segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

BARQUINHO DE PAPEL

A tarde caia preguiçosa e se arrastava serpeando por entre os montes indo morrer negra nos baixios e vales distantes. O Rio Iguaçu estufava fora de seus sulcos cavados no chão e derramava suas águas como lágrimas de súplica pelas cercanias. O Porto Amazonas estava apinhado de gente que esperava ansiosa a chegado do Vapor Peri para recepcionar quem chegava de Porto União ou de São Mateus ou então para o embarque. Eu brincava o meu brincar de cinco anos e ficava admirando aquele fervilhar de final de tarde como se fosse num sonho lindo desenrolando alegremente. Eu ansiava por chegar a São Mateus e me perdia em contemplações seduzido pelas coisas que jamais tinha visto. Mais sonhava que brincava e lembrava. A viagem de trem de Curitiba até Porto Amazonas foi de uma beleza inexplicável. Praticamente desenrolou-se o dia todo e não me cansava de ver pela janela a paisagem que verde e densa corria em sentido contrário; observava lá adiante a Maria fumaça que gemendo, se contorcendo vomitava rolos de fumo e fagulhas pela chaminé engolindo pouco a pouco os trilhos a sua frente. O povo que entrava e saia a cada parada sempre alegre, falando línguas estranhas carregando malas de couro, sacos e caixas despertavam em mim a curiosidade. Tudo tão estranho, tudo tão belo. De repente um apito surdo e meu pai avistando na curva do rio o vapor que surgia grita para mim: - Mario vem pra cá, o vapor está chegando. Minha mãe, com a Laura no colo tratou de reunir a Inca e eu e deixar perto de si os apetrechos da viagem. O povo, como num formigueiro mexido se alvoroçou. Como se fosse numa festa festejou alegremente aguardando o vapor Peri que ao som do seu apito rasgando as águas do rio preparando-se para acostar parecia que feliz também festejava. O povo do vapor fazia acenos loucamente; As mulheres, lindamente vestidas movimentavam de um lado para outro os seus lenços brancos e os homens segurando pelas abas os seus chapéus ramenzoni acenavam também. O povo em terra respondia com a mesma alegria. Chapéus e lenços brancos num quadro místico se misturavam ao entardecer que veio tomar parte da grande festa. Que cerimonial demorado. Mais de uma hora para o desembarque do povo; Para retirar dos porões pelas escotilhas e colocar em terra firme a erva mate, os couros, as crinas, a madeira e os charques e para depois embarcar no lugar o sal para gado, o querosene, os tecidos, as bebidas, as comidas e as quinquilharias. Por fim lá fomos nós medrosamente passando na prancha para entrar no convés do vapor. Fiquei na popa do vapor sob os cuidados de minha mãe enquanto o pai arrumava o camarote onde passaríamos a noite. Permaneci ali por longo tempo absorto naquela pintura de cenário nunca imaginado. Vi lá no alto do barranco o trem chegando à estação e todo aquele povo, na plataforma embarcando. Olhava aqueles operários que incansáveis recolhiam nos vagões as mercadorias chegadas pelo vapor. Quase no lusco fusco, ouvi o apito estridente da locomotiva que dizia àquela gente que estava na hora da partida. Admirei aquele colosso de ferro comprido, que resfolegando soltava fumaça se esgueirando vagarosamente e novamente engolindo os trilhos. Tudo me fascinava. O clec cleque clec cleque de suas rodas de ferro foi rapidamente aumentando de ritmo e aos poucos como num sonho de criança o trem desapareceu devorado pelas matas, pela noite, ou... nem sei mais. A barulheira de agora pouco foi se aquietando. No céu em revoadas a passarada buscava seus ninhos, seus recantos. O povo, no interior do vapor foi se acomodando aos poucos. Reinava a ansiedade, pairava a angustia e a solidão da noite e o balouçar da nau amedrontava as entranhas do Peri. De repente o cheiro gostoso de um feijão, de um toucinho frito com arroz e da batatinha impregnou o ambiente trazendo o ânimo e o apetite. A vozearia então inflou novamente o convés. Achei engraçados aqueles marinheiros todos; pareciam noivas. Vestiam calças e camisas brancas. Usavam quepes brancos que adoraria ter um. Davam ordens. Recolheram a prancha e desamarraram as cordas que prendiam o vapor no cais. Conferiram e ajeitaram toda a palamenta para poder zarpar. A noite sem pedir licença chegou e abraçou tudo que encontrou. A máquina a vapor aliviou um pouco a pressão de sua caldeira num apito rouco indicando o início da viagem. A passarada assustada ou alegre abandonou incontinente seus aposentos dos altos dos arvoredos. Aquela enorme roda começou vagarosamente a girar, batendo cada uma das paletas na água fazendo o vapor aos poucos se afastar da margem desviando dos parcéis em busca do canal de navegação. Quase mais nada se via apenas o ruído borbulhante da água. - Venha jantar, minha mãe me chamou. Dormi tranqüilo ao som das orações pedindo ao Bom Deus uma viagem sem problemas e acordei todo molhado quando o dia se fazia presente. Meu pai, como sempre acertou o ocorrido dizendo: - A água do rio deve ter entrado no camarote pelas vigias mal embaçadas. Voltei para a popa e fiquei vendo hipnotizado o borbulhar das águas do rio fazendo rendas que ficavam estendidas e perdidas para trás. Um marinheiro chegou e vendo o meu entretenimento fez de um jornal um barquinho e amarado a um barbante soltou na água e me deu para segurar. Aquele barquinho era lindo singrando as águas espumantes deixadas pelo vapor. Parecia o filho pequeno seguindo feliz os passos do pai. Eu conversei longamente com ele no meu conversar de gente pequena; Segredei mil coisas e no seu jeito desajeitado, mas lindo confesso que me entendeu e até me disse alguma coisa que hoje não sei. Quis estar lá dentro dele no balançar das ondas. Nossa amizade casou-se ali no véu de espumas que o vapor e ele faziam. São Mateus aos poucos foi surgindo na curva do rio. Foi crescendo, foi crescendo e o apito rouco do Peri deixou no convés o povo feliz acenando para o povo do cais. Deixei tristemente o barquinho amarado na popa e pela mão desembarquei com minha mãe. Implorei para que minha mãe esperasse o vapor zarpar no que fui atendido. Algumas mercadorias desembarcadas e outras tantas embarcadas e novamente o apito rouco do vapor dizendo adeus e ele começou a navegar. Uma tristeza imensa invadiu o meu coração de menino. Vi de longe o meu barquinho feliz deslizando no embalo das ondas que o vapor deixava. Mais adiante, antes de desaparecer na curva do rio o vapor deu rouco seu último apito e me pareceu ouvir o meu barquinho de papel imitar o Peri e apitar também e no seu apitar dizer: - Adeus meu amiguinho, até qualquer dia. Uma lágrima incontida deslizou infame pela minha face indo morrer no canto de meus lábios. Ergui meu braço num adeus saudoso virei-me e segui os passos de minha mãe. Quedo de quando em quando me ponho a lembrar do meu barquinho de jornal No vapor Peri que se encontra recuperado em São Mateus se você olhar com atenção na popa dele encontra o sinal de um barbante amarado. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

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