MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
quinta-feira, 25 de janeiro de 2018
A FÉ AS VEZES MATA
Eu sempre fui de uma religiosidade fiel e a toda prova. Quase fui padre, mas acharam que eu seria mais útil a Deus fora da batina preta e me botaram para correr do seminário, mas mesmo depois servindo nas tropas do glorioso exército, vestindo a farda verde oliva levava a palavra de Deus aqueles infiéis e quase pagãos enfileirados comigo.
Depois da caserna me achava em São Mateus, por alguns meses, e já sem trabalho, roupa e comida roguei desesperado a mãe maior, à sempre pronta e protetora Aparecida que me ajudasse no concurso para ingresso como trabalhador na Petrobrás. Prometi que quando pudesse iria fazer uma visita até Aparecida do Norte e pagaria a promessa. Fui atendido e fiquei na dívida com a santa.
Alguns meses depois fui encaminhado pela Petrobrás à cidade de Tremembé para estágio de aperfeiçoamento e nivelamento. Fiquei feliz, pois lá fica bem próximo da cidade de Aparecida. Vou poder então pagar a minha dívida com a santa sem muito custo.
A cidade de Tremembé linda e pequena quase engolida pela serra da Mantiqueira é banhada pelo Rio Paraíba. Cidade de Monteiro Lobato. Fiquei contente, quase desmaiei de alegria em saber que foram destas águas, lá em Aparecida que alguns pescadores retiraram a santa que quase morria afogada.
Como um bandeirante comecei então a fazer sondagens e explorar a região, principalmente em Taubaté.
Um dia, perambulando de um canto ao outro, descobri por acaso um ônibus estacionado e algumas pessoas adentrando-o. O que mais me chamou a atenção foi na testada do ônibus estar a placa indicativa com o nome Aparecida.
Cheguei perto e de imediato perguntei ao motorista:
- Este ônibus vai a Aparecida?
- Vai sim, respondeu-me ele gentilmente.
- E qual o preço da passagem? Indaguei curioso.
O valor que ele me informou era algo irrisório, e desta forma pedi que confirmasse e ele garantiu que era aquele mesmo.
Perguntei do horário e ele respondeu que era de hora em hora.
Desta maneira, com este preço e estes horários vou todos os finais de semana para agradecer a santa e pedir mais alguma coisa para mim, pensei já determinado e pronto para a ação. Voltei todo contente para casa e já fazendo os planos de no próximo final de semana estar em Aparecida.
Junto comigo, de São Mateus também vieram mais dez estagiários para a operação de treinamento e nivelamento na Petrobrás.
A maioria deles ateus confessos, mas alguns com o ranço religioso herdado de seus pais. Comentei com os mais piedosos a grande descoberta e formulei o convite de viagem. A grande maioria, no entanto queria explorar a vida feminina, um tanto pacata de Tremembé. Eles estavam em outra sintonia, não tinham que agradecer a ninguém e nem pagar promessas alguma. De todos, apenas dois se entusiasmaram com a idéia e principalmente com o preço da passagem. Queriam mesmo é fazer turismo, mas ficou tudo combinado de na próxima semana estarmos em Aparecida do Norte.
Sábado amanheceu maravilhoso com os pássaros entoando hinos celestiais. Tudo contribuía para a nossa felicidade – Conhecer Aparecida, e particularmente estar bem perto da santa e dizer de quanto eu sou grato a ela pela ajuda, e depois, junto com os outros ,, semi ateus dar umas voltas e tirar algumas fotos com minha kodak pinta vermelha.
O ônibus que nos levou de Tremembé a Taubaté gastou mais ou menos trinta minutos entre pegar passageiros e deixa-los ao longo dos oito quilômetros de estrada.
Chegamos finalmente e fomos ao ponto do ônibus rapidamente, pois faltavam apenas 10 minutos para ele sair. Caminhamos os três a passos rápidos e finalmente avistamos ao longe o danado que nos esperava.
Olhei e fiquei admirado com a multidão de fieis que embarcavam. Embarcamos e como sardinhas em lata ficamos em pé, pois os assentos já estavam ocupados pelos fieis que madrugaram antes.
- Tudo pelo santo sacrifício, pensei eu.
Eu calculei umas duas horas de viagem e perguntei preocupado para meus amigos que de pé também estavam sendo espremidos:
- Tudo bem com vocês? Vão resistir à viagem?
Responderam laconicamente que sim.
O motorista ligou o motor e o ônibus começou o que seria uma grande viagem. Peguei um terço e comecei a rezar umas ave-marias e uns pais-nosso. Quis pedir para o povo que me acompanhasse na reza e até quis entoar alguns hinos religiosos, mas me contive pensando que talvez a grande maioria daqueles fieis fossem tão pagãos quanto meus dois amigos e estavam ali apenas para ir conhecer a cidade de Aparecida.
Fui rezando baixinho mil orações.
Nem me dei conta de que o ônibus parava em todos os cantos, mas uma coisa me estranhou, foi o fato de que muita gente pedia para descer.
- Será que é por causa da grande lotação? Pensei eu entre uma ave Maria e outra.
Depois de mais de uma hora de viagem o ônibus parou e começou a descer todo mundo. Pensei eu que seria uma parada para comer e tirar a água depositada na bexiga.
- Eu não vou comer e nem preciso urinar, por isto vou ficar aqui dentro, pensei comigo.
Perguntei aos meus sofridos amigos
- Se quiserem descer, fiquem a vontade.
- Não, estamos bem, responderam de imediato.
Desce um, desce outro e finalmente ficamos eu e meus dois amigos, ainda de pé no corredor do ônibus.
- Vocês não vão descer? Perguntou o motorista saindo de seu assento.
- Não, nós vamos ficar, obrigado, respondemos os três em uníssono como se tivéssemos combinado e ensaiado esta resposta.
- Vocês tem que descer, pois aqui é o ponto final
Quando o motorista disse isto, procurei pela janela do ônibus a Igreja de Nossa Senhora ou a rodoviária e só vi casas e o inicio de uma favela.
- Meu Deus, será que teremos que andar muito até a cidade? Preocupadamente pensei.
Calmamente, deixando meus amigos para trás no corredor fui até o motorista e perguntei.
- Aqui é Aparecida?
- Sim, aqui é a vila Aparecida.
- Mas, e a cidade de Aparecida?
- Vocês vão ter que voltar até a cidade e na rodoviária pegar o Pássaro Marron para Aparecida.
Quando meus amigos ouviram isto, para não me matar, despojaram-me de todos os meus pertences e dinheiro inclusive o terço. Voltei a pé para Tremembé.
POR; MARIO DOS SANTOS LIMMA
domingo, 17 de dezembro de 2017
sexta-feira, 15 de dezembro de 2017
SÃO MATEUS EM 1963
QUER SABER COMO ERA SÃO MATEUS EM 1963? É SÓ COPIAR O LINK ABAIXO
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terça-feira, 12 de dezembro de 2017
DESASTRADO CORTE DE CABELO
Meti a máquina na cabeça dele e comecei a desastrada operação.
No meu tempo de moleque pequeno, lembro-me perfeitamente que quase todos os filhos, seguiam, por uma razão ou por outra, a mesma profissão do pai. Se o pai era marceneiro o filho seria ótimo em fazer móveis; Se o pai era alfaiate o filho seria hábil na tesoura; e assim por diante. Hoje a coisa está bastante mudada, os filhos rebeldes, cada um segue a carreira que mais se identifica com eles. Mas tem muitos deles, que ainda seguem orgulhosos a profissão do pai.
A tarefa, quando passada de pai para filho, traz a experiência vivida de muitas e muitas batalhas. É, com certeza, uma vantagem competitiva. Assim, com esta bagagem toda acumulada, o filho será o senhor absoluto da situação.
Infelizmente eu não tive de meu pai a experiência de um barbeiro. Ele era do comércio, e por isto me dei mal na aventura de querer ser um barbeiro.
Quando muito, hoje eu sou barbeiro, pelas ruas de minha cidade, na condução da tropa de cavalos e éguas que existe no motor de meu carro.
Se bem, que me lembro ainda, que meus pais tinham uma máquina de cortar cabelo. Quando as cabeleiras, minha e de meu irmão, estavam além do limite, volta e meia, eles davam umas tosadas no topete com a maravilhosa máquina. Parecia incrivelmente fácil. Eu acho que meu sentimento intenso começou por ai, mas, infelizmente, sem nunca ter a oportunidade da prática.
No seminário, com oitenta moleques para cortar o cabelo, sempre tinha alguém, que por experiência vivida, cortava o cabelo da gurizada.
E minha paixão pela profissão aumentava mais e mais.
O crek crek da máquina me hipnotizava.
Aqueles cabelos caindo das cabeças, indo se acomodar no piso, era para mim um espetáculo jamais vivido por alguém.
Embora tivesse vontade, no seminário nunca cortei o cabelo de ninguém , e nem me atrevi pedir para fazê-lo.
Mas um dia de férias, em casa surgiu a oportunidade.
- Silvestre, você precisa cortar o cabelo! escutei minha mãe implorando isto para meu irmão.
Ele tinha medo da máquina de cortar cabelo da mesma forma que o gato escaldado com água quente tem medo de água fria.
- Minha mãe, eu corto o cabelo dele! disse com convicção.
- Mas você sabe fazer isto? perguntou incrédula ela.
- Aprendi, e pratiquei muito no seminário! Disse minha tremenda mentira.
Com muito custo e uma boa lábia, consegui fazer com que meu irmão sentasse no caixote em cima da cadeira.
Peguei a máquina, fiz o sinal da cruz pedindo para que os anjos me ajudassem, mas eu acho que eles estavam de folga ou queriam me sacanear.
A máquina na minha mão se debateu de um lado ao outro gritando:
- Você não sabe fazer isto! Largue de mim seu padreco mentiroso!
- Cale a boca, máquina imprestável! gritei furioso para ela.
Meu irmão, arregalou os olhos, e medrosamente virou uma estátua.
Com a mão trêmula e indeciso me perguntei.
- Como é que eu começo este troço? Será que é de baixo para cima ou de cima para baixo?
Suava frio.
Meti a máquina na parte frontal da cabeça dele. e comecei a desastrada operação.
Deixei a máquina no grau zero e aí comecei o escalpo.
Já nos primeiros clek, clek a máquina de repente parou engastada de cabelos. Um grito de dor soou vizinhança afora. Minha mãe apavorada, saiu prá fora e quando viu aquilo caiu desmaiada.
Meu irmão, com a máquina atolada no meio da cabeleira, com o sangue correndo pela testa, gritava feito um loco de dor. Eu, desesperado, não sabia se o levava ao hospital ou a uma barbearia.
Botei o moleque nas costas e sai em busca de socorro.
O barbeiro, numa operação delicada, livrou a cabeça de meu irmão da maldita máquina. Ele olhou demoradamente para mim decretando seu cruel veredicto, enquanto colocava mercúrio e esparadrapo no ferimento da cabeça de meu irmão:
- Guri, nunca mais pegue numa máquina de cortar cabelo, ela é uma arma perigosa em sua mão!
Morreu, então aí, o desejo meu de ser barbeiro.
MARIO DOS SANTOS LIMA
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