domingo, 19 de abril de 2015

UM CAPITÃO DESOLADO

- Lamentavelmente foi o destino! O destino existe? A fatalidade é uma realidade insofismável? Será que o destino é a concepção de uma sucessão inevitável de acontecimentos obedecendo a uma possível ordem cósmica? Às vezes fico em dúvida. Meu pai me contou uma história muito relacionada a isso, e eu escrevo exatamente tal qual ele me relatou. Vamos lá então! Ele servia o exército na Companhia dos Sapadores em Pedra Preta. A Companhia trabalhava na abertura da estrada. O sistema de transporte da tropa era bastante precário e radical; usava-se, para o transporte dos soldados, caminhão basculante. Um dia, o caminhão estava apinhado de soldado em cima da caçamba pronto para sair. O capitão chegou bufando soltando labaredas pelas ventas. Seu motorista particular – o chamado bagageiro - não tinha deixado o leite preparado para seu café. Dirigindo asperamente ao seu bagageiro diz: - Hoje você vai para frente de trabalho! Apontou para um soldado, que estava em cima da caçamba, fazendo-o descer dizendo: - Hoje você vai ser meu bagageiro! Naquele dia o capitão amanheceu mesmo com os grãos trocados ou sua mulher tinha dormido de calça. Foi até ao cárcere e dizendo ao prisioneiro: - Chega de moleza, você vai trabalhar hoje! Apontou para outro soldado que já estava no caminhão pedindo para que descesse. Ao passar pela enfermaria o soldado enfermo suplica ao Capitão: - Não aguento mais ficar nessa cama, quero ir trabalhar na abertura da estrada. O médico tinha recomendado repouso total. O Capitão não se fez de rogado ao apelo do soldado adoentado, e fez descer o terceiro soldado para que o enfermo tomasse o lugar dele. O capitão entrou no alojamento pisando duro sem ver o caminhão perder-se na poeira da estrada. Meu pai contou que nesse dia estava de folga. Perto do almoço um esbaforido desconhecido, a galope, passa gritando: - A guerra começou, tem um monte de soldado morto na estrada! O capitão estranhou aquele mensageiro e se perguntou: - Mas que guerra? Bem ao entardecer a tragédia foi desvendada. Um carroção chega trazendo muitos feridos e oito mortos. O momento era funesto e lamentoso. - O que aconteceu? Desesperado grita o capitão. - O caminhão caçamba tombou quando chegava! Respondeu o carroceiro todo ensanguentado. Dois grupos de trabalho foram designados; Um para atender os ferido e outro para preparar os cadáveres. Meu pai ficou no segundo grupo construindo as urnas mortuárias e preparando os mortos. Quando o capitão conferiu os mortos ficou inconformado ao ver que entre eles estavam seu bagageiro, o prisioneiro e o enfermo que ele fez subir na caçamba. Pôs a mão na cabeça e inconsolável aos prantos gritou: - Eu sou o culpado pela morte deles! Eu sou o culpado! Alguém, tentando consolá-lo, coloca a mão no ombro dele dizendo: - Lamentavelmente foi o destino! POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

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