segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

UM SANTO MOLEQUE

O moleque que nunca cometeu uma asneira ou praticou uma peraltice malogrará por certo uma vida patusca e estará condenado ao ostracismo social e familiar. Não terá assunto para contar ou bosta nenhuma para mostrar aos outros. Será um inútil na família e um zé ninguém para seus netos. Eu ainda estou na fase das peraltices e juntando letras para minhas narrativas. Sou moleque patusco, vivido e dos grandes. Vou ter muitas histórias para contar, disto tenho certeza. Já passei, quando guri por muitas situações complicadas, mas sempre acabei me saindo bem. Nunca fui de colocar em risco a minha preciosa vida, mas muitas vezes criava circunstâncias que acabavam provocando perigo para alguém. Depois de cumprida as tarefas caseiras e executado os deveres da escola lá ia eu para minhas caçadas armado de estilingue no pescoço e no bolso estufado de pelotas de barro de fabricação caseira. Uma estilingada aqui outra ali até o esvazio completo do bolso. Por sorte da passarinhada nunca fui bom de mira. Quebrei muitas vidraças e acertei muitas pessoas nas minhas estripulias de caçador incontrolável. Um dia encantei-me com uma brincadeira nova. Um moleque, o mais corajoso, o mais destemido, o mais suicida se embodocava dentro de um pneu e outro rodava, rodava e soltava em alguma ladeira. O embodocado girava, girava e quase sempre era arremessado para fora antes que o pneu se chocasse com uma cerca ou caísse violentamente numa valeta. Nunca tive coragem de embodocar, mas me divertia muito ver a coragem e o arremesso do moleque como se o pneu o tivesse vomitando. Meu grande desejo passou a partir daí a de possuir um pneu. Na minha época poucos carros existiam, meia dúzia no máximo e seus pneus eram fixos e desapareciam com eles em algum ferro velho. Não existia o borracheiro pelo que me lembro e o pneu velho era peça rara e de valor inestimável para a molecada. Quem tinha era o senhor absoluto da brincadeira e o mais respeitado dos moleques. Um dia consegui um e dos grandes. O moleque me emprestou por alguns dias por um favor que eu tinha feito a ele resolvendo uma tarefa escolar de matemática muito complicada. O pneu chegou com a recomendação: - Cuide bem dele e me devolva na próxima semana. E eu imediatamente me dediquei de corpo e alma nesta aventura. A rua tinha um leve declive que ia morrer na estrada que levava o pessoal até ao quartel da cavalaria. Era um lugar tranqüilo para minha aventura. Fiz um pouco o rolamento do pneu na parte mais plana para me familiarizar com ele e me aventurei a embodocar. Com um pé para fora dei o impulso inicial, mas ele rodou alguns metros e rodeou fazendo uma circunferência caindo pesadamente no chão. Assustado sai de dentro avaliando a cagada radical que estava fazendo. Resolvi dar um tempo a mais para esta doida aventura. Lá estava eu com o pneu novamente noutro dia treinando a brincadeira. Na bandagem com a mão dando o impulso corria atrás fazendo as manobras e controlando o seu percurso. Num certo momento o pneu numa bandalha filho de uma puta fez-me cair e aos poucos, pegando velocidade descia feliz a ladeira rumo à estrada. Pareceu-me que o pneu tinha vida ao rir escancaradamente para mim dizendo: - Venha me pegar seu moleque vadio! E rolava doido rua abaixo. Era inútil a minha desembalada corrida para alcançá-lo; Ele ganhava distância e se aproximava perigosamente da estrada. Imediatamente fiz o sinal da cruz quando meus olhos apavorados avistaram o caminhão que iniciava na estrada o cruzamento da rua. Escondi-me atrás de uma árvore. O pneu cantarolando, rindo e gritando passando por uma pedra, deu um pulo e foi se chocar num estrondo danado contra a porta do caminhão. O motorista assustado parou o caminhão para avaliar o que tinha acontecido e pegando o pneu gritava com toda a força de seus pulmões: - Cadê o filho de uma puta que fez isto? - Não sou eu a quem ele procura, pensei cá com meus botões, pois minha mãe é uma santa e não uma puta. Tremia feito vara verde atrás daquela árvore assistindo este melo drama. Vi apavorado que o desgraçado recolhia o pneu na carroceria indo embora. Passei alguns dias apavorados quase não saindo de casa, pois tinha que devolver um pneu que já não estava mais comigo, e me esconder da polícia que com certeza estaria chafurdando todas as casas e todos os cantos atrás de mim. E finalmente Deus, na sua infinita misericórdia, para me proteger desta confusão danada, iluminou-me indicando um caminho como saída, e assim, naqueles dias conturbados fugi para o seminário. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

DEFUNTO ATROPELADO

Aquele dia o Padre convidou-me para ajudar a missa na comunidade perto da Ilha Bandeirantes no Rio Paraná. O patrimônio era singelo e de indescritível beleza. Arrumei-me todo e fui com ele para o lugarejo. Fomos de Jeep. A estrada de terra arenosa em alguns lugares oferecia algum perigo fazendo o Jeep perder o equilíbrio dando algumas derrapadas. A velocidade máxima conseguida era de 40 quilômetros por hora. Levamos aproximadamente 3 horas. Hoje não sei, mas naquele tempo a estrada era ladeada por densa floresta. Às vezes o medo nos assolava pelo rugido repentino da onça outras vezes o encantamento pelo cantar da passarada. Tudo era tão mágico tão inebriante. Antes de chegar à localidade passamos por uma casa tosca a beira da estrada onde morava uma pobre e linda menina, de seus quinze anos. Dizia a lenda que era possuída por um espírito maligno. O Pe chegou e a menina incontinenti se escondeu no quarto gritando impropérios. O Pe em vão tentou conversar com ela. Inconformado com a situação, dizendo para os pais dela que ele não tinha o poder de tirar aquele espírito maligno fomos embora deixando para trás uma menina angustiada sabe lá por que raio de coisa. Chegamos e o povo em festa nos esperava. A Igreja toda enfeitada. Muita gente circulando pelas barracas armadas para a festa do padroeiro. Apenas um acontecimento estava entristecendo o ambiente, uma pessoa importante tinha falecido na comunidade. O velório estava acontecendo na própria casa do defunto. O padre me pediu para que fosse ate a casa do dito defunto para marcar presença enquanto ele se preparava para a missa. Nunca gostei de freqüentar estes ambientes macabros, não por medo da morte, mas, muito mais pelo fato do lazarento defunto, de repente ressuscitar e por em polvorosa todo o recinto. Fiquei ali com o cú na mão. A funesta hora não passava. Era gente que cantava uma maldita melodia sacra desafinadamente. Era gente que rezava o terço se arrastando melancolicamente pelas Ave-marias e o defunto ali quietinho, humildemente agüentando tudo. O defunto estava na parte principal e central da sala tranquilamente acomodado dentro do seu caixão que perigosamente se equilibrado sobre dois cavaletes. O esquife estava com seus pés voltados para a porta de entrada. A sua volta estavam sentadas, em toscas cadeiras e bancos de madeira as rezadeiras e as carpideiras contratadas para chorar. E como choravam estas malditas velhas! Eu estava num canto da sala, perto da saída observando atentamente toda esta cena. Do lado da porta, encostado, atrapalhando a passagem dos curiosos que por ali obrigatoriamente tinham que transitar encontrava-se um homem, vestido de vaqueiro que soluçava constantemente, provavelmente por excesso de álcool e que, em pé ali desrespeitosamente aproveitava para tirar uma cochiladinha. Entra gente, sai gente pulando por cima das pernas do maldito dorminhoco e de repente alguém, distraído olhando mais para o defunto, figura principal deste cenário tropica nos pés do bêbado filho de uma puta. e vai cair nos braços aflitos das rezadeiras. Tumulto geral e muitos ui ui ui das rezadeiras. Nem mesmo isto fez o bêbado dorminhoco acordar, que feito um palanque foi escorregando, escorregando batendo nos pés do cavalete. O impacto dos pés do bêbado no cavalete foi o suficiente para que o defunto fosse perturbado e lançado de dentro do caixão violentamente ao chão. Só vi, apavorado o caixão todo arrebentado, flores por todos os lados e o miserável cadáver todo enrijecido de mãos postas no peito sorrindo para mim. Na confusão todos se lançaram porta à fora aos gritos de socorro. Eu, é claro estava no meio da galera sendo esmagado na porta estreita de saída. Lá dentro ficaram abandonados estendidos no chão o bêbado, agora confortavelmente deitado dormindo e ao seu lado o infeliz defunto atropelado com enorme hematoma na testa. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

URINOU NO QUARTO DA NOIVA

A mulher, em todos os sentidos, sempre foi mais recatada, mais discreta, mais delicada que o homem, principalmente quando tem vontade de fazer xixi; Ela vai fazer xixi com elegância, como quem vai passear; Vai disfarçadamente a lugar reservado, e sempre pede a companhia de uma amiga. O homem, pelo contrário, já é mais relaxadão, é um brutamonte, é mais porcalhão; Se estiver com a bexiga para estourar desocupa a urina em qualquer lugar; Atrás de uma árvore, atrás de um carro, atrás de uma moita sempre serão lugares encantadores, apaixonantes para espumar a urina no chão. Vou contar o pecado, mas preservando a figura do pecador. Eram dois amigos inseparáveis. Quase irmãos. Um deles gostava de usufruir em demasia do líquido que os passarinhos se recusam a tomar. Um dia, para o casamento da filha do que sempre se mostrava sóbrio, o amigo bebum foi convidado, como não poderia ser de outra maneira. Ele foi e bebeu pra cacete. A festa se desenrolava solta e alegre na casa da noiva. Muitos convidados se cotovelavam pela sala, pelos quartos, cozinha e quintal. A noite já pintava tudo de negro. A lua cheia, lá no alto, permitia com seu brilhar que as pessoas não se trombassem no quintal. A casa era simples e de madeira. No quarto, na cama de casal, se amontoavam dezenas de presentes. O líquido estonteante, espumando nos copos, rolava solto. As mulheres faziam fila na única privada que existia na residência – era uma casinha em madeira lá no fundo do quintal. Os homens aliviavam-se por de trás da casa. O amigo do pai da noiva sentiu-se na obrigação, no elevado dever de dar conforto a seu esqueleto, e para aliviar sua bexiga começou a dura procura pelo lugar adequado. A mangueira que ele tem no meio das pernas, usada para esvaziar a urina, estava exageradamente endurecida causando certo constrangimento no mulherio presente, que fugiam em gritinhos de temor ou de saudade. Cambaleando, sem se preocupar com o vexame, procura o bêbado incessantemente um lugar adequado para se aliviar. Por fim ele abre uma porta. O lusco fusco do ambiente que se descortinou, misturado com o álcool que ele ingeriu, deu uma visão de uma linda e convidativa privada para o quarto repleto de presentes. Não teve dúvidas e começou com dificuldade abrir a braguilha. A noiva se retocava a um canto na penumbra, e quando viu aquele jumento acomodando, para o lado de fora da braguilha, seu instrumento urinário, pensou que seria estuprada antes do noivo. Quando ela percebeu que não era ela o objeto do desejo do bêbado, e sim o conforto que o atrás da porta trazia para ele, começou a gritar. O bêbado ouvindo os gritos pensou que fosse seu cacete dando à bronca, e com voz entrecortada diz: - Calma meu companheiro, já estou te aliviando! A urina corria, caudaloso rio, por debaixo da porta invadindo o corredor e tomando conta dos aposentos. A noiva aos gritos, fugindo do quarto escorrega naquela imundície e cai de prancha. O pai dela vem em seu socorro enquanto o povo pisando nas pontas dos pés tapava as narinas para evitar o forte cheiro de ureia. Quando o pai da noiva vê o bêbado saindo de trás da porta, pega-o pelo colarinho e espumando de raiva grita. - Seu porco imundo, veja o que você fez! O bêbado, quase caindo, babando, coloca a mão no ombro do amigo para não cair, e com voz conturbada diz: - Bonita festa meu amigo, quero beber para comemorar! POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A FÉ AS VEZES MATA

Eu sempre fui de uma religiosidade fiel e a toda prova. Quase fui padre, mas acharam que eu seria mais útil a Deus fora da batina preta e me botaram para correr do seminário, mas mesmo depois servindo nas tropas do glorioso exército, vestindo a farda verde oliva levava a palavra de Deus aqueles infiéis e quase pagãos enfileirados comigo. Depois da caserna me achava em São Mateus, por alguns meses, e já sem trabalho, roupa e comida roguei desesperado a mãe maior, à sempre pronta e protetora Aparecida que me ajudasse no concurso para ingresso como trabalhador na Petrobrás. Prometi que quando pudesse iria fazer uma visita até Aparecida do Norte e pagaria a promessa. Fui atendido e fiquei na dívida com a santa. Alguns meses depois fui encaminhado pela Petrobrás à cidade de Tremembé para estágio de aperfeiçoamento e nivelamento. Fiquei feliz, pois lá fica bem próximo da cidade de Aparecida. Vou poder então pagar a minha dívida com a santa sem muito custo. A cidade de Tremembé linda e pequena quase engolida pela serra da Mantiqueira é banhada pelo Rio Paraíba. Cidade de Monteiro Lobato. Fiquei contente, quase desmaiei de alegria em saber que foram destas águas, lá em Aparecida que alguns pescadores retiraram a santa que quase morria afogada. Como um bandeirante comecei então a fazer sondagens e explorar a região, principalmente em Taubaté. Um dia, perambulando de um canto ao outro, descobri por acaso um ônibus estacionado e algumas pessoas adentrando-o. O que mais me chamou a atenção foi na testada do ônibus estar a placa indicativa com o nome Aparecida. Cheguei perto e de imediato perguntei ao motorista: - Este ônibus vai a Aparecida? - Vai sim, respondeu-me ele gentilmente. - E qual o preço da passagem? Indaguei curioso. O valor que ele me informou era algo irrisório, e desta forma pedi que confirmasse e ele garantiu que era aquele mesmo. Perguntei do horário e ele respondeu que era de hora em hora. Desta maneira, com este preço e estes horários vou todos os finais de semana para agradecer a santa e pedir mais alguma coisa para mim, pensei já determinado e pronto para a ação. Voltei todo contente para casa e já fazendo os planos de no próximo final de semana estar em Aparecida. Junto comigo, de São Mateus também vieram mais dez estagiários para a operação de treinamento e nivelamento na Petrobrás. A maioria deles ateus confessos, mas alguns com o ranço religioso herdado de seus pais. Comentei com os mais piedosos a grande descoberta e formulei o convite de viagem. A grande maioria, no entanto queria explorar a vida feminina, um tanto pacata de Tremembé. Eles estavam em outra sintonia, não tinham que agradecer a ninguém e nem pagar promessas alguma. De todos, apenas dois se entusiasmaram com a idéia e principalmente com o preço da passagem. Queriam mesmo é fazer turismo, mas ficou tudo combinado de na próxima semana estarmos em Aparecida do Norte. Sábado amanheceu maravilhoso com os pássaros entoando hinos celestiais. Tudo contribuía para a nossa felicidade – Conhecer Aparecida, e particularmente estar bem perto da santa e dizer de quanto eu sou grato a ela pela ajuda, e depois, junto com os outros ,, semi ateus dar umas voltas e tirar algumas fotos com minha kodak pinta vermelha. O ônibus que nos levou de Tremembé a Taubaté gastou mais ou menos trinta minutos entre pegar passageiros e deixa-los ao longo dos oito quilômetros de estrada. Chegamos finalmente e fomos ao ponto do ônibus rapidamente, pois faltavam apenas 10 minutos para ele sair. Caminhamos os três a passos rápidos e finalmente avistamos ao longe o danado que nos esperava. Olhei e fiquei admirado com a multidão de fieis que embarcavam. Embarcamos e como sardinhas em lata ficamos em pé, pois os assentos já estavam ocupados pelos fieis que madrugaram antes. - Tudo pelo santo sacrifício, pensei eu. Eu calculei umas duas horas de viagem e perguntei preocupado para meus amigos que de pé também estavam sendo espremidos: - Tudo bem com vocês? Vão resistir à viagem? Responderam laconicamente que sim. O motorista ligou o motor e o ônibus começou o que seria uma grande viagem. Peguei um terço e comecei a rezar umas ave-marias e uns pais-nosso. Quis pedir para o povo que me acompanhasse na reza e até quis entoar alguns hinos religiosos, mas me contive pensando que talvez a grande maioria daqueles fieis fossem tão pagãos quanto meus dois amigos e estavam ali apenas para ir conhecer a cidade de Aparecida. Fui rezando baixinho mil orações. Nem me dei conta de que o ônibus parava em todos os cantos, mas uma coisa me estranhou, foi o fato de que muita gente pedia para descer. - Será que é por causa da grande lotação? Pensei eu entre uma ave Maria e outra. Depois de mais de uma hora de viagem o ônibus parou e começou a descer todo mundo. Pensei eu que seria uma parada para comer e tirar a água depositada na bexiga. - Eu não vou comer e nem preciso urinar, por isto vou ficar aqui dentro, pensei comigo. Perguntei aos meus sofridos amigos - Se quiserem descer, fiquem a vontade. - Não, estamos bem, responderam de imediato. Desce um, desce outro e finalmente ficamos eu e meus dois amigos, ainda de pé no corredor do ônibus. - Vocês não vão descer? Perguntou o motorista saindo de seu assento. - Não, nós vamos ficar, obrigado, respondemos os três em uníssono como se tivéssemos combinado e ensaiado esta resposta. - Vocês tem que descer, pois aqui é o ponto final Quando o motorista disse isto, procurei pela janela do ônibus a Igreja de Nossa Senhora ou a rodoviária e só vi casas e o inicio de uma favela. - Meu Deus, será que teremos que andar muito até a cidade? Preocupadamente pensei. Calmamente, deixando meus amigos para trás no corredor fui até o motorista e perguntei. - Aqui é Aparecida? - Sim, aqui é a vila Aparecida. - Mas, e a cidade de Aparecida? - Vocês vão ter que voltar até a cidade e na rodoviária pegar o Pássaro Marron para Aparecida. Quando meus amigos ouviram isto, para não me matar, despojaram-me de todos os meus pertences e dinheiro inclusive o terço. Voltei a pé para Tremembé. POR; MARIO DOS SANTOS LIMMA