domingo, 6 de outubro de 2013

UM CORPO NO NECROTÉRIO

O defunto, meio morto meio atordoado, ainda teve forças para mostrar para mim, com o dedo da mão direita, um gesto obsceno. O necrotério sempre foi, e sempre será para mim, um lugar fúnebre, agourento; É um lugar de arrepiar os pelinhos do anus, pois ali jamais poderão ser realizadas festas, bacanais e outras coisas alegres da vida. Ali tudo é morto. É um lugar despido de qualquer coisa, não tem televisão, rádio, telefone, cadeiras, revistas para ler, nem um quadro, nada mesmo, a não ser uma mesa, de fria pedra, para deitar confortavelmente pelado o vivente que acabou de esticar a canela. É um lugar tétrico e mal cheiroso - cheira normalmente a formol. É um espaço que fica afastado, e pertence normalmente a um hospital. É um lugar que o cadáver, depois de sacrificado pela morte, espera a visita do legista e da polícia. O legista para constatar que realmente o dito cujo esticado se escafedeu desta vida, e a polícia, no caso do defunto estar vivo, prendê-lo por ele estar simulando a própria morte. Eu não tenho medo de fantasmas, de cemitério, de escuro, de boi tatá e outras fantasias e medonhas histórias que contam por aí, mas do maldito necrotério, este lugar sim, me dá calafrios. Este lugar faz mal para meu estômago e para minha vista. Não suporto ver um exibicionista cadáver despido, e muito menos chegar perto em carinhosas apalpadelas. Qualquer coisa morta causa-me repulsa, até mesmo o corpo sem vida de uma mosca. Pelos idos de um mil novecentos e sessenta e cinco São Mateus era uma pequena e pacata cidade do interior do Paraná. Poucos habitantes e poucas notícias. Numa madrugada fria de domingo o cadáver, de uma infeliz criatura acidentada, acabou, já sem vida, dando entrada no hospital, e levado direto ao necrotério para averiguações de praxe. Naquele dia, já bem cedo, meu sogro e eu, em visita de caridade aos enfermos, fomos guindados pelo enfermeiro para uma ajuda nada costumeira. Levou-nos até ao necrotério. - Estou sozinho e necessito de uma ajuda de vocês, disse-nos ele enquanto o seguíamos. Eu não conhecia e nem sabia que existia tal lugar, mas quando ele abriu a porta e vi um corpo, de avantajado tamanho, desnudo, ensangüentado, inerte na maca, só não desmaiei despencando ao chão porque me grudei no batente da porta. - Preciso que vocês me ajudem a colocar este corpo na mesa de pedra! falou calma e normalmente o enfermeiro como se aquilo fosse uma atividade simples e rotineira. Meu sogro imediatamente tomou a frente e ordenou: - Mario, você pega por debaixo da cabeça, eu pego por debaixo da bunda e o enfermeiro pega pelas pernas! Eu vi aquele filho de uma puta morto rindo para mim, com olhos em piscadelas dizendo: - Pega em mim seu cagão medroso! Fiquei petrificado fundido no piso. - Por que será que esta maldita cidade ainda não acordou? perguntava-me alucinado. Eu divaguei desesperado, congelado, com os pés preso no piso, olhando aquele corpo morto, mas que ria descaradamente de mim. Olhando aquele cafajeste defunto fazendo troça de mim, pedia ajuda dos céus: - Meu Deus, por favor acorde alguém e traga-o até aqui! Com certeza a população dormente, preguiçosa estava deixando escapar um grande acontecimento; - "Cadê as pessoas curiosas, apinhadas na porta do necrotério"? eu perscrutava incrédulo. -"Se este povo dorminhoco estivesse acordado não faltaria mão de obra fúnebre para esta logística necroterial". O medo e a fé fizeram com que continuasse a minha oração. - Meu Deus! Responda-me! por que não aparece nenhum filho de uma puta para transportar, da maca até a mesa, este corpo maldito sem vida? Por que? Em vão para o infinito céu eu gritei, mas Deus, por certo também estava dormindo ou com repulsa do morto, mas o certo mesmo, este deus queria é mesmo foder com minha tranqüilidade. O indecente peladão sem vida, parecia ler meus pensamentos, e arrogante, gozador, tripudiando gritava para mim: - Pega em mim seu covardão! Passe em meu corpo gelado sua mão quentinha! Vamos, venha! teu sogro está esperando! Meu sogro posicionado com a mão por debaixo da bunda do miserável defunto sinistramente ordena; - O que você está esperando, pega logo aí! Não tive outra saída, fiz uma careta de nojo para o morto, posicionando uma mão por debaixo da paleta fria do cadáver, e outra por debaixo da cabeça, deixando seu braço solto, caído por entre minhas pernas. Quando levantamos aquele corpo frio, mole feito uma gelatina, eu juro que vi, ouvi e senti, embora meu sogro rindo disse que não. Mas eu senti, sim eu senti primeiro estranhamente aquele braço frio roçando por entre minhas pernas, e daí senti que o filho de uma puta cadavérico tarado, amassando meus grãos, grudou no meu cacete; O maldito olhou cinicamente para mim, e em riso histérico disse: - Céus! que bofe gostoso! Vem comigo meu bem! Com aquele imbecil tarado, rindo em piscadelas, com seu braço frio no meio de minhas pernas, não tive outra alternativa que abortar a operação deixando-o pendurado nos braços do meu sogro. E lá fui eu, em desembalada correria, abandonando o imundo lugar, tentando limpar minhas mãos na calça. Arisquei uma olhadela parta trás, e vi meu sogro furioso tentando recolher o morto que acabou caindo ao chão. O defunto, meio morto meio atordoado, ainda teve forças para mostrar para mim, com o dedo da mão direita, um gesto obsceno. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

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