domingo, 25 de maio de 2014

UM SUICIDA AZARADO

Era um corpo em mergulho que dava corpo a este melodrama fugaz. Por certo, em algumas situações você ouviu o maldito dito popular: - “Quando urubu está de azar o debaixo caga no de cima”; mas, mais urucubaca que a falta de sorte do suicida que quis passar desta para outra vida, nunca vi. O Urubilino – Eita nome filho de uma puta – Bem, ele veio a esse mundo para mostrar aos outros viventes como este mundo, muitas vezes, é cruel. Nasceu tronchado de corpo e pernas, caolho e meio abobado para completar a desgraça. A mãe, prostituta de carreira abandonou-o na privada. Foi adotado por um aleijado que fazia dele sua muleta a fim de arrecadar dinheiro nas portas das Igrejas. Cansado da exploração do aleijado fugiu pelo mundo. Nasceu analfabeto e milagrosamente continuou analfa porque a escola o rejeitou entendendo que ele estaria mais para uma jaula que para uma escola. Na rua servia de chacota da molecada. Num concurso de beleza entre ele e o Frankenstein o monstro seria galã da novela das oito. Porque a mãe era prostituta e ele todo encangado não pode ser batizado e proibido de entrar na Igreja. Foi considerado pela comunidade como filho do diabo, porque seu pai, o capeta, fez do prostíbulo o inferno cruzando sexualmente com sua puta mãe. Que ele era todo desfigurado, isto lá era verdade, mas tinha um coração que pulsava triste em seu peito, apercebia-se das coisas e isto o chateava tremendamente. Toda esta chacota feria-o profundamente. Para amainar sua fome, na calada da noite, tal qual um cachorro vadio e sarnento, ia revirar os lixos para catar o que comer. Banho era um luxo, e só quando chovia. Dormia onde dava e quase sempre era expulso a tiro ou a pedradas. A infeliz criatura um dia se deu ao desgraçado luxo de gostar de uma garota, só porque ela lhe deu condoída um pedaço de pão. Dia após dia, meses e meses, e o tempo todo lá estava ele perdido em doce ilusão com esta linda menina no seu coração. Mas um dia... Lá na porta da Igreja saindo nos braços de um homem a noiva linda, sorridente e feliz. Sua vida terminou ali. Era ela a doce menina do seu coração que o abandonou por um outro ser. Contristado voltou para seu esconderijo resolvido a dar fim a sua vida. Arquitetou o plano. Pegou uma corda e uma lata de veneno. Caminhou ruma ao rio. Escolheu uma árvore e selecionou um galho que tentava cutucar as águas do rio. Chorando copiosamente amarrou cuidadosamente a corda. A árvore apreensiva conversava com o rio. - Este cara vai fazer merda! O rio e a árvore tentaram, em muitas conversas, tirar do Urubilino desta funesta ideia, mas nada disso surtiu efeito. Lá estava ele na ponta do galho colocando a corda no pescoço, Segurando cuidadosamente a lata de veneno. Não rezou porque ninguém o ensinou e nem pediu nada a Deus porque não o conhecia, mas seu pai, o capeta estava ali ajudando na execução do processo mortífero. - Maldito mundo, ponho fim a minha vida e ao meu sofrimento! Gritou isso com todos os pulmões, degustou a lata de veneno, colocou a corda no pescoço e se jogou. Tudo a sua volta parrou contemplando horrorizada aquela cena dantesca. Era um corpo em mergulho que dava corpo a este melodrama fugaz. Ouviu-se um galho quebrando, e em seguida o som do baque de uma massa corpórea nas águas do rio. Debateu-se feito um doido, e afundou; Debateu-se, mais e mais, desesperadamente, e novamente afundou. Seria mesmo o fim desta criatura? Mas... Alguém que passava retirou-o quase afogado do rio. Vomitou o resto do veneno que tinha no estômago e hoje, amaldiçoando seu salvador, vive feiamente por aí como dantes POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

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