segunda-feira, 5 de junho de 2017

MOLEQUE PIRRACENTO

Chorando, então voltei, e fui enxugar as lágrimas na saia de minha mãe. Você já foi birrento, pirracento? Não tem na memória, ou está mentindo? Pergunte então para seus pais. Eu acho, apenas acho que não fui nada birrento, mas, por ironia da vida, infelizmente tem uma cena registrada em minha cachola, que diz o contrário. Por mais que queira apagar, ou negar, tem meu pai para dela me lembrar. Diz a lenda que o fedelho, a partir dos dois ou três anos até uns aos cinco, começa a se manifestar ruidosamente principalmente em público. Dizem os psicólogos e pedagogos que os pequenos projetos de gente começam a radicalizar suas vontades, a apavorar seus pais, ao descobrirem, por encanto, que é através dessas manhas, dessas birras que eles conseguem se fazer ouvir rapidinho. As birras muitas das vezes vêm para extravasar um descontentamento ou então um aviso: - “Ei, eu estou aqui e quero ser atendido!” Se os pais ou responsáveis pelo menor não o atender vai, com certeza, pagar o mico. Na minha época umas boas chineladas na bunda e puxões de orelhas resolvia rapidinho o beco sem saída, mas hoje isso é considerado violência, e o aplicador dos tapas pode apodrecer na prisão. Recebi injustamente muitas chineladas, isso muito bem me faz lembrar. A cidade em que a gente residia era de chão vermelho. Era tão vermelho que o pessoal usava a terra para tingir roupas e pintar as casas. Era um torrão grudento, incrivelmente pegajoso, tão aderente que a polícia usava para engessar os bandidos. Era o terror para as mães, principalmente quando chovia. Quando levava umas chineladas de minha mãe, lá ia eu me vingar dela me espojando, quase chafurdando, naquela imundície. Rapidinho ela tinha que me lavar para não virar moleque de pedra. Eu adorava fazer isto para ver minha mãe esbravejando. Era como uma pequena vingança para abrandar o ardume das chineladas. Um dia, numa viagem de vapor, de Porto Amazonas a São Mateus, aprontei alguns inconvenientes, e recebi como paga umas boas chineladas. Eu achava que era preterido pelos meus pais por causa de minha irmã mais nova. Coisa de moleque ciumento. Diga-se de passagem, uma viagem de vapor para uma criança, de três ou quatro anos, julgada excluída pelos seus pais, não poderá ser comparada com um passeio pela Disney. Quando o vapor estava atracando em São Mateus, ainda sentia minha bunda ardente pelas chineladas recebida. Arquitetei um monstruoso plano que iria colocar minha mãe e meu pai numa verdadeira sinuca. Talvez essa atitude fosse a maneira deles me notarem, foi isto que pensei. Seria uma pequena grande vingança. O vapor atracou. O tempo estava chuvoso. Saí prancha abaixo em direção ao lamaçal, ouvindo minha mãe desesperada gritar: - Mario, cuidado! Volte aqui menino! Sem dar ouvidos a ela, só não chafurdei para não sujar a roupa que adorava vestir, mas meti as mãos naquele barro com fé e coragem. Ao invés de bravos, ouvi meu pai e minha mãe gargalhando. De imediato, olhei para minhas mãos e não acreditei no que via. Fiquei decepcionado. Minhas mãos estavam limpas, limpíssimas, apenas cheias de areia, e nada mais. - Que bosta de terra é essa que não suja? Questionei-me perplexo e desconcertado. Chorando, então voltei, e fui enxugar as lágrimas na saia de minha mãe, que ainda ria passando amorosamente a mão na minha cabeça. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

domingo, 14 de maio de 2017

MINHA DOCE MAEZINHA - HOMENAGEM PÓSTUMA

A separação é como um elo que se rompe, como uma parte boa de nós arrancada que se perde em pedaços irrecuperáveis. É uma interrupção que causa um desconforto, um mal estar deixando um vazio enorme e uma tristeza que não tem fim. Nossa mãezinha como um anjo partiu suavemente desta vida bem ao seu jeito, abençoando a todos e com uma expressão feliz no rosto. Seu corpo frágil, debilitado pela enfermidade, pelas dores cruéis que sofria foi vencido e sucumbiu ao peso da morte. Nós ficamos tristes, pois se foi a alegria de seu sorriso; foi com ela seu humor irreverente e no fechar de seus olhos foi se embora a eterna mãe sempre preocupada com seus filhos e com seu querido velho Chico. Gritei por Deus e em vão procurei uma justificativa uma explicação, pois a emoção muito maior que a razão me tapou o raciocínio lógico. Aos poucos, rosto lavado pelas lágrimas, entre soluços, inconsolável bradei ao Senhor que me mostrasse, pelo menos mais uma vez a minha querida mãezinha. Ele atendeu. Uma luz muito forte, brilhante num primeiro momento tornou-me cego e aos poucos fui me recuperando e fiquei fascinado pela visão deslumbrante que se me apresentou. Uma verdadeira pintura foi o que vi. Era um lugar muito lindo. Via-se ao fundo uma serraria e um pouco para frente uma casa grande com sótão com as janelas semi abertas. Um riacho de águas limpas serpeava por entre as grotas e se perdia distante banhando a floresta verdejante de pinhais e erva mate. Parecia um dia de festa. Muita gente rindo, conversando alegremente. Fizeram um corredor enorme enquanto o apito da serraria soava sem parar para receber a ilustre e tão esperada Marina. Ainda aturdida pela morte e preocupada com o pessoal que chorava a sua volta ficou por momento inerte. A sua frente um pessoal festivo que aguardou impaciente sua chegada e para trás seus filhos, esposo e amigos inconsoláveis com sua partida. Passou carinhosamente a mão pela cabeça do pai tentando confortá-lo e amparou cada um que a volta de seu corpo sem vida rezavam a Ave Maria. Veio ao seu encontro o vô Silvestre e a vó Rosália acompanhada pela Alice que disse: - Oi dona Maria, que bom que a senhora veio, estamos felizes por isto. Vamos cuidar da senhora. A mãe Rosália pega com ternura em suas mãos e o seu pai diz: - Vem despreocupada, pois eles vão ficar muito bem e amparados, dizia isto enquanto ainda a mãe olhava para seus entes queridos ao lado de seu corpo já sem vida. E ela olhou consternada mais um pouco para o pessoal que chorava a sua morte e foi, e muito feliz ficou ao ouvir do seu pai que o baile lá na sala da casa estava preparado e que ele queria dançar a primeira valsa com ela. Vamos, vamos Maika, pois temos muita coisa para fazer. E a mãezinha muito feliz passou pelo corredor de gente abraçando cada um festivamente. Tio Lúcio foi o primeiro e disse quando a abraçava: - Não fui em vida morar com você, mas acompanhei feliz o teu crescimento, a tua abnegação e o teu amor incondicional para o cunhado Chico e para meus queridos sobrinhos. Tio Boles ria feliz. tio Valdo, tia Irene, tia Salca tia Amália tio Carlito cercando a irmã que acabara de chegar cada um a sua maneira queriam mostrar as coisas lindas daquele local a fim de deixá-la mais a vontade. Até o vô Moises, com tio Altino, tia Julinda, tio Ruy e tia Nena vieram abraçá-la. Assim Deus na sua infinita sabedoria mostrou para mim conforme meu entendimento a outra dimensão da vida. Mostrou a imensa alegria da recepção e da chegada do espírito ao se desprender deste mundo. Eu não vi o baile, mas vi meu avô gritando pelo pátio da serraria convocando o pessoal.

domingo, 26 de março de 2017

sexta-feira, 17 de março de 2017

AH! COMO ERAM LINDOS OS MEUS NATAIS!

Universal, abrangente, calorosa e cheia de amor assim é a festa de Natal, que inebria e povoa de fantasia a mente das crianças e adultos. É uma data esperada, cantada por todos, e é uma das mais coloridas celebrações da humanidade. É uma época em que toda a fantasia é permitida. Meus natais eram doces cheios de esperança e ansiedade. Dava a impressão que entre um e outro decorria um século, tal o tempo de espera. Eu sempre sabia que a data natalina estava próxima porque minha mãe sinalizava ao retirar de seus guardados o presépio, e o pai ao trazer, nem sei de onde, um pé de cedrinho que era bem grande; Eu acho que era do tamanho dele. Lá no canto da sala minha mãe ajeitava cuidadosamente, com pregos na parede o pé de cedrinho, e então, eu e minhas duas irmãs começávamos felizes o trabalho manual de preparar as correntinhas em papel celofane coloridas, os origamis de balões, fazendo cestinhas de papel onde minha mãe colocava os docinhos e bolachas que ela mesma fazia. Ela era muito hábil neste tipo de dobradura de papel. Ela delicadamente distribuía os algodões pela árvore, fazendo com que eles ficassem enroscados ou derretendo por entre as folhas como se fossem a neve. Eu nunca entendi o porquê destes algodões, mas também nunca perguntei. Achava fascinante e era o que bastava. As velinhas, finas em cera, em delicados castiçais eram dependuradas, uma a uma com cuidado, presas por presilhas. O presépio cuidadosamente disposto do lado do cedrinho dava o ar da devoção e da fé. Do outro lado um espaço reservado para os presentes. Eu acho que minha mãe conseguia deixar tudo arrumadinho e organizado uns dez dias antes do natal. Após o jantar, todas as noites que antecedia o tão esperado dia vinte e cinco, as velas eram acesas e meu pai, minha mãe e nós de joelhos rezávamos ao menino Jesus agradecendo pelo dia e pedindo saúde e muito amor para a família. Eu rezava, mas meu agradecimento era para este tal Jesus por ele permitir que no dia de seu aniversário a gente ganhasse presentes. Eu achava muito legal este tal menino deus e por isto acompanhava com entusiasmo meu pai e minha mãe nas orações. Meus joelhos às vezes doíam, mas eu agüentava firme até o final. Nas minhas orações eu prometia a este tal menino que iria me comportar, seria obediente a meus pais, e que não brigaria mais com minhas irmãs. Os dias passavam lentos parecendo séculos se arrastando. Lembro-me que quando chegava a tão esperada noite era de muita festa e de muita alegria lá em casa. O comportamento meu e de minhas irmãs neste dia era exemplar; Nenhuma briga, nenhuma desobediência. Eu acho que minha mãe gostaria que todos os dias fossem natais. O dia vinte e quatro de dezembro era mágico, fascinante, pois além de trazer o amor, a paz, trazia os tão esperados presentes. A gente nunca pedia, mas sabia que vinha. O presente sempre representou um momento ímpar que era trazido pela magia da primeira estrela surgindo na amplidão celeste. A oração da noite de natal me parecia não ter fim, mas ao seu término minha mãe sempre pedia para que eu e minhas irmãs fossemos para fora para esperar e anunciar a primeira estrela no céu. O céu era um grande palco e o breu da noite era uma cortina enorme que se abria para mostrar a sua principal estrela; A primeira que surgisse. Eu acho que às vezes o céu era trocista conosco ao demorar em abrir sua cortina. Naquela época, a escassa iluminação das ruas permitia um céu mais escuro revelando imediatamente a primeiro ponto luminoso ao aparecer de repente na amplidão. Às vezes me colocava deitado de costas para facilitar fiscalizar o surgimento da tão desejada e esperada primeira estrela no infinito céu. De repente, alguém de nós grita apontando com o dedo um ponto brilhante no céu: - É ela, é ela! E nós, em louca correria entrávamos estabanados na sala gritando para nossa mãe: - Ela apareceu! Ela apareceu! Minha mãe sorria, com aquele sorriso lindo para nós, meigamente nos abraçava e apontava para os presentes ao lado do presépio. Ah! Como meus natais eram lindos. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA