Um dia, curioso como sempre fui, quis saber tudo sobre liderança e conhecer alguma coisa a mais sobre as características de um líder. Li muitos autores, pesquisei e me preparei convenientemente para um curso de liderança do Instituto Tadashi que me inscrevi. Só não me preparei fisicamente para ele e aí me lasquei. O encontro aconteceu em Atibaia no ano de 1997. Foi um convite e presente de meus compadres Gustinho e Marilu.
O curso se apresentava como um programa de treinamento com fundamentos filosóficos de origem Oriental. O autodomínio era a arma principal e a resistência o teste que envolvia riscos fora do comum e exigia grande perícia para concluir com êxito o curso e receber o certificado de liderança.
O encontro pregava que o equilíbrio emocional sempre foi importante em nossa vida. Ele tinha por objetivo despertar o líder que cada um é e que muitas vezes não sabemos sê-lo tornando-nos mais conscientes dos medos e capacidades que temos. Aprender a lidar com situações estressantes do dia a dia e passar a se relacionar melhor consigo mesmo era também o foco deste encontro. Afinal, a proposta era boa e iria ajudar a identificar os limites e desbloqueá-los. Pelo conteúdo programático achei interessante.
Para isto você se internava na quinta à noite e era libertado no domingo ao cair da noite caso não desistisse antes do prazo final.
Aventurei-me neste episódio ao qual vou denominar de treinamento radical de liderança.
Cheguei curioso ao local e mal consegui depositar minha mala em cima da cama e já tive que em desembalada corrida ir me juntar aos outros pretensos líderes na sala de palestra.
O discurso inicial foi tenebroso. Foram as regras despejadas e a provação pela qual iríamos ter que passar. A turma toda foi dividida em grupos e as tarefas teriam que ser desenvolvidas todas em equipes e para a equipe. A comida e a cama eram apêndices desfrutadas pelas equipes que terminassem a contento cada atividade desempenhada. A cada erro individual o grupo todo perdia ponto e recebia uma canecada de água na cabeça como castigo. Este castigo era vexatoriamente executado a frente de todos os outros grupos.
Algumas das atividades eram individuais como, por exemplo, decorar algum trecho literário complexo e apresenta-lo em público. Defender um tema qualquer de improviso. Outras atividades em grupo como, por exemplo, montar um intrincado quebra cabeça. Tudo tinha tempo e era cronometrado. Missão quase impossível. Verdadeira loucura institucionalizada.
De quinta para sexta meu grupo não desfrutou da cama e nem da comida, pois terminou o compromisso às sete da manhã e imediatamente tivemos que assumir outro compromisso. Sexta feira sem almoço e a cada cochilada uma canecada de água na cabeça e pontos perdidos. De sexta para sábado a mala permanecia fechada em cima da cama. O palestrante proferia seus ensinamentos aos berros para não deixar a turma dormir.
Eu e quase todos os participantes agíamos como robôs ao final do sábado. Imaginei que iria abrir minha mala na noite do sábado, ledo engano, pois a maldita tarefa só pode ser completada às oito horas do domingo. O estresse era geral e com certeza se alguém se manifestasse com vontade em matar os orientadores seria seguido por todos e a carnificina seria total.
O domingo parecia lindo. O sol ardia lá fora e o sono e a fome rondavam a sala de palestras. Só a cabeça molhada despertava meu sono. As técnicas de liderança eram cautelosamente repassadas pelos palestrantes e memorizadas cuidadosamente por cada participante. O palestrante pregava que devemos ir além do horizonte, além das expectativas e que isto só é possível se formos até onde nossos olhos puderem ver. Meus olhos cansados e sonolentos já não conseguiam olhar além do meu nariz. Ele dizia que não há resultado sem dor psicológica e sem cansaço físico. E eu que pensei que ser líder seria bem mais fácil. Neste momento quase gritei – “Eu desisto, quero ser um vassalo!” Mas fiquei calado, pois a fome era tanta e o grupo já todo encharcado não poderia perder mais pontos. Tudo pelo almoço!
Tudo parecia caminhar para um final feliz. A tarefa estava sendo completada a contento e com isto eu e meu grupo poderíamos desfrutar da primeira refeição depois destes quase três dias de jejum. Completei a minha parte e aproveitei deslocar rapidamente o meu esqueleto, pela primeira vez, fora daquelas macabras paredes. Não devo ter consumido neste breve passeio mais que dois minutos os quais foram suficientes para eu caminhar sobre uma relva linda e macia e apreciar, como nunca dantes o esplendor de um dia de sol. Recolhi-me rápido ao som da maldita sineta, e fomos perfilar no salão. Cada grupo deveria fazer duas filas e aguardar o resultado das tarefas.
A ordem, a disciplina e o silêncio davam o tom ao austero ambiente.
De repente um cheiro avassalador começou a provocar a desordem. Eu pensei nos ensinamentos recebidos que dizia que um líder é aquele que tem visão, sabe olhar a esquerda e a direita – só não lembro se poderia olhar para cima ou para baixo - é aquele que descobre aquilo que outros não vêem. Definitivamente pensei: “Quero ser um líder!” Olhei então para baixo e atônito descobri a origem daquela fedentina toda. Os ensinamentos diziam que o líder deve anunciar a boa nova – esta não era uma boa nova com certeza – lembro-me também que dizia que o líder partilha sua missão com os outros definindo objetivos. Que contagia e sabe estar com o pé no chão. Eu estava com o pé no chão, mas naquele momento não poderia estar com o pé no chão, não poderia revelar meus objetivos e minha missão. Teria que resolver tudo sozinho.
Temerosamente olhei para todos os lados e fixei meu olhar para baixo.
Que cena repugnante!
Saindo pelas bordas do solado do sapato aparecia a merda, a mais fedida de que se tem notícia. Deveria ser de um maldito gato ou de um cachorro com enorme problema intestinal que esvaziou o intestino grosso na grama que pisei. Vagarosamente, num processo de equilíbrio e concentração com outro pé consegui me desvencilhar do sapato emporcalhado e sorrateiramente fi-lo deslizar até a parede.
Diz o ditado que em bosta quanto mais mexida mais fedida e foi o que aconteceu. O tumulto era generalizado e eu pensava no almoço que provavelmente seria suprimido pelos pontos perdidos.
Perfilado com um pé sem sapato e com outro calçado fazendo de conta que nada era comigo, vi apavorado naquela mesa lá na frente o meu sapato emporcalhando a toalha branca. Um dos orientadores deve ter visto o meu sapato encolhidinho perto da parede, pegou-o, sujado a mão e por isto encolerizado, aos berros perguntava:
- De quem é este sapato imundo?
Desmaiei e acordei só na segunda feira no hospital com uma agulha espetada no braço a qual permitia a passagem do soro. Ao meu lado carinhosamente meus compadres sorridentes diziam:
- Parabéns você conseguiu!
por: Mario dos Santos Lima
MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
sábado, 29 de outubro de 2011
terça-feira, 25 de outubro de 2011
O PODER DO PAI NOSSO
Sempre me pautei pela lógica quando no mister de realizar qualquer atividade por mais simples que ela possa parecer.
Era uma tarde de domingo e eu estava indo para dar continuidade a uma missão quase impossível.
- Este filho de uma puta, ao sair da cadeia, precisa perdoar o português que atirou nele, pensava cá com meus botões enquanto me dirigia a penitenciária de Campinas. Meu trabalho junto aos presos em processo de pré socialização já durava nada menos que dois anos.
- Preciso persuadi-lo a não cometer este crime!
Meus pensamentos divagavam soltos enquanto a largos passos caminhava em direção ao presídio; Continuava absorto, remoendo minha cachola com o objetivo de descobrir uma estratégia de comunicação eficaz, utilizando recursos lógico-racionais para induzir aquele infeliz a não concretizar seu louco intento.
- Mas o que poderia realmente fazer eu, para demover deste imbecil a vontade insana de ver a sangria do português? Pensava quase alto enquanto caminhava.
José, nome fictício, cumpria uma pena de deis anos condenado por assaltos violentos, pequenos furtos, por tentativa de assassinato e agressões violentas. Apresentava-se, a primeira vista pelo seu comportamento nada recomendável, com distúrbio mental grave caracterizado por um desvio de caráter, ausência de sentimentos genuínos, frieza, insensibilidade aos sentimentos. Uma titica de galinha mesmo! Parecia, no seu conversar, com transtorno de personalidade anti-social. Nas suas propostas futuras eu o considerava como perverso.
Cheguei e logo fui entregando as coisas básicas que ele tinha solicitado na última visita. Agradeceu-me, guardou o recebido e iniciamos o nosso papo costumeiro dos domingos.
Enquanto me envolvia no conversar costumeiro veio-me, num estalo, uma forma de persuadi-lo.
- Você conhece a oração do pai nosso? Perguntei de chofre a ele.
- Sim, já ouvi falar, mas nunca rezei esta droga. Falou-me com desdém.
- Quer fazer a experiência? Medrosamente perguntei.
- Não acredito muito nisto não, mas para passar o tempo...
Fui então recitando, frase a frase do pai nosso, comentado cada passagem. E ele, com ar incrédulo e desconfiado repetia comigo. Quando chegamos à segunda parte em que eu rezei e pedi para que ele repetisse: Perdoai-me Deus da mesma maneira em que eu perdôo o português.
- Ah! Isto eu não repito não! De pronto, levantando-se do local falando colérico para mim completou:
- Aquele filho de uma puta vai morrer quando eu sair daqui. Eu já estava caído, quase morto e ele descarregou a arma em mim! Vou fazer o mesmo com ele!
- Pense bem! Supliquei. Você é um cara feio e mal encarado e por esta razão o português apavorado fez o que fez.
- Só rezo a primeira parte! Sentenciou resoluto.
No assalto que ele tinha feito à mercearia do dito português acabou levando a pior, pois o lusitano sacou da arma e acertou um tiro que o derrubou de chofre, não bastasse isto, descontroladamente descarregou a arma acertando todos os tiros no seu esqueleto já desmaiado no piso. Nenhum tiro foi o suficientemente necessário para matá-lo. Foi arrastado pela polícia e preso sem antes passar por muitos dias no hospital em recuperação. As perfurações provocadas pelas balas deixaram marcas horrivelmente registradas em seu corpo esquelético. Pelas costuras mal feitas imaginei que a arte foi executada por um medroso aluno, calouro do primeiro ano de medicina, ou então, por um ensacador de batatas realizando a operação de costurar a embalagem. Olhando aquelas cicatrizes falei a ele muitas vezes:
- Você é um cara privilegiado, disse tentando convence-lo.
- Como privilegiado? Perguntou-me curioso.
- O médico que fez isto em você era um estudante de medicina que tinha medo de cortes, de sangue e de realizar cirurgias e hoje ele é um grande cirurgião. Graças a quem? Graças a você.
Ele parou a um canto e permaneceu em silêncio. Voltou-se para mim e sentenciou:
- Só rezo a primeira parte do pai nosso e quando sair daqui vou mandar o português pros quintos dos infernos.
Jamais consegui que o desgraçado rezasse a segunda parte do pai nosso. O filho de uma puta era teimoso e persistente. Tinha como meta liquidar o português.
Minhas visitas continuaram por algum tempo sem que eu tivesse o sucesso de demover daquele trancafiado o desejo ardente da vingança. Por motivos particular e desmotivado acabei abandonando este trabalho social. Fiquei bastante triste e decepcionado com o meu insucesso. Minha estratégia de convencimento tinha sido inútil, pensei eu; e por certo o português brevemente irá para a fita.
Passaram-se alguns anos.
Numa tarde qualquer, andando despreocupadamente pela Avenida Francisco Glicério de Campinas ouço uma voz, quase gritando:
- Seu Mario!
Fiz rapidamente um giro no meu tronco e identifiquei no meio da multidão um cara que sorrindo se aproximou de mim
Bem mais próximo aquele indivíduo fez a pergunta.
- Você não está me reconhecendo?
Olhei demoradamente, verifiquei os guardados de minha memória. Será algum aluno? Tenho tantos! Briguei com meu arquivo, consultei meus neurônios no hipocampo e não pude identificar ninguém e respondi:
- Não, não sei quem você é.
Ele olha fixo para mim, sorri e diz:
- Vou te dar uma pista! Muito alegre concluiu. Eu sou aquele que se negava a rezar a segunda parte do pai nosso, lembra-se?
- Meu Deus! Pensei. Este cara está solto e deve ter feito o serviço no português. Criei coragem e perguntei:
- Matou o português?
- Não, seu Mario, eu rezo a segunda parte do pai nosso.
Não pude conter a emoção; abracei de imediato àquele cara e duas lágrimas indiscretas correram felizes pela minha face.
por: Mário dos Santos Lima
Era uma tarde de domingo e eu estava indo para dar continuidade a uma missão quase impossível.
- Este filho de uma puta, ao sair da cadeia, precisa perdoar o português que atirou nele, pensava cá com meus botões enquanto me dirigia a penitenciária de Campinas. Meu trabalho junto aos presos em processo de pré socialização já durava nada menos que dois anos.
- Preciso persuadi-lo a não cometer este crime!
Meus pensamentos divagavam soltos enquanto a largos passos caminhava em direção ao presídio; Continuava absorto, remoendo minha cachola com o objetivo de descobrir uma estratégia de comunicação eficaz, utilizando recursos lógico-racionais para induzir aquele infeliz a não concretizar seu louco intento.
- Mas o que poderia realmente fazer eu, para demover deste imbecil a vontade insana de ver a sangria do português? Pensava quase alto enquanto caminhava.
José, nome fictício, cumpria uma pena de deis anos condenado por assaltos violentos, pequenos furtos, por tentativa de assassinato e agressões violentas. Apresentava-se, a primeira vista pelo seu comportamento nada recomendável, com distúrbio mental grave caracterizado por um desvio de caráter, ausência de sentimentos genuínos, frieza, insensibilidade aos sentimentos. Uma titica de galinha mesmo! Parecia, no seu conversar, com transtorno de personalidade anti-social. Nas suas propostas futuras eu o considerava como perverso.
Cheguei e logo fui entregando as coisas básicas que ele tinha solicitado na última visita. Agradeceu-me, guardou o recebido e iniciamos o nosso papo costumeiro dos domingos.
Enquanto me envolvia no conversar costumeiro veio-me, num estalo, uma forma de persuadi-lo.
- Você conhece a oração do pai nosso? Perguntei de chofre a ele.
- Sim, já ouvi falar, mas nunca rezei esta droga. Falou-me com desdém.
- Quer fazer a experiência? Medrosamente perguntei.
- Não acredito muito nisto não, mas para passar o tempo...
Fui então recitando, frase a frase do pai nosso, comentado cada passagem. E ele, com ar incrédulo e desconfiado repetia comigo. Quando chegamos à segunda parte em que eu rezei e pedi para que ele repetisse: Perdoai-me Deus da mesma maneira em que eu perdôo o português.
- Ah! Isto eu não repito não! De pronto, levantando-se do local falando colérico para mim completou:
- Aquele filho de uma puta vai morrer quando eu sair daqui. Eu já estava caído, quase morto e ele descarregou a arma em mim! Vou fazer o mesmo com ele!
- Pense bem! Supliquei. Você é um cara feio e mal encarado e por esta razão o português apavorado fez o que fez.
- Só rezo a primeira parte! Sentenciou resoluto.
No assalto que ele tinha feito à mercearia do dito português acabou levando a pior, pois o lusitano sacou da arma e acertou um tiro que o derrubou de chofre, não bastasse isto, descontroladamente descarregou a arma acertando todos os tiros no seu esqueleto já desmaiado no piso. Nenhum tiro foi o suficientemente necessário para matá-lo. Foi arrastado pela polícia e preso sem antes passar por muitos dias no hospital em recuperação. As perfurações provocadas pelas balas deixaram marcas horrivelmente registradas em seu corpo esquelético. Pelas costuras mal feitas imaginei que a arte foi executada por um medroso aluno, calouro do primeiro ano de medicina, ou então, por um ensacador de batatas realizando a operação de costurar a embalagem. Olhando aquelas cicatrizes falei a ele muitas vezes:
- Você é um cara privilegiado, disse tentando convence-lo.
- Como privilegiado? Perguntou-me curioso.
- O médico que fez isto em você era um estudante de medicina que tinha medo de cortes, de sangue e de realizar cirurgias e hoje ele é um grande cirurgião. Graças a quem? Graças a você.
Ele parou a um canto e permaneceu em silêncio. Voltou-se para mim e sentenciou:
- Só rezo a primeira parte do pai nosso e quando sair daqui vou mandar o português pros quintos dos infernos.
Jamais consegui que o desgraçado rezasse a segunda parte do pai nosso. O filho de uma puta era teimoso e persistente. Tinha como meta liquidar o português.
Minhas visitas continuaram por algum tempo sem que eu tivesse o sucesso de demover daquele trancafiado o desejo ardente da vingança. Por motivos particular e desmotivado acabei abandonando este trabalho social. Fiquei bastante triste e decepcionado com o meu insucesso. Minha estratégia de convencimento tinha sido inútil, pensei eu; e por certo o português brevemente irá para a fita.
Passaram-se alguns anos.
Numa tarde qualquer, andando despreocupadamente pela Avenida Francisco Glicério de Campinas ouço uma voz, quase gritando:
- Seu Mario!
Fiz rapidamente um giro no meu tronco e identifiquei no meio da multidão um cara que sorrindo se aproximou de mim
Bem mais próximo aquele indivíduo fez a pergunta.
- Você não está me reconhecendo?
Olhei demoradamente, verifiquei os guardados de minha memória. Será algum aluno? Tenho tantos! Briguei com meu arquivo, consultei meus neurônios no hipocampo e não pude identificar ninguém e respondi:
- Não, não sei quem você é.
Ele olha fixo para mim, sorri e diz:
- Vou te dar uma pista! Muito alegre concluiu. Eu sou aquele que se negava a rezar a segunda parte do pai nosso, lembra-se?
- Meu Deus! Pensei. Este cara está solto e deve ter feito o serviço no português. Criei coragem e perguntei:
- Matou o português?
- Não, seu Mario, eu rezo a segunda parte do pai nosso.
Não pude conter a emoção; abracei de imediato àquele cara e duas lágrimas indiscretas correram felizes pela minha face.
por: Mário dos Santos Lima
sábado, 15 de outubro de 2011
UTUPIA?
Me envolvo
e resolvo...
não me escondo,
respondo
problemas banais.
Mas me anima
a estima
que recebo da turma.
Crio
e recrio,
e a fórmula aparece...
é a glória...
a vitória...
e a turma nunca esquece.
É o alguém
que no vai-e-vem,
me chama pelo nome;
e a vida
na corrida,
que não pára de passar;
mas... me anima
a estima...
Me envolvo
e resolvo...
crio
e recrio,
pois curto
este culto
sempre oculto
de ser professor.
*Professor Mario dos Santos LIma
e resolvo...
não me escondo,
respondo
problemas banais.
Mas me anima
a estima
que recebo da turma.
Crio
e recrio,
e a fórmula aparece...
é a glória...
a vitória...
e a turma nunca esquece.
É o alguém
que no vai-e-vem,
me chama pelo nome;
e a vida
na corrida,
que não pára de passar;
mas... me anima
a estima...
Me envolvo
e resolvo...
crio
e recrio,
pois curto
este culto
sempre oculto
de ser professor.
*Professor Mario dos Santos LIma
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
BINÓCULO NO DIA DA PROVA
O mundo de fantasia que se cria para uma criança e a imersão que ela faz nele é algo indescritível. Pelo que observamos neste mundo do faz de conta, que para ela é real desenrolam-se cenas das mais variadas. Algumas vezes alegres, quando ela ri, mas outras vezes tristes e assustadoras, quando então ela chora. No mundo imaginário dela ela trava diálogos acalorados, repreendendo com o dedo em riste o seu interlocutor ou então, numa fala mansa despeja alguns conselhos. Às vezes é com sua boneca ou com um bichinho de estimação, mas muitas das vezes é com alguém não materializado.
Este é o cenário de uma criança ainda nos primeiros anos de vida.
Mas, muitas vezes, tem por aí criatura grande, crescida, vacinada que acredita na existência da cegonha como ave que traz o nascituro, acredita em papai Noel, que o coelhinho bota ovos de chocolate, que pode existir políticos honestos, mas por certo esta santa ignorância pode ser característica daqueles menos dotados de informações ou noções adquiridas pelo estudo ou pela experiência, daqueles sem a prática da vida e possuídos da pobreza de alma. São os pobres imbecis que a vida não lhes deu oportunidade ou então roubou muito daquilo que pouco tinham. Para estes infelizes o que resta unicamente é elucubrar perdidamente acreditando nos seus devaneios.
A classe estava atenta porque fazia eu uma revisão geral para a prova do primeiro bimestre.
Entre muitos conceitos passados e entonação mais incisiva para aquele ponto que provavelmente iria fazer parte da prova um aviso jocoso foi repetido algumas vezes para a sala:
- Não deixem de trazer o binóculo no dia da prova.
Os alunos estranharam aquele aviso e perguntaram:
- Um binóculo?! Mas por que um binóculo?
Apenas reafirmei o aviso:
- Não deixem de trazer o binóculo.
Tentei criar um mundo fantasioso. Estava induzindo aqueles alunos a escorregar do real ao mundo irreal.
Num primeiro momento não consegui.
O dia da prova chegou.
Distribui as provas e colei um minúsculo papel na moldura do quadro negro. Virei para a sala e perguntei:
- Alguém de vocês trouxe o binóculo?
Esperei alguns segundos e completei apontando para o miúdo papel colado no quadro.
- O gabarito da prova está neste papel. Ninguém poderá levantar-se para olhá-lo, apenas poderá conferir olhando pelo binóculo.
Os alunos se entreolharam, num burburinho danado na ânsia indômita em descobrir se alguém dentre eles havia trazido o maldito binóculo.
Ninguém havia trazido o binóculo.
Dois meses depois a turma está reunida para a realização da segunda prova.
Da mesma forma que você não conta duas vezes a mesma piada para a mesma pessoa, eu não brinquei, a respeito do binóculo com estes alunos quando fiz a revisão para a segunda prova.
Distribui a prova e me posicionei num ponto panorâmico para policiar e coibir as famosas colas quando alguns alunos de binóculos a punho pendurados no pescoço reclamaram:
- O professor não vai colar o gabarito no quadro negro?
Achei aquilo absurdo, muito engraçado e pensei:
- Estas antas de galocha se foderam!
A crença se constrói ou pela esperança ou pela santa ignorância. E a crença para aqueles imbecis fez-se então pela ignorância, pelo mais fácil, pelo tirar vantagem, morrendo estupidamente na desesperança.
Aqueles que trouxeram os binóculos acreditaram no absurdo.
por: Mario dos Santos Lima
Este é o cenário de uma criança ainda nos primeiros anos de vida.
Mas, muitas vezes, tem por aí criatura grande, crescida, vacinada que acredita na existência da cegonha como ave que traz o nascituro, acredita em papai Noel, que o coelhinho bota ovos de chocolate, que pode existir políticos honestos, mas por certo esta santa ignorância pode ser característica daqueles menos dotados de informações ou noções adquiridas pelo estudo ou pela experiência, daqueles sem a prática da vida e possuídos da pobreza de alma. São os pobres imbecis que a vida não lhes deu oportunidade ou então roubou muito daquilo que pouco tinham. Para estes infelizes o que resta unicamente é elucubrar perdidamente acreditando nos seus devaneios.
A classe estava atenta porque fazia eu uma revisão geral para a prova do primeiro bimestre.
Entre muitos conceitos passados e entonação mais incisiva para aquele ponto que provavelmente iria fazer parte da prova um aviso jocoso foi repetido algumas vezes para a sala:
- Não deixem de trazer o binóculo no dia da prova.
Os alunos estranharam aquele aviso e perguntaram:
- Um binóculo?! Mas por que um binóculo?
Apenas reafirmei o aviso:
- Não deixem de trazer o binóculo.
Tentei criar um mundo fantasioso. Estava induzindo aqueles alunos a escorregar do real ao mundo irreal.
Num primeiro momento não consegui.
O dia da prova chegou.
Distribui as provas e colei um minúsculo papel na moldura do quadro negro. Virei para a sala e perguntei:
- Alguém de vocês trouxe o binóculo?
Esperei alguns segundos e completei apontando para o miúdo papel colado no quadro.
- O gabarito da prova está neste papel. Ninguém poderá levantar-se para olhá-lo, apenas poderá conferir olhando pelo binóculo.
Os alunos se entreolharam, num burburinho danado na ânsia indômita em descobrir se alguém dentre eles havia trazido o maldito binóculo.
Ninguém havia trazido o binóculo.
Dois meses depois a turma está reunida para a realização da segunda prova.
Da mesma forma que você não conta duas vezes a mesma piada para a mesma pessoa, eu não brinquei, a respeito do binóculo com estes alunos quando fiz a revisão para a segunda prova.
Distribui a prova e me posicionei num ponto panorâmico para policiar e coibir as famosas colas quando alguns alunos de binóculos a punho pendurados no pescoço reclamaram:
- O professor não vai colar o gabarito no quadro negro?
Achei aquilo absurdo, muito engraçado e pensei:
- Estas antas de galocha se foderam!
A crença se constrói ou pela esperança ou pela santa ignorância. E a crença para aqueles imbecis fez-se então pela ignorância, pelo mais fácil, pelo tirar vantagem, morrendo estupidamente na desesperança.
Aqueles que trouxeram os binóculos acreditaram no absurdo.
por: Mario dos Santos Lima
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