domingo, 20 de julho de 2014

O CÉU E O INFERNO CONTRA MIM

Recordando... Há algum tempo atrás. Muito ou pouco tempo? Puta que lá merda, bem lá atrás mesmo; Pois é, eu tinha um moderno jeito de reproduzir os trabalhos e provas para os alunos. Eu trazia para sala de aula tudo caprichosamente mimeografado. O processo era demorado pra caralho, e exigia certo grau de elevadíssima paciência. Para elaboração de um trabalho ou de uma prova demandava muita destreza e muita reza para que tudo desse certo. Pegava-se com muito cuidado a matriz retirando dela a folhinha de seda que vem entre o carbono e a folha em branco. E daí a coisa estava pronta para o início do processo. Podia ser rabiscada, desenhada ou datilografada. Eu, como era um pouco mais moderno, datilografava. Mas o processo de tirar as cópias, isto eu fazia na casa de um amigo que em melhores condições financeiras possuía esta maravilhosa máquina. Eu comprava sempre a melhor matriz para poder tirar aproximadamente cem cópias. Para tirar a quantidade máxima de cópias, perdiam-se em média umas duas horas. A cada dez cópias removia-se a esponja, umedecia em álcool e recolocava no cilindro. Depois de umas cinquenta cópias era necessário aumentar a pressão da alavanquinha para a segunda posição. Quem viveu esta barbárie sabe a merda que sempre dava. Eu teria que aplicar a última prova para os alunos de administração. Lá vou eu pacientemente iniciar o processo dedicando todo o domingo para isso. Já na primeira matriz ao retirar a folha de seda fodi com a matriz ao deixar o copo com agua cair em cima. Ainda bem que não tinha nada produzido na matriz. Começo o preparo da segunda e última. A matriz na máquina de datilografia e lá vou eu, com esmero cuidado, tal qual uma galinha na catança do milho, catilografando tecla a tecla. Concentração total. Quase terminando, mulher me chamando para o almoço, resolvo conferir. - Puta que os pariu, errei! Quando se errava todo o trabalho estava perdido. Dei um berro violento de raiva, e tive a presença imediata da esposa e um vizinho que chegou todo assustado. Dispensei o almoço e por sorte o vizinho que chegou tinha em casa uma matriz, Toda a operação novamente iniciada, e uma hora depois terminada. Comi rapidamente alguma coisa e rapidamente me dirigi à casa de meu amigo para a segunda operação. Meu amigo naquele domingo não estava muito bem, além do time de sua paixão ter perdido tinha tido uns entreveros com a mulher. Quando se tentou dar início ao infernal processo verificou-se a falta do combustível. Corre em busca de socorro num vizinho, em outro e finalmente um terceiro tinha uma garrafa de álcool. Convoquei todos os santos e implorei a ajuda dos anjos protetores antes de iniciar aquela funesta operação. Eu acho que os astros estavam neste dia completamente desalinhados. Não sei por qual motivo, os santos e anjos infelizmente estavam em greve. Já na primeira cilindrada a merda aconteceu. O álcool de péssima qualidade acabou borrando e inutilizando a folha. Meu amigo, sentindo-se culpado e como se tivesse vindo de uma sinistra reunião do inferno, contrariadíssimo, de olhos em brasa e quase cuspindo fogo pelas ventas berrou: - Filho de uma puta! Sentou-se no chão, quase de cócoras, com as mãos na cabeça e entre as pernas permanecendo por alguns segundos resfolegando alto. Pedi calma a ele, e já estava quase desistindo do funesto trabalho quando olhando para mim diz: - Meu amigo, não se preocupe, eu tenho uma matriz e vou refazê-la para você. Ele não era tão abastado assim, e tive que buscar em casa a minha máquina de datilografia. Com muito cuidado e esmero, finalmente depois de quatro horas de uma intensa luta, as noventa cópias da prova estavam prontas. Peguei-as com carinho e as levei para casa. No dia seguinte lá vou eu para a Faculdade aplicar a dita prova. Chovia uma chuva fina e insistentemente molhada. Mais adiante um carro em ziguezague vinha perigosamente em minha direção. Buzinei, dei sinal de luz e pum, o filho de uma puta esbarou na traseira de meu corro. Desgovernado rodopiou na pista e foi de encontro ao barranco. Com o impacto meu corpo foi cuspido para fora, e ainda no ar vi desesperado que um monte de folhas brancas mimeografadas voava ordinariamente no ar. Caí de fuça na lama, e uma nuvem de folhas mimeografadas veio em forma de chuva cobrir carinhosamente meu corpo enlameado. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

domingo, 6 de julho de 2014

METAMORFOSE

Às vezes, no torvelinho da vida, me ponho um tanto pensativo, nostálgico, e meus pensamentos voam no tempo e no espaço buscando lugares, buscando situações e buscando momentos de muita emoção. Que saudade eu tenho de minha infância querida, da vida inocente e das brincadeiras no bairro. Ao me lembrar dos bons momentos por vezes lágrimas discretas brotam dos olhos indo morrer vadia no canto da boca. E no embalo incontido do meu devaneio lá vou eu célere correndo para o passado. Quando anoitecia o banco de madeira de frente de casa era o encontro dos vizinhos, das comadres, das boas e talvez das más intenções. O papo rolava gostoso enquanto a molecada nas brincadeiras de esconde-esconde e das cirandas se divertia protegido por olhos atentos. Que saudade eu tenho desse banco. Ele desapareceu, não pela velhice de sua madeira, mas pelo avanço da tecnologia da comunicação. Ah! A televisão, esse bicho maldito que às vezes informa, muitas vezes desinforma e quase sempre deforma a cultura. Apareceu, como quem não quer nada, primeiro lá na praça, e o povo todo, feito um formigueiro mexido, surgindo de todos os cantos, se reunia boquiaberto para ver muito mais o chuvisco que a imagem cinza quase desbotada. Sentavam lado a lado, e já não mais conversavam, olhos fixos e silenciosos tentando ver e entender o que a telinha mostrava. Os filhos tinham que ficar sentados cordeirinhos ao lado de seus pais. A praça não criou para a gurizada um espaço para seus folguedos. Não se brincava então como antes na rua. Não passou muito tempo e o bestificado povo teve mais conforto. A televisão foi para dentro de sua casa. As pessoas já não saiam mais para a praça e a gurizada sem os folguedos era obrigada a ficar em casa se deformando diante do aparelho maldito. As pessoas começaram a ficar mudas. Enquanto isso o banco tristemente se cobria de musgo, apodrecendo pelas lágrimas da saudade. Envelhecido já não era mais um conforto, mas sim um estorvo que teria que ser eliminado. A rua, que antes era alegre e buliçosa no vai e vem dos traquinas moleques, hoje se acomoda triste ao cair da noite. Nem a lua é mais alegre na rua em que eu morei. E o monstro não se acomodou. Não satisfeito em ficar apenas na sala invadiu cada quarto e cada canto da casa. E num cochicho ordinário vai ditando as normas, e as condutas de cada um. As pessoas já não se conversam mais. São estranhas no mesmo ninho. Maldita televisão! Certa feita fui à casa de um velho amigo que ha muito tempo não via; Poucas palavras de boas vindas e lá estava eu sozinho na sala frente a uma praguenta televisão. Queria ter perguntado muita coisa; queria ter dito tantas coisas; queria enfim matar a saudade que nos separou por longo tempo. Eu percebi que ele ficou mais velho; Um pouco diferente com cabelos brancos e em desalinho. Está mais gordo. A fresta da porta permitiu livremente que eu visse que ele e sua esposa estavam sepulcramente silenciosos e terrivelmente compenetrados na telinha. Não conheci seus três filhos que estavam, cada um em seus quartos abobados olhando o diabólico instrumento. Contristado peguei minha mala, que não havia ainda desfeito, e rumei à porta de saída. Tentei ainda dar um adeus, mas minha saudação ecoou oca pelos cantos da casa sem qualquer retorno. Dormi no aeroporto pegando o primeiro voo disponível. Hoje recebo contristado no meu celular uma lacônica mensagem do meu velho e perdido amigo que diz: - Pena que a gente nem pode conversar! POR: MARIO DOS SANTOS LIMA

quarta-feira, 2 de julho de 2014

TROMBONE DE FRUTAS - SEU PRIMEIRO DISCO

Alô meu lindo pessoal. Meu filho Alexandre está com um projeto para gravar o primeiro disco da banda dele - TROMBONE DE FRUTAS. A banda precisa de um dinheiro para isso. Você pode contribuir comprando alguma coisa (camiseta, cd, vinil, shows e etc.) Seu nome ficará gravado no primeiro disco deles. Não importa em que pais você esteja, é só entrar no site, e ver os meninos, e ser um apoiador. O projeto está já com 187 apoiadores. Faltam 8 dias para terminar o projeto. Então, vamos apoiar? www.catarse.me/pt/trombonedefrutas Hola mi gente bella. Mi hijo Alejandro tiene un proyecto para grabar el primer álbum de su banda - TROMBONE FRUTA. La banda necesita un poco de dinero para ello. Puedes contribuir comprando algo (camisa, cd, vinilo, conciertos, etc.) Su nombre será grabado en su primer álbum. No importa qué país usted es, usted acaba de entrar en el sitio y ver a los chicos, y ser un seguidor. El proyecto ya cuenta con 135 seguidores. Faltan 19 días para terminar el proyecto. Así que vamos a apoyar? www.catarse.me /pt/ trombonedefrutas Hello my beautiful people. My son Alexandre has a project to record the first album of his band - TROMBONE FRUIT. The band needs some money for it. You can contribute by buying something (shirt, cd, vinyl, concerts and etc..) Your name will be recorded in their first album. No matter which country you are, you just enter the site and see the boys, and being a supporter. The project already has 135 supporters. Missing 19 days to finish the project. So let's support? www.catarse.me /pt/ trombonedefrutas

domingo, 29 de junho de 2014

A BOLA ROUBADA

Eu vivia olhando a molecada jogar futebol com uma bola velha, murcha, toda remendada, com uma puta vontade de estar entre eles. No quintal, sozinho feito um doido, chutava de um lado ao outro uma bola de meia. Eu acho que um pirulito jamais foi o desejo maior para uma criança do que uma bola de futebol é para mim. Eu sonhava em ter uma bola de futebol. Meu pai de tanto me ver chutar aquelas bolas de meia que minha mãe fazia, esperançoso resolveu apostar na evolução de um futuro craque de futebol. Comprou uma bola de capotão de verdade. - Ela é minha, meu pai? Perguntei todo emocionado olhando aquele tesouro que das mãos de meu pai passava para as minhas. - É sim meu filho! Respondeu ele todo feliz vendo o brilho de alegria em meus olhos. Olhei demoradamente aquela bola, e por alguns minutos, tal qual um altista, eu não ouvi e não vi mais ninguém. Era eu e a bola apenas. A bola assim, tão linda, eu só a conhecia pelas figurinhas ou estampadas em jornais. Peguei-a, amacei com meus dedos, encostei demoradamente em meu peito, joguei-a para cima por diversas vezes, e desajeitadamente desferi o meu primeiro chute nela. Meu pai gostou e até aplaudiu. Fui busca-la no meio do quintal. Apeguei-me tanto aquela linda bola que ao dormir levava-a comigo todas as noites. E assim comecei fazer dela minha confidente. Tinha sonhos radicais em jogos imaginários. Eu fintava, corria com a bola no pé, dava chutes e marcava gols. Durante o dia arriscava-me a sair do portão de casa e proporcionar, para a molecada, momentos breves de chutes numa bola nova de verdade. Como minha habilidade futebolística permanecia apenas em sonhos era colocado onde ninguém queria, no gol. Eu ficava amargurado olhando aqueles dedos de pés descalços, de unhas sujas e compridas, dando bicudas e esfolando o meu querido capotão, e isso me deixava extremamente aborrecido. A cada chute eu via verter dela sangue ouvindo seus gemidos desesperados. Quando minha aflição tornava-se imensa, pegava a bola e ia para casa ouvindo atrás de mim desesperados os moleques gritarem. - Fica mais um pouco! Nós deixamos você jogar na linha! Fique por favor! E eu desaparecia com minha bola debaixo do braço fechando o portão de casa. Um dia, o cansaço dos folguedos fez-me buscar a cama bem mais cedo. Não levei comigo a querida bola. De manhã, ao acordar, fui desesperado a procura dela. Foram inúteis os meus chamados, foram cansativas as minhas buscas por todo o quintal. Desesperado eu sentei e comecei a choramingar. - Quem pegou minha bola? Perguntava inutilmente para ninguém. - Você a deixou abandonada no quintal, e com certeza o leiteiro pegou! Alguém falou dando a sentença final. Perguntei ao leiteiro no dia seguinte e ele disse que não tinha pegado, e que não tinha visto bola alguma. Algum filho de uma puta entrou a noite no quintal e pegou então. Dias e dias, em busca desordenada, procurei pela minha bola de futebol. Desalentado então, muito tempo depois, conclui: - Sem meu capotão nunca mais conseguirei jogar com a molecada! Desesperado pensava: - Por onde ela andará? Que pés malditos estarão maltratando a coitada? O tempo amaina o nosso sofrimento, mas não nos faz esquecer. Ele é cruel e faz-nos envelhecer. Com certeza ela ficou feia, murcha e remendada rolando com as bicudas de pé em pé. Malditos sejam esses pés com dedos sujos de unhas compridas que flagelaram e com certeza acabaram com o meu capotão! Nunca mais tive uma bola tão linda assim. POR: MARIO DOS SANTOS LIMA