá no passado.
Todo o amor que devotamos ao senhor será sempre insuficiente para mostrar a eterna gratidão pelo pai amoroso, desvelado, respeitoso e exemplar que tivemos,
Hoje, em nome de todos seus filhos me aconchego através desta carta para respeitosamente pedir uma benção muito especial, ai do alto para este filho que o ama, que o venera e que enquanto eu viver vou tentar seguir seus bons exemplos.
Parabéns pela sua exemplar vida, enquanto esteve aqui entre nós!
Seu filho
MARIO DOS SANTOS LIMA
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