MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
domingo, 8 de junho de 2014
UNDERGROUND DA RUA PIQUIRI
A Rua Piquiri em Curitiba ganha certo brilho, mesmo mal iluminada, nas noites de final de semana. Lá estão elas, drag quens, travestis, transformistas, feito mariposas voando doidivanas em busca de um freguês.
A vida é delas, e quem sou eu para reprovar; Em todo caso, confesso que tenho meus receios em chegar perto destas santas criaturas.
Só em pensar nisso chega me dar urticária.
O dia estava chuvoso e resolveu adentrar à noite com seus respingos.
Era sábado. Muita coisa acontece aos sábados. Eu não vi nada de extraordinário acontecer daquele dia a não ser já na boca da noite quando tive que ir buscar meu filho no Teatro Pé no Palco. O teatro fica na Rua Conselheiro Dantas esquina com a Rua João Negrão.
Saída do ensaio, e por isso muitos carros estacionados aguardando os alunos e atores saírem. Achei uma brecha e estacionei. A traseira do carro praticamente ficou na Rua Piquiri. Não haveria perigo algum pelo pouco movimento desta rua a não ser as mariposas voluptuosas, assanhadas mais adiante.
Travei as portas, ergui o vidro e liguei o rádio. Aguardava ansioso a saída de meu filho.
No rádio ouvia baixinho tangos de Carlos Gardel. No para-brisa, preguiçosas gotas da chuva dançavam espatifando-se no capô do carro. Lá fora as meninas, seminuas, siliconadas se alvoroçavam em gritinhos agudos a cada marmanjo que passava, e com muita excentricidade e ousadia expunha suas mercadorias. Por entre as gotas do para-brisa eu fixava meus olhos na porta de saída do teatro. Isto era o que me interessava.
De qualquer maneira eu, seguramente dentro do carro, admirava, e fiquei impressionado com aqueles moços da vida underground que, com tanta personalidade se expunham, principalmente através das poucas roupas e maquiagens extravagantes.
O movimento da saída do teatro estava intensa assim como intensa estava o revoar das mariposas coloridas, amalucadas, no vai e vem da mal iluminada rua.
O tempo me pareceu paralisado, não passava e isso me preocupou. Estava me deixando desconfortável.
Que merda! Tudo parecia em câmara lenta.
Mas o filho de uma puta do tempo, vendo-me nervoso, resolveu então passar.
Passou e não demorou muito o meu filho apontou na porta do teatro.
Ele olha de um lado ao outro em busca do carro.
Rapidamente abri a janela e tirando o braço para fora dei sinal com a mão para ele.
Ele me viu e em passos rápidos veio em minha direção.
De repente, como se tivesse visto um fantasma, ficou como que petrificado na calçada.
Parou, e percebi que me olhou decepcionado; Abaixou a cabeça e apressadamente retornou a entrada do teatro para fugir do chuvisco.
- O que será que aconteceu com meu filho? Foi a pergunta que martelou o minha cachola naquele momento.
Quando fui gritar para ele, descobri o motivo.
Puta que o pariu! Os pelos de meu saco se arrepiaram todos! Vendo aqui na minha frente pensei:
- Atirei num e acertei outro!
Maquiagem extravagante, roupa glamorosa e muito brilhante eis que surge, quase me lambendo o queixo e fungando no meu pescoço, aquela negra de quase dois metros de altura que, numa voz de tenor afogado, rugiu no meu ouvido:
- Bonjour, mon amour!
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
sábado, 31 de maio de 2014
INJEÇÃO RADICAL
Não tem este ou aquele filho de um deus despreocupado, que não morra de medo da maldita agulha da injeção. É preferível mil vezes a morte que sentir aquele metal, arredondado, cumprido, cuspindo remédio pela boca, entrando rasgando a nossa pele.
- Tomou onde? É uma pergunta cretina e sacana, que quando você retirava o esqueleto da maldita sala de vacinação o filho de uma puta sempre perguntava sorrindo.
Em casa, quando ainda guri, meu pai e minha mãe se encarregavam de nos espetar com agulha quando a gente apresentava algum desvio de saúde.
Eles tinham o instrumento de tortura que herdaram nem sei de quem.
Era uma caixinha retangular, tipo estojo com tampa, em alumínio onde se acomodavam o cilindro, o êmbolo e a agulha. A caixa em alumínio já servia para esterilizar após as aplicações.
Hoje tudo é descartável, mas no meu tempo de moleque o aparelho infernal de amedrontar, principalmente as crianças, era eterna. Este aparelho torturador veio de herança provavelmente de meu avô, pai de meu pai. Era uma agulha especial inglesa que já havia perfurado muitos e muitos braços e bundas por varias gerações.
Quando era para me submeter ao aparelho de tortura eu preferia a minha mãe. Ela tinha a mão mais leve e a agulha não feria tanto.
Meu pai era um carniceiro, chegou uma vez entortar a agulha na frágil carne de minha nádega.
Um dia a minha mana Laura, não muito bem de saúde, tinha sido condenada pelo médico a se submeter a uma seção de tortura injetável a base de penicilina.
Meu pai preparou tudo e lá estava o aparelho de injeção se deliciando, folgadamente nadando na sua banheira em alumínio, em agua fervente, em cima da chapa do fogão de taipa. Olhava para a Laura que choramingava a um canto e dizia aos risos:
- Vou penetrar em você! Vou rasgar sua carne! Vou beliscar sua bunda!
A condenada maninha gritava desesperada:
- Não, isso não! Eu prefiro morrer.
Minha mãe, muito ocupada, transferiu a seção de tortura para meu pai.
Meu pai preparava pacientemente a injeção. Pegou o algodão com álcool e tentou segurar minha irmã. Quase conseguiu. Ela estava deitada de bruços em seu colo, e quando sentiu o lamber gelado do algodão em sua bunda gritou, num grito agoniante, tal qual um decapitado ao sentir a lâmina da guilhotina cortando seu pescoço.
- Nãoooooooooooooo!
Espernegou-se toda feito frango destroncado, e como um quiabo ensaboado desprendeu-se de meu pai.
Vazou pela porta, e feito um foguete com o rabo em chama, tomou rumo da rua.
Meu pai com a injeção em uma das mãos e com outra ocupada com o algodão embebido em etílico saiu no encalço dela, e aos gritos tentava convencê-la:
- Volte aqui filhinha! Não vai doer nada!
A Laura, completamente surda às promessas do pai e aos gritos abriu o portão, passou a pinguela que se debruçava sobre enorme valeta e ganhou a rua. Meu pai, bom das pernas, em correria também, quase chegando perto dela, gritava:
- Espere! Não corra!
A cena era dantesca. Quem de longe olhasse, por certo tomaria como um homem de punhal em mão tentando apunhalar pelas costas uma indefesa e inocente criança que corria doidivanas.
A Laura gritava
- Não meu pai! Eu não quero! Eu já estou melhor!
E a injeção às gargalhadas cuspia remédio pela agulha, e o algodão babava álcool.
A Laura apavorada gritava.
A vizinhança apenas olhava e ria do espetáculo. Ninguém se atrevia em salvá-la, e isso a deixou puteada.
O anjo da guarda não querendo se meter no processo ficou do outro lado da rua rindo daquilo tudo.
Mas o capeta, querendo mais confusão acompanhava a Laura direcionando seus passos.
Eis que na frente, no terreno baldio, o diabo mostrou a moita como salvação para ela. Ela, em desespero, tentou se embrenhar nela, mas ficou toda enganchada, ensanguentada nos espinhos do pé de arranha gato.
- Ai! Foi o berro que se ouviu nas cercanias quando a agulha penetrou a sua bunda.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
domingo, 25 de maio de 2014
UM SUICIDA AZARADO
Era um corpo em mergulho que dava corpo a este melodrama fugaz.
Por certo, em algumas situações você ouviu o maldito dito popular: - “Quando urubu está de azar o debaixo caga no de cima”; mas, mais urucubaca que a falta de sorte do suicida que quis passar desta para outra vida, nunca vi.
O Urubilino – Eita nome filho de uma puta – Bem, ele veio a esse mundo para mostrar aos outros viventes como este mundo, muitas vezes, é cruel. Nasceu tronchado de corpo e pernas, caolho e meio abobado para completar a desgraça.
A mãe, prostituta de carreira abandonou-o na privada. Foi adotado por um aleijado que fazia dele sua muleta a fim de arrecadar dinheiro nas portas das Igrejas.
Cansado da exploração do aleijado fugiu pelo mundo.
Nasceu analfabeto e milagrosamente continuou analfa porque a escola o rejeitou entendendo que ele estaria mais para uma jaula que para uma escola.
Na rua servia de chacota da molecada.
Num concurso de beleza entre ele e o Frankenstein o monstro seria galã da novela das oito.
Porque a mãe era prostituta e ele todo encangado não pode ser batizado e proibido de entrar na Igreja. Foi considerado pela comunidade como filho do diabo, porque seu pai, o capeta, fez do prostíbulo o inferno cruzando sexualmente com sua puta mãe.
Que ele era todo desfigurado, isto lá era verdade, mas tinha um coração que pulsava triste em seu peito, apercebia-se das coisas e isto o chateava tremendamente. Toda esta chacota feria-o profundamente.
Para amainar sua fome, na calada da noite, tal qual um cachorro vadio e sarnento, ia revirar os lixos para catar o que comer.
Banho era um luxo, e só quando chovia.
Dormia onde dava e quase sempre era expulso a tiro ou a pedradas.
A infeliz criatura um dia se deu ao desgraçado luxo de gostar de uma garota, só porque ela lhe deu condoída um pedaço de pão.
Dia após dia, meses e meses, e o tempo todo lá estava ele perdido em doce ilusão com esta linda menina no seu coração.
Mas um dia...
Lá na porta da Igreja saindo nos braços de um homem a noiva linda, sorridente e feliz. Sua vida terminou ali. Era ela a doce menina do seu coração que o abandonou por um outro ser.
Contristado voltou para seu esconderijo resolvido a dar fim a sua vida.
Arquitetou o plano. Pegou uma corda e uma lata de veneno. Caminhou ruma ao rio. Escolheu uma árvore e selecionou um galho que tentava cutucar as águas do rio. Chorando copiosamente amarrou cuidadosamente a corda.
A árvore apreensiva conversava com o rio.
- Este cara vai fazer merda!
O rio e a árvore tentaram, em muitas conversas, tirar do Urubilino desta funesta ideia, mas nada disso surtiu efeito.
Lá estava ele na ponta do galho colocando a corda no pescoço, Segurando cuidadosamente a lata de veneno.
Não rezou porque ninguém o ensinou e nem pediu nada a Deus porque não o conhecia, mas seu pai, o capeta estava ali ajudando na execução do processo mortífero.
- Maldito mundo, ponho fim a minha vida e ao meu sofrimento!
Gritou isso com todos os pulmões, degustou a lata de veneno, colocou a corda no pescoço e se jogou.
Tudo a sua volta parrou contemplando horrorizada aquela cena dantesca.
Era um corpo em mergulho que dava corpo a este melodrama fugaz.
Ouviu-se um galho quebrando, e em seguida o som do baque de uma massa corpórea nas águas do rio.
Debateu-se feito um doido, e afundou; Debateu-se, mais e mais, desesperadamente, e novamente afundou.
Seria mesmo o fim desta criatura? Mas...
Alguém que passava retirou-o quase afogado do rio.
Vomitou o resto do veneno que tinha no estômago e hoje, amaldiçoando seu salvador, vive feiamente por aí como dantes
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
domingo, 18 de maio de 2014
UMA CASA SURREAL
Você é um abestado se pedir para uma virgem que explique em detalhes como é a dor do parto; é o mesmo que perguntar para um representante nosso no governo o valor exato do salário mínimo. Isto é inócuo, pueril e vexatório.
Quem faz é aquele que sabe!
Meu filho, o Conde Baltazar, deliberou com ele mesmo, que o mundo é muito complexo e aparentemente sem sentido e absurdo. Resolveu então dar significado a sua vida e vive-la de maneira sincera, pura e selvagem construindo tão e simplesmente uma cabana no meio da floresta.
Foram tantos os conselhos meus, mas contra argumentados fortemente pela sua axiomática fé e inabalável decisão de seguir em frente com seu projeto salvador da vida. Queria com isso, de qualquer forma, chegar a uma vida gratificante, saudável, ultrapassando para isso qualquer obstáculo que se opusesse.
Não valeram meus insistentes apelos nem minha experiência. Ele se jogou de corpo e alma na realização de seu inocente sonho.
Para fugir do arquétipo mundo nojento e cheio de amarras resolveu ser simples, e ele mesmo construir o que ele chamaria de berço natural e livre da natureza. Foram muitos dias de árduo trabalho para abrir uma picada na mata densa, e ao final dela uma clareira. Dias e dias batalhou, suou a cântaros, criou calos doloridos nas mãos, e aos poucos se rendeu vindo pedir arrego e algumas sugestões.
Ajudei logisticamente na compra do material que faltava e dei alguns conselhos práticos:
- Não se esqueça do plumo, nível e esquadro na hora da construção.
Tentou iniciar a obra.
Só tentou.
Vencido pela pouca experiência em construção, pediu arrego a um assentador de pedras. Por sinal, vi alguns trabalhos em pedra desse artífice e me rendi ao capricho dele.
- Ele vai assentar as pedras e levantar para mim as paredes.
- Mas meu filho! Comentei preocupado com ele.
- Ele é um artista da pedra e não da madeira.
Tão pouco ligou para mim.
A casa foi construída. Pequena, singela, mas infernalmente radical.
Um artista surrealista jamais usará um esquadro, plumo ou nível em suas obras.
Incrivelmente a casa existe. Para quem olha de longe é uma verdadeira pintura surrealista – Bisonha, irreal, exótica plantada disforme no meio da floresta.
Eu acho que o Conde Baltazar não concorda mesmo com nada deste mundo, pois acabou transgredindo ao por violentamente as leis de Newton em xeque.
A casa projetada para ser uma figura retangular acabou sendo um trapézio. As paredes que eram para ser perpendicular ao eixo do horizonte acabaram pedindo arrego, inclinadas para deitar.
Mas esta casa existe e resiste. Está lá soberba e amparada.
Permanecerá de pé, gloriosamente grotesca, enquanto as quatro árvores que a sustentam não forem abatidas.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
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