MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
domingo, 3 de agosto de 2014
POR QUE AS MARGARIDAS?
A flor# aformoseia-se toda, na singeleza das multicoloridas perfumadas pétalas de que a compõem, para o início da magia linda da reprodução da planta. Pela variedade de cores, pelo seu perfume, pela sua beleza e por tudo que nos encanta a flor simboliza a festa eufórica da vida.
Os amantes conquistam suas amadas com as flores que oferecem.
Que seriam dos jardins sem as flores? Das festas e dos altares? As sepulturas não se cobrem de tristeza quando as flores estão por ali!
Aprendi a gostar das flores com minha mãe - a fada das flores - e depois com minha avó - o anjo das margaridas.
Aprendi simplesmente a gostar!
Aprendi em casa, quando com minha mãe as cultivava, e com a minha doce avozinha ao ajuda-la no plantio, no arranjo e na colheita.
Que lindo era ver minha vó Rosália cuidar com esmero e carinho as margaridas# que plantava!
As margaridas que minha vó plantava eram lindas, sempre floridas e pareciam ter uma magia esplendorosa. Eu ficava, ao pé da escada, sentado, horas e horas, absorto admirando aquela linda criatura lidando com as flores como se elas fossem filhos seus. Para mim ali estava uma maravilhosa tela ao natural. Resolvi melhorar o ambiente de trabalho para ela. Preparei então um canteiro, fofando a terra, cercando com tijolos para a terra não ruir. Semeei as sementes de margarida e o restante deixei por conta da babka.
Como era formoso o canteiro florido de margarida na casa de minha doce avozinha! Eu acho que para repousarem os anjos armavam suas camas ali.
Aprendi que as margaridas transmitem inocência, pureza, simplicidade, lealdade e criatividade, e era isso que eu via naquele quadro quase todo em branco pintado de amarelo com aquela linda senhora tão amorosa no meio dele.
Mas por que tanta afeição por este espécime?
- A babka gosta de margarida, não é mesmo? Às vezes eu perguntava só para ouvi-la falar, naquele seu portunês muito carregado.
- Sim, eu gosto porque aprendi com seu dziadzio a gostar delas!
Assim eu deduzi.
- As flores eram para meu avô, então! Mas por que as margaridas? E a dúvida permaneceu se contorcendo além.
Na minha cabeça martelava sempre a pergunta:
- Por que as margaridas?
Todos os sábados, bem ao amanhecer, lá iam eu e ela colher no jardim as flores mais bonitas, e prepará-las em um buquê. Ela se punha toda bonita, e depois do café tomado, descíamos até o cemitério para visitar o túmulo de meu avô Silvestre. O cemitério não ficava muito longe, e em poucos minutos estávamos lá para o mesmo cerimonial de sempre – limpar o jazigo, jogar as flores murchas, e colocar o buquê fresco de margaridas. As orações em polonês, e algumas lágrimas em seguida, eram constantes.
Em silêncio, nada dizia, apenas colocava minha mão no ombro dela.
- Por que as margaridas? Um dia, quando retornávamos do cemitério, perguntei para ela. Ela me segredou, rindo feliz. Por certo ao voltar ao tempo em que meu avô era vivo.
- Sempre quando seu avô ia caçar, ao retornar com as codornas, não deixava de trazer para mim algumas margaridas que ele colhia, aqui e ali, pelo campo florido. Ao entregar o maço de margaridas carinhosamente me dizia
- Moja milosci, as margaridas são quase tão lindas quanto você!
Seu olhar, naquele azul celeste, perdeu-se por alguns instantes no tempo; Um longo silêncio, e por fim, olhando para mim completou:
- Devolvo as margaridas para ele com o mesmo carinho que as recebi.
Naquele momento, comovido, senti um intenso perfume de margaridas e no murmurar do vento me pareceu ouvir meu avô dizendo: - Moja milosci.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
sábado, 26 de julho de 2014
GENÉTICA ESPACIAL
Quem seria no caso o maior abestado?
Genética espacial hoje não existe, mas provavelmente um dia haverá.
Só para entender a coisa.
Genética pertence a um ramo da biologia que estuda e explica a forma de como se transmitem as características biológicas da mesma espécie de geração para geração. Por isso não adianta cruzar um macaco com uma flor que vai dar em nada.
Já espacial compreende o espaço ou o que nele se realiza; Desta forma, genética espacial, poderia ser, quando muito, dois elementos da mesma espécie cumprindo um dever sexual nas alturas.
Hoje, significa alguma coisa? Absolutamente nada!
Como professor de administração, nas disciplinas que sempre ministrei não constava e não consta até hoje, qualquer coisa sobre foguetes espaciais, e muito menos sobre biologia. Gostava, nas provas, colocar algumas questões na tentativa de ajudar as antas de galocha que não estudavam, ou então aqueles que pouco frequentavam as aulas.
Era uma tentativa minha para a preservação do espécime.
Colocava, por exemplo, na questão de múltipla escolha uma resposta absurdamente fora do contesto para que a resposta certa ficasse saliente.
E muita vez acontecia que algum energúmeno de pouca frequência às aulas, ao não acertar a questão, tinha o topete de ainda vir brigar em busca da razão absurda da insensatez.
Certa feita, em uma prova final de gestão da produção, colocou em uma questão de múltipla escolha, junto com a resposta correta, a seguinte resposta absurda: “A produtividade depende unicamente da genética espacial”.
Tinha que apenas ler e colocar um X na frase que considerasse certa.
O absurdo mesmo foi o que aconteceu depois.
A frase era um disparate que não pretendia dizer nada, mas um irracional pouco evoluído colocou como certa esta aberração.
Ter colocado um X, considerando como certo, poderia até ter sido um acidente geográfico, mas o abestado veio confirmar a irracionalidade ao reclamar para mim a assertiva da questão.
Houve acalorada discussão, e só não chamei o aluno de burro pelo profundo respeito que tenho ao quadrúpede.
Não satisfeito o idiota pegou a prova, e a levou ao diretor do curso alegando que eu não tinha desenvolvido em sala de aula aquele assunto.
O diretor, diante do impasse, convoca-me para dar uma chegadinha em sua sala. Em uma das mãos eu vi a razão desta sublime convocatória. Segurando a prova acintosamente me pergunta:
- Por qual razão você não explicou em sala de aula a genética espacial?
Fiquei simplesmente pasmo, e por alguns minutos acreditei que fosse uma pilheria.
Ao ouvir tamanha estapafúrdia parei, convoquei o céu e o inferno para testemunhar a coisa, e pedi, um tanto receoso, para que ele confirmasse a pergunta que me fez.
Repetiu em gênero, número e grau a questão.
E era uma censura que recebia.
Ao ouvir a mesma pergunta sendo reprisada fiquei na dúvida quem seria então o maior abestado, se o aluno ou o diretor.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
domingo, 20 de julho de 2014
O CÉU E O INFERNO CONTRA MIM
Recordando...
Há algum tempo atrás. Muito ou pouco tempo? Puta que lá merda, bem lá atrás mesmo; Pois é, eu tinha um moderno jeito de reproduzir os trabalhos e provas para os alunos. Eu trazia para sala de aula tudo caprichosamente mimeografado.
O processo era demorado pra caralho, e exigia certo grau de elevadíssima paciência.
Para elaboração de um trabalho ou de uma prova demandava muita destreza e muita reza para que tudo desse certo. Pegava-se com muito cuidado a matriz retirando dela a folhinha de seda que vem entre o carbono e a folha em branco.
E daí a coisa estava pronta para o início do processo.
Podia ser rabiscada, desenhada ou datilografada. Eu, como era um pouco mais moderno, datilografava.
Mas o processo de tirar as cópias, isto eu fazia na casa de um amigo que em melhores condições financeiras possuía esta maravilhosa máquina. Eu comprava sempre a melhor matriz para poder tirar aproximadamente cem cópias.
Para tirar a quantidade máxima de cópias, perdiam-se em média umas duas horas. A cada dez cópias removia-se a esponja, umedecia em álcool e recolocava no cilindro. Depois de umas cinquenta cópias era necessário aumentar a pressão da alavanquinha para a segunda posição.
Quem viveu esta barbárie sabe a merda que sempre dava.
Eu teria que aplicar a última prova para os alunos de administração.
Lá vou eu pacientemente iniciar o processo dedicando todo o domingo para isso. Já na primeira matriz ao retirar a folha de seda fodi com a matriz ao deixar o copo com agua cair em cima.
Ainda bem que não tinha nada produzido na matriz.
Começo o preparo da segunda e última. A matriz na máquina de datilografia e lá vou eu, com esmero cuidado, tal qual uma galinha na catança do milho, catilografando tecla a tecla.
Concentração total.
Quase terminando, mulher me chamando para o almoço, resolvo conferir.
- Puta que os pariu, errei!
Quando se errava todo o trabalho estava perdido.
Dei um berro violento de raiva, e tive a presença imediata da esposa e um vizinho que chegou todo assustado.
Dispensei o almoço e por sorte o vizinho que chegou tinha em casa uma matriz,
Toda a operação novamente iniciada, e uma hora depois terminada.
Comi rapidamente alguma coisa e rapidamente me dirigi à casa de meu amigo para a segunda operação.
Meu amigo naquele domingo não estava muito bem, além do time de sua paixão ter perdido tinha tido uns entreveros com a mulher.
Quando se tentou dar início ao infernal processo verificou-se a falta do combustível. Corre em busca de socorro num vizinho, em outro e finalmente um terceiro tinha uma garrafa de álcool.
Convoquei todos os santos e implorei a ajuda dos anjos protetores antes de iniciar aquela funesta operação.
Eu acho que os astros estavam neste dia completamente desalinhados.
Não sei por qual motivo, os santos e anjos infelizmente estavam em greve.
Já na primeira cilindrada a merda aconteceu. O álcool de péssima qualidade acabou borrando e inutilizando a folha.
Meu amigo, sentindo-se culpado e como se tivesse vindo de uma sinistra reunião do inferno, contrariadíssimo, de olhos em brasa e quase cuspindo fogo pelas ventas berrou:
- Filho de uma puta!
Sentou-se no chão, quase de cócoras, com as mãos na cabeça e entre as pernas permanecendo por alguns segundos resfolegando alto.
Pedi calma a ele, e já estava quase desistindo do funesto trabalho quando olhando para mim diz:
- Meu amigo, não se preocupe, eu tenho uma matriz e vou refazê-la para você.
Ele não era tão abastado assim, e tive que buscar em casa a minha máquina de datilografia.
Com muito cuidado e esmero, finalmente depois de quatro horas de uma intensa luta, as noventa cópias da prova estavam prontas.
Peguei-as com carinho e as levei para casa.
No dia seguinte lá vou eu para a Faculdade aplicar a dita prova.
Chovia uma chuva fina e insistentemente molhada.
Mais adiante um carro em ziguezague vinha perigosamente em minha direção.
Buzinei, dei sinal de luz e pum, o filho de uma puta esbarou na traseira de meu corro. Desgovernado rodopiou na pista e foi de encontro ao barranco. Com o impacto meu corpo foi cuspido para fora, e ainda no ar vi desesperado que um monte de folhas brancas mimeografadas voava ordinariamente no ar.
Caí de fuça na lama, e uma nuvem de folhas mimeografadas veio em forma de chuva cobrir carinhosamente meu corpo enlameado.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
domingo, 6 de julho de 2014
METAMORFOSE
Às vezes, no torvelinho da vida, me ponho um tanto pensativo, nostálgico, e meus pensamentos voam no tempo e no espaço buscando lugares, buscando situações e buscando momentos de muita emoção.
Que saudade eu tenho de minha infância querida, da vida inocente e das brincadeiras no bairro.
Ao me lembrar dos bons momentos por vezes lágrimas discretas brotam dos olhos indo morrer vadia no canto da boca.
E no embalo incontido do meu devaneio lá vou eu célere correndo para o passado.
Quando anoitecia o banco de madeira de frente de casa era o encontro dos vizinhos, das comadres, das boas e talvez das más intenções. O papo rolava gostoso enquanto a molecada nas brincadeiras de esconde-esconde e das cirandas se divertia protegido por olhos atentos.
Que saudade eu tenho desse banco.
Ele desapareceu, não pela velhice de sua madeira, mas pelo avanço da tecnologia da comunicação.
Ah! A televisão, esse bicho maldito que às vezes informa, muitas vezes desinforma e quase sempre deforma a cultura.
Apareceu, como quem não quer nada, primeiro lá na praça, e o povo todo, feito um formigueiro mexido, surgindo de todos os cantos, se reunia boquiaberto para ver muito mais o chuvisco que a imagem cinza quase desbotada. Sentavam lado a lado, e já não mais conversavam, olhos fixos e silenciosos tentando ver e entender o que a telinha mostrava. Os filhos tinham que ficar sentados cordeirinhos ao lado de seus pais. A praça não criou para a gurizada um espaço para seus folguedos. Não se brincava então como antes na rua.
Não passou muito tempo e o bestificado povo teve mais conforto.
A televisão foi para dentro de sua casa. As pessoas já não saiam mais para a praça e a gurizada sem os folguedos era obrigada a ficar em casa se deformando diante do aparelho maldito.
As pessoas começaram a ficar mudas.
Enquanto isso o banco tristemente se cobria de musgo, apodrecendo pelas lágrimas da saudade. Envelhecido já não era mais um conforto, mas sim um estorvo que teria que ser eliminado.
A rua, que antes era alegre e buliçosa no vai e vem dos traquinas moleques, hoje se acomoda triste ao cair da noite. Nem a lua é mais alegre na rua em que eu morei.
E o monstro não se acomodou. Não satisfeito em ficar apenas na sala invadiu cada quarto e cada canto da casa. E num cochicho ordinário vai ditando as normas, e as condutas de cada um. As pessoas já não se conversam mais. São estranhas no mesmo ninho.
Maldita televisão!
Certa feita fui à casa de um velho amigo que ha muito tempo não via; Poucas palavras de boas vindas e lá estava eu sozinho na sala frente a uma praguenta televisão.
Queria ter perguntado muita coisa; queria ter dito tantas coisas; queria enfim matar a saudade que nos separou por longo tempo. Eu percebi que ele ficou mais velho; Um pouco diferente com cabelos brancos e em desalinho. Está mais gordo.
A fresta da porta permitiu livremente que eu visse que ele e sua esposa estavam sepulcramente silenciosos e terrivelmente compenetrados na telinha.
Não conheci seus três filhos que estavam, cada um em seus quartos abobados olhando o diabólico instrumento.
Contristado peguei minha mala, que não havia ainda desfeito, e rumei à porta de saída. Tentei ainda dar um adeus, mas minha saudação ecoou oca pelos cantos da casa sem qualquer retorno.
Dormi no aeroporto pegando o primeiro voo disponível.
Hoje recebo contristado no meu celular uma lacônica mensagem do meu velho e perdido amigo que diz:
- Pena que a gente nem pode conversar!
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
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