CORRENDO ATRÁS DO VENTO: A MALA SUSPEITA: Meu amigo Dario era uma figura impoluta e completamente irreverente. No início da década de sessenta o namoro era sagrado no manto do resp...
Mario dos Santos Lima
MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
sábado, 21 de janeiro de 2017
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
CORRENDO ATRÁS DO VENTO: URUBU NO CINEMA
CORRENDO ATRÁS DO VENTO: URUBU NO CINEMA: Estes animais empenados, que vivem soltos pelas alturas, chamados urubus, são feios e sujos, mas com muitos truques para sobreviver no se...
Mario dos Santos Lima
Mario dos Santos Lima
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
RÚSTICO
O sol descambando no horizonte cansado atropelava algumas nuvens, e pintava o céu num tom escarlate que ia morrer num amarelo desbotado. As aves em revoada, como que respingando de negro a tela do infinito, buscavam afoitas seus galhos aqui e acolá.
O caboclo puxou a última enxadada, descurvou-se, arredou um pouco para trás seu chapéu de palha e com a manga de sua camisa desbotada enxugou o suor que marejava em seu rosto da mormaceira do dia.
Olhou absorto, por um largo tempo, aquele cenário da natureza, sorriu, fechou os olhos e fazendo um sinal da cruz agradeceu ao Criador pelo dia de trabalho e pela lindeza do entardecer.
Pegou o embornal com a marmita que sua cabocla tinha preparado, ajeitou a enxada no ombro e pegou o rumo da palhoça.
Assobiou uma canção qualquer enquanto caminhava.
Suas passadas firmes fincavam marcas na poeira da estrada.
Sua casa apareceu, mais adiante, na curva da estrada fazendo parte da pintura daquele morrer de dia. Era uma cena bucólica: - o caboclo na estrada e sua cabana mais alem ao entardecer
Enquanto se aproximava foi admirando a paisagem detalhadamente, como se tivesse degustando um vinho precioso. Tudo para ele era belo, um sonho encantado. Olhava feliz para os dois coqueiros que envergados pelo vento pareciam reverenciar a sua casa. Olhava os canteiros floridos que faziam o contorno de sua casa. A fumaça que saia da chaminé, e se perdia bêbada pela amplidão, anunciava que dentro daquela casa tinha alguém que o esperava. Olhou e sorriu. Notou mais adiante, no sitio visinho que os bois em fila se recolhiam aos currais. O mundão para ele era tudo aquilo, nada mais desejava, nada mais lhe faltava.
Tudo era mansidão e paz e ele sentia-se o homem mais feliz do mundo.
Quando já perto chegava, uma criança abriu a porta e de braços abertos, passou correndo pelo semi aberto portão seguida pelo seu guapeca. Vinha feliz, gritando em sua direção, anunciando:
- Mamãe, mamãe o papai ta chegando!
O caboclo contente, também de braços abertos, se ajoelhou para ficar na mesma altura e esperou pelo abraço gostoso que chegava de seu filho. O cachorro de rabo abanando permaneceu ladrando a sua volta,
Na porta da palhoça a cabocla, de avental, sorrindo viu se repetir, de tantas, mais uma vez, esta linda cena.
Num abraço apertado os dois permaneceram, pai e filho, por algum momento em silêncio como se fosse o regresso de uma longa ausência. O cachorro então, parecendo entender, apenas gania baixinho.
O caboclo levantou-se, pegando no colo seu filho, que em mil perguntas queria saber tudo o que aconteceu com o pai naquele dia. Passou a mão calejada na cabeça do pulguento e rumou para casa.
Na soleira da porta abraçou sua cabocla.
A casa era singela de paredes e assoalho em madeira lavrada coberta de sapé. Uma mesa tosca, com quatro cadeiras em palhinha, era a mobília mais importante presente que fora dado por um compadre seu. Na parede, assentado numa cantoneira, um rádio antigo, valvulado tocado a bateria era a única modernidade daquela família. Um quadro antigo da sagrada família estava pendurado na outra parede abençoando o ambiente. Um lampião a querosene deixava rastros de fumaça na parede onde estava pendurado. O quarto era contiguo a cozinha onde acomodava o casal e seu filho nas camas toscas coberta de colchão de palha de milho.
A lata de água no fogão a lenha de taipa para o banho já estava quase borbulhando. As panelas de ferro já anunciavam que o jantar logo estaria pronto.
Pegou o machado atrás da porta, verificou o fio e foi cortar um pouco mais de lenha. Empilhou-a no puxado ao lado do poço. Com o sarilho tirou alguns baldes d’água enchendo a tina que estava dentro da cozinha. Conferiu as galinhas no galinheiro fechando-o cautelosamente. Deu uma rápida olhada no leitão que engordava no chiqueiro, quando então, escutou a voz de sua cabocla:
- A água já tá quente, amor! Anunciou ela;
A noite já se apresentava vestida de estrelas no brilho do luar que se perdia na amplidão.
O caboclo entrou, acendeu o lampião da cozinha e levou a lamparina para o lugar do banho.
Desceu na roldana o balde de chuveiro, colocou a água fria e em seguida a água quente dosando a temperatura; Ergueu-o na altura adequada, amarrando a corda num prego de caibro que se encontrava cravado na parede.
O caboclo sentou-se à mesa, e em seguida seu filho. A cabocla carinhosamente serviu o jantar e sentou-se também. Na mesa o feijão, o arroz, a farinha de mandioca e o frango tudo do processo do próprio sítio. Um breve silêncio, e a voz de barítono do caboclo elevou-se em oração de bênçãos, e agradecimento pelas coisas que tinham.
Num banco tosco, ao lado de fora recostados na parede os três conversavam tomando banho de luar admirando as estrelas ao som da orquestra da zoina dos mosquitos, dos grunhidos do porco no chiqueiro, do pio das corujas e do muar das vacas nos currais mais distante.
Tudo era melodia quando então o caboclo para completar a sinfonia pegou sua viola e começou a cantar uma modinha qualquer. Seu filho, que brincava com o cachorro, sentou no banco ao lado da mãe para se deliciar com as canções de seu pai.
Sua toada, na voz melodiosa foi além da cerca, além dos currais, perder-se no horizonte escuro.
Quando viu o filho adormecido no regaço da sua cabocla cantou, com alegria e muito amor, sua última canção.
Esta música foi como uma oração que ele dedicou ao seu criador antes de se recolher.
Apagou-se o lampião.
Tudo agora dorme na sinfonia surda do silêncio, apenas o vento, do lado de fora, brinca nos ramos verdes do coqueiro que se curva ainda mais.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
COMO MORREU JESUS CRISTO
Eu e a Inca tínhamos terminado a nossa catequese para a primeira comunhão em Arapongas. Estávamos bem preparados e doutrinados com nossas rezas afinadíssimas para receber Jesus na comunhão. O pai neste meio tempo resolveu mudar-se para Presidente Venceslau.
Chegamos às vésperas do Natal na hospitaleira e pacata cidade de Venceslau no final do ano de 49. As ruas sem calçamento com a grama por fazer era desenha graciosamente com dois sulcos, bem ao centro em areia deixados pelas poucas conduções que por ali transitavam. Tudo anunciava a tranqüila vida que existia por ali.
Já de chegada no primeiro domingo o pai nos levou a Igreja para nos apresentar ao padre. Todo orgulhoso já foi contando vantagem de que seus dois filhos mais velhos estavam preparados para a primeira comunhão. Frei Dionísio não duvidou e até abençoou, mas como São Tomé que era pediu para que eu e a Inca viéssemos já na segunda, na casa paroquial para o exame de praxe.
Eu e a Inca demos mais algumas repassadas nas orações e lá fomos nós para o exame confiantes da aprovação.
Primeiro fui eu, sem qualquer problema fui aprovado conseguindo assim o aval para receber o Cristo e com isto salvo do fogo eterno. A Inca foi logo em seguida. Fiquei por ali para no caso de dúvida dar uma ajudinha se fosse necessário.
Frei Dionísio apresentava um grande problema estrutural de esqueleto; Tinha o pescoço fiincado no tronco sem a dobradiça que permite o indivíduo movimentar a cabeça de um lado para outro livremente – Era tudo fixo sem movimento algum - e com isto para ele olhar para qualquer um dos lados tinha que mover toda a carcaça também. Sabendo disso me pus estrategicamente atrás do Padre para poder com sinais de braços, mãos, dedos e boca ajudar a Inca na hora do sufoco.
O Frei pergunta uma coisa e a Inca de pronto responde; manda rezar o pai nosso que na época era o padre nosso e a Inca tira de letra. Manda fazer o sinal da cruz e ela o faz com maestria. Quando já estava por terminar o interrogatório ele pergunta para a Inca:
- Minha filha, como última pergunta quero que me responda como morreu Jesus Cristo o filho de Deus.
A Inca pensou, pensou, olhou de um lado e olhou de outro e finalmente, desesperada olhou para mim. Eu fiz com os dedos indicadores o sinal da cruz e com os lábios eu repetia, repetia pausadamente: - Morreu na cruz. E a Inca, branquelinha, de cabelos loiros compridos, suando frio estava perdidinha da silva num longo e cruel silêncio. O frei olhando no relógio, coçando a cabeça e ajeitando a batina resolveu dar então uma ajudinha e com isto acabou matando a charada para a Inca:
Pense minha filha – falou o frei no desejo ardente de ajudá-la. Pense em alguma coisa bem triste muito triste mesmo. Pense em alguma coisa cruel.
A Inca com o dedo indicador na ponta da boca e de olhos virados para o alto começou a divagar em pensamentos tantos. Pensou, pensou muito e de repente veio na lembrança dela uma cena muito triste que tinha presenciado algum tempo passado.
Estávamos em Apucarana, voltando do Hospital quando da visita à mana Laura que tinha sido operada de apendicite. Estávamos acompanhados do papai. Ao virarmos uma esquina deparamos com uma cena que nos chocou. Estavam ali adiante quatro pirralhos de chacota com um bêbado que prostrado caído na valeta não podia fazer nada contra aqueles monstros que também jogavam pedras gritando: - Morra seu bêbado vagabundo, filho de uma puta. Nosso pai imediatamente afugentou aqueles vadios indo solícito acomodar melhor o bêbado na calçada. Na volta pra casa comenta:
- Vocês viram que coisa mais triste?! Coitado daquele homem ia morrer bêbado e apedrejado por aqueles moleques sem vergonha!!! A Inca ainda estava por estes pensamentos quando o frei a interrompeu:
- E daí minha filha, qual é a resposta?
Eu fiz mil sinais da cruz para avivar a sua memória; Só me faltou, imitando a voz dela como um ventríloquo responder a questão, mas nada disso adiantou, ela de chofre responde:
- Morreu bêbado e apedrejado.
Frei Dionísio se transfigurou, arregalou os olhos como se tivesse visto o capeta não acreditando no que acabou de ouvir; benzeu-se todo jogando água benta por cima da Inca e aos berros mandou o coroinha imediatamente chamar o nosso pai.
O pai chegou todo assustado e o frei alucinadamente disse:
- Só não vou excomungar vocês porque não tenho poder para tanto, mas vou passar uma baita penitência para ser cumprida para que este sacrilégio possa ser apagado.
Meu pai aceitou a penitência contrito e sem entender a tremenda bronca recebida. Quando de volta para casa é que relatei o que aconteceu, pois o frei não se atreveu a repetir para o pai as palavras que a Inca tinha proferido com medo de ser devorado por um raio ou ir morar eternamente nas profundezas do inferno.
A Inca só foi receber a primeira comunhão um ano depois quando já o frei Dionísio não mais estava na paróquia. Toda vez que ele passava por ela fazia o sinal da cruz e tremendo de medo mudava de rumo.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
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