domingo, 18 de março de 2012

O SOLIDÁRIO VIZINHO

Minha mãe, pelos atos e fatos, bem que poderia ter pertencido à associação das mulheres protetoras dos animais. Era zelosa e prestimosa com os irracionais. Fazia com amor e desvelo.
Escrevo isto porque presenciei certa feita, minha mãe costurando o lombo de uma penosa que tinha sido estuprada por um enorme e tarado galo de espora grande e afiada. Em outra ocasião, minha mãe, sem qualquer estudo na área de medicina, recuperou pacientemente fazendo fisioterapia num gato que nasceu troncho. E eu amei quando a vi fazendo de palito de fósforo uma tala, deixando um pássaro preto com suas finas pernas em condições de uso.
Ela amava incondicionalmente os animais dedicando carinho especial quando principalmente algum deles vinha até ela suplicando ajuda.
Ela só não se embrenhou nas florestas porque tinha seus filhos para cuidar e educar.
Na redondeza, onde ela morava, todos a conheciam como o anjo bom dos animais.
Um dia, ao tentar atravessar a estrada um tatu fêmea e seus 4 filhotes foram atropelados por um caminhão. O motorista freia desesperado o caminhão, e volta correndo para ver e acudir a família que jazia esmagada no chão. Apenas uma criança escapou. Ela chorava esfaimada tentando buscar uma teta no meio de uma carcaça esmagada.
O motorista em lágrimas pega o tatuzinho e de imediato lembra-se da salvadora, do bom anjo dos animais, a dona Maria.
- Dona Maria, este tatuzinho precisa de seus cuidados e alimentação. Contou a tragédia para minha mãe e foi embora.
Minha mãe acolhe o pequeno bebê tatu galinha com cuidado esmerado, e de imediato pega um conta gota e começa injetar na goela dele porções de leite.
O tatu foi crescendo cercado de cuidados, sempre dentro de casa numa caixa grande de papelão forrada de panos.
Para aquele animal minha mãe era sua mãe. Ela pegava-o no colo toda vez que ele choramingava a um canto pedindo comida. Dava bichinhos, frutas e leite, e passava carinhosamente o dedo indicador na cabeça do tatu que fechava os olhos no ato de aceitação.
E o tatuzinho cresceu e foi levado para o lado de fora da casa e solto livre no jardim.
Ele feliz começou a cavar alguns buracos, mas sempre vinha até a boca receber a aprovação de minha mãe. Ela batia palmas para ele e conversava conversas tantas que só os dois entendiam. Minha mãe era uma poliglota, pois além do português e polonês ela falava e entendia bem o conversar tatuguês.
Todos os dias o tatu fazia-se presente na boca do buraco esperando o alimento que minha mãe trazia, e os dois batiam felizes aquele papo animal que só ele e minha mãe compreendiam.
O vizinho da casa de meus pais trabalhava com máquina escavadeira na prefeitura e era muito atencioso e solidário. Sempre pronto para o que desse e viesse.
Um dia meus pais tiveram que viajar e, é claro, recomendaram ao vizinho os cuidados da casa, mas esqueceram de recomendar ao vizinho a atenção ao tatu.
Minha mãe, antes de sair, preparou o lanche do animal para dois dias e água suficiente. Conversou o conversar de sempre fazendo algumas recomendações ao bicho. Foi um papear de despedida.
Mas viajou tranqüila.
Voltou saudosa e quase caiu de costas quando viu o muro da casa derrubado e enormes escavações pelo jardim.
Aflita procurou por entre os buracos o seu tatu. Chamou e gritou por ele. O eco de sua voz suplicante perdeu-se sem resposta na imensidão.
E aparece no portão o vizinho, como se fosse um herói , segurando numa das mãos o seu troféu e garganteia.
- Dona Maria, cuidei bem da sua casa, mas tive que agir em defesa do seu patrimônio; todo orgulhoso inicia seu papo dos efeitos heróicos praticados aguardando, quem sabe, uma medalha de honra ao mérito.
E continuou a descrição de sua aventura protetora.
- Vi alguma coisa estranha em movimento em seu quintal - enfeitava a descrição para dar maior valor ao seu ato, e continuou a narrativa:
- O bicho parecia perigoso e por isto peguei minha espingarda e descarreguei no lombo dele vários tiros. Mesmo ferido o monstro se escondeu em algum buraco – suspirou um pouco para dramatizar a história e continuou:
- Tive que buscar a retro escavadeira para desenterrar a fera.
Parou a narrativa, ergueu o troféu com a mão direita e se aproximou de minha mãe dizendo:
- Como prova da verdade que digo cá está a carcaça; a carne eu comi.
Minha mãe petrificada olhou aquilo na mão do filho de uma puta; Identificou aquela peneira reconhecendo o querido tatu que ela dedicava tanto amor e carinho. Não suportando a dor, deixou duas lágrimas rolarem pela sua face.

por: Mario dos Santos Lima

segunda-feira, 5 de março de 2012

UM LADRÃO ASSUSTADO

A noite descia célere, escorregando pelas encostas, engolindo o sol que tristemente morria por trás das colinas. A estrada poeirenta, sulcada pelo rodado dos poucos carros e carroças que por ali trafegavam, era contornada por uma renda verde de capim que passava rasteira por debaixo da cerca de arame farpado e ia brincar com as pernas dos muares e bovinos que ainda teimavam na pastagem.
O trote apressado mostrava a angustia do viajante em querer chegar logo ao destino.
Sem apear abriu a porteira, e mais perto do rancho bateu palmas e gritou:
- Oh de casa!
O rancho de barro batido e coberto de palha, sombreado e amparado por dois coqueiros retorcidos pelo vento, era o único que reinava pelas cercanias, e por esta razão sempre tinha um viandante que cansado ou com fome pedia um abrigo.
A porta se abre gemendo, se arrastando pelo chão batido. De pé, com a mão no batente da porta, como se quisesse escorá-la, uma senhora gorda, grisalha, com outra mão no sobrolho em proteção do sol, olha demoradamente o cavalheiro que chega, e diz:
- Vamos entrando seu moço!
Ele apeou, livrou o eqüídeo dos arreios e soltou-o no pasto contiguo. Pegou o arreamento e sua espingarda e adentrou a choupana.
- Aqui não precisa desta coisa não, meu senhor, diz um velho sentado a um canto.
- Esta é a minha proteção, respondeu de pronto o viajante. Olhou a espingarda demoradamente, deslizou cuidadosamente sua mão em carinho pela coronha e a fez descansar encostada na parede.
O jantar transcorreu-se num religioso silêncio. Ouvia-se o raspar das colheres mendigando comida no fundo das gamelas. O lampião fumegante iluminava parcamente o ambiente. O fogo no fogão de taipa crepitava cansado.
Lá fora a noite era clara e quente. A lua brincava com as estrelas na imensidão distante. Uma coruja piou agourenta num pau seco lá mais adiante.
O velho abraçou sua viola e sentou-se num toco do lado de fora. Olhou demoradamente a lua, cismou com alguma coisa e num dedilhar suave cantou canções tristes e saudosas.
O cavalheiro ao pé da porta ouviu alheio algumas canções e sem fazer qualquer comentário pegou a lamparina e se recolheu no quarto preparado para ele.
Pelas frinchas das paredes o luar iluminava mais que a própria lamparina e por isto resolveu apagá-la. Pelo tamanho das fendas a janela parecia uma grade.
Em cima do catre tinha um colchão de palha que cuidadosamente foi remexido.
Colocou a espingarda do lado da cama e estendeu seu esqueleto cuidadosamente por cima do colchão.
A coruja já não piava mais, apenas alguns cachorros vadios uivavam em serenata para a lua.
De olhos fechados rendia-se ao sono quando de repente um barulho estranho fez se ouvir. Abriu os olhos e ficou atento.
Um vulto do lado de fora, iluminado pelo luar, tentava abrir a janela.
Esfregou os olhos para ficar certo de que não estava sonhando e, vagarosamente sentou-se na cama pegou a espingarda e aguardou o desfecho.
Pelo processo insistente o viajante entendeu que o vadio queria mesmo concluir a operação e invadir, sabe lá deus por qual razão o quarto dele.
Revestiu-se de raiva, mas com muita cautela preparou a sua arma. Posicionou-a a um palmo da cabeça do intruso. Queria apenas dar um belo susto no ordinário. A alça da mira passava pela fenda e o miserável nem percebeu.
Ouviu-se primeiro um cleck e em seguida ao forte clarão a carga de pólvora deflagrada originou um tremendo disparo.
O estrondo ecoou por todos os lados. O uivar dos cachorros assustados dava o toque final da confusão. A coruja sonolenta voou. A lua que calmamente descansava rapidamente se escondeu por entre nuvens. Enquanto a fumaça se dissipava no quarto o viajante viu duas figuras de olhos arregalados, assustados na porta de seu quarto. Gaguejando o casal de velhos pergunta:
- O que aconteceu?
- Meu anjo protetor vomitou chumbo num invasor filho de uma puta.
O casal de velhos não quis acreditar imaginando que o viajante acometido por sonambulismo tenha atirado a esmo.
Logo de manhã, num trote acelerado lá na curva da estrada desaparecia o viajante que ainda se deu ao trabalho de erguer a mão num adeus agradecido, e na cerca de arame farpado, logo adiante, via-se enroscado um pedaço de roupa, provavelmente da calça e um pedaço de carne, provavelmente da perna de algum apressado.

por: Mário dos Santos Lima

ADEUS

Inutilmente esperei ouvir que me chamasse...
Inutilmente... e assim como nada mais existe
Entre nós... tudo acabado, vou caminhando triste
Além da ponte na esperança q’esta dor infinda passe...

Pr’ atras nem me atrevo olhar... inútil são meus prantos...
Tantos foram que chorar já nem consigo mais...
Te implorei... mil planos fiz... foram loucos, foram tantos
De tanto amor que eu tinha não te esquecerei jamais...

Meu caminhar é trôpego... tenho visões de louco...
Te vejo na escuridão imensa, toda contente
Querendo me abraçar... mas, a visão, pouco a pouco

Desaparece e assim, apenas, dos sonhos tantos
Ficou a saudade enorme de cada momento ardente
Que vivemos os dois... e meus olhos se cobrem em prantos.

por: Mario dos Santos Lima

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

MALDITAS PULGAS

Cinema que se preze e por mais chique que possa se apresentar tem que ter umas pulguinhas para nos perturbar. É claro que estas pulgas devem passar pela fila da saúde pública para ter o carimbo de liberação. Não pode simplesmente adentrar ou invadir a casa de espetáculo como umas doidonas desvairadas sem responsabilidade. Elas têm que possuir a licença, e fim de papo.
As pulgas, as mais antigas habitantes do recinto de um modo geral seguem um procedimento rigoroso fazendo reuniões, e se preciso for, assembléias para aprovar ou reprovar a entrada da nova incorporada no grupo das chupa-chupa. Normalmente a caloura passa por um curso fodido de especialização e recebe até diploma ao finalizar com êxito o curso. Neste curso elas vão aprender a se instalar nas vítimas normalmente atacando pelas pernas e aos poucos invadindo áreas mais perigosas, mas com certeza muito mais aquecidas. Vão aprender a distinguir casais de namorados que vão apenas para se bolinar mutuamente ou casais que vão chegar às vias de fato e pessoas que automaticamente, movidos por um ato de caridade vão lá para simplesmente alimentar as calungas.
Muitas das pulgas fazem também cursos de pós doutorado para aprender como se conduzir ao escolher a vítima e permanecer no recinto ou então acompanhar a vítima até a sua casa.
Estas pulgas vips se arrumam, se enfeitam toda, e praticam um cerimonial todo especial, muito lindo por sinal, para abordar cada paciente. Pedem licença, e invadem uma por vez até um total de três no máximo por cliente. Elas são organizadas em sindicatos e devem coletar uma quantidade x de sangue por seção. Existe uma equipe de pulgas médicas que conferem no retorno a quantidade de sangue coletado. Você como paciente quase nem percebe, pois elas usam até pomada anestésica na operação.
Com esta classe de pulgas dá até gosto freqüentar um cinema, levando a namorada ou mesmo indo sozinho, pois foram treinadas para ao sugar o sangue comedidamente proporcionar inevitável prazer do coça-coça. Sair do local se coçando sutilmente é muito chique aos olhos dos outros.
Ah! Se todos os cinemas fossem assim. Isto é utopia eu sei.
O cinema de que vou descrever agora era pra lá de ordinário e com a cota de pulgas além das permitidas pela saúde pública. As malditas pulgas que ali viviam eram porcas, prostituídas, levianas, sem caráter e sem o devido carimbo institucional. Não tinham sindicato e completamente desorganizadas e famintas. Às vezes invadiam a tela tentando atacar os personagens do filme. Certa feita por não ter aonde ir fui assistir a um filme ordinário neste ordinário cinema e lá pelas tantas, de tão ruim que era a projeção acabei dormindo e quando me dei conta acordei deitado no meio do corredor arrastado que fora por estas criaturas nojentas. Tive que ser atendido imediatamente pelo pronto socorro para uma transfusão de sangue, pois o meu ficou todo no beiço destas imundas pulgas habitantes desta pocilga chamada cinema.
Achei um abuso dos donos do estabelecimento por estarem permitindo que este tipo de pulha estivesse se beneficiando de pessoas menos avisadas e desprotegidas. Deveriam ostentar na porta de entrada uma placa, por exemplo, com a frase: - ¨Você está adentrando área perigosa invadida pelas sem sangue¨.
Saí do pronto socorro puteado com os donos do cinema e com as malditas pulgas e fui ao jornal escrever uma crônica onde além de relatar com requintes de detalhes o ocorrido acabei oferecendo uma polpuda recompensa àquele que conseguisse trazer da espelunca pulguenta uma pulga carimbada. Os donos afiançavam, de pés juntos que todas as pulgas do seu maldito cinema eram legítimas de pura raça e com o devido carimbo da saúde pública..
Quando a edição saiu o povo motivado pelo prêmio que oferecia invadiu enlouquecida de madrugada o cinema arrombando a porta de entrada e abrindo buracos nas laterais do cinema. Aquela madrugada ficou marcada pelo tumulto e pela grande tragédia. As pulgas entusiasmadas de início imaginando uma seção extra entraram em pânico quando perceberam a verdadeira intenção daquele povo insano. Aquela multidão desvairada de joelhos pelo salão, com vidros na mão começou a grande caçada. Muitas pulgas pisoteadas, esmagadas. Pulgas grávidas. Pulgas amamentando seus filhos pequenos no colo. Milhares presas em vidros transparentes. O cinema virou um caos. Cadeiras quebradas, carpete arrancado e milhares de cadáveres pulguinos pelo chão.
Embora estas pulgas não pertencessem à plêiade não precisariam ser executadas suasticamente.
O povo embrutecido ávida pelo resultado deixou o cinema se dirigindo ao clube da cidade para, perante um corpo de jurado, achar a pulga ou as pulgas carimbadas. A madrugada avançou rápida deixando que o sol invadisse e afugentasse a escuridão. No final, a última pulga conferida. O ambiente envolveu-se numa lamentação geral por não ter sido encontrada sequer a tão esperada maldita pulga carimbada. O juiz da cidade, junto com o delegado, que fazia parte do corpo de jurado, aproveitou a oportunidade, e as provas apresentadas, para lavrar pesada multa aos donos do cinema.
Os proprietários da espelunca cinematográfica furiosos com o quebra-quebra do cinema, morte das pulgas e a pesada multa recebida partiram para a ignorância. Passava eu despreocupadamente pela frente do que sobrou do cinema e eis que do meio dos escombros e da putrefação tamanha surgem três vultos medonhos e raivosos: - um maneta, outro raquítico e outro gago partindo para cima de mim aos socos, muletadas e pontapés. Ainda pusilânime que estava, teria sucumbido à morte não fosse os berros violentos protagonizado pelo meu amigo Rui, que morava ao lado, colocando para correr aqueles marginais filhos de uma puta.

por: Mario dos Santos Lima