sábado, 14 de abril de 2012

UMMONSTRO RESSUSCITADO

Devemos ter muito cuidado na condução e maneira de educar nossos filhos. Nas suas cabecinhas virgens mundos malucos podem ir se povoado como se fossem realidades. Devemos estar atentos naquilo que eles fazem, que lêem ou assistem. Podem, muitas vezes, se tornar um Dom Quixote e fugir da realidade para viver uma fantasia. E aí que reina o perigo.
Aconteceu com meus filhos quando ainda eram lampinhos e despelados do pescoço para baixo. Mal tinham saído dos cueiros, e já tinham muitos mundos irreais para explorar. Muitas histórias contadas e muitas loucuras apresentadas na televisão e pronto, lá estavam eles prontos, transvestidos de Dom Quixote e Sancho Pança para a luta e a conquista de espaços.
Minha vizinha tinha um pestinha que nascera na mesma época. Aderiu aos meus e para completar o grupo de combate os três conquistaram a amizade de um negrinho que sem família, solto pelo mundo era, pela sua experiência o professor deles.
Os quatro, nas peraltices se transvestiam de Dom Quixote. Um Quixote já é dose cavalar, imagine quatro.
Certa feita, um caboclo parou seu Gordini quase em frente de casa por falta de combustível. Desceu do carro, disse uns impropérios, chutou o pneu e saiu meio sem rumo em busca de combustível.
Os quatro boquiabertos assistiram a cena e imediatamente seus neurônios entraram em convulsão e a coisa aconteceu.
- Vamos ajudar o homem a combater o monstro? Um deles perguntou, mas sua pergunta foi muito mais em tom de ordem. Com cabos de vassoura, pedaços de paus e facas foram corajosos e destemidos à luta.
Aos olhos deles o gordine se transformou em um dragão que faminto e amalucado soltava labaredas pelas ventas. Os três, em armadura anti-chama, e com suas espadas empunhadas começaram a luta.
O início da batalha foi uma dança extraterrestre. Pulavam aos gritos ao derredor do monstro. A dança tinha a finalidade de atordoar o infeliz.
A luta seria sanguinolenta e iria necessitar de muita coragem e determinação.
A dança estava surtindo efeito. O monstro estava se rendendo.
Quando as chamas das ventas do monstro não estavam tão aquecidas, atacaram estrategicamente em primeiro lugar suas quatro patas, que imediatamente num psiiiiii prolongado arriou ao chão. O monstro, com suas pernas quebradas, em parte estava dominado, e assim os quatro subiram no seu dorso e sem dó e nem piedade desceram o cacete.
O monstro se contorcia, gemia, pedia clemência, mas nada fazia com que as espadadas, cacetadas parassem de ser desferidas no seu lombo.
Num uivo ensurdecedor, se urinando todo, soltando fumaça pelas ventas o monstro finalmente entregou a alma ao deus dele.
Muito feliz a molecada gritava o grito do combate terminado quando lá distante observaram a chegada do homem que havia fugido do monstro. Por certo ele espreitou toda a luta e agora, com segurança, estava vindo para agradecer.
Chegou correndo.
Vinha bufando e desesperado, com um pacote plástico cheio de um líquido que mais parecia urina.
Ao olhar estupefato seu carro com os quatro pneus furados e com a lataria completamente danificada uivou:
- Seus filhos de uma puta, o que vocês fizeram com o meu lindo gordine?
Gordine deveria ser o nome do monstro. Mas lindo?! Isto já foi exagero do homem.
O homem, em desespero sentou na calçada, ao lado de seu danificado carro e gritou para a molecada.
- Quero o pai de vocês imediatamente aqui, seus pestinhas vagabundos! Eu deveria matar vocês!
A molecada não conseguiu entender nada. O monstro jazia inerte no chão e ao invés de elogios eles estavam recebendo ameaças e ainda tinham que chamar o pai? Mas por que chamar o pai, se não foi ele que abateu o monstro? Será que o homem vai agradecer o pai pelo feito? Isto não seria justo!
Resolveram sob protesto chamar o pai.
O neguinho era filho do mundo. Seu pai era a tempestade e sua mãe o luar. Nada mais se sabia dele. O pestinha do meu vizinho era órfão de pai; e a mãe? Bem a mãe, não sei. Acabou sobrando para mim. Teria que ir lá receber os elogios do homem pela morte do monstro.
Quando cheguei, quase cai de costa. Vi a realidade nua e crua. Do lado de um carro destruído havia um homem espumando de ódio. Rapidamente entendi o que aconteceu. Encomendei minha alma ao meu Deus e fui tremendo de medo enfrentar a fera.
Nesta luta eu fui abatido.
Gastei em pneus e funilaria o dinheirinho sagrado de uma viagem que iria fazer.
Meus filhos numa luta sangrenta abateram o dragão e ficaram muito felizes e orgulhosos pelo pai todo poderoso que ressuscitou o monstro.

por: Mario dos Santos Lima

Nenhum comentário: