MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
sábado, 23 de março de 2013
O SOBREVIVENTE
O sistema de saúde em nosso país merece a nota dez e com louvor. A modernidade e a qualidade da infra estrutura a serviço do povo é algo de fazer inveja a quem quer que seja. O respeito pelo ser humano e o pronto atendimento é algo inenarrável. Não se registra nesta galáxia algo semelhante.
Não existem bandidos ou ladrões nem nas ruas e nem no congresso. Os governantes pautam pela lisura e ética em suas gestões. Tudo funciona maravilhosamente a contento.
Bem, mas vamos a um caso que aconteceu com alguém em outra dimensão; não foi por aqui, foi num lugar muito atrasado, num lugar bem distante do nosso imenso, glorioso e harmonioso país. Talvez em Xiririca da Serra, não sei bem.
Eu apelidei este alguém, daquela distante terra, de sobrevivente.
Sobrevivente diz-se daquele que sobrevive, que subsiste heroicamente, ou que consegue viver apesar das condições desfavoráveis. Alguém que ao sair de um sangrento embate, ou então, ao ser resgatado de uma avalanche, ou então sair de uma UTI de um hospital público ouve, de seu semelhante admirado, dizer: - "Você está vivo, Isto é um verdadeiro milagre!"
Mas, vamos ao caso!
Era um lugar aparentemente calmo, numa tarde cinzenta, fria e chuvosa. Poucas carruagens circulavam pela redondeza.
O sobrevivente era uma pessoa muito importante na aldeia; Já tinha sido guarda, xerife e exercido o ofício de professor. Estava aposentado, mas tinha que trabalhar para completar seus parcos proventos.
A aldeia em que ele residia tinha passado por uma transformação desumana. Ela ficava geograficamente num ponto estratégico, e com isto, muitos gananciosos empreendedores resolveram investir ali.
Foi a desgraça aprovada, assinada e implantada.
Fábricas e mais fábricas foram erigidas numa poluição monumental. Com as instalações das fábricas criou-se a necessidade de mão de obra especializada, e por isto, com a aprovação do MEC (ministério do ensino capenga), montaram às pressas escolas nas coxas, e selecionaram professores pagando miseráveis salários. Os pais tinham que trabalhar, e por isso deixavam seus filhos à mercê. As crianças, pela lei burra, não podiam trabalhar até os 18 anos, e desta forma pululavam as ruas em busca do que fazer. Estavam assim sendo criados os filhos da rua. O berço com isso foi quebrado e os valores encaixotados. A aldeia de tranqüila e familiar, onde todos se conheciam, ficou agitada, nervosa e desordeira. De um ponto ao outro se criou distâncias, e com isso, uma empresa de carruagens resolveu implantar o sistema de transporte coletivo. Com tarifas abusivas, com excesso de lotação e também maltratando os animais que puxavam as carruagens. O médico da família foi deixado de lado e se criou o SRV (sistema rápido de vida). Os médicos nos hospitais tinham que trabalhar obedecendo um sistema de desempenho - quanto mais pessoas atendiam melhor avaliados seriam. O próprio sistema tinha integração com os governantes, com os ladrões, com a funerária e o cemitério.
Pois é, tudo parecia calmo pela redondeza, mas quando o ilustre sobrevivente estava saindo de sua casa a coisa aconteceu. Ao pegar a sua charrete, e sair do abrigo, foi violentamente espancado e abandonado, depois de levar dois tiros de um filho da rua. Esvaindo-se em sangue ele teve forças ainda para trotear sua charrete até o hospital mais próximo.
O médico ao vê-lo, reconhecendo nele a pessoa ilustre que era, e não querendo se envolver nessa morte, mandou-o, assim, de volta alegando que o cavalo não tinha autorização para fazer este tipo de transporte, e que o indecente animal também tinha desrespeitado o ambiente cagando no pátio do hospital.
O sobrevivente na charrete estava desmaiado, todo ensangüentado sem condições de clamar por socorro. O Cavalo, presenciando toda esta brutalidade, relinchou puteado, deu uns peidos e cagou novamente no pátio, saindo em busca de outro hospital. O hospital que ele foi ao encontro era famoso por abreviar a vida dos pacientes. Mas, infelizmente não tinha outro.
O cavalo em louca disparada pelas vielas, avançando lampiões com a luz vermelha, passando por lombadas, passando pelas proibidas canaletas exclusivas para a circulação das carruagens, chegou afinal ao temível hospital.
"Seria talvez a última esperança de salvar a vida do ilustra personagem", pensou o resfolegante animal.
O cavalo não respeitou nada, foi entrando no saguão, passou pelos corredores e foi parar a charrete na porta da UTI.
E o quadrúpede ruminou:
- Com certeza ele está fudido, mas meu papel de salvador eu fiz!
A médica recebeu o corpo ensangüentado do sobrevivente e disse a seus enfermeiros:
- Mais um trabalhinho para nós! quero que vocês, ainda hoje, descartem o presunto, preciso de espaço para pacientes particulares. Sem olhar o moribundo sobrevivente, mas com cara de poucos amigos disse ao cavalo:
- Se manda daqui, animal imprestável e cagão!
Ao ouvir isto, da pestilenta médica, o eqüino pateou de raiva.
Antes de sair, o cavalo fez questão de marcar o território deixando um belo monte de estrume no meio do corredor. Já lá fora, troteando um nervoso trotear começou a relinchar, a todo pulmão, o que viu e ouviu dentro do hospital.
Enquanto isso, lá dentro da UTI, o nosso sobrevivente respirava parcamente, e se perdia em delírio com a redução do oxigênio e droga ADES (autorização desumana de envenenamento do sangue), injetada nele para abreviar a sua vida.
Este seria o fim do sobrevivente? Pelo jeito nada poderia salvá-lo!
Mas, do lado de fora do matadouro...
O povo, ao ouvir os relinchos angustiantes do cavalo, se armou como pode para invadir o hospital.
O sistema de transporte virou um caos, parou completamente, porque todos os cavalos e éguas deixaram de puxar as carruagens, para ir ajudar seu amigo eqüino lá no hospital.
Os policiais armados de espadas tentavam controlar a tropa eqüina e o povo enlouquecido. O governante aproveitou a oportunidade, subiu num caixote e começou a vomitar promessas: "Eu prometo que vou melhorar a aldeia; vou combater o crime e a desordem; vou..." não chegou a completar a frase recebendo na boca um monte de estrume.
E lá na UTI o sobrevivente já começava dar sinais de que entregava os pontos; Começou a espichar as canelas freneticamente; A médica e enfermeiros, vendo isto, felizes esfregavam as mãos.
E o tic tac de um relógio comia pacientemente o tempo.
Será que o sobrevivente viverá?
E, finalmente o povo, em histeria total, ao som da orquestra de relinchos, invadiu o hospital arrancando da morte o sobrevivente.
Carregaram-no rapidamente até deitá-lo junto a um ancião que tinha sido médico de família.
Aplicou ventosas e deu de beber chá medicinal.
Os cavalos e as éguas, em trote gigantesco, ao adentrarem o hospital, soltaram montes de esterco por todos os cantos, e conduziram, com coices na bunda, a médica e as enfermeiras para o calabouço.
Aquele dia ficou como um marco histórico na aldeia, mas a merda do sistema de saúde, do transporte, do ensino e da governança continua na mesma.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
sábado, 16 de março de 2013
UMA JAPA ENDOIDECIDA
Segundo alguns autores a violência nada mais é do que o uso da força bruta, de forma intencional e de maneira excessiva, com a finalidade de ameaçar ou praticar algum ato que resulte em acidente, morte ou trauma psicológica.
Eu sou pela paz e pelo respeito principalmente às mulheres.
Como estamos cansados de ver, e as vezes até de participar, a violência se manifesta de diversas maneiras, seja em lutas armadas, no trânsito, torturas, em conflitos nas salas de aula entre professor e alunos, nos atos sexuais, etc. É um querendo comer o fundilho do outro.
Afirmam alguns autores que um dos principais fatores que gera a violência urbana é o crescimento acelerado e desordenado das cidades, mas eu acho que estes autores estão redondamente equivocados; Eu digo que a violência é uma conseqüência da má educação que estes filhos de uma puta desordeiros recebem em casa. Não se tem, como dantes, o berço.
Quando a confusão começa e é grande, muitas vezes, Deus se ausenta, por alguns momentos, e acaba levando consigo seus anjos para não se macularem na sujeirada e confusão que as pessoas são capazes de provocar. Fica lá no alto só na espreita.
Dias destes estou de carona com a comportada e paciente portuguesa, como sempre estou, e de repente sou testemunha e participante de uma sangrenta luta campal.
O sinal pediu que os carros parassem. Minha colega parou. Na faixa a esquerda parou outro carro pilotado nervosamente por uma japa. E sem qualquer motivo aparente ela abaixou o vidro e gritou:
- O meu carro é melhor que o seu, sua loira de merda.
Eu acho que ela, ou errou de alvo ou estava completamente alucinada por algum pó que tenha cheirado, ou então estava no processo cruel da tpm.
Minha amiga, nervosa e furibunda com os elogios recebidos, na angustiante tpm resolveu abaixar o nível para xingar a japa quando, entre as duas, aparece um entregador de folder. O coitado ouve solenemente da japa um "não quero nada, vá a merda seu inútil!".
E o sinal teimava em ficar vermelho só para presenciar a troca de palavras amáveis entre as duas.
O entregador de folder saiu de fininho para não apanhar.
E as duas ficaram, por fim, de vidros abaixados, frente a frente uma da outra.
Mas minha amiga saindo do sério aproveitou e disse:
- Sua malcriada, gorda, pérfida, maconheira e capeta encardida!
E o sinal, não se contendo de alegria, abriu passagem para as duas desordeiras.
Eu já me borrava todo presenciando aquela inevitável violência armada.
E os dois carros, alinhados, cantando pneus saíram num racha danado.
Um pouco mais a frente um enorme congestionamento fez com que os dois carros emparelhados reduzissem a velocidade. Nesse pit stop o nosso carro ficou em vantagem alguns metros na frente. Quis descer, mas não consegui.
E aí veio a confusão!
Minha amiga ligou o pisca e embicou o carro para passar na frente da japa. A maldita japa acelerou, bateu uma vez, bateu a segunda vez e quase entrou no banco traseiro do nosso carro. Estrago total.
Minha amiga desceu furibunda do carro, e o que a japa fez também. Os olhos orientais escondidos no risquinho das pálpebras se mostraram fuzilando pretos e arredondados. Seu cabelo negro e liso, como numa ventania de baixo para cima, arrepelou-se todo. Sua boca vomitava impropérios e seus braços ventilavam socos para todos os lados.
O povo parou para ver. Ah! o povo adora uma confusão.
Minha amiga por sua vez foi ao encontro da nojenta e impertinente japa, não para um abraço fraterno, mas para grudar sua garganta e ferrar uma mordida em sua orelha.
- Sua loira desgraçada, você não me pediu para passar! dizia enlouquecida a japa tentando livrar sua orelha dos dentes de minha amiga.
- Sua tarada barbeira, tenho que fazer por escrito o pedido? sua imbecil! rispidamente respondeu a minha amiga.
Os elogios corriam soltos, e os que mais foram ouvidos pela platéia presente variavam de sua biscate, cadela até ordinária prostituta.
E o povo em delírio gritava batendo palmas:
- Dá nela!
Eu, dentro do carro me perguntava:
- Dá o que e em quem?
O povo quer é ver sangue mesmo!
É claro que os anjos e santos, numa hora dessa, bateram em retirada, e rapidamente se escafederam.
E o tumulto estava formado. Quando percebi que minha amiga, já toda ensangüentada, numa dança frenética, quase fundida ao corpo da nipônica, viria fatalmente a óbito, resolvi agir e parti para o embate.
- Tenho que salvar minha amiga, pensei eu.
Tive que usar de violência para apartar as duas e principalmente para salvar minha amiga.
Foi apenas um tapa no ouvido e um soco no queixo e lá estava a japa adormecida. Tive um pouco de trabalho para desgrudar a minha amiga da oriental, tal era o amor brutal entre as duas.
Alguém, o filho de uma puta estraga prazer, não tendo o que fazer, chamou a polícia.
E a polícia chegou bem na hora em que eu estava em ação.
É claro que me fodi! Tudo e todos foram contra mim.
A Japa desmaiada e minha amiga ensangüentada foram encaminhadas ao hospital e eu à delegacia.
Fui preso, paguei fiança e respondo pelo crime Maria da Penha por ter batido em duas mulheres.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
sábado, 9 de março de 2013
SER OU NÃO SER PAPA, EIS A QUESTÃO
Não Aceitei e justifico a coisa.
Qualquer homem batizado pode ser votado eventualmente fora do conclave, e em aceitando será o papa.
Dura e espinhosa missão!
A Igreja passa, no momento, por uma crise violenta, pior a de que passou com Jesus no barco de Pedro. Passa por uma crise não de fé, mas política, financeira e moral.
Ah! se igreja fosse gerida por anjos!
Jesus provocou aquela confusão toda, quase afundando o barco com Pedro e alguns apóstolos, por que queria ter certeza da fé de seus seguidores. Naquele momento, num barco fragilizado pela tormenta, eram homens de pouca fé, e se cagando de medo, gritando desesperados para Jesus:
- Acorda infeliz, que o barco está afundando!
E isto foi o suficiente para que Jesus acordasse e acalmasse a tempestade, mas bravo por acordá-lo, fala:
- Malditos homens de pouca fé que não me deixam dormir!
Hoje, a tempestade no barco de Pedro se configura violentamente pior do que a que passou no tempo de Jesus.
E os cardeais, se borrando de medo, gritam por socorro ao chefe lá dos altos.
E Jesus, já um tanto nervoso e de chicote na mão diz:
- Naquele tempo eu simulei a tempestade para medir e analisar o comportamento de vocês, mas as confusões de hoje eu não as autorizei, e não tenho nada com isto, portanto se virem. E completou o Mestre: - Não quero nem choro e nem vela, quero atitude e resultado de vocês.
E analisando o que Jesus falou, eu pensei:
- Será que Ele é incapaz de resolver os conflitos políticos, as mazelas financeiras e a pedofilia? E conclui: Não, Ele não é incapaz, mas se tiver que resolver com certeza será pelo método não ortodoxo, tal qual ele aplicou em seu tempo expulsando os vendilhões do templo.
E com certeza Jesus completaria dizendo aos cardeais:
- Se vocês foram capazes de fazerem a tamanha sujeira, com certeza terão aptidões e sabedoria para limpá-la.
E então, um pouco triste, esvaecendo em tênue vapor esbranquiçado, falaria ao conclave:
- Não entendo o por que da política, da corrupção ou pedofilia, mas digo a vocês, que a minha Igreja precisa praticar simplesmente o amor e a caridade.
E Jesus se foi deixando os cardeais escolhendo seu sucessor.
Bem, a coisa está complicada! Além da pedofilia que retirou diversos cardeais do pleito, temos neste conclave, os papaveis radicais que são contrários às mudanças. Temos, também, por outro lado, aqueles que são mais liberais, e que vão da aceitação do casamento de pessoas do mesmo sexo a ordenação de mulheres presbíteras.
E são estes os cardeais que estão governando a Igreja hoje.
A Igreja tem um patrimônio respeitável, mas o seu banco passou pelo comando de pessoas inescrupulosas, em escândalos políticos financeiros, e corrupções sem tamanho. Tudo isto com aporte inclusive da máfia afim de transferir dinheiro para os países fiscais.
Alguns discutem o nome de Igreja se ela deveria ser mesmo Católica; Se ela é católica não poderia ser simplesmente Romana. E por aí vai a encrenca que o novo Papa vai ter que enfrentar.
A igreja precisa de renovação, isto é certo.
Nem tão rapidamente ao inferno, e nem tão rapidamente ao céu, mas eu acho que as mudanças devem acontecer, com sabedoria, passando antes pelo purgatório.
Fui convocado, e ao mesmo tempo informado, de que para aceitar ser o Papa, deverei enfrentar esta tempestade toda com o apoio do chefe lá do alto apenas em questões de fé.
E para assumir o papado, teria que ser ordenado presbítero com o consentimento de minha esposa, e assim passaria a fazer parte do Colégio Apostólico ao ser nomeado bispo para então ter o direito a cadeira do Vaticano.
Eu seria sua santidade Mario I.
Não sei se teria o aval da Irene.
Mas quando me informaram que eu deveria, ao invés das cartas semanais, que escrevo ao meu querido pai, com conteúdo de desaprovação aos atos do maldito prefeito da cidade onde ele reside, tão somente passaria a escrever comportadas encíclicas. Que minhas crônicas, às vezes devassas, e irreverentes, passariam a ser bulas com conteúdos santificados. E que eu deveria isto, e não aquilo, mais isto, e menos aquilo. Tudo isto me deixou de cabelos em pé, e me vi completamente frustrado, perdido, em brigas homéricas com o chefe lá dos altos.
Criei coragem e mandei tudo à merda, e pedi humildemente perdão pela minha covardia por estar renunciando ao papado mesmo antes de ter sido eleito.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
A SUICIDA E O ANJO DEPENADO
O suicídio é uma forma brutal de resolver a passagem desta para outra vida. Segundo estudos o suicídio tem como causas mais comuns um transtorno mental, ou então uma forte depressão. A depressão pode ser oriunda de qualquer coisa, como por exemplo em ver seu time de futebol rebaixado para segunda divisão ou então, ser desprezado por um amor quase impossível.
Contaram-me e eu li, no jornal sangrento, a história que vou escrever.
A menina, foco desta crônica, vou batizá-la de Prustácia; Ela era de poucas rendas e vivia na periferia. O pai da Prus era alcoólatra e sua mãe prostituta.
De pouco estudo, pouca prosa, e fora dos padrões de beleza do BBB, a Prus era balconista numa loja de tecidos. Sua família vivia dos parcos e míseros reis que ela recebia, da mísera pensão do pai, e dos proventos que sua mãe caolha conseguia nos encontros noturnos.
Seu pai foi entregador de jornais, e num descuido e enfrentamento que fez com um ônibus, acabou levando a pior quebrando algumas costela, e perdendo uma perna.
Se não bastasse tudo isto, a Prus se apaixonou perdidamente por um cara que trabalhava de gerente numa loja perto de onde ela media, dobrava e embalava, no balcão, os trapos para o povo comprar.
Ela sabia tudo sobre o moço da frente de sua loja. Sabia que o nome dele era Pedro Paulo. Ele era rico, de corpo atlético e formado em economia. Para ela ele era o príncipe encantado que o tal deus Eros colocou ali perto dela. Nada importava mais nesta vida a não ser este tal Pedro.
Ela era uma boa funcionária até então, e acabou por receber diversas broncas de seu chefe pelos constantes erros que ela começou a cometer desde que conheceu e começou a amar o dito cujo Pedro.
Seus pensamentos se perdiam em sonhos, em desvarios alucinantes e quase proibitivos sempre que ela avistava furtivamente o tal Pedro.
E o Pedro nem sabia, nem sonhava na existência dela, e nem estava aí prá ela.
Em seu amor platônico a Prus alimentava uma louca esperança, e em seus devaneios se via nos braços dele em quentes afagos, em beijos apaixonados, e prolongados orgasmos.
Um dia a coitada, talvez se contorcendo toda em caretas de prazer, foi despertada, frente a um cliente, e sumariamente despedida.
Isto não seria o fim, e nem uma tragédia, ao que em seguida aconteceu. Estava amontoando suas poucas tralhas, para ir embora, quando alguém vem e comenta:
- Que pena que está indo embora!
E como se um meteoro tivesse atingido seu crânio, ela desesperada ouviu, na seqüência da colega fofoqueira.
- Sabe! aquele bonitão ali da loja da frente? pois é, ele vai se casar!
A Prus sabia tudo sobre o Pedro, seu nome, sua idade, sua formação, mas não sabia o mais importante, não sabia que ele era comprometido, que ele estava noivo; aquilo foi uma punhalada no centro do seu coração, naquele momento foi a morte mais cruel para ela. Sonhos desfeitos são quimeras que voam perdidas, e ela esta completamente desvairada.
Saiu apressada da loja, carregando seus pertences, indo sentar num banco da praça mais próxima.
O Pedro para ela agora era um canalha, um desalmado sem coração, sem vergonha e despudorado. Ela estava odiando-o mais que tudo nesta vida. Se o capeta habita esta terra, para ela tem um nome: Pedro.
- Que miserável, se aproveitou de uma pobre coitada! pensava furibunda ela.
De repente, sentada ali, começou a analisar sua vida. Acabou de perder um emprego por causa de um safado, salafrário que povoava livre seus sonhos. Um safado que se aproveitou dela em longos beijos e doces afagos. Um cara que simplesmente vai casar sabe lá com quem. O que faria agora, sem emprego e sem seu príncipe encantado?
Não queria voltar para sua casa e nem aventou a hipótese de morar na rua.
- O que farei? Veio-lhe um fugaz pensamento e ela imediatamente refutou-o dizendo:
- Prostituta igual minha mãe? não! não mesmo! Isto jamais!
Começou a chorar copiosamente, e suas lágrimas turbaram suas vistas e perturbaram seus pensamentos.
Deixou-se perder em devaneios mais uma vez por ele. Estavam tontos de paixão, enlouquecidos de amor, entrelaçados num lugar ermo e bucólico. A brisa invejosa despenteava seus cabelos e derramava perfume trazidos das flores por onde passou, jogando folhas secas das árvores ao derredor, despertando-a do sonho.
Enxugou as lágrimas com o dorso da mão, e passou a manga da blusa limpando seu nariz; Olhou ao derredor o vozeio e o tumulto da praça, e decidida pensou quase alto.
- Nada me resta nesta vida! vou acabar com isto agora.
Pensou, arquitetou alguma coisa na cachola, e saiu resoluta em direção ao viaduto.
Olhou os caros que passavam rápidos por debaixo dela. Pensou nele, não mais como um salafrário, mas como alguém que ela não era digna e se lançou no espaço.
Enquanto seu corpo flutuava em direção ao solo, se arrependeu, gritou por Deus.
O anjo da guarda se apresentou e xingou:
- Sua vaca desmiolada, veja o que você me apronta! vou ter que dar um jeito nisso agora, e voou para frente do caminhão puxando um ciclista para cima da Prus.
O anjo da guarda tem poderes extra terrestres, mas nesta empreitada o anjo da Prus se fodeu.
Pneus cantando derretendo no asfalto, penas para todos os lados, uma pancada oca e corpos no chão e gritos de dor e xingamento:
- Sua filha de uma puta! você está louca! veja o que você fez!
No hospital, a Prus e o ciclista, no mesmo quarto estavam sendo medicados. A um canto, transparente, o anjo todo remendado completamente depenado, observava a tarefa cumprida e, por ordem de Deus, começava uma nova tarefa. O papel de cupido.
O ciclista, todo remendado, olhou para Prus toda machucada, se condoeu e num sorriso quase apaixonado, meio sem graça disse:
- Eu estava na minha bicicleta, indo para uma direção e de repente, uma força estranha fez com que eu mudasse o rumo e fui de encontro a seu corpo que caia, jogando-o assim fora das rodas do caminhão.
Ela olhou para ele condoída, quase apaixonada, ensaiou um sorriso amarelo e disse:
- Muito obrigado, você foi o anjo que me salvou da morte!
O anjo enciumado, mas feliz, juntou as penas e foi embora.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
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