domingo, 13 de abril de 2014

O TERRÍVEL INIMIGO DO MEU PAI

O medo era tanto que as veias desapareceram do corpo de meu pai. A pneumonia é uma doença inflamatória no pulmão, que ainda hoje, se não tiver os cuidados adequados, o paciente pode esticar as canelas para sempre. Naquele tempo, única saída era a cama e muitas agulhadas na carcaça com penicilina. As agulhas eram grossas, fazendo um rombo filho de uma puta na pele, e o medicamento era cruciante para caralho mesmo. Todo mundo tinha, e por certo, ainda hoje tem medo da famigerada injeção. Meu pai, que hoje goza tranquilo seus noventa e nove anos, lá pelos idos da maldita segunda guerra, cabo reformado pelo exército, era um destemido e corajoso desbravador. O mundo para ele era pequeno e nada o amedrontava. Nada mesmo o fazia tremer de medo. Homem simples do campo, mas de objetivos bem definidos, corria atrás do que queria. De boa leitura e sempre bem informado, conseguia alcançar com sucesso o que pretendia. A vida é uma luta, às vezes inglória para muitos, mas para este homem, virtuoso, temente a Deus, corajoso, a vida sempre foi de muitas vitórias. - Eu tenho medo dessa guerra! Dizia chorosa minha mãe para ele. - Mas medo do que, minha nega? Dizia meu pai afagando carinhosamente minha mãe. - Que te levem para lá! Um minuto de reflexão, e então meu pai dizia: - Estamos na mão de Deus! Meu pai não foi para guerra, mas enfrentou um inimigo muito mais cruel; Acabou adquirindo a cruel e famigerada pneumonia. Ele não tinha medo da guerra, dos desafios que a vida lhe apresentava, mas da maldita agulha da injeção isso era terrível para ele. Uma bala de canhão não era tão violenta e destruidora quanto uma agulha de injeção. Esta guerra contra a pneumonia ele venceu recebendo muitas cutucadas de injeção. Eu até acho que não foi a dita penicilina que o curou, mas o medo do monstro chamado injeção. Este homem forte, valoroso, destemido, sempre pronto para qualquer desafio, quando se defronta com a terrível agulha de injeção, se transforma numa medrosa criança, como se tivesse vendo um fantasma. Nos procedimentos finais do tratamento ele precisou tomar uma série de injeções intravenosa de cálcio. Único médico que ele confiava era o doutor Enzo Bonato. Doutor Enzo além de médico deveria ser um mestre em hipnose, pois aplicava no meu pai as injeções na veia sem muitas delongas. Um dia meu pai foi até ao consultório para tomar uma das últimas injeções e lá não estava o Doutor Enzo, estava seu irmão doutor Hélio. - Francisco, pode entrar! Meu pai olhou para ele com um olhar de vítima condenado a forca, e num esforço supremo sussurrou: - Eu espero o doutor Enzo! - Ele não virá hoje, e pediu para que eu aplique a injeção! Pode vir! Meu pai adentrou o consultório como quem vai ao encontro do pelotão de fuzilamento. Lá estava o terrível inimigo dele! A maldita agulha. - Fique calmo que não vai doer nada! Vai ser uma picadinha de formiga. A agulha, na ponta da seringa, parecia maior que o braço do médico para meu pai. Olhou, aquela coisa enorme, angustiado de tal forma que as nádegas se contraíram prendendo a forração da cadeira. O medo era tanto que as veias desapareceram do corpo de meu pai. Doutor Hélio fez um garrote no braço do meu pai tentando encontrar a veia. Friccionou diversas vezes e nada do vaso sanguíneo aparecer. Tentou ser engraçado contando piadas para que ele se descontraisse, mas em vão. Meu pai suava a cântaros. O suor caia em abundância formando enxurrada pelo piso do consultório. E o homem forte, valente, varonil estava fragilizado diante de uma agulha. E nada da veia! Mas nada pode se esconder em definitivo. E a veia, finalmente, trêmula, pedindo clemencia, aparece no braço descolorido do meu pai. Doutor Hélio aproveita a oportunidade e crau! A agulha levemente tocou o braço, e que foi o suficientemente para meu pai ser nocauteado. Despencou feito um saco de batata desmaiado ao chão. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

sexta-feira, 11 de abril de 2014

CORRENDO ATRÁS DO VENTO: A MULHER E OS PEÕES DE OBRA

CORRENDO ATRÁS DO VENTO: A MULHER E OS PEÕES DE OBRA: A mulher é a arte maravilhosa que Deus caprichou. O ser humano por natureza é sedento por elogios, por coisas que massageie seu ego, e ...

Mario dos Santos Lima

domingo, 6 de abril de 2014

O MISTERIOSO INCÊNDIO

Segundo os entendidos da arte de fazer fogo, um incêndio é uma ocorrência de labaredas rebeldes que querem foder com tudo e com todos. O fogo se apresenta como um elemento que é quente para caralho, e que louco, descontrolado, pode ser extremamente perigoso para os seres vivos respirantes, para as plantas e para as moradias. Da mesma forma que o diabo tem medo da cruz o fogo se urina todo de medo da água. Certa feita o corpo de bombeiros foi à casa da Isa para fiscalizar as condições da moradia, e aplicou uma tremenda multa porque viu lá soltas as putas labaredas por toda a casa. Só o bombeiro consegue ver estas coisas porque usa óculos especiais. - Dona Isa! Disse educadamente o bombeiro entregando a multa, pausadamente continuando: - Pode acontecer um incêndio na sua casa, e isso vai ser uma tremenda de uma merda porque irá acabar com nossa folga e o nosso sossego! - Mas... Quis interromper a Isa - Não tem, mas nem menos! Pague a multa, e elimine os quatro capetinhas que estão por aí. - Que capetas são estes? Não vejo nenhum! - O prefeito pediu apenas para vir aqui e multar. O bombeiro, dizendo isso, virou-se e se mandou. - Filho de uma puta desse bombeiro que veio só para colocar os capetas aqui em casa! Mas que capetas são estes que não vejo nenhum? - Mário, quais são os quatro capetas que podem botar fogo aqui em casa? O Mário, depois de um tempo pensativo, olhou preocupado para a Isa, botou a mão na testa dela e disse: - Não sei não, pergunte para sua filha! - Fer, que merda de capetas podem botar fogo aqui em casa? - Quem é que disse isso mãe? - O filho de uma puta do bombeiro! Ele disse que tem quatro capetas aqui, e por isso me multou. - Mãe, na realidade o bombeiro é meio abobado ou então achou a senhora meio abobada, e por isso falou dessa forma. - Abobado é o cu da mãe dele. - Mãe, na realidade são as quatro formas de propagação do fogo. - Ah! Disse a Isa fazendo de conta que entendeu. O dia transcorreu calmamente, mas os malditos capetinhas ficaram peraltas martelando a cabeça dela o tempo todo. A mortalha anoiteceu, e ela foi dormir com os quatro diabinhos soltos na cachola. Sonhou tormentos, e sonhou que estava no inferno e por isso desesperada gritou: - Senhor capeta, poderia ligar o ar condicionado para mim? E o capeta ria gargalhadas na cara da Isa. Naquele momento o calor estava infernal! E a Isa, feito doida continuava gritando! - Puta que os pariu como é quente aqui no inferno! Quero sair! Alguém me tira daqui! E o fogo encanzinado já lambia tarado os cambitos da Isa queimando os cobertores que a cobria. - Seu diabo, por favor, ligue o ventilador! Eu sou a ex-primeira dama! Gritava desesperada se debatendo a Isa. E os quatro capetas, a mando do diabo maior, lambiam vorazmente tudo – o forro, os armários, colchões, cobertores e as pernas da Isa. - Socorro, socorro, alguém me tire desse inferno! De repente, alguém entra no quarto estapeando violentamente a Isa: - Acorda mulher, acorda! O fogo dominou toda casa, e vai te queimar! Um jato de água na cama, de uma mangueira qualquer, amainou um pouco o fogo acordando de vez a Isa, que aos gritos saiu toda chapiscada no colo dos vizinhos. Enquanto as labaredas, numa dança macabra, lambiam o céu, lá nos fundos do quintal alguém furtivamente fugia pulando o muro. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

sábado, 29 de março de 2014

A MULHER E OS PEÕES DE OBRA

A mulher é a arte maravilhosa que Deus caprichou. O ser humano por natureza é sedento por elogios, por coisas que massageie seu ego, e a mulher por excelência é ávida por isso. O elogio é o santo remédio para qualquer desapontamento ou azedamento no relacionamento. O elogio é como uma poção que consegue transformar magicamente o humor desencantado em amenidade, principalmente em se tratando da mulher. É o combustível que a mantem sempre linda e brejeira. Segundo o dicionário, o elogio é o enaltecimento de uma qualidade ou virtude de algo ou alguém. É um poderoso motivador para aumentar a autoestima. Embora, como alguém já disse que o elogio tal qual o ouro e os diamantes tem seu valor pela escassez, não podemos menosprezar os preciosos momentos que surgem para praticar o processo do elogio. Os peões de obra são craques nisso e dão exemplo, principalmente quando trepados nos andaimes. Ao passar por uma obra, a mulher é divina para aqueles cafajestes. Para eles, ela pode ser gorda, magra, alta, baixinha, feia ou bonita – sempre será a gostosona. Lá do andaime, proliferam elogios que caem sobre a vivente como chuvas de flores perfumadas. Estes tarados dos andaimes, quase com certeza são casados estúpidos que não sabem valorizar a joia que tem na própria casa. Para sua companheira de suas bocas saem apenas vómitos de reclamação, de desdém. Mas quando em matilha são ávidos em gentileza, e de seus lábios partem elogios aos montões. João era um desses peões de obra que tratava a mulher na ponta do casco. Na obra a voz dele se unia a dos outros canalhas para despejar toneladas de grosseiros elogios ao rabo de saia que passasse lá em baixo. Cafajeste na obra, mas canalha em casa. Ele não sabia, mas Maria, sua esposa sentindo-se mal amada buscava sempre a autoestima passando propositadamente pelos prédios em construção. Voltava sempre renovada. Um dia, como sempre, depois das grosserias sofridas pelo canalha marido, saiu à rua para se abastecer de bons fluidos, e conseguir assim seu ego massageado. Passou por um prédio em construção que amainou um pouco o seu sofrimento, ouvindo deles: - Gostosona! Linda! Aquele dia ela estava muito desolada e saiu então para uma construção maior, e quando já estava chegando perto começou a ouvir a linda sinfonia que em casa não tinha: - Gostosa! Ficou com vontade de parar e agradecer, mas permitiu-se apenas o prazer do momento e recatada, de ouvidos bem abertos, continuou seu caminho de volta para casa. Eram milhares de peões que se aglomeravam nos andaimes para quase babando, como cães vadios tarados, gritar elogios a ela. Era de uma grosseria a toda prova, mas para ela era a música suave que há tempo não ouvia. Assovios estridentes no seu fiu, fiu e palavras de ordem. - É a nora que minha mãe queria em casa! E a sinfonia continuava implacável, e ela em passos quase trôpegos caminhava ouvindo feliz tudo aquilo. - Que bunda gostosa! Que seios! Poderosa! Mas o João, que estava no meio deles gritando, de repente parou, olhou atônito, e ficou desconcertado quando viu que a gostosa lá de baixo era sua esposa. Foi a melhor lição que ele teve para seu relacionamento. O grosseirão, o canalha de sempre, ao final do expediente, passou por uma floricultura, e rapidinho em casa foi abraçar a gostosona dos peões, pedindo mil perdões. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA