domingo, 19 de janeiro de 2014

UM CADÁVER SEQUESTRADO

- Não acho conveniente levar sua mãe! Disse o marido a sua mulher. - Por que não? Pergunta irritada a mulher. Depois de muitas discussões acabaram concordando em levar com eles a idosa à praia. Ele no volante mal humorado, ela do lado caladona, e no banco de trás, toda prosa, a filha com a vó. A viagem, de oitocentos quilómetros, com muitas paradas para os xixis de praxe, e trocas de fraldas na vó, chegou, com muito custo, ao seu final. Até que enfim, depois de anos, as merecidas férias numa praia. - Chegamos! Viva! Foi um grito uníssono de dentro do caro. Final de dia, ainda sobrou um tempinho para um rápido banho de mar. E foi só. Diz o ditado: “azar mesmo é quando o urubu de baixo defeca no de cima”, e foi o que aconteceu. - Por que a vó não se meche? Perguntou a netinha. - Ela está dormindo, respondeu desesperada a mãe, tentando esconder o choro. - Eu falei para você mulher! Disse, pra lá de puteado, o pai. Em pranto a mulher pergunta: - O que vamos fazer agora? - Vamos embrulhar a velha e colocar no bagageiro, e zarpar de volta! Falou friamente o marido. - Isto é um absurdo! É um desrespeito! Toda nervosa gritou a mulher. E se fosse sua mãe? Perguntou ela ao marido. - Não temos dinheiro para o translado! Vociferou o marido. - Por que estão embrulhando a vó no tapete, mãe? - É para ela ficar mais quentinha. O calor estava infernal. Se não fossem tomadas as providências imediatas o corpo começaria a entrar em estado de putrefação. Com a mulher triste, aos prantos, no banco ao lado; com a sogra gelada enrolada no tapete e amarrada no bagageiro; o passeio, que teria a duração de um mês, foi estupidamente interrompido tendo início então um retorno fúnebre. - Por que a vó tá lá em cima? - Porque, porque... Durma aí menina e não faça tantas perguntas, respondeu o pai pra lá de irritado. O translado de cadáveres tem uma legislação apropriada. Necessita de autorização e nota fiscal da mercadoria. Nada disso estava sendo cumprido. A viagem estava tensa. O guarda dá sinal para parar. - Puta que os pariu, estamos fudidos! - O que vocês carregam aí em cima? Perguntou o guarda. - É a vozinha, respondeu a menina. Ainda bem que o guarda não escutou, mas deu uma geral em volta do carro para examinar. Suando frio, quando viu o pé da sogra aparecendo, rapidamente arrumou, encobrindo-o para o guarda não ver. - É melhor você cobrir com uma lona, pois a chuva está próxima, comentou o guarda. - Sim seu guarda, vamos fazer isto, mais adiante! O carro fúnebre retorna a pista e segue adiante. A fome já estava carcomendo as paredes do estômago e o xixi já umedecia a cueca e as calcinhas. Pararam numa taberna de beira de estrada. - A vó não quer fazer xixi também? - Não! Respondeu rispidamente o pai. Para não despertar muita a atenção, o carro ficou estacionado um pouco afastado do boteco, em uma sombra. Quando estavam entrando no boteco a pequena grita desesperada: - Pai, dois homens estão levando a vozinha! - Seus filhos de uma puta, voltem aqui, eu não paguei o carro ainda! - Minha mãe, eu quero minha mãe! E o carro perdeu-se no meio do poeirão na curva da estrada. O carro foi roubado, levando o pobre cadáver de uma vozinha. A confusão foi grande. A polícia foi acionada e a netinha chorando gritava. - eu quero minha vozinha! Até hoje o sumiço da velhinha é dado como sequestro, e nunca mais se ouviu falar nela. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

domingo, 12 de janeiro de 2014

MEU PAI É FODÃO!

- Meritíssimo, o criminoso não sou eu, é o cara ali! Todo cuidado é pouco, ao falar alguma coisa a seus filhos! A criança, até os sete anos acredita nas fantasias. Não existe muita diferença do que é verdadeiro e do que é ficção para elas. O papai Noel, o coelhinho da páscoa são ficções lindas que para as crianças, com o passar do tempo, vão perdendo a essência, na descoberta da realidade nua e crua. Para os pequenos, os pais são seus principais heróis. Nada é mais importante para eles. Ninguém é mais forte que o pai e nem mais linda que a mãe. Minha neta Vitória, com cinco anos, acabou colocando em xeque mate seus pais. Foi assim: Certo dia, meu filho chegou a casa, e foi acomodar as compras e as verduras na geladeira. Tinha comprado uma pedra de gelo, para deixar a loirinha no isopor mais saborosa. Resolveu triturar o gelo. Pensou numa maneira mais conveniente e fácil. Colocou a pedra num saco plástico, e começou jogando-a de encontro à parede. Barulho daqui, pancada dali, a Vitória chega curiosa e assustada perguntando: - Pai, o que você está fazendo? - Estou quebrando o gelo. - E o pai tá conseguindo? - Estou sim, minha filha, e completa: - Não está vendo que o pai é fodão? Alguns dias depois, a Vitória não volta para casa, e em seu lugar veio a polícia infante juvenil acompanhada da assistência social portando uma ordem de prisão. Meu filho foi algemado e a Flávia desesperada, acompanha gritando por socorro. - Cadê minha filha? Por que estão prendendo meu marido? As lamúrias dela perderam-se inúteis, em tom de chacota, pelos ouvidos mocos dos miseráveis policiais. Meu filho foi posto, frente a frente, a um vetusto e severo juiz. Na sua longa toga, parecendo um urubu faminto, o idoso magistrado, ajeitando os óculos para melhor enxergar pergunta ao policial: - Por que você bateu na sua mulher? O policial chega mais perto da mesa e cochicha ao juiz: - Meritíssimo, o criminoso não sou eu, é este daqui. O Juiz, desconsertado, pigarreia e formula a mesma pergunta ao meu filho. Meu filho nervoso grita ao juiz: - Vossa excelência está maluca! Eu nunca bati em ninguém! E continuou: - Quero uma explicação por esta prisão, e quero também saber onde está minha filha. - Sua filha está recolhida numa clínica psicológica, e você vai perder o pátrio poder. A Flávia, aos gritos suplicava: - Quero minha filha! Quero uma explicação. A sala se manifestou ruidosamente exigindo: - Explica! Explica! - Silêncio no recinto! Interpelou o juiz. - Então vou explicar, rendeu-se o homem da lei. Solenemente o magistrado inicia a história: - Recebi uma denúncia gravíssima da escola que frequenta sua filha. A diretora relatou-me que, além de quebrar tudo em casa, você disse para sua filha que é fodão mesmo. O juiz olhou sarcástico para meu filho e perguntou: - Tem alguma coisa em sua defesa? O meu filho e Flávia se entreolharam e aliviados caíram na gargalhada. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

sábado, 4 de janeiro de 2014

MOLEQUE PIRRACENTO

Chorando, então voltei, e fui enxugar as lágrimas na saia de minha mãe. Você já foi birrento, pirracento? Não tem na memória, ou está mentindo? Pergunte então para seus pais. Eu acho, apenas acho que não fui nada birrento, mas, por ironia da vida, infelizmente tem uma cena registrada em minha cachola, que diz o contrário. Por mais que queira apagar, ou negar, tem meu pai para dela me lembrar. Diz a lenda que o fedelho, a partir dos dois ou três anos até uns aos cinco, começa a se manifestar ruidosamente principalmente em público. Dizem os psicólogos e pedagogos que os pequenos projetos de gente começam a radicalizar suas vontades, a apavorar seus pais, ao descobrirem, por encanto, que é através dessas manhas, dessas birras que eles conseguem se fazer ouvir rapidinho. As birras muitas das vezes vêm para extravasar um descontentamento ou então um aviso: - “Ei, eu estou aqui e quero ser atendido!” Se os pais ou responsáveis pelo menor não o atender vai, com certeza, pagar o mico. Na minha época umas boas chineladas na bunda e puxões de orelhas resolvia rapidinho o beco sem saída, mas hoje isso é considerado violência, e o aplicador dos tapas pode apodrecer na prisão. Recebi injustamente muitas chineladas, isso muito bem me faz lembrar. A cidade em que a gente residia era de chão vermelho. Era tão vermelho que o pessoal usava a terra para tingir roupas e pintar as casas. Era um torrão grudento, incrivelmente pegajoso, tão aderente que a polícia usava para engessar os bandidos. Era o terror para as mães, principalmente quando chovia. Quando levava umas chineladas de minha mãe, lá ia eu me vingar dela me espojando, quase chafurdando, naquela imundície. Rapidinho ela tinha que me lavar para não virar moleque de pedra. Eu adorava fazer isto para ver minha mãe esbravejando. Era como uma pequena vingança para abrandar o ardume das chineladas. Um dia, numa viagem de vapor, de Porto Amazonas a São Mateus, aprontei alguns inconvenientes, e recebi como paga umas boas chineladas. Eu achava que era preterido pelos meus pais por causa de minha irmã mais nova. Coisa de moleque ciumento. Diga-se de passagem, uma viagem de vapor para uma criança, de três ou quatro anos, julgada excluída pelos seus pais, não poderá ser comparada com um passeio pela Disney. Quando o vapor estava atracando em São Mateus, ainda sentia minha bunda ardente pelas chineladas recebida. Arquitetei um monstruoso plano que iria colocar minha mãe e meu pai numa verdadeira sinuca. Talvez essa atitude fosse a maneira deles me notarem, foi isto que pensei. Seria uma pequena grande vingança. O vapor atracou. O tempo estava chuvoso. Saí prancha abaixo em direção ao lamaçal, ouvindo minha mãe desesperada gritar: - Mario, cuidado! Volte aqui menino! Sem dar ouvidos a ela, só não chafurdei para não sujar a roupa que adorava vestir, mas meti as mãos naquele barro com fé e coragem. Ao invés de bravos, ouvi meu pai e minha mãe gargalhando. De imediato, olhei para minhas mãos e não acreditei no que via. Fiquei decepcionado. Minhas mãos estavam limpas, limpíssimas, apenas cheias de areia, e nada mais. - Que bosta de terra é essa que não suja? Questionei-me perplexo e desconcertado. Chorando, então voltei, e fui enxugar as lágrimas na saia de minha mãe, que ainda ria passando amorosamente a mão na minha cabeça. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

UM PEIDO NO ELEVADOR

No quinto andar entrou um bêbado. Quem nunca se viu em apuros em alguma ocasião? Ou esteve em situação angustiosa e constrangedora? Nunca? Então você é um saco de batatas amarrado pelo meio jogado a um canto! Um bundão mesmo! Eu já passei por diversos momentos inusitados e complicados. Um desses momentos foi proporcionado por um filho de uma puta de um peido. Ou melhor, por vários. Bem! O peido tem diversas categorias: O maroto silencioso; O mal criado e fanfarrão que sai fazendo um barulhão danado; O gentil que dá o aviso primeiro e depois arrebenta as pregas; O peido sem cheiro que sai do cú da mãe do chefe; O peido corneteiro que sai em alta pressão fazendo o fiofó sonorizar uma estranha melodia; Tem, entre muitos, o que não fede e nem cheira, e aquele que fede prá caralho. Não sou mestre em flatulências, mas sou mestre em soltá-los controladamente. Mas um dia desses o processo falhou. O som que ouvimos é produzido pela vibração da abertura anal. O som sempre vai depender da velocidade da expulsão do gás e de quanto estreita for a abertura dos músculos do fiofó. O cheiro depende muito da comida ingerida pelo peidão profissional. Certa feita fui a uma festa caipira, e lá ingeri quantidade de batata doce, cebola e repolho, acima da permitida pela lei estomacal. A festa acontecia no trigésimo quarto andar, no salão de festas do edifício. A certa altura da comemoração senti um grande desconforto na região mole, onde se acomoda meu umbigo, e forte pressão no final de meu tubo digestivo. Pedi licença e saí. O elevador chegou, a porta se abriu, eu entrei, e ela fechou. Meu fiofó entendeu que tinha entrado na privada e gritou um peido fedido como se dissesse: - Até que enfim estou livre! O peido saiu safado, meio molhado, alto que chegou a estremecer as paredes do elevador. O peido meio sonâmbulo, fedido feito carniça, saiu tonto claustrofóbico, tentando escapar do ambiente de qualquer forma. Ao olhar-me no espelho, que se encontrava em uma das paredes, um tanto envergonhado, e já meio sufocado pelo cheiro do metano, abri a porta no próximo andar para sair. Tentei, apenas. Duas lindas meninas entraram no trigésimo andar e apertaram o botão do térreo. Não sai para não ser réu confesso do pum, e usando meu dote artístico, coloquei a mão no nariz dizendo: - Um filho da puta peidou a abandonou miseravelmente o peido no elevador. O peido, dedo duro, que estava covardemente escondido atrás de mim se manifesta dizendo: - O cú que peidou foi o dele! Suando frio, tentando segurar a próxima flatulência, não consegui resistir, e um peido corneteiro escapou safado do meu fiofó. Elas me olharam enojadas, desceram no vigésimo oitavo andar dizendo: - Porcão! No vigésimo sétimo andar entraram duas senhorinhas de idade avançada. Tentei segurar, mas um peido em alto som veio cumprimentar barulhento as velhinhas. Em vão quis disfarçar, assobiando uma música qualquer. Elas me olharam, e uma para outra sarcasticamente comentou: - Esta molecada de hoje não respeita mais ninguém. Uma delas pegou o guarda-chuva e lascou na minha cabeça. Desceram rapidinho no vigésimo quinto andar. Então, puto da vida, com galo na cabeça e dor abdominal, liberei total. Soltei uma série de novos peidos. Todos mal cheirosos. Eles se reuniram no ambiente apertado, e numa dança maluca federam incrivelmente. O elevador estava feito uma bomba pronta para explodir, e eu completamente atordoado, drogado, sem saber o que fazer. No quinto andar entrou um bêbado. A coisa ficou preta e explosiva – gás metano mais etílico. O filho de uma puta não tinha perdido o senso de humor e gritou: - Abriram a tampa da fossa! E completou com um! iipuuu! Com dificuldade pegou um cigarro, acomodou na boca, e sacou a caixa de fósforo. Quando vi aquilo gritei desesperado: - Não faça isso, seu filho de uma puta! O elevador vai explodir! Tarde demais. Um clarão e bum. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA