MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
O #SAPATO SAGRADO
Nos tempos idos em que era guri não atinava muito com estas coisas de obediência, de temor a Deus. Queria ter meu próprio reinado. A bíblia, no entanto é muito severa quanto a isto e deixa a criança a mercê dos seus progenitores. Ela coloca a falta de submissão à vontade dos pais na mesma latitude e longitude de outros terríveis pecados que pululam soltos por aí, tais como o tráfico de drogas, pedofilia; corrupções, sonegação ou apropriação indébita com dinheiro em cueca, meia, mensalão e dos diários secretos da câmara dos deputados.
Eu acho que Deus, por preguiça ou por falta de controle, colocou nos ombros dos pais estas leis para se ver livre da molecada. Veja em Efésios: Honra teu pai e tua mãe para que te vá bem e tenha vida longa. Meu pai com seus 96 anos deve ser o exemplo disto. Não sei não se viverei muito! Na bíblia está escrito que os pais devem orientar seus filhos na disciplina e na admoestação do Senhor. Tarefa cruel esta!
No meu tempo de piá, Deus era mais moço e muito severo. Não me afinava muito com Ele. Eu ia com meu pai a Igreja e enquanto ele rezava eu ficava de olho naquele olho cruel dentro do triângulo onde se lia que Deus tudo vê e castiga. Isto me deixava puto da vida e um tanto apavorado. Nunca quis conversar com Ele, mas se fosse conversar iria dizer umas boas. Hoje o meu Deus é mais velho e mais experiente e me permito bater uns bons e saudáveis papos. Tenho aprendido muito com a Sua experiência e ele tem sido mais compassivo, mais tolerante e até mais humano.
Bem eu vivi nesta severidade toda onde a lei de proteção ao menor não era observada e o trabalho menor escravo corria solto sem qualquer fiscalização.
Entre muitas atividades que tinha que fazer a contra gosto em casa uma tarefa odiosa era o de engraxar o sapato de meu pai. E aí eu ficava mais e mais encanado com Deus, pois sempre o sapato engraxado aos finais de semana era para ir visitar a Sua casa aos domingos.
No final de semana minha mãe sempre me lembrava:
- Já engraxou o sapato do seu pai? E lá ia eu furioso com Deus e meu pai executar a terrificante, impiedosa e laboriosa tarefa.
- Por que será que Deus exige que meu pai tenha os sapatos engraxados para ir visitá-lo? Perguntava isto resmungando furioso para mim mesmo enquanto me desgastava, me acabando todo nesta labuta.
Um dia ao iniciar a fatigante e terrível tarefa de engraxar o sapato verifiquei que não tinha a graxa marrom. Não sei se por espírito criativo ou por revolta mesmo peguei a graxa preta e fiz o processo tranquilamente.
- Meu pai nem vai perceber e até vai gostar, pensei cá com meus botões.
O sapato ficou com uma cor toda atrapalhada que variava do marrom ao preto. Ficou da cor de vão de cerca. Talvez uma nova cor tenha sido criada. Não gostei muito, mas a tarefa foi cumprida.
No dia seguinte é que fui sentir as conseqüências do inconseqüente ato. O sapato da cor marrom era de exclusividade para a casa do Senhor e o da cor preta para trabalho. A cor que elaborei e compus no sapato certamente seria para conduzir à casa do capeta, pois meu pai quando viu aquilo virou o bicho e como servo obediente daquele Deus rigoroso, fez sua oração ali mesmo. Não pode ir a Igreja e me aplicou umas lambadas na parte posterior traseira amaciada. Passei o dia todo sem poder sentar removendo a graxa preta do sapato sagrado.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
quinta-feira, 24 de agosto de 2017
MALDITA SOMBRINHA
Minha mãe# sempre foi de uma prestimosidade a toda prova e cheia de cuidados com todos os filhos.
O tempo, aquele dia estava muito feio. Nuvens negras e carregadas passeavam alegres no céu fazendo faísca com seus puns barulhentos. Eu estava admirando as diferentes figuras formadas por estas criaturas do céu. Era um homem deitado logo depois um coelho correndo ou então um galo cantando. Era tudo tão rápido tão mágico tão lindo que eu ficava desejando um dia poder fazer o mesmo numa folha de papel.
Estava absorto, perdido em pensamentos por algum instante embevecido namorando aquelas nuvens. Achava-as linda, graciosas, mas que às vezes mijava aqui na terra.
Minha mãe tinha outra explicação para estes traques e para este líquido vomitado pelas nuvens. – Meu filho, dizia ela, São Pedro esta lavando o céu e para lavar é necessário afastar os móveis, cadeiras e mesas do lugar e jogar muita água e é por isto os grandes barulhos e a água que cai.
Não botava muita fé nisso; Divertia-me os ruidosos puns e fugia da urina quando as nuvens mijavam.
Ainda absorto com tudo isto minha mãe chega perto de mim e fala:
- Guri, vá pegar suas coisas que está na hora de ir para a escola.
Freqüentava já, nesta época o segundo ano do grupo escolar. Tinha nove anos e já quase um homem maduro embora ainda sem pelo no saco e na cara.
Coloquei meu guarda-pó branco, cruzei no pescoço as alças do embornal de tecido – costurado pela minha mãe e já ia saindo quando minha mãe me interpelou: - Lavou as mãos, penteou os cabelos? E lá ia ela fazer uma vistoria completa nas orelhas, unhas e cabelo.
Quando finalmente ia saindo me entregou sua sombrinha# de seda toda florida com um colorido muito lindo, mas admiravelmente extravagante. Antigamente não se escamoteava facilmente as sombrinhas; Eram enormes e continuavam enormes o tempo todo e muito maior quando abertas, escancaradas, chamando a atenção como putas velhas de pernas abertas.
- Não minha mãe, eu não vou levar isto, imediatamente interpus à sua vontade acrescentando – nem vai chover hoje.
Neste momento as nuvens filhas de uma puta, rindo e fazendo diversas caretas no céu soltaram estrondosos puns obrigando minha mãe a fazer três vezes o sinal da cruz.
Não tive argumento contra este fato.
Peguei a maldita colorida e tentei camuflar por entre o embornal e o guarda-pó. Meu andar ficou troncho, mas consegui chegar até o Grupo e me esgueirar até a sala de aula. Dispensei as brincadeiras no pátio antes da aula e consegui camuflar a sombrinha perto da parede.
A aula era sobre... Nem sei sobre o que era só sei que passei o tempo todo rezando para que aquelas malditas nuvens fossem embora. Elas me acompanharam de casa até o grupo e ficaram soltando traques em cima da escola. Eu as escutava rindo e dizendo: - Quando a aula terminar eu vou mijar em você, e gargalhavam, peidavam e soltavam labaredas que riscavam rapidamente o céu.
Minha carteira ficava perto da parede debaixo da janela e o tempo todo de duração da aula eu fiquei ouvindo isto.
- Vou mijar em você... Vou mijar em você – e gargalhavam, gargalhavam sem parar.
Certo momento, perdi a paciência e gritei:
- Chega de peidar# e mijar# sua filha de uma puta.
A classe toda se virou boquiaberta para mim.
Fui levado para a Diretoria
O diretor perguntou:
- Por que você disse isto para sua professora#?
- Eu não disse isto para ela eu disse isto para as nuvens, tentei explicar ao Diretor. Foi em vão; além do sermão e de me chamar de doido levei 10 palmatórias na palma da mão e voltei envergonhado para sala de aula com uma tarefa a mais: escrever 500 vezes “não devo xingar a minha professora”.
E as nuvens continuavam lá, peidando, arrotando e vomitando fogo.
O sinal tocou e em alvoroço todos saíram da sala.
Camuflei novamente a sombrinha entre o embornal e o guarda-pó e meio troncho saí da sala. A água descia à cântaros.
A turma se acotovelava a saída uns abrindo guarda-chuva e outros esperando a chuva passar. Por entre a turba, debaixo daquele aguaceiro saí disfarçadamente, vagarosamente, troncho como se nada estivesse acontecendo até virar a esquina.
Tirei a maldita sombrinha da camuflagem para facilitar minha movimentação e saí em desesperada corrida até em casa.
Cheguei encharcado dos pés a cabeça. Já na porta de entrada virei-me mostrando uma banana com os braços para as nuvens, entrei em casa completamente molhado, joguei a sombrinha a um canto e recebi uma puta bronca da minha mãe por estar todo molhado.
- A sombrinha não quis abrir, disse pra ela.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
sábado, 12 de agosto de 2017
SER PAI
Mario dos Santos Lima
VOCÊ É PAI QUANDO NUM ATO CONTINUO DE AMOR PARTICIPA NA GERAÇÃO DE UM FILHO!
VOCÊ É PAI QUANDO NA GRAVIDEZ DE SUA AMADA SENTE ENJOOS E ATÉ DESCONFORTO ABDOMINAL AO MESMO TEMPO QUE ELA.
VOCÊ É PAI QUANDO ESTÁ PRESENTE NO NASCIMENTO DE SEU FILHO DIZENDO DE SUA ALEGRIA NA LÁGRIMA QUE ESCORRE VADIA PELO SEU ROSTO!
VOCÊ É PAI QUANDO ENSINA PACIENTEMENTE SEU FILHOS NOS PRIMEIRO PASSOS E CHORA FELIZ EM VÊ-LO CAMBALEANDO MUDAR SOZINHO SEUS PEZINHOS!
VOCÊ É PAI QUANDO CORRIGE COM AMOR SEUS PEQUENOS DESLIZES!
VOCÊ É PAI QUANDO ACOMPANHA A VIDA TODA O CRESCIMENTO DE SEU FILHO!
VOCÊ É PAI QUANDO SENTE FALTA DOS ABRAÇOS DE SEU FILHO POR ELE ESTAR DISTANTE!
E FINALMENTE VOCÊ É REALMENTE PAI QUANDO AMA INCONDICIONALMENTE A MÃE DE SEU FILHO DESDE OS PEQUENOS GESTOS, PALAVRAS AMOROSAS DE APOIO E CARINHOS ABRAÇOS.
PARABÉNS A TODOS OS PAIS!
sábado, 5 de agosto de 2017
A FALSA VIRGEM
A liberação dos comportamentos sexuais permitida pelo uso de contraceptivos químicos ou mecânicos, e a emancipação social das mulheres alterou profundamente a visão da virgindade nas sociedades contemporâneas. Ao mesmo tempo em que o contraceptivo permitiu separar o ato sexual do ato de procriar, a virgindade perdeu o seu papel de garantir a filiação do casal. Estas mudanças fizeram com que o papel da virgindade perdesse o atributo de caráter sagrado, e hoje, não tanto pela expansão de movimentos religiosos mais conservadores, e sim, muito mais pelo medo das doenças sexualmente transmissíveis tem levado a uma renascença da virgindade como um ideal positivo e desejável para alguns. Medo apenas, eu acredito.
A virgindade hoje para a mulher é uma questão de opção. Com relação ao sexo ela está plenamente preparada.
Tudo é uma questão de ponto de vista de uma cultura, de uma época ou de recalques.
Na nossa cultura, aqui nesse Brasil grande, no milênio passado perto da metade do último século a coisa era bem diferente de como é hoje. Para o homem a mulher só tinha valor se fosse virgem, e isto era pregado pela igreja, respeitado pela sociedade, e cultivado no seio da família. Sociedade machista.
Santo hímen!
O namoro era controlado e severamente vigiado pelos pais. Pegar na mão e dar uns beijinhos só depois de noivos. O sexo era uma palavra proibida entre eles.
Se a moça ficasse grávida era o fim do mundo, ela era expulsa de casa e forte candidata ao prostíbulo. Ela era considerada uma leviana, uma putinha se experimentasse as delícias do ato sexual antes do casamento.
Ao homem tudo era permitido. Ele tinha as primeiras lições de sexo na escola de prostituição, lá na zona, ao derredor da cidade com as putas rameiras professoras ensinando-lhe, e colocando em prática tudo o que elas sabiam. Muitas vezes, a primeira vez eles eram acompanhados de seus orgulhosos pais a este prostíbulo. E as mulheres? Ah! Elas apenas se embebiam das informações truncadas de alguma amiga mais vivida que tinha informações de livros, ou conseguiam isto de casadas indecentes revelando suas tristes vidas íntimas. Para a mulher o sexo era uma coisa feia, terrível e inevitável. Seu corpo em formação sensualmente pedia, mas sua cabeça com informações destorcidas rejeitava.
A primeira noite para a mulher casada era a noite do terror, e se tornava pior ainda quando o cavalo do marido tinha sido um péssimo aluno na escola de prostituição.
Foi neste período que presenciei uma cena de casamento dantesca.
O matrimônio envolvia duas famílias geograficamente distantes. A família do noivo trabalhava na fazenda no estado do Mato Grosso e a família da noiva trabalhava na fazenda no estado de São Paulo. As fazendas tinham um laço íntimo de parentesco, pois pertenciam ao mesmo dono.
O rapaz era capataz do fazendeiro e acompanhava-o muitas vezes por todas as fazendas. Nestas idas e vindas conheceu a bela morena da outra fazenda. A cabocla tinha os olhos negros, cabelos lisos e longos, e um corpo lindo escultural convidando para o pecado. Apaixonaram-se perdidamente e trataram de marcar o casamento. Poucas foram às vezes que se encontraram.
A cerimônia foi realizada na casa da noiva.
A festa rolava solta com os convivas se deliciando com a comilança de mesa farta. Lá num canto alguém riscava uma viola numa cantilena cabocla qualquer. Tentando sorrateiramente escapar, os noivos se recolheram ao aposento nupcial que ficava ali próximo. Todos perceberam e se agitaram. Com certeza o assunto agora era apenas um. O povo todo, num burburinho danado fazia as fofocas. Vi muitas mulheres suspirando e se entreolhando coniventes, debochadas, e outras tantas com risinhos safados fazendo gracinhas, se cutucando, talvez tentando imaginar a pornografia que rolava lá dentro.
Esta cena não perdurou mais que trinta minutos.
De repente, lá dos aposentos íntimos fez-se ouvir gritos disformes. Gritos horríveis, sufocados.
- Será que é ela que grita de dor no ato da deflora, ou é ele que urra cavalarmente por não conseguir penetrar em tão virgem vulva? Eu acho que no início era este o pensamento geral da multidão incontida do lado de fora.
Todos esperavam ansiosos.
Fez-se silêncio sepulcral. A viola parou de chorar, e o povo todo aguardava o desfecho final desta luta sangrenta.
De repente a porta da intimidade se abre e sai o noivo escabelado, gritando:
- Ela não é virgem!
No início o povo quis aplaudir, mas em silêncio se conteve estranhando este anuncio. Na época não era de bom tom e de costume revelar a intimidade do casal. Muito bem que ele tenha conseguido o defloramento, mas não precisava anunciar assim bombasticamente a todos os ventos.
Mas o noivo, de pau murcho, calça mal abotoada, camisa solta no dorso e descalço gritou a todo pulmão.
- Esta vagabunda não é virgem! Ela me enganou! É uma puta vadia!
Dizendo isto, rasgou passagem por entre o público que de boca aberta assistia tudo, e foi direto a um suposto advogado dizendo:
- Vamos acordar o padre e o tabelião para cancelar este maldito casamento.
E desapareceram na escuridão da estrada.
O povo, punidamente olhando os pais da noiva, saiu de fininho e eu pensei cá com meus botões:
- Puta que o pariu, como é que a falta de uma pequena membrana na vulva pode transformar de repente a paixão incontida num ódio infernal?
Eu acho que naquela época a cabocla foi expulsa de casa, e sem saída transformou-se numa professora rameira num puteiro qualquer.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
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