sábado, 26 de março de 2011

EFEITO BORBOLETA




Eu estava pensando cá com meus botões o que seria de minha vida hoje se eu tivesse, lá no começo tomado outro rumo, palmilhado outro caminho, se tivesse escolhido outro lugar para morar, para trabalhar, se tivesse escolhido outra pessoa para viver! Se tivesse tido coragem e aquele meu amor secreto tivesse sido revelado! Se... se e mais se, mas... escolhi um se e cá estou eu meditando sobre ele.
            Dentro da teoria do caos nós temos um termo usado para situações e condições que desencadeiam ações para as quais chamamos de efeito borboleta. Segundo esta teoria um simples bater de asas de uma borboleta em um determinado local num determinado momento pode causar um tufão em outro ponto mais tarde. A teoria do caos, neste caso numa interpretação alegórica afirma então que um simples movimento ou não, de qualquer coisa, por mais insignificante que fosse poderia influenciar o curso natural da natureza como um todo. Usando a teoria do caos eu diria assim que uma simples decisão tua agora pode te levar a ser um bem sucedido homem de negócios ou então te levar ao caminho do fracasso. Levar-te a ser um São Francisco ou ser um Hitler. Os amigos e família que tenho hoje não seriam os mesmos? Você é responsável por isto? De certa forma sim, de certa forma não, pois as conseqüências na escolha do caminho a tomar eu não as conheço, mas posso trabalhar algumas variáveis. Como o curso da vida é um sistema aberto sendo influenciado por milhares de variáveis, o resultado é mesmo caótico! Não existe previsibilidade, mas eu só poderia brincar com esta previsibilidade desde que eu pudesse dominar todas as variáveis e voltar o tempo. Voltando o tempo pudesse manipular ou congelar muitas variáveis lá no início de cada tomada de decisão ou simplesmente matar ou dominar a borboleta.
Estes pensamentos me roíam por dentro. Queria conversar com alguém a respeito disto.
A noite era fresca e o luar dava um toque de classe na imensidão estrelada. Eu caminhava absorto nestes pensamentos e nada me fazia voltar à realidade. Nem mesmo a cachorrada vadia que uivava reclamando carrinho ou conversando no seu conversar canino me despertou do devaneio.
De repente me vi sentado solitário num banco qualquer de uma praça deserta. A noite já era sonolenta e cansada enquanto a madrugada no sereno em respingo surgia célere para o despertar da natureza.
E eu perdido nos meus sonhos. Confuso, medroso continuava pensando que na vida tudo é um caos. São milhares de caminhos a nossa frente numa encruzilhada danada e aquele caminho que escolhemos será definitivo e determinará tudo o que virá pela frente. Somos nós, nas nossas decisões o bater das asas da borboleta. A cada caminho escolhido serão milhares de outros tantos cruzamentos que iremos enfrentar e milhares e milhares de ações que teremos que tomar em função daquilo que almejamos alcançar.
A vida é um palco de improvisações. É uma dança ensaiada que mesmo em se repetindo nunca será a mesma. Um passo que erramos, uma fala que falamos e que esteja fora do contesto fica fazendo parte da cena, será parte do espetáculo. A vida não é uma foto que eterniza uma ação. A ação é a dinâmica de um desejo realizado.
Por encanto os caminhos palmilhados desaparecem. Se olharmos para trás eles já não existem mais. Não se permite assim o retorno. É um bonde que passa e no seu passar escolhemos pegar ou não pegar. Este bonde jamais passará outra vez, e se passar nunca do mesmo jeito. Neste caos as variáveis se criam, se ampliam, se perdem e jamais se repetem.
            Quedo, absorto nos pensamentos não percebi que alguém estava sentado a meu lado. Imediatamente sai de minhas conjecturas, e pensei:
            - Agora é um momento de decisão, é o momento do bater de asas de uma porqueira de borboleta. Devo levantar simplesmente desconhecendo a presença do indivíduo que veio intrometido invadir meu espaço, meu sossego ou devo conversar com ele numa boa? Mas ele foi mais rápido, não pensou tanto e tomou a decisão antes do que eu começando o conversar:
            - Acompanhei curioso teus pensamentos, e estou aqui para te ajudar iniciou ele todo tranqüilo para espanto meu.
            - Mas como se atreve e como faz isto? Perguntei de chofre, Houve um momento de silêncio, e aí percebi que era o meu amigo de todas as horas, o criador de todas as coisas que tinha ouvindo meus pensamentos e se propôs a me ajudar.
            E na sua voz divinal falou:
            - O mundo é uma explosão de um todo que em partículas dança e encena a obra maravilhosa em que vivemos. Você é uma partícula como tudo e todos que estão a sua volta. O caos é o segredo para que tudo não fique se repetindo constantemente deixando sem graça a natureza e tudo que dela depende.
            Insisti no porquê do caos e ele, colocando sua mão sobre meu ombro e olhando para meus olhos disse:
            - É para que cada um que ao optar por um caminho possa neste caminho exercitar a virtude da aceitação; não da aceitação escrava, mas da aceitação liberta, aberta, que não confunde, mas que infunde beleza no ser e não na ânsia do ter. È próprio do ser humano imaginar-se sempre melhor no outro caminho, na outra situação.
            - O que é melhor então para você neste momento? Perguntou ele e eu, me engasgando todo não conseguindo responder de imediato permiti que me ajudasse ouvindo atento o que ele me dizia:
            - É a aceitação da vida que você tem agora. É o maravilhoso momento que você vive. Você é uma partícula e qualquer movimento seu de afeição, de raiva, de dor, de remorso ou alegria vai influenciar todas as outras partículas que estão por aí formando o conjunto deste viver maravilhoso. Você tem o poder consciente ou inconscientemente de criar, recriar qualquer coisa para seu bem estar e será o único responsável por isto. Você pertence a um sistema dinâmico não linear, onde as implicações das variáveis individualmente são aleatórias e não previsíveis.
            Disse-me que iria dar mais uma voltinha pelas cercanias e completou antes de desaparecer:
            - Lembre-se, o bonde passa muitas vezes, mas sempre de maneira diferente. O estado futuro é extremamente dependente de seu estado atual, e pode estar mudando radicalmente a partir de pequenas mudanças no presente. Você tem a liberdade de criar outras situações descendo deste ônibus e pegando outro ou o mesmo outra vez. É como se você se percebesse num caminho errado, não deve se arrepender por isto! Não deve se frustrar! Deve aproveite a oportunidade do erro para um acerto depois! Mas deve ter a coragem de pegar um atalho e chegar ao caminho pretendido. Será o mesmo caminho? Com certeza não, mas a decisão sempre será sua.
            Enquanto ele, como uma leve névoa desaparecia mais adiante pensei:
            - Estou feliz pelo caminho que percorri até aqui, pelos lindos filhos que tenho, pela esposa maravilhosa e pelos inúmeros amigos e até pelos meus desafetos.
            Uma borboleta passou por mim indo beijar a lâmpada mais adiante.

           
                                                                                                    Por: Mario dos Santos Lima

segunda-feira, 21 de março de 2011

UM CONTO DE AMOR




         Eu sempre achei minha mãe muito linda, não pelo olhar místico de um filho, mas pelo olhar severo de um homem que sempre soube distinguir o garbo sutil nas mínimas atitudes. Ela era demais.
            Minha mãe tinha o dom da elegância não extravagante, da elegância desobrigada, solta; da elegância que flutua, que encanta, se encarna independentemente do traje que seu corpo traz sobre si. Ela era muito mais anjo que mulher. Ela era divina.
            Minha mãe não andava, ela flutuava. Seus gestos eram finos, requintados que me embebiam de prazer com sua presença.
            Minha mãe tinha uma visão generosa do mundo, pois nunca reclamava de nada e nos ensinou a agradecer a Deus a todo o momento pelo dom da vida. Suas atitudes sempre gentis marcaram muito para mim a elegância amável de minha mãe. Sabia ouvir com paciência e com sabedoria orientar. Não deixou desafetos. Tinha um semblante sereno e extravasava seus conselhos numa voz mansa e suave.
            Dona Maria como de costume eu a chamava, era fantástica, inimitável no seu jeito generoso de nos tratar. Ela era de ferro, nada a abatia ou a tornava exausta. Mesmo doente seu sorriso era autentico e sempre preocupado conosco.
            Lembro-me de suas delicadas mãos até ao nos bater quando traquinas transgredíamos os limites permitidos. Suas mãos postas nos ensinando a rezar. Sim me lembro! Suas ágeis mãos elaborando rendas de crochê. Suas incansáveis mãos costurando na Singer manual nossas fatiotas. Como eu amava estar ao seu lado quando no seu trabalho de costura. Ficava fascinado admirando sua destreza. Lembro-me de suas mãos nos afagando, suas mãos nos orientando, suas mãos nos banhando, suas mãos desenhando figuras, paisagens e nos mostrando assim a arte da pintura. Quem teve uma mãe como eu , já nasceu privilegiado, nasceu abençoado.
            Ela era nobre de espírito. Não era presunçosa, mas sabia da sutileza que tinha em cuidar de si sem estroinice. Era uma menina que enfeitava nossa casa.
            Ela era meiga e sensível.
            Eu era pequeno, mas me lembro bem da faceirice dela ao receber um dia de presente um corte de seda de meu pai. Seus olhos azuis brilharam de uma maneira inexplicável. Lembro-me bem também da imensa tristeza que seus olhos mostraram nas lágrimas tantas escorridas ao cortar acidentalmente o tecido de seda. Olhou-me e como se eu entendesse falou:
            - Não vai sair como planejei, mas vai ficar muito mais lindo, enxugou as lágrimas e continuou seu trabalho.
            Ela era corajosa, firme e decidida uma verdadeira estrategista.
            Neste pretenso ensaio que descrevo em rápidas pinceladas tenho orgulho de mostra a grande mulher que tive o privilégio de ter como mãe.
            Minha mãe não morreu, pois a morte no sentido real ceifa a vida e consome a carne; o vivente simplesmente desaparece; ela por misericórdia e vontade deste Deus amoroso se ausentou corporalmente de nós, e assim ela graciosamente nos vela com sua nobreza de espírito.
            Minha mãe é então a saudade boa que tenho.
                                                                                                                           Por: Mario dos Santos Lima

terça-feira, 15 de março de 2011


BUSCAPÉ SEM RABO NA IGREJA
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          Sempre me encantou, mas tinha um medo danado dos fogos de artifícios. Aquele céu colorido das mil lágrimas e das estrelinhas, o barulho do estampido e o rastro riscado no céu pelas mil fagulhas como cuspidas do rabo de um cometa deixava-me um tanto extasiado e medroso.  Já até corri apavorado de busca-pé.
                        Segundo Roberto Benjamin o busca-pé está classificado como fogos de tiro juntamente com o rojão, salva, foguete de vara e pistola. Precisa ter cuidado e habilidade para solta-los para não se tornarem perigosos
                        O busca-pé consiste em um pequeno cilindro de papelão grosso carregado de pólvora fraca, dotado de um orifício de escape e uma vareta estabilizadora, ordinariamente feita de taquara. Uma vez aceso o seu pavio, o busca-pé, por efeito do peso da taquara, desloca-se velozmente e rente ao chão, sempre na mesma direção sugerindo buscar os pés dos circunstantes; daí o seu nome.
                        Lembro-me que a molecada, não gostando da tecnologia do busca-pé sempre cortava uma parte do comprimento da taquara. Com a vareta cortada e o fogo no rabo o artifício saia feito um filho da puta sem direção certeira apavorando quem estivesse por perto. Era divertido, mas inconseqüente.
                        O padre da paróquia, um ex prisioneiro de guerra não suportava qualquer estampido e ao ouvi-los se jogava incontinente ao chão; por conta disto tinha excomungado todos os fabricantes de bombinhas e também todo aquele que comprava ou soltava estes malditos artifícios.
                        No início da noite a Igreja estava lotada principalmente das senhoras do Sagrado Coração, das mocinhas filhas de Maria e dos homens Congregados Marianos. O padre de costas para o altar, ao centro do corredor principal da nave, sentado confortavelmente em uma poltrona conduzia fervorosamente a oração do terço.
                        Os moleques na frente da Igreja, provavelmente filhos daqueles que em oração se encontravam no interior da nave conversavam, riam e brincavam despreocupadamente. Para aqueles meninos o mundo dos pecados, da morte, do inferno e das excomunhões pertencia aos adultos. Era tudo balela.
                        Quando tudo parecia paz, abençoada pelo vozeio que vinha do interior da Igreja pelas ave-marias repetidas de forma lamuriosa apareceu um moleque trazendo um picuá com dezenas de taquaras a vista. Deus atendia pacientemente aquelas preces e anotava os pedidos de graça de cada um e não estava com muito tempo para atender a molecada e com isto deu brecha para o capeta fazer a festa.
                        - Eu descobri uma forma mágica de melhorar o busca-pé, dizia o chegante todo faceiro para a turba.
                        A molecada fez um círculo para ouvir a palestra e participar de uma oficina de como construir um busca-pé potente. Explica daqui e explica dali e a conferência teórica foi finalizada com o início da demonstração prática.
                        Retirou cuidadosamente do picuá dez artifícios que já estavam caseiramente preparados em pólvora forte para dar maior volume ao estampido e as colocou alinhadas no chão. As varetas de curta metragem não passariam pela inspeção do IMETRO.
                        O capeta, agrupado com os seus possíveis futuros clientes do inferno estava atento e dando maior apoio a tudo isto.
                        - Vocês devem ficar de costas enquanto eu coloco fogo no rabo dos busca-pés, ordenava o moleque.
                        O capeta se materializando implorou para ele esta responsabilidade ao que foi atendido.
                        Rindo a gargalhada solta, não precisou de fósforos, trouxe um pedaço do inferno e iniciou o tumulto.
                        Os artifícios acesos pegaram rumos diversos provocando uma gritaria infernal na frente da Igreja. Os fieis pararam com as orações e por segundos dentro da nave ficou em suspenso um silêncio sepulcral. Deus antevendo a encrenca se mandou para o céu.
                        Enquanto alguns busca-pés regidos pelo capeta se divertiam voando de um lado para outro entre as pernas da apavorada molecada três deles, conduzidos pelo chifrudo adentravam a nave vomitando uma labareda enorme pelo orifício traseiro. Depilavam as pernas peludas das velhas, lambiam despudoradamente as virilhas das moças e chamuscavam as pernas das calças dos homens.
                        Os fieis em terror deixaram de lado as lamuriosas orações para com palavrões se juntarem aos estampidos dos busca-pés; Desesperados se apinhavam tentando sair pela porta central. Na falta de Deus o capeta fez da Igreja um inferno.
                        O padre de bruços, com a batina chamuscada desfiava maldições e distribuía excomunhões.
                                                                                                     por: Mario dos Santos Lima

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

MALDITA SOMBRINHA

                                          

                        Minha mãe sempre foi de uma prestimosidade a toda prova e cheia de cuidados com todos os filhos.
                        O tempo, aquele dia estava muito feio. Nuvens negras e carregadas passeavam alegres no céu fazendo faísca com seus puns barulhentos. Eu estava admirando as diferentes figuras formadas por estas criaturas do céu. Era um homem deitado logo depois um coelho correndo ou então um galo cantando. Era tudo tão rápido tão mágico tão lindo que eu ficava desejando um dia poder fazer o mesmo numa folha de papel.
                        Estava absorto, perdido em pensamentos por algum instante embevecido namorando aquelas nuvens. Achava-as linda, graciosas, mas que às vezes mijava aqui na terra.
                        Minha mãe tinha outra explicação para estes traques e para este líquido vomitado pelas nuvens. – Meu filho, dizia ela, São Pedro esta lavando o céu e para lavar é necessário afastar os móveis, cadeiras e mesas do lugar e jogar muita água e é por isto os grandes barulhos e a água que cai.
                        Não botava muita fé nisso; Divertia-me os ruidosos puns e fugia da urina quando as nuvens mijavam.
                        Ainda absorto com tudo isto minha mãe chega perto de mim e fala:
                        - Guri, vá pegar suas coisas que está na hora de ir para a escola.
                        Freqüentava já, nesta época o segundo ano do grupo escolar. Tinha nove anos e já quase um homem maduro embora ainda sem pelo no saco e na cara.
                        Coloquei meu guarda-pó branco, cruzei no pescoço as alças do embornal de tecido – costurado pela minha mãe e já ia saindo quando minha mãe me interpelou: - Lavou as mãos, penteou os cabelos? E lá ia ela fazer uma vistoria completa nas orelhas, unhas e cabelo.
                        Quando finalmente ia saindo me entregou sua sombrinha de seda toda florida com um colorido muito lindo, mas admiravelmente extravagante. Antigamente não se escamoteava facilmente as sombrinhas; Eram enormes e continuavam enormes o tempo todo e muito maior quando abertas, escancaradas, chamando a atenção como putas velhas de pernas abertas.
                        - Não minha mãe, eu não vou levar isto, imediatamente interpus à sua vontade acrescentando – nem vai chover hoje.
                        Neste momento as nuvens filhas de uma puta, rindo e fazendo diversas caretas no céu soltaram estrondosos puns obrigando minha mãe a fazer três vezes o sinal da cruz.
                        Não tive argumento contra este fato.
                        Peguei a maldita colorida e tentei camuflar por entre o embornal e o guarda-pó. Meu andar ficou troncho, mas consegui chegar até o Grupo e me esgueirar até a sala de aula. Dispensei as brincadeiras no pátio antes da aula e consegui camuflar a sombrinha perto da parede.
                        A aula era sobre... Nem sei sobre o que era só sei que passei o tempo todo rezando para que aquelas malditas nuvens fossem embora. Elas me acompanharam de casa até o grupo e ficaram soltando traques em cima da escola. Eu as escutava rindo e dizendo: - Quando a aula terminar eu vou mijar em você, e gargalhavam, peidavam e soltavam labaredas que riscavam rapidamente o céu.
                        Minha carteira ficava perto da parede debaixo da janela e o tempo todo de duração da aula eu fiquei ouvindo isto.
                        - Vou mijar em você... Vou mijar em você – e gargalhavam, gargalhavam sem parar.
                        Certo momento, perdi a paciência e gritei:
                        - Chega de peidar e mijar sua filha de uma puta.
                        A classe toda se virou boquiaberta para mim.
                        Fui levado para a Diretoria
                        O diretor perguntou:
                        - Por que você disse isto para sua professora?
                        - Eu não disse isto para ela eu disse isto para as nuvens, tentei explicar ao Diretor. Foi em vão; além do sermão e de me chamar de doido levei 10 palmatórias na palma da mão e voltei envergonhado para sala de aula com uma tarefa a mais: escrever 500 vezes “não devo xingar a minha professora”.
                        E as nuvens continuavam lá, peidando, arrotando e vomitando fogo.
                        O sinal tocou e em alvoroço todos saíram da sala.
                        Camuflei novamente a sombrinha entre o embornal e o guarda-pó e meio troncho saí da sala. A água descia à cântaros.
                        A turma se acotovelava a saída uns abrindo guarda-chuva e outros esperando a chuva passar. Por entre a turba, debaixo daquele aguaceiro saí disfarçadamente, vagarosamente, troncho como se nada estivesse acontecendo até virar a esquina.
                        Tirei a maldita sombrinha da camuflagem para facilitar minha movimentação e saí em desesperada corrida até em casa.
                        Cheguei encharcado dos pés a cabeça. Já na porta de entrada virei-me mostrando uma banana com os braços para as nuvens, entrei em casa completamente molhado, joguei a sombrinha a um canto e recebi uma puta bronca da minha mãe por estar todo molhado.
                        - A sombrinha não quis abrir, disse pra ela.

                                                                                   Por: Mario dos Santos Lima    abril/07