domingo, 21 de agosto de 2011

O BRANCO DA BANDEIRA


Dando uma espiadela de leve pela Wikipédia, para saber o significado dos símbolos de uma nação, pude então confirmar que eu realmente estou com os conhecimentos em dia. Então, eu sei, que tudo o que se considere ou se manifeste para o mundo como uma comunidade nacional é um símbolo. É importante conhecer e respeitar, pois os símbolos nacionais pretendem unir pessoas criando representações visuais, verbais ou icônicas do povo, dos valores, objetivos ou da história nacional.
Dentre muitos, a bandeira é um símbolo nacional oficial. Suas cores sempre representam alguma coisa, e seu formato e apresentação é procedimentado.
Há muito tempo, pelos idos de 1959.
Estava com meus 19 anos, e na época estava sendo treinado para a defesa nacional contra possíveis ataques de povos inimigos e alienígenas. Na oportunidade eu só imaginava, na minha santa inocência, que apenas os índios eram perigosos, e talvez fosse por isto que o exército convocasse os jovens alentados para o treinamento de luta contra eles. Outros possíveis inimigos eu não os conhecia, não tinha a menor idéia de quem eram eles. Hoje eu sei que muito mais que povos de outras nações; que os inofensivos índios; que os habitantes de outros planetas; existem os inimigos mais perigosos da pátria que são os grandes safados, sanguessugas, desonestos, vilões residentes aqui, representando a fragilidade do nosso país. São desleais, hipócritas, miseráveis que desrespeitam os símbolos e saqueiam a olhos vistos as riquezas da nação. Contra estes não existe treinamento. É uma luta inglória.
Recebia todos os tipos de adestramento – com armas, sem armas; na cidade ou no campo; sozinho ou em grupo. Mas, o inimigo sempre era invisível. O sargento nunca comentou conosco sobre os políticos perniciosos, sobre bêbados nos volantes; sobre a internet, sobre a televisão, traficantes e seqüestradores. O inócuo treinamento, que era teórico ou prático, servia para nada.
Um dia, em que o sol fazia feder assado os piolhos da cabeça, perfilados com as pernas semiabertas e as mãos grudadas acima da bunda, recebíamos a transmissão dos conhecimentos. O sargento, numa cantilena infernal, desfilava moral e ética para os ouvidos atentos da rapaziada fincada imóvel a sua frente.
O discurso daquele dia era sobre o valor e o respeito aos símbolos nacionais. Lamentável que nenhum bandido, político ou filho de uma puta estivesse ali para ouvir.
Falou sobre os símbolos oficiais e os não oficiais e perdeu-se em delonga sobre a bandeira nacional. Foi uma verdadeira prolação, principalmente, em estado imóvel em que se encontrávamos, fritados pelo astro rei.
O calor era infernal e as palavras vomitadas pelo instrutor batiam inúteis nos ouvidos derretidos pelo sol escaldante. Aquele prosar ao sol ardente fez um valoroso soldado despencar terra abaixo. Ninguém nem piscou petrificado pelo discurso intergaláctico daquele sargento. O pobre diabo permaneceu por longo período inerte esticado ao chão.
E lá na frente, impassível, o sargento perdia-se por veredas tantas na explicação do significado dos símbolos, adentrando nas cores da bandeira nacional.
Lembro-me que no alto de sua parolagem, discorria paulatinamente o significado de cada cor e sinais da bandeira.
- As estrela significam nossos estados, dizia ele, e continuava na sua oratória inútil para surdos ouvidos:
- O verde representa nossas florestas virgens e imensas.
Cinqüenta anos depois deste discurso, lamentavelmente não tão virgens e nem tão imensas.
Continuava o instrutor a frente daquele contingente que aos poucos ia se derretendo.
- O amarelo representa as nossas riquezas.
Eu imagino que naquele tempo os portugueses não tinham ainda levado todo o ouro da pátria amada e a dívida externa não estava tão alta, senão, com certeza, a cor seria vermelha.
- O azul do pavilhão reproduz este nosso lindo firmamento; é a imagem de nossas esperanças num porvir que há de vir sempre límpido e puro, de alma nobre, e pronto a servir, deste nosso povo abençoado.
Cá fico matutando que naquela época as condições sociais eram ótimas e o respeito e igualdade entre as pessoas tinham um significado diferente. Sei que a pureza de um povo está nos seus valores, e os valores estigmatizados de hoje estão emporcalhando a nossa gente.
O sargento foi desfiando o rosário de considerações e explicando o significado de cada coisa e de repente, ao ver todos aqueles postes imóveis, perfilados fincados a sua frente, resolve jogar uma pergunta para alguém. Não sei ao certo se o sargento não sabia a resposta ou foi uma estratégia para despertar da inércia o pelotão.
- Você, soldado 35, diga qual é o significado do branco na bandeira nacional.
Houve um silêncio sepulcral. Os passarinhos curiosos pararam de voar e até a brisa que vadia passava por ali, parou de soprar.
O recruta 35 de negro quase ficou alvo. Olhou atônito para o sargento, estufou o peito e seu olhar desviou-se para cima, e foi se perder na imensidão azul. Algumas nuvens, pequenas e sapecas passeavam despreocupadamente pelo céu rindo para o 35.
- 35, dê um passo à frente e responda! Ordenou o carrasco.
Ele obedeceu dando um passo a frente, mas sem tirar os olhos fixos da amplidão acima.
Eu acho que o 35, no despertar do sono, de sua indolência, deve ter racionalizado e concluído o seguinte, antes de responder:
- Se o azul representa o céu, se o verde nossas matas e o amarelo o ouro, então... Olhou para o sargento e com convicção respondeu:
- Representa a nuvens!
O mundo todo tremeu; os passarinhos desmaiados despencaram de seus galhos e a brisa escafedeu-se frente aos uivos esganiçados do sargento.
De castigo ficamos o resto do dia perfilados ao sol e o 35 passou três dias em cana por desrespeito ao símbolo nacional.

Por: Mario dos Santos Lima


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

VIAGEM A ILHA DO MEL


A galera resolveu fazer um final de semana de relaxamento na Ilha do Mel, mas antes vamos conhecer um pouco este lugar.
A Ilha do Mel é uma ilha brasileira situada na embocadura da Baia de Paranaguá.
Segundo alguns historiadores a Ilha do mel teve alguns nomes e a origem de seu nome, segundo a lenda pode ter vindo de uma das quatro vertentes: 1ª) Até a segunda guerra mundial a ilha era chamada de Almirante Mehl. Era o nome do cara que morava lá e se dedicava à cultura do mel; 2ª) Pode ter sido porque moravam na ilha muitos marinheiros aposentados que se dedicavam à exploração e cultura da apicultura isto até os anos 60. Chegaram até exportar o mel. 3ª) Não sei se vocês perceberam aquela água amarelada escura escorrendo antes de chegar ao mar, alguém até sugeriu que era merda em esgoto a céu aberto; pois é minha gente, não é merda não; A água doce da ilha contém mercúrio que em contato com a água salgada causa a coloração amarelada semelhante à cor de favos de mel; 4ª) Também a origem do nome pode ser bem antiga pelo fato dos antigos moradores, os índios carijós apreciarem o mel e explorarem a apicultura. Bem pessoal, pesquisei e estou dando quatro alternativas para a origem do nome da Ilha do Mel. Fiquem a vontade para dotar a que mais é do agrado de cada um.
Pesquisando um pouco mais sobre a ilha vou viajar com a colunista Fernanda Preto que descreveu, numa reportagem um pouco da história da Ilha do Mel, esta bela e afrodisíaca ilha localizada no litoral no Paraná. Ela dá dicas dos principais pontos para fotografar e para passear.
Diz ela que conhecer a Ilha do Mel é um grande privilégio, pois é um pedacinho do mundo onde é possível relaxar aproveitando as belezas naturais de um lugar acolhedor. Isto eu concordo em gênero e número com ela.
A Ilha do Mel é o xodó dos Paranaenses; já foi lugar de hippies nos anos 70 e hoje é lugar de quem busca além de praias, a Mata Atlântica ainda preservada, pois é também uma estação ecológica desde 1982. Para o visitante que chega à ilha são distribuídas máscaras contra fumaça e gás, principalmente para aqueles que se atrevem a caminhar à noite adentro, por entre as trilhas, para que na volta não sejam surpreendidos e presos por estarem ligadões. A neblina que muitas vezes aparece à noite não é neblina não, é a concentração da fumaça provocada pelas folhas e inflorescências dessecadas, trituradas e enroladas em forma de papelotes de cigarro da maconha.
Entre caminhadas na praia, na restinga e banhos de mar, a Ilha também permite a prática da escalada esportiva assim como, boulder, um tipo de escalada de até 6 metros de altura sem o uso de corda. No local há rochas muito antigas, da idade Pré-Cambriana, e formações arenosas muito recentes. Hoje afloram nos morros devido à ação da erosão que continuamente remove as camadas superficiais da crosta. Não se recomenda o uso de chinelos para estes passeios principalmente no Morro do Sabão.
Na Praia de Encantadas, onde mora a maioria das pessoas, estão as escaladas no Morro do Careca, no Mar de Fora, na Praia do Miguel, na Praia da Bica. É também onde fica a Gruta das Encantadas, e diz a lenda que mulheres de beleza sedutora e de bela voz, encantavam os visitantes que, caminhando pela praia, aproximavam-se da gruta e desapareciam misteriosamente. A bem da verdade, pesquisando apontamentos antigos dos índios Carijós fiquei sabendo que ali era a zona de meretrício deles. Como os deuses proibiam terminantemente o sexo foi única maneira que encontraram para dar umas metidinhas escondidos destes deuses boiolas e doidos. A gruta no começo era apenas um buraquinho, mas com os gritinhos das índias na hora do orgasmo as rochas foram se soltando dando a profundidade e altura que tem hoje. Eu entrei dentro e pude perceber que a caixa acústica da gruta e muito boa e ainda se ouve, se você ficar atento os gritos das índias.
Outro atrativo é a Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres do século XVIII, na Praia do Forte, que foi construída em 1766. “A Fortaleza marcou a história da colonização paranaense pelo litoral, e também durante a Segunda Guerra Mundial quando se tornou a sentinela de vigilância contra submarinos que pretendessem invadir as águas de Paranaguá”, diz o site da ilha. A Fortaleza é tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional, mas quem visita pode ver a falta de preservação. O Forte fica no Morro da Baleia. O forte tem: uma casa de guarda; prisões e paiol de pólvora. O local hoje é bem usado pelos caras que vão lá só para esvaziar o tubo digestivo.
Os canhões vergonhosamente foram usados duas vezes apenas. A primeira, em 1850 contra o Navio de Guerra Inglês comandado pelo Cormorant que veio aprisionar Navios Negreiros brasileiro no porto de Paranaguá. A segunda em 1894 durante a revolução federalista. Os navios dos federalistas passaram com os marinheiros na maior algazarra, inclusive mostrando bananas ao pessoal do forte, pois as balas não chegavam até eles. Tomaram Paranaguá por quatro meses e foderam com a cidade.
Em 1945 a ilha foi considerada Zona de Guerra, entenda-se de guerra e não de meretrício, mas a bem da verdade foderam com o pessoal da ilha também, pois botaram todos para correr para fora dela, índios e não índios confiscando suas propriedades. Foi uma tristeza enorme ver aqueles índios todos, em pranto perderem suas tabas e ocas incendiadas pelos soldados. O Governo colocou no oco deles e proibiu que a rede globo fizesse a cobertura.
Instalaram os canhões e trincheiras de pedras no alto do Morro da Baleia. Os índios e gente humilde que não quiseram abandonar a ilha foram usados como bucha de canhão.
O Farol da Concha, no lado de Brasília, orienta desde 1872 os navegantes na Baía de Paranaguá. A vista é maravilhosa, principalmente na lua cheia, quando se pode se ver a Serra do Mar, a planície costeira, e o barulho calmo das ondas batendo nas paredes rochosas, e também casais de namorados em juras de amor e na maior sacanagem.
A ilha tem quatro agrupamentos de almas: Nova Brasília; Farol; Forte que o pessoal chama de Fortaleza e o agrupamento das Encantadas.
Existe uma lei, não sei de quem ou qual o seu número determinando que todos os navios com destino a Paranaguá devem passar pelo Forte – por certo para justificar a sua construção ali, mas os navios teimam em passar pelo Farol das Conchas atrapalhando a passagem dos barcos que levam o pessoal para a ilha.
Foi aprovada uma lei para a instalação de um aeroporto moderníssimo na Ilha e também um grupo já comprou um terreno para a construção de um mega shopping. Para a iluminação total da ilha estão pensando num reator igual a que existe em Angra.
Bem, agora que conhecemos com detalhes onde acomodaremos o nosso esqueleto vamos à narrativa de nossa epopéia.
A Fran organizou tudo... quem quiser saber o que aconteceu lá é só implorar que eu narrarei.

por: Mario dos Santos LIma

domingo, 24 de julho de 2011

A GALINHA PEDREZ

A GALINHA PEDREZ
A busca da segurança é uma ilusão permanente. A solução deste dilema está na sabedoria da insegurança ou da incerteza. Na realidade a busca da segurança é um apego ao conhecido, àquilo que já vivemos, que já experimentamos e o conhecido nada mais é que o nosso passado. O bom ou o mau passado, isto não importa. Se vivermos apenas do conhecido estaremos regredindo, estaremos cometendo uma tragédia em vista de que o conhecido nada mais é do que a prisão de velhos condicionamentos. Não existe evolução no conhecido, porque ele já foi revelado e será apenas a estagnação e pode gerar desordem. Acredito piamente que a incerteza do que fazer, que o sufoco que muitas vezes enfrentamos é um terreno fértil para a criatividade.
Por estas e outras eu vivo o presente na expectativa da incerteza do depois no alegre cenário do antes que faço repetir muitas e muitas vezes.
Kierkegaard escreveu: A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se adiante.
Eu gosto de reviver as cenas de quando era criança para me divertir e muitas vezes para refletir. Vou até lá e assim tal qual criança sapeca crio e recrio, invento e reinvento, pinto e repinto com o poder de minha mente.
Se me permitem vou levar vocês até o meu primeiro dia de aula.
Minha mãe teve o cuidado de confeccionar o jaleco branco e o embornal para acondicionar caderno, lápis, borracha e o livro Cartilha Sodré.
Antes de sair para a minha aventura radical de buscar conhecimentos além das quatro paredes de casa, minha mãe deu uma bela olhada nas minhas unhas e nas minhas orelhas, penteou meu cabelo e me deu a sua preciosa benção.
Naquele momento eu era o orgulho da família, estava ingressando na escola primária. Por certo meu pai contou para seus colegas de trabalho, deve ter escrito uma carta para seu pai dizendo que seu neto era um cara de grande sucesso. Minha mãe deve ter ido às vizinhas para contar a grande novidade. Ela deve ter rezado algumas ave-marias para pedir proteção a virgem santíssima, pois seu filho estaria, a partir de agora no meio de gente estranha.
Eu fui todo paramentado para escola, feliz e orgulhoso, mas angustiado pelo desconhecido que estaria enfrentando a partir daquele momento.
Quase chegando à escola ainda estava na lembrança o insistente tchau que minha mãe dava e as lágrimas que vi correr pela sua face.
Chamaram pelo meu nome e indicaram a sala. Tremi nas pernas ao entrar nela.
Minha primeira vez foi cruel e sufocante.
Era uma sala provisória, pequena e de poucos alunos. Sentei-me na fila da direita e era o terceiro da frente para o fundo.
A professora entrou, ficamos de pé e eu gelado, angustiado, de goela seca parecendo boi assustado na fila do matadouro.
Aqueles poucos colegas de sala se agilizavam, cumpriam as ordens da professora sem pestanejar e eu feito um bocó, perdido queria somente um buraco para sumir.
A professora deu a ordem da leitura. Cada aluno deveria levantar e ler um trecho. Começou desastradamente exatamente pela minha fila. O primeiro da fila levantou, empunhou o livro a sua frente e começou a leitura da tal galinha pedrez. Achei bonita e engraçada a história que ele lia. Terminou a leitura e a professora ordenou que o da minha frente fizesse o mesmo. Ele leu o mesmo trecho. Estava chegando a minha vez. Só não urinei nas calças porque me segurei ou talvez a urina tenha saído pelos meus poros, pois suava feito um lazarento.
O moleque da frente terminou a leitura e a professora falou qualquer coisa que não entendi e ordenou que eu iniciasse a leitura.
Peguei o livro, abri-o na página adequada com a ajuda do colega da frente e com muito custo me coloquei de pe. Só entendia das figuras isto porque não era cego, mas das letras... nada disto ainda tinha sido apresentado para mim.
O sufoco, a angustia acaba sempre criando em nós um dispositivo de defesa.
Com certeza toda aquela criançada estava passando pelo mesmo sufoco que eu e, no entanto estavam ali realizando as suas tarefas normalmente. Eram criativas e por que não eu. Investi-me de uma segurança inabalável, de uma fortaleza inacreditável e me coloquei a ler. Na realidade comecei a repetir com desenvoltura, teatralmente exatamente o que os outros dois tinham lido. Imitando os dois meus colegas fiz até as entonações de voz.
- É a próxima lição, interrompeu a professora.
O colega da frente levantou-se, pegou o livro e disse para a professora:
- Ele está na próxima lição.
Todos os olhares para mim. A professora chega-se e pergunta com ar de cretina:
- Você não sabe ler, guri?
Ouvia falar tanto nos castigos da escola. Na tal régua na cabeça, na palmatória, no ficar de joelho que quase desmaiei a frente daquela brutamonte.
- É a minha primeira vez, com voz sumida consegui segredar para a minha primeira e inesquecível professora.
- Você está na classe errada, esta é a classe do segundo ano, falou aquela galinha pestilenta.
Só não apanhei dela porque o bedel me encaminhou para a sala dos analfabetos.
E em casa todos curiosos queriam saber como foi meu primeiro dia de aula e eu todo satisfeito disse que tinha lido para a sala a história de uma tal galinha pedrez. Minha mãe deu uma olhada disfarçada para o meu pai e deve ter pensado:
- Este menino vai longe, já no primeiro dia conseguindo ler!

por: Mario dos Santos Lima

sexta-feira, 27 de maio de 2011

CAVALGANDO UMA BICICLETA MUITO DOIDA

Quem, quando guri não morreu de vontade de andar de bicicleta? Pois sou um destes indivíduos que quando imberbe ainda, e não pubescente sonhava com a magrela dia e noite. Implorava insistentemente uma para meu pai, mas ele impassível ignorava as minhas doridas súplicas. No meu tempo, lamentavelmente não tinha ainda a grande motivação de –“Não esqueça de minha caloi”.
A bicicleta povoava meus sonhos. Era uma coisa boa e um tormento ao mesmo tempo. Eu sonhava com aquelas lindas propagandas de bicicletas que apareciam nos jornais e revistas. A sueca Monark, por exemplo, era considerada a rainha das bicicletas e era feito em aço de primeira, acabamento esmerado e cores lindas. Era a preferida do Brasil segundo a propaganda. Era a minha preferida também. A danada vinha com dínamo Hackel para os faróis Riemann e estava acoplada com a bomba pneumática Progress. Uma belezinha. Eu vivia fazendo coleções de recortes destas propagandas. Nos meus sonhos eu já havia andado milhares e milhares de quilômetros deslizando ruas, estradas, vielas e campos. Eu estava perito no assunto em botar a bunda no selim.
Para mim, um estilingue no pescoço, um picuá carregado de pedras na cintura, um pião, umas bolinhas de gude e uma magrela para me carregar era o máximo de minha ambição. Nada mais eu queria. O estilingue, o picuá, o pião e as bolinhas de gude eu os tinha, mas a bicicleta em meio a névoas ficava turva em meus anseios. Quando eu a teria? Martelava constantemente em meu cérebro esta pergunta. Quando?
Um dia vou possuir uma, pensava otimista olhando demoradamente aqueles recortes de propaganda.
Este dia não demorou a chegar.
No meu tempo, todo bom moleque que já sabia ler e escrever tinha que procurar alguma ocupação ou ofício para desenvolver. E lá fui eu aprender o ofício de marceneiro. Tinha 12 anos de pura inocência e muitos sonhos a realizar. Muito mais sonhos e pouca realidade.
Na marcenaria trabalhavam alguns marmanjos, eram os meus professores e a um canto, lá mais para o fundo do barracão, tal qual uma princesa encantada permanecia sempre uma linda e indescritível sueca. Pareceu-me, algumas vezes que ela dava umas piscadelas para mim. Eu acredito que foi amor à primeira vista.
Minha iniciação na arte de construir tranqueiras em madeira estava indo muito bem, mas minha paixão pela sueca aumentava desesperadamente dia a dia. O percurso de casa até a oficina de artes em madeira era bem longo, mas minha motivação em estar lá antes da hora e sair depois da hora era esta linda e graciosa sueca que impassível permanecia lá como se estivesse obcecadamente me esperando. Era uma atração fatal.
Dois tímidos. Eu de um lado fazendo minhas tarefas, jogando de quando em quando um olhar furtivo e enamorado e ela de outro lado, calada, linda me espreitando.
Um dia o dono da oficina me surpreendeu passando a mão nela. Fiquei sem jeito, esperei uma bronca, mas ele simplesmente me disse:
- Cuidado com ela, moleque, ela é minha e sou muito ciumento, mas como sou bastante liberal, se você quiser um dia eu o deixo sair com ela.
Minha alegria foi tanta naquele momento que quis gritar, dar um abraço nele, mas apenas timidamente agradeci.
Isto nos fez, eu e a sueca mais próximos um do outro. O nosso namoro estava cada vez mais forte. Ela era caladona, mas me permitia que eu ficasse ali ao seu lado falando qualquer coisa, sobre mim, sobre meus amigos; Era um bla bla danado sem fim.
A minha paixão pela sueca estava em proporções descomunais. Quando em casa não via a hora de retornar ao trabalho para estar ao lado dela. Os finais de semana me pareciam longos e intermináveis.
O grande momento de realizar o meu sonho chegou! Meus lindos sonhos seriam realidade agora. Vou finalmente andar de bicicleta.
Alguém da oficina precisaria ir fazer uma entrega de uma encomenda qualquer do outro lado da cidade. Eu fui o escolhido.
- Você sabe andar de bicicleta? Perguntou-me o dono da Marcenaria.
Esperei um pouco dei um tempo para responder. O treinamento que fiz nos meus muitos e variados sonhos me pareciam reais. Eu sabia, é claro que eu sabia andar de bicicleta e muito bem. Recompus-me não acreditando ainda na pergunta e de imediato, meio gaguejando respondi.
- Sim, sim eu sei.
Colocaram com cuidado a obra de arte restaurada no bagageiro da bicicleta dizendo-me:
- Cuidado com esta peça, ela é antiga e de muito valor.
- Sim, gaguejei.
- Guri, cuidado com a minha Monark, ela é uma coisa preciosa que tenho, acrescentou o dono da marcenaria.
Finalmente a sueca estava em meus braços e logo logo estaria sob minhas pernas. A minha alegria era tanta que acabei acreditando que sabia realmente bicicletar e com isto tive um orgasmo precoce.
Olhei aquela formosura toda reluzindo de impecável pintura preparada para a missão quase impossível.
Os primeiros 100 metros eu os fiz apenas empurrando a sueca. Fui num monólogo tranqüilo com ela. Queria estar longe das vistas do dono dela no memento sublime de dar à primeira trepadinha. A cidade até parecia que parou para me permitir andar sem problema. Suas ruas em colossal areal se estendiam desertas por quase todo o trecho. Até os cachorros vadios se recolheram.
Criei coragem, mas tremendo de medo frente a uma enorme descida me encavalei desajeitadamente em cima dela. Pareceu-me ouvi-la dizendo:
- Vá com calma meu amor!
Eu estava tarado, estava afoito, na realidade eu era naquele momento o noivo virgem doido pela primeira foda e não atendi ao seu reclamo, comecei a descida em desembalada corrida. Ela gemia sob meu corpo que quase solto queria escapulir.
Meus cabelos soltos ao vento acenavam felizes e eu em início de operação radical começava a suar frio. O medo estava solto correndo lado a lado comigo. Meu anjo da guarda suplicou aos céus e me abandonou. A Monark desgovernada, zig zagueando doida engolia a distância, gritando frases desconexas. Meus pés soltos não encontravam os pedais e o selim fazia bolhas na minha bunda.
A sueca gritava frases de ordem, rebolava toda, mas eu juro que ela estava feliz pela liberdade incondicional que eu estava lhe proporcionando.
Como um peão nos corcovos da mula xucra eu tinha presa apenas uma mão no guidão da desgovernada Monark.
Pouco mais de 50 metros, nada mais do que isto foi palco da mais ousada e radical desembalada corrida ciclística que se tem notícia coroando ao final com um fenomenal acidente.
Um banco de areia ao nos ver doidamente se aproximando gritou, acenou, gesticulou, quis sair do lugar e nos seus braços espetacularmente fomos parar.
A sueca quando colocou seu rodado dianteiro no areal, deu um espetacular corrupio no ar, xingou largando-me em pleno vôo. Planei por alguns segundos e vertiginosamente de cabeça cai. A minha fuça foi a primeira a chegar ao areal vindo logo em seguida a Monark que num baque se enrolou toda em mim para amaciar sua queda.
A logística da entrega foi estancada neste ponto. Apenas 50 metros de adrenalina pura. Foi uma experiência incrível cavalgar numa xucra sueca que acabou culminando na realização do meu sonho – Andar de bicicleta. Desastrosa experiência, mas foi o início. Finalmente andei de bicicleta.
No local uma boa alma me ajudou a se desvencilhar da magrela que toda retorcida prendia-me a ela num abraço funeral; juntou cuidadosamente os pedaços da obra de arte que levava na garupa e me entregou com cuidado.
Eu estava todo empoeirado e sangrando, mas estava muito mais feliz que preocupado.
De repente, recompondo-me um pouco bateu loucamente em minha memória a recomendação:
- Cuidado com esta peça ela é uma obra de arte e de muito valor. Cuidado com a minha bicicleta, ela é bla e bla e mais bla.
Comecei a chorar desesperadamente reunindo os restos mortais da obra de arte e juntando do areal maldito a linda sueca toda retorcida.
- O cara vai me matar, pensei eu, enquanto caminhava de volta.
Pensei em fugir, desaparecer deste mundo, mas criei coragem e continuei o meu regresso. Como um bom empregado, ao emprego estou retornando.
Ao chegar de volta com aquele monte de ferro e lata retorcida disse ao dono da marcenaria:
- Fui atropelado e não me lembro de nada.
A sueca, no seu último suspiro teve forças e me deu um beliscão pela mentira. O dono da marcenaria, esbravejou, vomitou impropérios e quando quis me bater desmaiou caindo espetacularmente ao chão.
Mudei de cidade, fui para o seminário e até hoje não tive coragem de ir lá receber o meu salário.

por: Mario dos Santos LIma