MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
domingo, 21 de setembro de 2014
A BICICLETA PROIBIDA
A bicicleta exerce um fascínio enlouquecedor tanto para quem não sabe equilibrá-la por entre as pernas como para quem sabe, mas não a tem.
Eu tinha uma.
Bem... Não era minha, mas pelo cargo importante que exercia na empresa de engenharia, foi colocada a meu dispor uma linda bicicleta holandesa para que eu pudesse percorrer, e acompanhar as obras em construção.
- Cuide bem dessa bicicleta! Foi a recomendação severa que o dono da empresa fez para mim.
E que esmero tinha eu por ela! Ela era minha paixão!
Trepava nela tão somente para o exercício da profissão. Fora do expediente de trabalho, sábados e domingos, eu usava então gastar a sola do meu calçado.
O relacionamento meu com a magrela foi se tornando cada vez mais grudento, mais íntimo, ao ponto dela, quando chegava de minhas andanças, resmungar, tal qual uma amante enciumada:
- Até que enfim você chegou!
Às vezes ela concluía:
- Não gosto de ficar aqui sozinha, abandonada, gosto sim, de estar entre suas pernas!
Com o passar do tempo comecei a notar que ela estava um tanto diferente, não macambuzia, mas muito coquete para meu gosto, e já não mais reclamava a minha presença.
- Será que a danada estaria de caso com algum outro trepador? Pensei cá com meus botões.
O tempo passou, e um dia ela, só para me sacanear, delatou:
- A Laura anda me usando!
- Puta merda, então é por isso que ela não liga mais para mim! Pensei.
Aquela notícia foi como uma tijolada nos meus grãos.
No início fiquei possesso, quase encapetado; o sangue subiu e desceu fervendo pelas minhas veias e artérias; Os grãos do saco desapareceram, e senti um amargo esquisito na boca; Não sabia se dava uns chutes na magrela ou esganava a minha irmã.
Fui para dentro de casa, e passei uma descompostura amorosa em minha mana dizendo:
- Eu arrebento teus cornos se você ousar mexer na minha bicicleta!
Em parte eu não acreditava que minha irmã, pequenina de tamanho que era, magrinha, pudesse andar naquela enorme bicicleta adulta, masculina.
Mas nessa vida tudo é possível.
Para evitar controvérsias, a partir de então, ao deixar a bicicleta estacionada, eu tinha o cuidado de marcar no chão a posição exata dela. Ao retornar para usá-la, verificava se estava tudo conforme tinha deixado.
Passaram-se os dias sem qualquer alteração até que a magrela me segreda:
- Sua irmã continua me usando.
- Mas como? Perguntei atônito para a bicicleta.
- Tendo o cuidado de colocar-me na mesma posição que você deixou. Respondeu-me ela.
Quis matar a Laura, mas ela se aninhou na proteção do colo de minha mãe.
- Eu te esgano! Rangendo os dentes gritei para ela.
A partir de então, além de deixar a magrela posicionada, esvaziava seus pneus, tendo o cuidado de esconder a bomba.
Eu acho que minha irmã, além da proteção de minha mãe ela deveria ter a proteção de uma legião de anjos.
Todos os dias eu chegava, conferia a posição da bicicleta, enchia o pneu, e saia para o trabalho.
Apenas estranhava, ao estar enchendo o pneu, ver minha irmã toda nervosa por debaixo da cama.
Um dia veio a impiedosa revelação.
A bicicleta rindo, olhando para mim, comenta:
- Estou completamente dolorida e feliz! Sua irmã todos os dias vai por aí comigo, sacolejando pelas ruas.
- Mas como, se os pneus estão vazios?
- Por isso é que estou toda dolorida, concluiu a magrela para mim.
Chiu, chiu. A bomba gemendo encheu um e depois o outro pneu. Pensei furioso:
- Ou o pouco peso dela nada fez com que a câmera de ar se rasgasse ou os anjos safados carregaram a bicicleta no colo!
E, feito um possesso, locomovi meu esqueleto a fim de bater na Laura. Minha mãe se entrepôs entre nós.
Devolvi a bicicleta.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
sábado, 13 de setembro de 2014
FLUTUANDO POR ENTRE AS PEDRAS
Eu sempre tive verdadeira paixão pela levitação. Era tanta a vontade de levitar que estive no Tibete, na terra mágica no monte Evereste. Permaneci algum tempo na mística cidade de Lhasa só para desenvolver e treinar exaustivamente o processo de flutuação de meu corpo.
Conseguia elevar meu esqueleto por alguns milímetros do solo.
Mal sabia eu que um dia teria que praticar isso sem aviso prévio.
Mas lamentavelmente tive que fazê-lo!
Eu a Irene, e minhas duas irmãs Inca e Isa, resolvemos almoçar em Paranaguá passando pela estrada da Graciosa.
Um dos mais belos e históricos caminhos deste imenso Brasil.
Parando prazerosamente, aqui e acolá, pelos pontos turísticos chegamos ao Rio Nhundiaquara. Diga-se passagem uma parada obrigatória. O Rio corre ligeiro por entre as pedras, e se esgueira feliz por entre os cascalhos a se ver envolto por rica e refrescante vegetação.
O rio neste lugar é livre e feliz
Ninguém, neste ponto, resiste à beleza incomparável das margens dele. Todos, quase sem exceção, descem para, entre as corredeiras, pular de pedra em pedra. Outros preferem sentar preguiçosamente em algum rochedo e respirar absorvendo demoradamente a beleza do local.
Às vezes tem mais gente que cascalho, e o acidente inevitavelmente pode acontecer. É comum às vezes dois tentarem galgar a mesma rocha, e tragicamente assim um deles irá se refrescar nas águas frias.
E aconteceu comigo.
Eu queria levitar, mas não daquela maneira.
Desci da estrada ao rio, e me inseri quase flutuando de pedra em pedra, tomando o cuidado para não cair na corredeira, que passava sapeca querendo lamber molhado as minhas pernas.
Até que eu estava me saindo bem no processo de pular de um lado ao outro encurtando distâncias; os anjos me acompanhavam apoiando meu corpo para o não acidental desequilíbrio, mas o imprevisto aconteceu, ou o capeta tomou conta de tudo.
Quis pular!
Olhei diversas vezes, fiz meus cálculos de geometria plana e espacial, calculei os ângulos possíveis, traçando cuidadosamente a trajetória de onde eu me encontrava até a pedra um pouco mais acima. A pedra do desejo estava tomada pela Irene. Nos meus cálculos inclui a variável agarrar o braço dela para ajudar no impulso.
Firmei meu pé esquerdo na pedra à frente para o impulso, e projetei de imediato a perna direita em direção à outra pedra. Meu corpo deixou o local, e ele já estava projetado no ar quando por erro de cálculo ou pela mão maldita do capeta não consegui alcançar o braço da Irene.
Estava simplesmente solto no ar.
Por uma fração de segundos eu lindamente levitava apoiado ainda pelas mãos de meus anjos, mas uma sirene estridente, fina e aguda afugentou os anjos trazendo um bando de capetas, e desta forma me vi miseravelmente solto no espaço.
O grito agudo continuava para alegria da diabada, e eu esperneando senti apavorado que meu esqueleto descia feito um foguete para cima das pedras.
Tentei lembrar as lições que tive no Tibete, mas inutilmente tentei.
E o ruído sinistro fino de sirene fazia com que meu corpo se projetasse cada vez mais desgovernado.
Em questão de segundos meu corpo dançava no espaço projetado para baixo obedecendo cegamente a lei da física.
O meu desespero não era as pedras que se aproximavam, mas a sirene que não parava de tocar.
De repente, em umas das viradas que meu esqueleto deu no vazio, pude ver, lá para cima na beira da estrada, de mãos tampando a boca, a minha mana Inca gritando feito uma sirene. Ainda tive tempo de gritar:
- Pare com essa sirene! E pluft cai de bunda na macies da água.
Rolei de pedra em pedra, agora na macies da bunda, e ouvi consolado, ao me levantar lépido no meio do rio, finalmente o último e rápido agudo grito.
Tudo se fez num mortal silêncio.
E de repente o povo que ocupava a margem do rio aplaudiu pensando que fosse uma performance.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
domingo, 31 de agosto de 2014
PAGANDO O MICO
Do nada surge uma estridente música.
O celular além de seduzir, ele alheia a pessoa do meio ambiente em que está. É o indivíduo com o tinhoso aparelho em eterna maldita sintonia.
Ele quebra o silêncio, invade o ambiente sem pedir licença, e não desgruda da orelha do escutante.
Não admito o celular dentro da sala de aula porque, com certeza estarei eu tal qual João Batista clamando inutilmente no deserto. Minha voz se perderia massacrada a um canto competindo com a falação do tal aparelho.
Não permito e pronto, e se por acaso ele tocar, como castigo, num pulo pego o celular do irreverente aluno e atendo escandalosamente.
Todos conhecem o meu jeito e evitam levar o aparelho em sala de aula.
Se estiver indo para aula, o meu celular eu desligo antes de sair de casa.
Eu prego isso e, é claro, fico refém desse decreto. Todos ficam torcendo e até gostariam ouvir meu celular tocando nestes sacrossantos momentos.
Um dia a merda aconteceu.
A cerimônia de apresentação do trabalho final de curso é algo que gera estresse, e esta razão nervosamente é apresentado pelo concluinte.
Nesse momento, lá na plateia os familiares estão reunidos, nervosos também, atentos e torcendo pelo sucesso do apresentador.
Foi dado o sinal de início das apresentações.
O auditório estava completamente tomado.
Os alunos estavam preparados no palco para a defesa do trabalho.
Nos, os professores avaliadores, estávamos a postos para o massacre de praxe.
Levantei da minha posição, e solenemente me dirigi à plateia:
- Pessoal, este é um momento muito importante para os acadêmicos que estão concluindo seu curso, desta forma peço muito silêncio!
Pedi o silêncio e não deixei de fazer a recomendação mais importante da noite.
- Por favor, desliguem seus celulares!
Olhei para os nervosos concluintes e perguntei.
- Tudo em ordem? Então um bom trabalho para vocês!
Sentei-me, peguei meu celular. Tinha acabado de comprar e sem muito traquejo com o aparelho, deixei no vibra e coloquei no dispositivo cronometragem, a fim de controlar o tempo da apresentação.
O trabalho já estava em andamento. O silêncio na plateia era sepulcral.
Do nada surge uma estridente música.
Não sei que maldita tecla acessei que de repente o endiabrado aparelho começou a tocar uma amaldiçoada música – um nojento pancadão.
Nervosamente tentei desligar. Não conseguindo passei para meu colega ao lado. Ele também não conseguir calar aquela tresloucada música. Alguém da plateia veio, pegou o celular e saiu às pressas para fora.
Os alunos de olhos arregalados pararam a apresentação.
Descobriram que o celular era meu, e por isso, para eles foi a glória.
Nervosamente gargalharam.
O povo não entendeu, mas riu junto.
Pedi desculpas dizendo:
- Vocês viram como um celular realmente atrapalha?
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
domingo, 24 de agosto de 2014
EXAME ESTOMACAL
O medo é uma bosta mesmo!
Ele é um estado de alma, uma sensação que nos leva a uma condição de aleta ao sentir-se ameaçado ou sentir-se frágil diante de um perigo qualquer. O medo nos conduz ao maldito pavor. O pavor estupidamente nos desveste do senso comum; O pavor nos deixa enlouquecido.
Minha irmã, que carinhosa eu chamo de Inca, um dia na casa do pai resolveu tomar um chimarrão. Ela é uma mato-grossense não muito familiarizada com a cuia.
Por certo o mate já estava contaminado com alguma substância maligna, pois ao iniciar o procedimento de ingerir o líquido verde, ela imediatamente botou as tripas pela boca, e de quatro, admirando o vaso sanitário, suando frio, chorava desesperada clamando:
- Alguém me acuda! Eu acho que vou morrer! Não quero morrer longe de meu bem!
O bem dela estava bem longe.
Foi feito tudo o que se podia para reanimar a menina, dentro dos conhecimentos farmacológicos e enfermagem que nos dispúnhamos.
Ela aos gritos caia, desmaiava e logo em seguida levantava, caia e desmaiava.
O drama estava funesto.
Ficamos deveras preocupados, não tanto pelos desmaios dela, mas sim pela sujeira que ela estava aprontando com seus esverdeados golfejados pelo chão.
Encostamos o carro, e a colocamos branca, fria e toda vomitada no banco braseiro.
Rumo ao hospital.
Nenhuma viva alma se via pelas ruas.
O carro desenvolvia uma doida corrida; A buzina ligada para os menos avisados, que por ventura saíssem de suas casas, deixassem o caminho livre.
De repente, como voltando de um transe maluco, a Inca de olhos esbugalhados pergunta:
- Onde estão me levando?
- Ao hospital, respondemos de imediato.
Meio atordoada ainda, pergunta de novo.
- Por quê?
- Vão fazer exame estomacal em você!
Ela demora um pouco para conferir e intender a informação, e ainda em meio transe pergunta.
- E como é feito isso?
A Isa, no alto de sua compaixão e conhecimento, explicou em detalhes para ela.
- Você vai ficar pelada e de bruços, eles vão enfiar um tubo pelo seu trapeiro para examinar seu estômago.
Ela desesperada grita ao processar rapidamente a notícia recebida dizendo.
- No meu cuzinho ninguém vai por a mão não.
E como se tivesse recebido uma entidade maluca, tentou abrir o carro gritando desesperada.
- Pare o carro, eu quero descer!
Ainda bem que estava já na entrada do hospital.
Cinco enfermeiros vieram e imobilizaram a Inca com uma camisa de força; Aplicaram nela uma dose elefantar de um tal sossega leão. E a voz se apagando aos poucos a Inca foi gritando desesperada nos braços dos paramédicos.
- No meu cuzinho não! No meu cuzinho não!
- E aí doutor? Perguntamos.
- Tudo bem, foi apenas a síndrome do medo! Respondeu ele.
Ficamos de vigília.
Depois de umas dez horas, já sem o soro no braço ela acorda, olha desconfiada para nós, e apavorada, mas com muito cuidado, só para conferir, coloca a mão na bunda ainda pelada.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
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