domingo, 6 de julho de 2014

METAMORFOSE

Às vezes, no torvelinho da vida, me ponho um tanto pensativo, nostálgico, e meus pensamentos voam no tempo e no espaço buscando lugares, buscando situações e buscando momentos de muita emoção. Que saudade eu tenho de minha infância querida, da vida inocente e das brincadeiras no bairro. Ao me lembrar dos bons momentos por vezes lágrimas discretas brotam dos olhos indo morrer vadia no canto da boca. E no embalo incontido do meu devaneio lá vou eu célere correndo para o passado. Quando anoitecia o banco de madeira de frente de casa era o encontro dos vizinhos, das comadres, das boas e talvez das más intenções. O papo rolava gostoso enquanto a molecada nas brincadeiras de esconde-esconde e das cirandas se divertia protegido por olhos atentos. Que saudade eu tenho desse banco. Ele desapareceu, não pela velhice de sua madeira, mas pelo avanço da tecnologia da comunicação. Ah! A televisão, esse bicho maldito que às vezes informa, muitas vezes desinforma e quase sempre deforma a cultura. Apareceu, como quem não quer nada, primeiro lá na praça, e o povo todo, feito um formigueiro mexido, surgindo de todos os cantos, se reunia boquiaberto para ver muito mais o chuvisco que a imagem cinza quase desbotada. Sentavam lado a lado, e já não mais conversavam, olhos fixos e silenciosos tentando ver e entender o que a telinha mostrava. Os filhos tinham que ficar sentados cordeirinhos ao lado de seus pais. A praça não criou para a gurizada um espaço para seus folguedos. Não se brincava então como antes na rua. Não passou muito tempo e o bestificado povo teve mais conforto. A televisão foi para dentro de sua casa. As pessoas já não saiam mais para a praça e a gurizada sem os folguedos era obrigada a ficar em casa se deformando diante do aparelho maldito. As pessoas começaram a ficar mudas. Enquanto isso o banco tristemente se cobria de musgo, apodrecendo pelas lágrimas da saudade. Envelhecido já não era mais um conforto, mas sim um estorvo que teria que ser eliminado. A rua, que antes era alegre e buliçosa no vai e vem dos traquinas moleques, hoje se acomoda triste ao cair da noite. Nem a lua é mais alegre na rua em que eu morei. E o monstro não se acomodou. Não satisfeito em ficar apenas na sala invadiu cada quarto e cada canto da casa. E num cochicho ordinário vai ditando as normas, e as condutas de cada um. As pessoas já não se conversam mais. São estranhas no mesmo ninho. Maldita televisão! Certa feita fui à casa de um velho amigo que ha muito tempo não via; Poucas palavras de boas vindas e lá estava eu sozinho na sala frente a uma praguenta televisão. Queria ter perguntado muita coisa; queria ter dito tantas coisas; queria enfim matar a saudade que nos separou por longo tempo. Eu percebi que ele ficou mais velho; Um pouco diferente com cabelos brancos e em desalinho. Está mais gordo. A fresta da porta permitiu livremente que eu visse que ele e sua esposa estavam sepulcramente silenciosos e terrivelmente compenetrados na telinha. Não conheci seus três filhos que estavam, cada um em seus quartos abobados olhando o diabólico instrumento. Contristado peguei minha mala, que não havia ainda desfeito, e rumei à porta de saída. Tentei ainda dar um adeus, mas minha saudação ecoou oca pelos cantos da casa sem qualquer retorno. Dormi no aeroporto pegando o primeiro voo disponível. Hoje recebo contristado no meu celular uma lacônica mensagem do meu velho e perdido amigo que diz: - Pena que a gente nem pode conversar! POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

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