MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
COMO MORREU JESUS CRISTO
Eu e a Inca tínhamos terminado a nossa catequese para a primeira comunhão em Arapongas. Estávamos bem preparados e doutrinados com nossas rezas afinadíssimas para receber Jesus na comunhão. O pai neste meio tempo resolveu mudar-se para Presidente Venceslau.
Chegamos às vésperas do Natal na hospitaleira e pacata cidade de Venceslau no final do ano de 49. As ruas sem calçamento com a grama por fazer era desenha graciosamente com dois sulcos, bem ao centro em areia deixados pelas poucas conduções que por ali transitavam. Tudo anunciava a tranqüila vida que existia por ali.
Já de chegada no primeiro domingo o pai nos levou a Igreja para nos apresentar ao padre. Todo orgulhoso já foi contando vantagem de que seus dois filhos mais velhos estavam preparados para a primeira comunhão. Frei Dionísio não duvidou e até abençoou, mas como São Tomé que era pediu para que eu e a Inca viéssemos já na segunda, na casa paroquial para o exame de praxe.
Eu e a Inca demos mais algumas repassadas nas orações e lá fomos nós para o exame confiantes da aprovação.
Primeiro fui eu, sem qualquer problema fui aprovado conseguindo assim o aval para receber o Cristo e com isto salvo do fogo eterno. A Inca foi logo em seguida. Fiquei por ali para no caso de dúvida dar uma ajudinha se fosse necessário.
Frei Dionísio apresentava um grande problema estrutural de esqueleto; Tinha o pescoço fiincado no tronco sem a dobradiça que permite o indivíduo movimentar a cabeça de um lado para outro livremente – Era tudo fixo sem movimento algum - e com isto para ele olhar para qualquer um dos lados tinha que mover toda a carcaça também. Sabendo disso me pus estrategicamente atrás do Padre para poder com sinais de braços, mãos, dedos e boca ajudar a Inca na hora do sufoco.
O Frei pergunta uma coisa e a Inca de pronto responde; manda rezar o pai nosso que na época era o padre nosso e a Inca tira de letra. Manda fazer o sinal da cruz e ela o faz com maestria. Quando já estava por terminar o interrogatório ele pergunta para a Inca:
- Minha filha, como última pergunta quero que me responda como morreu Jesus Cristo o filho de Deus.
A Inca pensou, pensou, olhou de um lado e olhou de outro e finalmente, desesperada olhou para mim. Eu fiz com os dedos indicadores o sinal da cruz e com os lábios eu repetia, repetia pausadamente: - Morreu na cruz. E a Inca, branquelinha, de cabelos loiros compridos, suando frio estava perdidinha da silva num longo e cruel silêncio. O frei olhando no relógio, coçando a cabeça e ajeitando a batina resolveu dar então uma ajudinha e com isto acabou matando a charada para a Inca:
Pense minha filha – falou o frei no desejo ardente de ajudá-la. Pense em alguma coisa bem triste muito triste mesmo. Pense em alguma coisa cruel.
A Inca com o dedo indicador na ponta da boca e de olhos virados para o alto começou a divagar em pensamentos tantos. Pensou, pensou muito e de repente veio na lembrança dela uma cena muito triste que tinha presenciado algum tempo passado.
Estávamos em Apucarana, voltando do Hospital quando da visita à mana Laura que tinha sido operada de apendicite. Estávamos acompanhados do papai. Ao virarmos uma esquina deparamos com uma cena que nos chocou. Estavam ali adiante quatro pirralhos de chacota com um bêbado que prostrado caído na valeta não podia fazer nada contra aqueles monstros que também jogavam pedras gritando: - Morra seu bêbado vagabundo, filho de uma puta. Nosso pai imediatamente afugentou aqueles vadios indo solícito acomodar melhor o bêbado na calçada. Na volta pra casa comenta:
- Vocês viram que coisa mais triste?! Coitado daquele homem ia morrer bêbado e apedrejado por aqueles moleques sem vergonha!!! A Inca ainda estava por estes pensamentos quando o frei a interrompeu:
- E daí minha filha, qual é a resposta?
Eu fiz mil sinais da cruz para avivar a sua memória; Só me faltou, imitando a voz dela como um ventríloquo responder a questão, mas nada disso adiantou, ela de chofre responde:
- Morreu bêbado e apedrejado.
Frei Dionísio se transfigurou, arregalou os olhos como se tivesse visto o capeta não acreditando no que acabou de ouvir; benzeu-se todo jogando água benta por cima da Inca e aos berros mandou o coroinha imediatamente chamar o nosso pai.
O pai chegou todo assustado e o frei alucinadamente disse:
- Só não vou excomungar vocês porque não tenho poder para tanto, mas vou passar uma baita penitência para ser cumprida para que este sacrilégio possa ser apagado.
Meu pai aceitou a penitência contrito e sem entender a tremenda bronca recebida. Quando de volta para casa é que relatei o que aconteceu, pois o frei não se atreveu a repetir para o pai as palavras que a Inca tinha proferido com medo de ser devorado por um raio ou ir morar eternamente nas profundezas do inferno.
A Inca só foi receber a primeira comunhão um ano depois quando já o frei Dionísio não mais estava na paróquia. Toda vez que ele passava por ela fazia o sinal da cruz e tremendo de medo mudava de rumo.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
ORGASMO DO JOU DU MOULIN
Você já foi acometido de orgasmo jogando trilha? Se a sua resposta for não, com certeza não viveu, não adentrou por lindos momentos na vida; simplesmente está passando em brancas nuvens por este mundo. Tenho dó de você!
Eu joguei muita trilha e meu prazer, fazendo isto, chegou ao alto grau de excitação..
Outro dia perambulando por aí dei de cara com um tabuleiro velho de trilha, ou como se diz em francês: jou du moulin. Era em papelão, mas já com seus cantos carcomidos e suas linhas esmaecidas. Por certo foi muito usado, e tem muitas histórias incrustadas nele. Estava jogado tristemente a um conto da calçada. Peguei-o com cuidado, e assim, em minhas mãos, olhando-o demoradamente, remexeu em mim as boas e doces recordações.
Sentei-me a um canto, na calçada, nem sei se de cansado ou hipnotizado pelo achado, mas só sei que meu olhar, num passe de mágica, atravessou o tabuleiro velho de trilha, e foi morar feliz, lá distante, no meu tempo de meninice. Fui parar em outra dimensão.
Lá estava eu, moleque, ao lado de minha mãe sempre linda e sorridente como era do feitio dela.
Minha mãe era especial. Ela era mestre em estratégia educacional para pirralhos lampinhos. Sabia, como ninguém, com maestria manter a petizada reunida a sua volta.
A cena era linda!
Chamou cada um para as lições de casa enquanto tricotava uma peça qualquer dizendo:
- Quem terminar primeiro vai jogar uma partida de trilha comigo.
Jogar trilha com minha mãe era a coisa mais importante, o clímax da alegria para mim e para minha irmã, e eu sempre terminava primeiro. Minha irmã me ajudava no jogo, e depois eu ajudava a minha irmã para tentar vencer a grande mestra da trilha. A luta era inglória, mas a alegria de estar jogando com ela era o que de melhor a gente tinha e usufruía.
Enquanto eu fazia a tarefa escolar olhava às vezes para minha mãe a um canto tricotando, e outras para o jogo que me aguardava.
O tabuleiro de trilha, riscado com capricho pela minha mãe, estava a postos na mesa com os nove grãos de feijão e de milho esperando pelo grande embate.
Eu acho que o tabuleiro se divertia, porque sabia que, por mais que eu ou minha irmã se esforçasse, a grande vencedora seria sempre ela, a polaca linda dos olhos azuis.
A gente também sabia que ela poderia ganhar rapidamente, mas amorosamente sempre simulava uma dificuldade, ou colocava de propósito uma pedra em local errado só para a peleja ser mais excitante para nós. Algumas vezes ela perdia, e mesmo sabendo que era de mentira a gente feliz ia dormir.
Lá estou eu jogando e vendo minha mãe toda contente por poder estar junto com seus filhos passando conselhos, contando histórias e se divertindo tal qual uma menina.
Eu tenho certeza de que, se a trilha fosse um jogo oficial das olimpíadas, a minha mãezinha seria sempre a campeã indiscutivelmente.
Parece que estou ouvindo-a dizer quando nos via perder a paciência em jogo:
- Meus filhos, o jogo é tal qual a vida; nós temos que ter conhecimento, paciência e persistência nas coisas que fazemos.
E ela continuava:
- As habilidades, com o passar do tempo, nos dão a competência de ser alguém de sucesso, de fazer acontecer às coisas que almejamos, de jogar bem para vencer ou reconhecer na derrota a competência do outro, para assim melhorar sempre e sempre. Tudo depende exclusivamente de nossa vontade, do nosso querer, de nossa aceitação.
O sorriso dela para nós foi sempre como uma benção divina.
Vejo-me neste instante jogando com ela, mas...
Alguém bate no meu ombro pedindo uma esmola e me trás de volta à realidade.
Olhei para ele, quis ficar bravo, mas me contive.
Dei a ele a coisa mais preciosa que tinha na mão.
Ele pegou o tabuleiro de trilha, olhou com ar de recriminação e dizendo impropérios pinchou-o no chão.
Incrédulo pelo ultraje que cometia aquela pobre alma eu pensei:
- Por certo este cara nunca teve orgasmos jogando trilha com a mãe dele.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
sábado, 3 de setembro de 2016
COXINHA OU MORTADELA?
Tiro a máscara
Escondo-me entre quatro paredes que hermeticamente fechadas abafam meus gritos de impropérios contra os fundamentalistas de qualquer ideia filosófica, contra os cínicos hipócritas defensores de classes, de gêneros, de raças, mas o meu grito maior é renegando todas as sufocantes crenças.
As paredes moucas engolem todos meus gritos, e passivamente aceitam, sem reação, meu último apelo: “puta que os pariu! Que merda é essa?”
Agora sinto-me bem.
Calmamente respiro e abro o cubículo.
Recoloco a máscara e com um sorriso pendurado no canto da boca entro no primeiro boteco.
Peço um pão com mortadela acompanhado de uma deliciosa coxinha.
Como a coxinha e saboreio por último o pão com mortadela.
As pessoas, a minha volta, acompanham incrédulas à minha voraz glutonaria, e irritados, aos gritos, perguntam:
- Porra! De que lado você está?
Não me alterei.
Refestelei-me com o que restou da mortadela e coxinha, limpei os lábios com a manga da camisa e saí, mas antes de sair coloquei a máscara de filósofo e disse:
- O muro tem dois lados, e ambos os lados estão certos; O que está errado é estar em cima dele.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
terça-feira, 30 de agosto de 2016
ORAÇÃO DA NOITE
Naquela noite eu saí da sala de aula, antes de seu término, iracundo, espumando pelas ventas. Normalmente sou tolerante, mas aquela turma extravasou qualquer limite de tolerância naquela conturbada noite.
Se tivesse que indicar alguém para qualquer cargo administrativo ou gerencial eu os condenaria completamente. Era o sexto período de administração de um bando de moleques travessos e irresponsáveis!
Eu caminhava, a passos largos até a secretaria a fim de entregar o livro de chamada e justificar a não de minha presença junto aquele bando de desordeiros.
Na época fiquei realmente bravo considerando uma tremenda falta de respeito, coisa sem propósito, mas hoje eu reconheço que eles foram, além de ridículos, atrevidos e ousados. Ao lembrar a cena hilária não consigo prender o riso.
Fico imaginando cá com os meus botões que provavelmente se estivesse estudando junto com eles provavelmente teria experimentado do mesmo sabor daquela balburdia.
Agora estou me recordando que naquele dia preparei com esmero e carinho a aula de produção para aquele sexto período. Saí com um pouco atraso de casa e com isto entraria em sala com alguns minutos depois do início.
Cheguei esbaforido a Faculdade.
Atravessei os corredores para alcançar a sala e percebi que naquela noite as outras turmas por onde eu passava aconchegavam espremidos na porta alunos contagiados de uma alegria sem par. Pareciam cães tarados farejando cadelas no cio. Acotovelavam-se com as cabeças no corredor curiosos e ansiosos olhando para a sala em que eu estava por chegar. O murmúrio era tanto que o vozeio perturbava todo o ambiente.
Estranhei, fiquei curioso, mas me coloquei avante.
A sala foi se aproximando perigosamente à medida que meus passos engoliam o corredor. A luz lá fosca e avermelhada me deu a sensação de estar indo para um lugar proibido. Verifiquei primeiro, com um beliscão no braço se realmente estava acordado e medrosamente me vi no umbral da porta de entrada.
O que vi é indescritível, mas vou tentar relatar.
A sala parecia um amplo dormitório.
Aquelas meninas todas nas suas transparentes camisolas, algumas minúsculas deixando lindas tetas quase de fora abraçando sensualmente seus ursinhos de dormir. Suas pantufas lilás ou rosa choque naqueles pés delicados perturbavam meus olhos que safados se deliciavam lambendo suas lindas cochas morenas.
Deveria ter alguns machos por entre elas que por certo desmunhecaram, mas eu nos os vi e nem fiz questão para tanto. Apenas meus olhos se deliciavam e bolinavam aquelas maravilhosas sereias. Musas infernalmente tentadoras.
Foram momentos que quase me levaram ao mais alto grau de excitação olhando tudo aquilo, mas a responsabilidade e o bom senso me acordaram, e então pude, livre de toda a emoção, de todos os calafrios por que passava meu corpo analisar friamente avaliando aquela esbórnia.
A empresa contratada para a formatura estava a postos em diversos ângulos com suas potentes máquinas filmadoras e fotográficas. Por certo o material depois de revelado deve ter saído uma bosta visto que estes tarados profissionais estavam abundantemente babando muito mais que trabalhando apreciando aquelas bundas, aqueles peitos e aquelas cochas. É justificado, pois concordo que ninguém é de ferro.
Por momento petrificado, confesso que também babei, mas me refiz e adentrei sala para tomar conhecimento da desordem, e entendi ali o porquê de toda a Faculdade estar ouriçada também.
- O que significa isto? Perguntei numa voz esganiçada.
- Estamos filmando para a formatura, responderam-me em coro e continuaram:
- Queremos aula!
Quase perguntei se aquele era um curso de administração ou de sacanagem, mas me contive e disse:
- Eu acho que vocês estão mais para dormir que receber conhecimentos, justifiquei.
Por alguns momentos não sabia se saia correndo, se ia até minha casa buscar meu pijama ou...
- Bem pessoal, com minha voz de comando completei:
- Quero todos de joelho! Vamos fazer a oração da noite!
Incontinente todos se puseram de joelho, ao lado das carteiras repetindo a oração da noite comigo.
Eu acho que Deus também gostou muito em ver aquelas lindas criaturas mal vestidas mostrando suas belas formas. Quem não gostou mesmo foi o Diretor que não sendo convidado para a festa aplicou na turma uma semana de suspensão.
OBS. Deixo de mencionar data e a instituição. Aquele que foram meus alunos na oportunidade com certeza ao lerem lembrarão do fato que por certo está registrado nos seus álbuns de formatura.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
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