Cinema que se preze e por mais chique que possa se apresentar tem que ter umas pulguinhas para nos perturbar. É claro que estas pulgas devem passar pela fila da saúde pública para ter o carimbo de liberação. Não pode simplesmente adentrar ou invadir a casa de espetáculo como umas doidonas desvairadas sem responsabilidade. Elas têm que possuir a licença, e fim de papo.
As pulgas, as mais antigas habitantes do recinto de um modo geral seguem um procedimento rigoroso fazendo reuniões, e se preciso for, assembléias para aprovar ou reprovar a entrada da nova incorporada no grupo das chupa-chupa. Normalmente a caloura passa por um curso fodido de especialização e recebe até diploma ao finalizar com êxito o curso. Neste curso elas vão aprender a se instalar nas vítimas normalmente atacando pelas pernas e aos poucos invadindo áreas mais perigosas, mas com certeza muito mais aquecidas. Vão aprender a distinguir casais de namorados que vão apenas para se bolinar mutuamente ou casais que vão chegar às vias de fato e pessoas que automaticamente, movidos por um ato de caridade vão lá para simplesmente alimentar as calungas.
Muitas das pulgas fazem também cursos de pós doutorado para aprender como se conduzir ao escolher a vítima e permanecer no recinto ou então acompanhar a vítima até a sua casa.
Estas pulgas vips se arrumam, se enfeitam toda, e praticam um cerimonial todo especial, muito lindo por sinal, para abordar cada paciente. Pedem licença, e invadem uma por vez até um total de três no máximo por cliente. Elas são organizadas em sindicatos e devem coletar uma quantidade x de sangue por seção. Existe uma equipe de pulgas médicas que conferem no retorno a quantidade de sangue coletado. Você como paciente quase nem percebe, pois elas usam até pomada anestésica na operação.
Com esta classe de pulgas dá até gosto freqüentar um cinema, levando a namorada ou mesmo indo sozinho, pois foram treinadas para ao sugar o sangue comedidamente proporcionar inevitável prazer do coça-coça. Sair do local se coçando sutilmente é muito chique aos olhos dos outros.
Ah! Se todos os cinemas fossem assim. Isto é utopia eu sei.
O cinema de que vou descrever agora era pra lá de ordinário e com a cota de pulgas além das permitidas pela saúde pública. As malditas pulgas que ali viviam eram porcas, prostituídas, levianas, sem caráter e sem o devido carimbo institucional. Não tinham sindicato e completamente desorganizadas e famintas. Às vezes invadiam a tela tentando atacar os personagens do filme. Certa feita por não ter aonde ir fui assistir a um filme ordinário neste ordinário cinema e lá pelas tantas, de tão ruim que era a projeção acabei dormindo e quando me dei conta acordei deitado no meio do corredor arrastado que fora por estas criaturas nojentas. Tive que ser atendido imediatamente pelo pronto socorro para uma transfusão de sangue, pois o meu ficou todo no beiço destas imundas pulgas habitantes desta pocilga chamada cinema.
Achei um abuso dos donos do estabelecimento por estarem permitindo que este tipo de pulha estivesse se beneficiando de pessoas menos avisadas e desprotegidas. Deveriam ostentar na porta de entrada uma placa, por exemplo, com a frase: - ¨Você está adentrando área perigosa invadida pelas sem sangue¨.
Saí do pronto socorro puteado com os donos do cinema e com as malditas pulgas e fui ao jornal escrever uma crônica onde além de relatar com requintes de detalhes o ocorrido acabei oferecendo uma polpuda recompensa àquele que conseguisse trazer da espelunca pulguenta uma pulga carimbada. Os donos afiançavam, de pés juntos que todas as pulgas do seu maldito cinema eram legítimas de pura raça e com o devido carimbo da saúde pública..
Quando a edição saiu o povo motivado pelo prêmio que oferecia invadiu enlouquecida de madrugada o cinema arrombando a porta de entrada e abrindo buracos nas laterais do cinema. Aquela madrugada ficou marcada pelo tumulto e pela grande tragédia. As pulgas entusiasmadas de início imaginando uma seção extra entraram em pânico quando perceberam a verdadeira intenção daquele povo insano. Aquela multidão desvairada de joelhos pelo salão, com vidros na mão começou a grande caçada. Muitas pulgas pisoteadas, esmagadas. Pulgas grávidas. Pulgas amamentando seus filhos pequenos no colo. Milhares presas em vidros transparentes. O cinema virou um caos. Cadeiras quebradas, carpete arrancado e milhares de cadáveres pulguinos pelo chão.
Embora estas pulgas não pertencessem à plêiade não precisariam ser executadas suasticamente.
O povo embrutecido ávida pelo resultado deixou o cinema se dirigindo ao clube da cidade para, perante um corpo de jurado, achar a pulga ou as pulgas carimbadas. A madrugada avançou rápida deixando que o sol invadisse e afugentasse a escuridão. No final, a última pulga conferida. O ambiente envolveu-se numa lamentação geral por não ter sido encontrada sequer a tão esperada maldita pulga carimbada. O juiz da cidade, junto com o delegado, que fazia parte do corpo de jurado, aproveitou a oportunidade, e as provas apresentadas, para lavrar pesada multa aos donos do cinema.
Os proprietários da espelunca cinematográfica furiosos com o quebra-quebra do cinema, morte das pulgas e a pesada multa recebida partiram para a ignorância. Passava eu despreocupadamente pela frente do que sobrou do cinema e eis que do meio dos escombros e da putrefação tamanha surgem três vultos medonhos e raivosos: - um maneta, outro raquítico e outro gago partindo para cima de mim aos socos, muletadas e pontapés. Ainda pusilânime que estava, teria sucumbido à morte não fosse os berros violentos protagonizado pelo meu amigo Rui, que morava ao lado, colocando para correr aqueles marginais filhos de uma puta.
por: Mario dos Santos Lima
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