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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
ARENA DE FUTEBOL OU DE GLADIADORES?
A violência do futebol tem a sua origem.
Quando eu assisto a um jogo de futebol que invariavelmente termina em pancadaria generalizada me reporto aos gladiadores. Só que naquela época a encrenca era dentro da arena e nunca fora dela. Às vezes desigual como, por exemplo, homens versus leões, mas a carnificina se restringia aquele cercado e o sangue corria apenas ali e deslizava até ao ralo e nunca para fora da arena.
Os gladiadores eram lutadores escravos treinados na Roma Antiga. Eles se enfrentavam com a finalidade de entreter o público como o futebol o é hoje também. O duelo só terminava quando um dos contendores morria ou ficava desarmado ou gravemente ferido. No futebol também nós vemos isto, pernas quebradas, braços e cabeças rachadas e para completar as cusparadas fazem parte do espetáculo. O futebol termina sutilmente com a marcação ou não de gols. Bem ao contrário do público do Coliseu os torcedores insanos do futebol quase sempre invadem o campo ou jogam bombas, sacos com urina ou merda e outros materiais nos jogadores.
As lutas dos gladiadores já aconteciam a mais de 280 anos antes de Cristo, no começo da Primeira Guerra Púnica, e por serem consideradas violentas foram proibidas no reinado de Constantino I, no ano 325 da era cristã. Para compensar isto criaram então as rinhas de briga de galos para satisfazer, com esta barbárie, a um público que necessita ficar babando, de olhos estalados, aguardando o final trágico de um dos animais penados.
Diz a literatura que o futebol data do século III antes de Cristo na China e que evoluiu em regras e violência até a Inglaterra no século 12 da era cristã. Por volta de 1300, estes jogos eram marcados, entre os habitantes de vilarejos próximos, com várias formas e regras de acordo com suas regiões, e alguns jogos até mesmo sem nenhuma regra com excessiva violência que resultava em brigas, destruições e até mesmo mortes. Por conta disto o Rei Eduardo II proibiu a prática do futebol no Reino Unido alegando ser um esporte anticristão. Ainda bem que o coitado e inocente Rei Eduardo não nasceu na nossa era.
Os gladiadores foram proibidos de lutar por Constantino I, a briga de galo foi proibida por Jânio Quadros e o futebol proibido por Eduardo II, mas hoje toda esta violência animalesca ficou aculturada, e podemos assistir em qualquer lugar principalmente nos campos de futebol. A briga de galos e a luta dos gladiadores sempre foram praticadas por dois contendores, e muito respeitadas pelo seu público. O futebol, no entanto deveria ser praticado por vinte e dois contendores, mas acaba sendo por uma multidão englobando os jogadores juizes e o público.
O campo de futebol é um palco que não se restringe somente na arena como o coliseu ou a rinha de galos. É um palco de selvageria dentro, mas diferentemente da rinha e o coliseu é uma guerra sangrenta de paus, pedras, socos e pontapés nas arquibancadas, nas ruas e ônibus também. Além do resultado do placar, é também o resultado de mortos nos cemitérios e feridos nos hospitais.
Os gladiadores tinham treinamentos em escolas especiais conhecidas como ludus. Os jogadores de futebol como os galos de brigas também têm estes treinamentos.
Quando os gladiadores iam lutar em outras cidades seus treinadores, chamados lanistas (provavelmente derivado da palavra carniceiro) iam juntos. No futebol também tem os lanistas (torcidas organizadas) que sempre acompanham os jogadores. Quando o jogo termina sempre acabam apanhando de outras torcidas organizadas.
Toda esta encrenca, este ranço de furor já está no sangue desde a concepção do individuo principalmente macho.
Eu me lembro quando guri participava, por conta de ser o proprietário da bola, do time de futebol da molecada da cercania de casa. A gente mais treinava socos e pontapés do que jogava. Quase nenhum time se arriscava a vir jogar conosco ou nosso time a ir jogar noutras regiões ou ruas. Mesmo nos treinamentos sempre saia um bate boca e uns tapas pela cara e uns socos pelo nariz, era este o sinal de que o final do treino tinha chegado.
Certo dia, um dos moleques da minha rua veio com a notícia de que no domingo a tarde estaria ali o time de Santa Sofia. Santa Sofia era uma fazenda de café aproximadamente a uns dez quilômetros da cidade.
A molecada toda se reuniu e deu uma geral no campo. Catou alguns pedaços de paus e tijolos esparramados pelo campo, espantou os lagartos e tatus entocados, passou a foice para abaixar um pouco o mato; demarcou com cal as divisas do campo; Deu uma amarrada nos paus das traves e ajudou a concertar a bola que já estava com a barrigada de fora.
O domingo chegou de sol escaldante.
Logo após o almoço alguns moleques, molequinhos alienígenas começaram a chegar. Ficamos a um canto só observando.
O jogo de futebol deve ter onze jogadores de cada lado e três juizes – um de campo e dois que atuam pelas laterais. Juizes nunca foram necessários para as nossas contendas. Como o time deles só conseguiu chegar com nove jogadores nós então escalamos honestamente nove e duzentos ficaram do lado de fora dando aquela força necessária. E o jogo teve início. Eu não tinha muita noção de futebol, mas como era dono da bola jogava no gol. O jogo terminou antes do final com o placar favorável ao nosso time com o maior quebra pau da história daquela rua. Duzentos massacrando nove.
O comentário perdurou por meses. Naquela época não havia jornal, mas se houvesse com certeza estaria estampado na primeira página: - “Os reis do futebol e da luta livre são invencíveis. São cruéis com seus adversários”.
O tempo passa, a vida continua e da memória se apagam muitas coisas. Uns moleques ficam outros se mudam e muitos vão chegando.
Um dia o moleque chefe da nossa rua chegou e anunciou eufórico antes do treino ter início:
- Domingo à tarde vamos jogar em Santa Sofia.
- Que legal gritamos em coro e iniciamos um treino bem forçado que terminou como sempre em pancadaria.
Domingo chegou e lá fomos nós os quinze de estilingue no pescoço e pedras no bolso. Passamos pela chácara do Totó apanhando algumas canas e roubando alguns ovos dos ninhos que ainda estavam quentinhos das bundas das galinhas. Levamos tiros de sal que não nos atingiu. Passamos pelo campo dos japoneses, gritando impropérios para a raça. Nadamos nos riachos para nos refrescar do sol. Cruzamos a primeira mata e contornamos a segunda. Atiramos em passarinhos, enfrentamos cobras que fugiam cuspindo veneno e roubamos melancias. Para percorrer os dez quilômetros levamos aproximadamente três horas. Chegamos ofegantes e cansados, tiramos água de um poço e imediatamente os onze escalados estavam postados em campo.
O ambiente parecia bastante hostil. Acredito que havia mais de quinhentas pessoas armadas de paus e pedras para dar apoio ao jogo. O cemitério ficava contíguo ao campo e pude ver lá dentro uma enorme vala aberta esperando pelos defuntos. O coveiro olhou para mim e deu uma baita gargalhada. Uma coruja pipilou agourenta trepada numa velha cruz podre e quase tombada. Passou então um calafrio danado pela minha espinha.
O jogo teve início tenso e nervoso com onze do nosso lado e quinze do lado deles sem juiz ou bandeirinhas.
O nosso time era valente, mas estava respeitando o poderio do time adversário. O jogo transcorria numa calmaria violenta e aos vinte minutos já tínhamos levado quatro bolas no fundo do chiqueiro. As traves não tinham rede e os travessões que eu defendia terminavam num lamaçal de porcos. Eu tive que ir buscar a maldita bola sob as vaias daquela multidão quatro vezes no meio deste imundo lodaçal.
Logo em seguida ao ter levado o quarto gol um dos nossos fez uma lambança inacreditável e conseguiu marcar um gol fenomenal. Este gol foi o estopim de que a galera precisava. Gerou um tremendo protesto dos quinze jogadores adversários e dos mais de quinhentos espectadores que começaram invadir o campo com pedras e paus. A morte se acomodou tranquilamente de um lado do campo e de braços abertos nos esperava feliz.
Quando eu vi o enorme tumulto se agigantar, olhei o cemitério, a coruja e o coveiro, e não tive dúvidas, mostrando a banana com os braços ao coveiro corri. Atravessei o lodo, passei por debaixo da cerca de arame farpado deixando pedaços de carne nas farpas, e já estava no meio do pasto para uma retirada estratégica quando os componentes do nosso time, debaixo de pedras e paus conseguiram fazer a mesma coisa. Logo atrás a multidão enfurecida invadia o pasto com altos berros de guerra atirando paus e pedras. Acabei levando uma pedrada nas costas. Estaríamos completamente fudidos e enterrados se não fossem os dois toros que estavam já de língua de fora e de olhos virados cobrindo suas amadas vaquinhas no meio do verde pasto. Com o tumulto e umas pedradas no dorso a excitação dos touros acabou e eles furiosos investiram contra aquela multidão enlouquecida que medrosa, em desembalada corrida retornaram para o campo, e nós em ritmo de retorno de uma guerra, quebrados, machucados, ensangüentados e gemendo fizemos o caminho de volta para casa.
Perdemos no jogo e na briga.
Um dia eles também vão esquecer e virão jogar em nossa rua.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
quarta-feira, 22 de novembro de 2017
UM GUAPECA SARNENTO
Sempre gostei dos animais de um modo geral. Já tive até um cavalo, fruto que foi da troca por uma bola. Era tão velho, e desdentado que o infeliz acabou morrendo, no portão de minha casa, logo após a permuta.
Era menino ainda, e pedia insistentemente ao meu pai um cachorro, para que eu pudesse com ele brincar pelas pradarias, pular valetas e se banhar nos riachos. Seria meu companheiro para todas as horas, e dormiria no meu quarto ao pé da cama.
Meu pai resistia a idéia. Não queria ter mais uma boca para alimentar, e também não queria aumentar os latidos e uivos noturnos de que a rua era campeã.
Mas eu não abandonava meu desejo. Meu sonho era ter comigo este companheiro. Vivia arquitetando em sonhos como seria nossos folguedos.
Era um dia chuvoso, que despencava cinzento e friorento lá no horizonte.
Meu caminhar era solitário como solitários são todos os caminhares das crianças.
Absorto divagava com o meu imaginário companheiro, e nesta fantasia doida, corria alegre jogando pedaços de pau para que ele, aos pulos e feliz latindo trouxesse para mim.
Flutuando meus pensamentos ao sabor do vento, andava a esmo quando ouvi, ali na valete, esquelético, sarnento, quase sem a pelagem, uivando melancolicamente um cachorro pedindo misericórdia.
Olhei demoradamente para aquele animal pestilento, perdido em pulgas, e constatei que ele não representava o companheiro que tanto tinha idealizado. Alem de feio, pulguento, estava completamente combalido.
Continuei olhando, e me veio na lembrança dos cuidados com que minha mãe tratava de meus ferimentos, e com que rapidez eu me restabelecia. Pensei, olhando demoradamente para o cachorro:
- Vou levá-lo, e minha mãe vai tratar dele, e por certo vou ter rapidamente curado o companheiro que tanto quero.
Peguei-o com cuidado acomodando em meus braços, e ele ganiu, não sei se de dor ou sabe lá Deus porque.
Olhei para ele, mais uma vez agora já em meus braços e disse:
- Você vai ser meu grande amigo, e companheiro! olhava condoído para ele que, quase desfalecido, se dependurava em meus braços.
Meus passos eram agora mais vigorosos e rápidos. Minha ansiedade era maior ainda.
Pensava nele já curado, e serelepe pulando, de um canto ao outro, nos folguedos comigo. O pensamento era tão real que meu coração se descompassou.
Esbaforido cheguei em casa e fui apresentar o cão a minha mãe; Ela quase caiu de costa quando viu aquele canino quase cadáver, feito uma gelatina pendurado em meus braços, e me perguntou:
- O que isto meu filho! Você trás para casa um animal sarnento, quase morrendo! O que faz ele em seus braços? Por favor, vá imediatamente tomar um banho, completou ela.
- Eu o trouxe para a senhora tratar dele! - incontinente respondi.
Minha mãe olhou, com seu olhar de compaixão, primeiramente para mim e em seguida para o pobre animal e sentenciou:
- Mas ele está morrendo! não podemos fazer nada.
Brotou em mim um desespero e gritei:
- Não, não é verdade! ele é meu companheiro e não vai morrer!
E eu continuava sustentando o animal em meus braços.
Minha mãe se acercou de nós, colocou sua mão em meu ombro, e partilhando de meu sofrimento não disse mais nada.
Eu desesperado, aflito, olhando o cachorro moribundo, vi, que num esforço medonho, ele levantou a cabeça, olhou-me com um olhar de felicidade, lambeu minha mão, pendendo morto sua cabeça em meus braços.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
terça-feira, 14 de novembro de 2017
UM JEEP NADA CATÓLICO
Todo #moleque que se preze sonha com uma #bicicleta. Quer estar em cima da magrela zanzando por aí. Eu já era diferente, nunca tive uma e por isto não tinha a menor idéia e nem me interessava como se equilibrar nesta geringonça. Meu sonho mesmo era estar ao volante dirigindo um carro. Eu achava o máximo alguém na boléia de um carro. Aquilo exercia um fascínio incontrolável em mim. De ônibus ou de carro eu me punha atento aos movimentos mecânicos de mãos e pés do motorista. Aquilo para mim era poesia, era música divina. Eram estas as minhas aulas teóricas que aos poucos eu ia absorvendo. Durante o dia ou à noite, acordado ou dormindo imaginando estar ao volante fazia freneticamente os movimentos de pés e mãos na troca de marcha e aceleração. Com a boca bru e mais bru imitando o ronco do motor lá me ia eu dirigindo um hipotético carro pelas ruas. Muitas vezes surpreendido por alguém que me encarava com estranheza imaginando-me insano.
Durante minhas férias do seminário ficava o dia todo na Igreja fazendo algumas tarefas para passar o tempo na esperança de poder a qualquer momento dirigir o #jipe do padre.
O tão esperado e decantado dia finalmente chegou.
O padre Rosalvo tinha que sair para uma visita fúnebre e estando atrasado para este compromisso gritou para mim:
- Aqueça o motor do Jipe e o tire com cuidado da garagem para mim.
Aquilo foi como se eu tivesse ganhado sozinho na loteria. No momento fiquei todo atrapalhado, nervoso, confuso não acreditando no fato. Fui incontinenti ao encontro do Jipe. Neste breve caminhar aproveitei para recordar todas as minhas lições que tive ao longo do tempo como condutor. - Devo primeiro ligar a chave apertando com o pé esquerdo o pedal da embreagem, depois eu devo bla, bla, bla. Repassei assim todas as lições e quando me dei conta já estava todo trêmulo e perturbado no assento do monstro. Suava frio à cântaros. Quis desistir, mas me faltou coragem. – Esta é a minha grande oportunidade, pensei eu – Que Deus me proteja, proteja também o patrimônio da Santa Igreja e lá vamos nós.
Início do malogro. Liguei hesitante a ignição sem apertar com o pé a embreagem fazendo o jipe dar um salto violento para traz morrendo imediatamente para sorte minha. O resultado da operação foi um galo na cabeça e um hematoma no joelho.
- Vamos Mario! Coragem e tente novamente, parecia ouvir meu pensamento nervosamente gritando em meus ouvidos. Eu acho que ele queria é ver o meu oco, pois continuava martelando no meu ouvido: - Vamos! Não tenha medo, não seja covarde, não seja cagão.
A Igreja era contígua à garagem. A garagem ficava anexada à casa paroquial exatamente no pátio ao lado da Igreja.
Quem estava dentro da Igreja tinha uma visão panorâmica de toda a garagem bem como da casa paroquial.
Os fieis adentravam a casa santa tanto pela porta da frente como pela porta lateral que permaneciam escancaradas para amainar o calor que muitas vezes era infernal naquela região.
Naquela manhã de domingo a Igreja estava apinhada de fieis que se acotovelavam até pelo lado de fora das portas.
O momento era sagrado; Era mágico. Consagração da hóstia. O povo contrito num silêncio sepulcral fazia ouvir o virar de páginas do missal lá no altar.
Aquele silêncio dos diabos me incomodava à beça naquele exato momento. Deixava-me doido; Era interminável; Era insustentável; Era diabolicamente insuportável.
- Por que este maldito padre não canta ou faz o povo cantar? Perguntava-me eu desesperadamente. Preciso de muito barulho neste momento, continuava eu confabulando comigo mesmo. E a cerimônia não tinha fim, continuava lerda, muito lerda se arrastando dolentemente exigindo naquele momento um silêncio absoluto para que a magia se consumasse. Até os pássaros e a cachorrada vadia permaneciam em silêncio em respeito ao grande momento.
Tentava feito um doido ligar o carro que com seu vum, vum, vum teimava em não ligar.
A cada vum, vum do jipe roubava a compenetração dos fieis da Igreja que viravam a cabeça do lado olhando com ar de desaprovação a minha impertinência.
- Liga logo seu filho de uma puta rezava eu baixinho, muito contrito para o puto do jipe endemoniado. -Liga seu merda, continuava eu na santa e bendita reza batendo violentamente com os punhos o painel do carro como que num flagelo colossal.
Por fim o lazarento do jipe se deu por vencido, fez-se ligar e acabou aprontando uma merda comigo. A marcha estava engatada e o animal liberto foi todo faceiro beijar brutalmente estuprando a parede do fundo da garagem e assim a parede toda, gemendo, num gozo celestial, desfalecendo foi se quebrar com violência no chão num ruído ensurdecedor ao meio de um poeirão danado. Imediatamente no desespero pisei no freio engatando a marcha ré. Sem tirar o pé do acelerador ouvi os pneus cantarem no piso uma melodia nada sacra. O cheiro de borracha queimada e uma fumaça maldita invadiram como incenso o ambiente sagrado da Igreja. Vi desesperado que o lazarento do jipe saiu como um raio, de ré me carregando junto de encontro ao muro do jardim da casa paroquial. A garagem, aos berros de dor, não teve sustentação vindo ao chão porque o jipe violentamente na passagem arrancou a porta que estava meio aberta. O monstro só parou quando com um baque violento mais adiante pos impiedosamente o muro do jardim a nocaute.
O momento na Igreja# era sagrado ainda e continuava a exigir silêncio absoluto, mas foi interrompido sacrilecamente pelo enorme – “puta que o pariu, estou fudido” que soltei a todo pulmão preso que estava entre as ferragens do jipe e tijolos do muro.
Com os estrondos o padre Dionísio abandonou correndo a missa imaginando que fosse um ataque suicida e o povo aos berros em debandada saíu da igreja gritando: - É o final do mundo! É o final do mundo!
Todo ensangüentado por entre os escombros e no meio da poeira que o jipe tinha deixado recebi a sentença máxima dita aos berros pelo padre Rosalvo ainda em cueca:
- Está expulso da Igreja seu filho de uma puta.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
quinta-feira, 28 de setembro de 2017
A #GALINHA CARIJÓ DA PORTUGUESA
Desde que me conheço por gente a minha memória, profundamente escavada me traz morando em casa de parede-meia. Tudo era mais dos outros do que nosso. Era um saco mesmo. O quintal compartilhado sem plantas, imundo com aquelas porcas valetas parecendo uma serpente conduzindo a céu aberto aquela água escura, ensaboada, nojenta das muitas tinas de lavar roupas que por ali existiam. O nosso mundo era restrito, apertado dentro de nossa casa e sem autorização para muita algazarra para não perturbar sabe lá Deus o que os bostas dos vizinhos estivessem fazendo.
Era um saco escrotal pronto para estourar.
A mãe quando dava umas chineladas para corrigir algumas peraltices praticadas por mim, Inca ou Laura estava sempre mais preocupada com o morador contíguo do que com os vergões vermelhos deixados nas nossas pernas dizendo:
- Não chore alto, chore para dentro para não incomodar o vizinho.
Nem isto a gente tinha o direito de praticar, tinha que engolir incontinente o choro contido.
Animais de estimação neste gueto, nem pensar. Um dia, um gato magro, branco e preto meio adoentado se atreveu a adentrar a nossa casa não sei vindo de onde. Veio rosnando com seu olhar suplicando com sua espinha em v ao contrário e rabo empinado esfregando-se todo em nossas pernas. Os dias estavam pra lá de frios e resolvemos por caridade acolher o miserável. Naquele dia cobrimos o pobre diabo de muitos cuidados – água, comida e até colo. Aquela noite foi-lhe permitido permanecer dentro de casa – foi a última. No dia seguinte, acordamos mais cedo do que de costume e fomos sôfregos procurar o bichano. Reviramos a casa toda e não o encontramos; Deve ter ido embora o ingrato.
Após o almoço, quando a mãe foi limpar o fogão de taipa deu de chofre, bem ao fundo, com o gato, todo retorcido assado. Deve ter se acomodado à noite no lugar mais quente que encontrou e de manhã quando o pai fez o fogo certamente não percebeu o bichinho que dormia à sono solto.
Lamentamos inconsoláveis aquela catástrofe.
Um dia, todo feliz o pai chega para o jantar e anuncia que iríamos mudar de casa e... mudamos.
Esta casa foi um sonho encantado na época. Era ela absoluta reinando numa imensidão de terreno toda cercada em balaustre. Pra mim esta casa foi um castelo. Casa sem parede-meia e o terreno só nosso.
A casa sem pintura, de duas águas fincadas em estacas de madeira a uma altura de 40 centímetros do chão ficava a direita de quem olhava da rua e a uns quinze metros afastada da frente. Ela tinha, do lado esquerdo de quem a olhava do portão de entrada da rua um gracioso puxado que a gente chamava de varandola. Dois degraus, em madeira e a gente estava nesta área pronto para entrar na sala da casa. Da porta de entrada se via que a casa por dentro era graciosa e simples toda assoalhada. Este assoalhado sempre bem enceradinho e cuidado. Não tinha forro. Da porta de entrada da sala, logo a direita via-se a porta do quarto chamado das crianças. Este quarto tinha a janela para frente da rua. Logo em seguida, fazendo vizinhança com o quarto das crianças encontrava-se o quarto dos pais, também com a janela para a rua. Correndo os olhos da porta do quarto do casal a esquerda encontrava-se a porta de um quartinho que era utilizado como despensa. Do lado oposto ao quarto das crianças encontrava-se a porta que dava para a cozinha. A janela da sala ficava ao lado da porta olhando a varanda. A cozinha ficava num puxado aos fundos e do lado esquerdo de quem descia as escadas da cozinha ficava mais um puxado aonde se tomava banho ou o pai usava para fazer às vezes alguns defumados. Do lado direito, na cerca se acomodava desasenvergonhadamente um maldito pé de chuchu.
O quintal se estendia graciosamente por mais um vinte e cinco metros para os fundos. De fronte a cozinha, perto da cerca dando proteção ao chuchu se erguia majestoso pé de pêssego. Debaixo do pessegueiro, meio cambaleante, carcomido pelo tempo estava o forno à lenha equilibrado parcamente em quatro estacas aonde a mãe assava as gostosas broas. Na mesma direção da escadaria em madeira, a uns 3 metros se encontrava o velho poço que nos abastecia de água fresca. A mãe mantinha-nos distante dele dizendo que no seu interior era habitado por cruéis monstros que comiam criancinhas. Lá bem ao fundo do terreno, do lado direito de quem olhava estava o galinheiro aonde a mãe, muito feliz resolveu criar umas penosas. Atrás do galinheiro estava a privada. Do lado esquerdo do terreno, ao fundo abatido e já velho jazia deitado um tronco de árvore que o pai todos os dias tirava umas lascas para o fogão de taipa e para o forno. Do lado esquerdo do terreno, desde a frente até o fundo perto tronco estendido o pai resolveu plantar uns pés de mandioca, milho e feijão relembrando seus velhos tempos de roça.
Com tudo isto ainda sobrava um bom pedaço de quintal para a gente fazer as estripulias.
As galinhas eram nossos bichos de estimação que a gente desde pintainhos ia à busca para elas de minhocas e gafanhotos pelo quintal. Eram mansinhas e vinham comer milho e os bichinhos na nossa mão, mas viravam uns bichos ferozes todas arrepiadas quando estavam com seus pintainhos.
A mãe dizia que um tal de gambá durante a noite vinha comer as cabeças das galinhas e por isto a gente ao entardecer recolhia pacientemente as penosas ao galinheiro e tratava de conferir se estava bem trancada a portinhola. Pela manhã conferia uma a uma se continuavam com suas devidas cabeças no lugar e então as soltava.
O quintal era todo cercado de balaustre e não tinha nenhum vizinho nem do lado direito, nem do lado esquerdo e nem ao fundo. Isto nos dava uma liberdade para gritar a vontade e quando apanhava poder xingar e chorar bem alto.
A gente vivia feliz correndo de um lado para outro neste imenso terreno colhendo ovos e tratando das penosas. Um dia esta vida tranqüila e prazerosa foi violentamente quebrada. Correndo pelos ninhos verificamos espantados que alguns ovos jaziam quebrados e vazios. – Será que o tal gambá come ovos também? Ficamos inquietos e começamos a montar guarda. Um dia surpreendemos um lagarto enorme que ao nos avistar se mandou atravessando a cerca feito um filho de uma puta indo se esconder num buraco no meio do terreno que ficava do lado do chuchuzeiro.
Não demos trégua a este bicho. Toda vez que a galinha cacarejava em desembalada corrida lá íamos nós pegar o ovo antes do maldito lagarto. Quantas vezes com o ovo na mão mostrava uma banana e soltava a língua para o safado lagarto que de espreita desolado ficava com a cabeça de fora lá na toca lamentando a perda. Algumas vezes a gente jogava algumas pedras que nem perto dele chegavam. O pai dizia que carne de lagarto é muito boa, mas não fazia nada para matar este capeta que tentava invadir a nossa propriedade.
Bem, o tal gambá nunca deu as caras, mas de repente começou a brigar e a bicar as nossas galinhas uma tal carijó muito estranha e arisca. Uma marginal sem família ou talvez sem um responsável por ela.
A galinha carijó era muito abusada ou esperta demais, pois já bem de manhã lá estava ela, toda faceira no meio das nossas comendo o milho, ciscando as minhocas e apanhando os gafanhotos. Aquele abuso mexia com nossos brilhos. Todos os dias a mesma coisa. Muitos corridões atrás da infeliz até que um dia acertei uma paulada nas cadeiras dela que a deixou desfalecida por alguns instantes no chão o tempo suficiente para pegá-la.
O lagarto apavorado assistia tudo do outro lado da cerca.
- O que vamos fazer com esta putela? Perguntei para a Inca.
- Vamos jogar para o lagarto comer sugeriu ela.
- A mãe disse que lagarto só come ovo retruquei para ela.
- Então vamos amarrar na porta do galinheiro, do lado de fora para o gambá vir comer a cabeça dela? Gritou então a Inca pegando a galinha de minhas mãos indo correndo para o local do crime.
- O tal gambá deve ser muito medroso ou não existe, pois nunca apareceu, completei eu correndo atrás da Inca.
Depois de muito confabular, medir os prós e contras lá fomos nós dar um corretivo nesta safada penosa pendurando-a de ponta cabeça amarrada pelos pés lá na cerca dos fundos.
Para o nosso azar o animal que parecia não ter dono de repente aparece um. A galinha carijó era da portuguesa. O fundo do terreno dela fazia canto com canto com o fundo do nosso terreno.
Depois de muito procurar a portuguesa chorando descobriu a galinha carijó, poedeira, criadeira e de muita raça pendurada na cerca dos fundos do nosso quintal. Chamou a nossa mãe. Confabularam as duas. Parecia que a portuguesa estava deveras nervosa. A mãe chegou, pegou um galho do pessegueiro e fomos eu e a Inca dormir com a bunda quente.
Será que o lagarto tem dono também?
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
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