MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
domingo, 15 de junho de 2014
BOLA DE MEIA
É goooooooool É gooool minha gente!
E a menina, para alegria dos fanáticos torcedores, passou feito um foguete por entre os três paus indo morrer, toda enrolada, lá no fundo das redes.
A bola, esta enfeitiçada, tem muitos nomes e é a paixão incontida e violenta de muita gente. É a menina; é a pelota; É a gorduchinha; É a redonda; É a esfera; E no meu tempo de guri, era simplesmente chamada de capotão.
O capotão que hoje chamamos carinhosamente de bola de futebol, é mais antigo que o próprio homem na terra. Já se tem notícias de que os deuses, na criação do mundo, nas horas de folga jogavam futebol; Usavam os astros como bola. Sem as regras da FIFA acabou dando muita encrenca; Os deuses se engalfinharam em luta universal. Quem ganhou, ou quem perdeu não sei, mas acabaram se separando, e as bolas ficaram vagando por este universo imenso.
Muitas versões existem.
Só sei que algumas tribos para comemorar usavam a cabeça de seus inimigos para uma partidinha de futebol. A cabeça do morto, muitas vezes, ainda respirando conseguia dar umas boas dentadas nas canelas dos jogadores ou grudava, com uma boa mordida, os dedões deles.
Mas um dia, alguém acabou descobrindo que a bexiga do porco era uma boa proposta. Mais macia e sem o perigo das dentadas. Enchiam de ar e lá iam correndo atrás dela feito uns filhos de uma puta. Corriam atrás dela, de um lado para outro, sem um objetivo específico. Corriam, chutavam, cabeceavam, metiam a mão. Uma confusão generalizada, até que os ingleses resolveram por ordem na casa. Criaram as regras e surgiu o futebol que hoje temos.
Dizem as más línguas, eu tenho minhas dúvidas, que aqui no Brasil o primeiro capotão chegou pelas mãos de Charles Miller em 1884. Era feita de couro curtido, e a câmara de ar era uma bexiga de boi. Esta primeira bola deu tanto trabalho e acidentes que acabou sendo encaminhada, e hoje está presa num museu. Pesava três ou quatro vezes mais quando chovia; e foi numa dessas partidas, debaixo de muita chuva, que dois jogadores quebraram o pé e um terceiro acabou esticando a canela, com passagem grátis para outra vida. O laudo pericial médico atestou: “Morte provocada por violenta bolada”.
Por isso a bola foi presa.
E por ser perigoso o futebol foi, naquela época, proibido.
Acabou sendo jogado escondido por um longo período
Quando menino minha paixão era uma bola, mas naquele tempo ela, um pouco mais domesticada então, tornou-se artigo de luxo e de difícil aquisição. Pouquíssimos fabricantes e a um preço abusivo.
Minha mãe, sempre dava um jeitinho para atender os desejos de seus filhos. Fabricava lindas bonecas de pano para minhas manas e passou a fabricar lindas e bem trabalhadas bolas de meia.
Eu acho que ninguém fazia, fez ou fará bola de meia mais preciosa das que minha mãe fazia.
Um dia, vi com meu pai uma partida de futebol. Nós estávamos em cima de um caminhão estacionado na rua. Por certo o estádio estava lotado e meu pai deu um jeito para mostrar o jogo para mim. Assisti, e confesso que não entendi muito, mas achei fascinante aquele jogador fintando um ou dois adversários com a bola no pé. Achei engraçado, mas fiquei maravilhado quando o público presente gritou:
- Gooooooool!
Em casa fiz um campinho e driblando adversários imaginários lá ia eu fintando um, fintando dois com a bola de meia no pé. Na escada, lá estavam sentadas as minhas manas, com suas bonecas e logo atrás delas a minha mãe, deslumbradas com o que eu fazia com a bola. Elas aplaudiam, gritavam, e eu, todo satisfeito, mais e mais driblava aquelas figuras imaginárias que só eu as via.
Eu fazia miséria com aquela bola de pano. Tropicava nela, caia ao tentar chutar, pisava na coitada, caia em cima esmagando-a com meu corpo, e por fim acertava um chute e gritava junto com minha mãe e manas:
- É goooooooool
Cansado, de minhas mil peripécias com aquela bola de pano, sentava no chão todo realizado.
Pegava então a bola de pano com carinho, ao final de minha grande exibição, dava uns tapas nela para remover a terra e com ela debaixo do braço, todo garboso, levava para guardar no meu quarto.
Sonhava mil sonhos, e no meu sonho eu era muito feliz com minha bola de pano que minha mãe fazia.
Ah! Aquela bola de pano era linda, e eu a tenho bem guardada na minha memória ainda hoje.
Confesso que sinto uma imensa saudade daquele tempo de guri principalmente quando me lembro destes momentos mágicos. Da bola de pano que minha mãe fazia. Para mim, e isto ninguém tira de minha cabeça, que quem trouxe o futebol aqui para o Brasil, foi esta polaca de olhos azuis chamada Maria e não o Charles Muller como dizem e escrevem por aí.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
domingo, 8 de junho de 2014
UNDERGROUND DA RUA PIQUIRI
A Rua Piquiri em Curitiba ganha certo brilho, mesmo mal iluminada, nas noites de final de semana. Lá estão elas, drag quens, travestis, transformistas, feito mariposas voando doidivanas em busca de um freguês.
A vida é delas, e quem sou eu para reprovar; Em todo caso, confesso que tenho meus receios em chegar perto destas santas criaturas.
Só em pensar nisso chega me dar urticária.
O dia estava chuvoso e resolveu adentrar à noite com seus respingos.
Era sábado. Muita coisa acontece aos sábados. Eu não vi nada de extraordinário acontecer daquele dia a não ser já na boca da noite quando tive que ir buscar meu filho no Teatro Pé no Palco. O teatro fica na Rua Conselheiro Dantas esquina com a Rua João Negrão.
Saída do ensaio, e por isso muitos carros estacionados aguardando os alunos e atores saírem. Achei uma brecha e estacionei. A traseira do carro praticamente ficou na Rua Piquiri. Não haveria perigo algum pelo pouco movimento desta rua a não ser as mariposas voluptuosas, assanhadas mais adiante.
Travei as portas, ergui o vidro e liguei o rádio. Aguardava ansioso a saída de meu filho.
No rádio ouvia baixinho tangos de Carlos Gardel. No para-brisa, preguiçosas gotas da chuva dançavam espatifando-se no capô do carro. Lá fora as meninas, seminuas, siliconadas se alvoroçavam em gritinhos agudos a cada marmanjo que passava, e com muita excentricidade e ousadia expunha suas mercadorias. Por entre as gotas do para-brisa eu fixava meus olhos na porta de saída do teatro. Isto era o que me interessava.
De qualquer maneira eu, seguramente dentro do carro, admirava, e fiquei impressionado com aqueles moços da vida underground que, com tanta personalidade se expunham, principalmente através das poucas roupas e maquiagens extravagantes.
O movimento da saída do teatro estava intensa assim como intensa estava o revoar das mariposas coloridas, amalucadas, no vai e vem da mal iluminada rua.
O tempo me pareceu paralisado, não passava e isso me preocupou. Estava me deixando desconfortável.
Que merda! Tudo parecia em câmara lenta.
Mas o filho de uma puta do tempo, vendo-me nervoso, resolveu então passar.
Passou e não demorou muito o meu filho apontou na porta do teatro.
Ele olha de um lado ao outro em busca do carro.
Rapidamente abri a janela e tirando o braço para fora dei sinal com a mão para ele.
Ele me viu e em passos rápidos veio em minha direção.
De repente, como se tivesse visto um fantasma, ficou como que petrificado na calçada.
Parou, e percebi que me olhou decepcionado; Abaixou a cabeça e apressadamente retornou a entrada do teatro para fugir do chuvisco.
- O que será que aconteceu com meu filho? Foi a pergunta que martelou o minha cachola naquele momento.
Quando fui gritar para ele, descobri o motivo.
Puta que o pariu! Os pelos de meu saco se arrepiaram todos! Vendo aqui na minha frente pensei:
- Atirei num e acertei outro!
Maquiagem extravagante, roupa glamorosa e muito brilhante eis que surge, quase me lambendo o queixo e fungando no meu pescoço, aquela negra de quase dois metros de altura que, numa voz de tenor afogado, rugiu no meu ouvido:
- Bonjour, mon amour!
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
sábado, 31 de maio de 2014
INJEÇÃO RADICAL
Não tem este ou aquele filho de um deus despreocupado, que não morra de medo da maldita agulha da injeção. É preferível mil vezes a morte que sentir aquele metal, arredondado, cumprido, cuspindo remédio pela boca, entrando rasgando a nossa pele.
- Tomou onde? É uma pergunta cretina e sacana, que quando você retirava o esqueleto da maldita sala de vacinação o filho de uma puta sempre perguntava sorrindo.
Em casa, quando ainda guri, meu pai e minha mãe se encarregavam de nos espetar com agulha quando a gente apresentava algum desvio de saúde.
Eles tinham o instrumento de tortura que herdaram nem sei de quem.
Era uma caixinha retangular, tipo estojo com tampa, em alumínio onde se acomodavam o cilindro, o êmbolo e a agulha. A caixa em alumínio já servia para esterilizar após as aplicações.
Hoje tudo é descartável, mas no meu tempo de moleque o aparelho infernal de amedrontar, principalmente as crianças, era eterna. Este aparelho torturador veio de herança provavelmente de meu avô, pai de meu pai. Era uma agulha especial inglesa que já havia perfurado muitos e muitos braços e bundas por varias gerações.
Quando era para me submeter ao aparelho de tortura eu preferia a minha mãe. Ela tinha a mão mais leve e a agulha não feria tanto.
Meu pai era um carniceiro, chegou uma vez entortar a agulha na frágil carne de minha nádega.
Um dia a minha mana Laura, não muito bem de saúde, tinha sido condenada pelo médico a se submeter a uma seção de tortura injetável a base de penicilina.
Meu pai preparou tudo e lá estava o aparelho de injeção se deliciando, folgadamente nadando na sua banheira em alumínio, em agua fervente, em cima da chapa do fogão de taipa. Olhava para a Laura que choramingava a um canto e dizia aos risos:
- Vou penetrar em você! Vou rasgar sua carne! Vou beliscar sua bunda!
A condenada maninha gritava desesperada:
- Não, isso não! Eu prefiro morrer.
Minha mãe, muito ocupada, transferiu a seção de tortura para meu pai.
Meu pai preparava pacientemente a injeção. Pegou o algodão com álcool e tentou segurar minha irmã. Quase conseguiu. Ela estava deitada de bruços em seu colo, e quando sentiu o lamber gelado do algodão em sua bunda gritou, num grito agoniante, tal qual um decapitado ao sentir a lâmina da guilhotina cortando seu pescoço.
- Nãoooooooooooooo!
Espernegou-se toda feito frango destroncado, e como um quiabo ensaboado desprendeu-se de meu pai.
Vazou pela porta, e feito um foguete com o rabo em chama, tomou rumo da rua.
Meu pai com a injeção em uma das mãos e com outra ocupada com o algodão embebido em etílico saiu no encalço dela, e aos gritos tentava convencê-la:
- Volte aqui filhinha! Não vai doer nada!
A Laura, completamente surda às promessas do pai e aos gritos abriu o portão, passou a pinguela que se debruçava sobre enorme valeta e ganhou a rua. Meu pai, bom das pernas, em correria também, quase chegando perto dela, gritava:
- Espere! Não corra!
A cena era dantesca. Quem de longe olhasse, por certo tomaria como um homem de punhal em mão tentando apunhalar pelas costas uma indefesa e inocente criança que corria doidivanas.
A Laura gritava
- Não meu pai! Eu não quero! Eu já estou melhor!
E a injeção às gargalhadas cuspia remédio pela agulha, e o algodão babava álcool.
A Laura apavorada gritava.
A vizinhança apenas olhava e ria do espetáculo. Ninguém se atrevia em salvá-la, e isso a deixou puteada.
O anjo da guarda não querendo se meter no processo ficou do outro lado da rua rindo daquilo tudo.
Mas o capeta, querendo mais confusão acompanhava a Laura direcionando seus passos.
Eis que na frente, no terreno baldio, o diabo mostrou a moita como salvação para ela. Ela, em desespero, tentou se embrenhar nela, mas ficou toda enganchada, ensanguentada nos espinhos do pé de arranha gato.
- Ai! Foi o berro que se ouviu nas cercanias quando a agulha penetrou a sua bunda.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
domingo, 25 de maio de 2014
UM SUICIDA AZARADO
Era um corpo em mergulho que dava corpo a este melodrama fugaz.
Por certo, em algumas situações você ouviu o maldito dito popular: - “Quando urubu está de azar o debaixo caga no de cima”; mas, mais urucubaca que a falta de sorte do suicida que quis passar desta para outra vida, nunca vi.
O Urubilino – Eita nome filho de uma puta – Bem, ele veio a esse mundo para mostrar aos outros viventes como este mundo, muitas vezes, é cruel. Nasceu tronchado de corpo e pernas, caolho e meio abobado para completar a desgraça.
A mãe, prostituta de carreira abandonou-o na privada. Foi adotado por um aleijado que fazia dele sua muleta a fim de arrecadar dinheiro nas portas das Igrejas.
Cansado da exploração do aleijado fugiu pelo mundo.
Nasceu analfabeto e milagrosamente continuou analfa porque a escola o rejeitou entendendo que ele estaria mais para uma jaula que para uma escola.
Na rua servia de chacota da molecada.
Num concurso de beleza entre ele e o Frankenstein o monstro seria galã da novela das oito.
Porque a mãe era prostituta e ele todo encangado não pode ser batizado e proibido de entrar na Igreja. Foi considerado pela comunidade como filho do diabo, porque seu pai, o capeta, fez do prostíbulo o inferno cruzando sexualmente com sua puta mãe.
Que ele era todo desfigurado, isto lá era verdade, mas tinha um coração que pulsava triste em seu peito, apercebia-se das coisas e isto o chateava tremendamente. Toda esta chacota feria-o profundamente.
Para amainar sua fome, na calada da noite, tal qual um cachorro vadio e sarnento, ia revirar os lixos para catar o que comer.
Banho era um luxo, e só quando chovia.
Dormia onde dava e quase sempre era expulso a tiro ou a pedradas.
A infeliz criatura um dia se deu ao desgraçado luxo de gostar de uma garota, só porque ela lhe deu condoída um pedaço de pão.
Dia após dia, meses e meses, e o tempo todo lá estava ele perdido em doce ilusão com esta linda menina no seu coração.
Mas um dia...
Lá na porta da Igreja saindo nos braços de um homem a noiva linda, sorridente e feliz. Sua vida terminou ali. Era ela a doce menina do seu coração que o abandonou por um outro ser.
Contristado voltou para seu esconderijo resolvido a dar fim a sua vida.
Arquitetou o plano. Pegou uma corda e uma lata de veneno. Caminhou ruma ao rio. Escolheu uma árvore e selecionou um galho que tentava cutucar as águas do rio. Chorando copiosamente amarrou cuidadosamente a corda.
A árvore apreensiva conversava com o rio.
- Este cara vai fazer merda!
O rio e a árvore tentaram, em muitas conversas, tirar do Urubilino desta funesta ideia, mas nada disso surtiu efeito.
Lá estava ele na ponta do galho colocando a corda no pescoço, Segurando cuidadosamente a lata de veneno.
Não rezou porque ninguém o ensinou e nem pediu nada a Deus porque não o conhecia, mas seu pai, o capeta estava ali ajudando na execução do processo mortífero.
- Maldito mundo, ponho fim a minha vida e ao meu sofrimento!
Gritou isso com todos os pulmões, degustou a lata de veneno, colocou a corda no pescoço e se jogou.
Tudo a sua volta parrou contemplando horrorizada aquela cena dantesca.
Era um corpo em mergulho que dava corpo a este melodrama fugaz.
Ouviu-se um galho quebrando, e em seguida o som do baque de uma massa corpórea nas águas do rio.
Debateu-se feito um doido, e afundou; Debateu-se, mais e mais, desesperadamente, e novamente afundou.
Seria mesmo o fim desta criatura? Mas...
Alguém que passava retirou-o quase afogado do rio.
Vomitou o resto do veneno que tinha no estômago e hoje, amaldiçoando seu salvador, vive feiamente por aí como dantes
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
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