MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
segunda-feira, 6 de julho de 2015
SARAU, ARTE LIVRE
Puta que pariu! Minha nossa! Quando me apercebi lá estava eu no meio da sala, nervoso com mil olhos a me fixar e mil ouvidos sedentos por cultura. – Pai, comece você, foi assim que Alexandre abriu oficialmente este sarau. De repente, não mais do que isto me vi muito longe dali a muito tempo também.
A sala do clube, reservada para o sarau tinha um toque feminino e foi cuidadosamente arrumada pela Vanda. Ela era violinista e adorava tocar nos saraus; Tocava Stravisnki, Bach e outros. Ela não era linda, mas de um coração belo, de uma gentileza finíssima, de companheirismo incansável e apaixonadíssimo pelos saraus. Ela se realizava; se entregava toda nos afazeres de organizar o cerimonial – Por que você não se apresenta para uma grande platéia? Você toca tão bem, sempre tinha alguém incentivado a Vanda. – Não; prefiro aqui porque estamos entre amigos e todos vocês tem apreço pelo que faço, respondia ela, humildemente com um sorriso amarelo no canto da boca e ficava o tempo todo tocando, como fundo musical enquanto se recitava ou se fazia a leitura de trecho de algum clássico. O sarau acontecia aos domingos à tarde.
Lendo os versos alexandrinos, completamente absorto, seduzido pelo ambiente. O som do violão que o Daniel fazia como fundo musical pareceu-me o som de um violino, fiquei confuso, meu coração se descompassou e por instante não sabia em que época estava. 45 anos atrás ou agora? Mas o som das palavras é forte e decisivo – Este soneto eu fiz para minha filha, foi esta frase que me trouxe para a realidade, do hoje, do agora.
O sarau homenageou Chiquinha Gonzaga, Graciliano Ramos e Grande Otelo.
O apartamento 204, bloco 10 do Tívolli estava todo preparado ao gosto anarquista do Alexandre e com um toque feminino da Bela. Pedras, livros, cartazes e até algumas páginas dos famosos catecismos pornográficos dos anos 60 que a Maira sensualmente apresentou para a galera. A sopa de feijão estava ótima, mas o Xandão, com medo de que faltasse a gororoba pediu ajuda para Irene no patrocínio de uns salgadinhos.
Todos entraram no clima como se já fosse um velho costume; em silêncio prestavam atenção nos trechos apresentados; suspiravam ao toque maravilho que o Daniel empreendia ao violão num Vila Lobos clássico ou se envolviam na apresentação da Sol; na poesia do Bruno; na poesia de Fernando Pessoa declamada pela Calinka ou na fala final da Bela.
O ambiente às 23,30 horas era tranqüilo, mas bastante animado com luzes apagadas e todos dançando um tango na voz de Mercedes Sosa no comando da Bela, tão animado que fez o representante do síndico deste bloco chegar até a porta e delicadamente soca-la.
O Alexandre vai atender imaginando mais alguém interessado no sarau e dá de chofre de encontro com uma cena dantesca.
O indivíduo, representante máximo da autoridade do condomínio, espumando por um canto da boca, com os olhos avermelhados, esbugalhados, vestindo do lado avesso apenas à parte de cima do pijama; um pé com chinelo e outro não; o cacete a mostra, meio duro meio mole – por certo deveria estar numa tentativa final. O cabra estava bonito para um filme de terror. Olha para o Alexandre e grita:
- Que caralho é isto? Eu quero dormir.
O Alexandre, que tinha acabado de ver a apresentação da Sol e estava embebido nos rebolados do tango imaginando que o cara estava ali tão somente representando uma peça dramática deu então sua colaboração, apontando para o bilau dele, num tom teatral fala:
– Meu nobre, se é isto ai, relaxadamente pendurado no meio de tuas pernas!!! Cara!!! e fazendo uma pausa, comprimindo seus lábios e meneando a cabeça de um lado para outro, arriscando mais uma olhadela para aquela coisa bruta mole acrescenta em tom solene:
- é muito mole e não fará sucesso algum nesta festa. Botando a mão no ombro dele quis completar: - enfim... Não terminou a frase. Foi o fim da festa, pois o cara ficou mais possesso, derrubou o Alexandre com um golpe e não fosse à galera toda vir acudir a esta hora o Alexandre já era.
As meninas apavoradas aos gritos, vendo aquele caralho mole correram para os quartos, privadas, cozinha, dispensa e para debaixo da mesa. Os meninos como não tinham para onde correr foram juntos com diplomacia tentar conversar e convencer o animal:
- Tio, estamos indo embora, volte dormir tranqüilo.
O tiozinho, com uma mão tampando o mole e com outra encobrindo a bunda desceu a escadaria de ré.
O Alexandre, livre do sufoco se levanta rápido e com os braços erguidos para cima da cabeça grita:
- Otimismo!!! Otimismo!!! Galera, a festa continua e tem surpresa à meia noite lá na rua.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
domingo, 19 de abril de 2015
UM CAPITÃO DESOLADO
- Lamentavelmente foi o destino!
O destino existe? A fatalidade é uma realidade insofismável?
Será que o destino é a concepção de uma sucessão inevitável de acontecimentos obedecendo a uma possível ordem cósmica? Às vezes fico em dúvida.
Meu pai me contou uma história muito relacionada a isso, e eu escrevo exatamente tal qual ele me relatou.
Vamos lá então!
Ele servia o exército na Companhia dos Sapadores em Pedra Preta.
A Companhia trabalhava na abertura da estrada.
O sistema de transporte da tropa era bastante precário e radical; usava-se, para o transporte dos soldados, caminhão basculante.
Um dia, o caminhão estava apinhado de soldado em cima da caçamba pronto para sair. O capitão chegou bufando soltando labaredas pelas ventas. Seu motorista particular – o chamado bagageiro - não tinha deixado o leite preparado para seu café.
Dirigindo asperamente ao seu bagageiro diz:
- Hoje você vai para frente de trabalho!
Apontou para um soldado, que estava em cima da caçamba, fazendo-o descer dizendo:
- Hoje você vai ser meu bagageiro!
Naquele dia o capitão amanheceu mesmo com os grãos trocados ou sua mulher tinha dormido de calça. Foi até ao cárcere e dizendo ao prisioneiro:
- Chega de moleza, você vai trabalhar hoje!
Apontou para outro soldado que já estava no caminhão pedindo para que descesse.
Ao passar pela enfermaria o soldado enfermo suplica ao Capitão:
- Não aguento mais ficar nessa cama, quero ir trabalhar na abertura da estrada. O médico tinha recomendado repouso total.
O Capitão não se fez de rogado ao apelo do soldado adoentado, e fez descer o terceiro soldado para que o enfermo tomasse o lugar dele.
O capitão entrou no alojamento pisando duro sem ver o caminhão perder-se na poeira da estrada.
Meu pai contou que nesse dia estava de folga.
Perto do almoço um esbaforido desconhecido, a galope, passa gritando:
- A guerra começou, tem um monte de soldado morto na estrada!
O capitão estranhou aquele mensageiro e se perguntou:
- Mas que guerra?
Bem ao entardecer a tragédia foi desvendada.
Um carroção chega trazendo muitos feridos e oito mortos.
O momento era funesto e lamentoso.
- O que aconteceu? Desesperado grita o capitão.
- O caminhão caçamba tombou quando chegava! Respondeu o carroceiro todo ensanguentado.
Dois grupos de trabalho foram designados; Um para atender os ferido e outro para preparar os cadáveres. Meu pai ficou no segundo grupo construindo as urnas mortuárias e preparando os mortos.
Quando o capitão conferiu os mortos ficou inconformado ao ver que entre eles estavam seu bagageiro, o prisioneiro e o enfermo que ele fez subir na caçamba. Pôs a mão na cabeça e inconsolável aos prantos gritou:
- Eu sou o culpado pela morte deles! Eu sou o culpado!
Alguém, tentando consolá-lo, coloca a mão no ombro dele dizendo:
- Lamentavelmente foi o destino!
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
sábado, 11 de abril de 2015
SEXO RADICAL
Sexo segundo o dicionário é o conjunto das características que distinguem os seres vivos, com relação à sua função reprodutora.
Dentro das quatro paredes, - o mais normal - o sexo pode ser desenvolvido e praticado segundo a criatividade e as taras dos sexuados. Tudo é permitido desde que Deus esteja distraído ou cuidando de outras coisas.
Na prática do sexo eu sou tradicionalista e um tanto conservador. Nada de gritinhos que possa atrapalhar o ambiente contíguo. Dou meus uivos, mas sempre sufocado pelo travesseiro.
Naquela madrugada algo estava para acontecer e aconteceu. Acordei aos berros com uma forte e insuportável dor causada por cálculo renal.
Gritava a todo pulmão
- Irene eu não agüento mais... Irene eu não agüento mais.
A Irene apavorada medicou um buscopan composto que com dificuldade eu engoli, pois, seminu estava com uma perna cravada fora da cama e outra por entre os lençóis. Uma mão dava apoio ao meu corpo na cama e outra pregada nas costas exatamente por cima do rim. Ridiculamente eu deveria estar parecendo um maluco em êxtase vendo visões aterradoras.
Eu continuava berrando de dor enquanto a Irene tentava vestir em mim a calça do meu agasalho. Ela tentava erguer o pé que estava fincado no assoalho e eu gritava:
- Eu não agüento mais, me deixe em paz, berrava feito um alucinado.
Enquanto a Irene tentava me vestir a vizinhança acordou e alguém mandou chamar a polícia.
- Que absurdo, em plena madrugada uma sem-vergonhice desta, aonde já se viu – comentavam os vizinhos por imaginarem que eu estivesse praticando um sexo animal e em pleno orgasmo gritando feito um doido.
A cachorrada animada, latindo procurava as cadelas no cio. Os passarinhos acordados, pulando de galho em galho se acasalavam doidamente. Alguns vizinhos, com auscultador na parede se motivavam para um trepadinha que há tempo não faziam. Foi um sururu danado naquela doida madrugada.
Eu continuava aos berros quando a polícia chegou.
Abrindo violentamente a porta do quarto e me vendo naquele estado crítico a policia recuou rapidamente imaginando que ainda não tinha terminado o meu orgasmo.
Como eu continuava gritando colocando o bairro todo em polvorosa a polícia resolveu agir jogando um balde de água fria por cima de mim para tentar aquietar o meu afogueamento sexual. Usou em mim a mesma tática utilizada para o desengate da cachorrada.
A coisa só piorou.
A noite estava fria e com isto além da dor eu estava agora morrendo de frio.
Como a Irene não conseguiu colocar as minhas calças a polícia resolveu intervir. Desceu uma cacetada na minha cabeça e saiu comigo arrastando até ao camburão.
Eu continuava aos berros.
Na delegacia, a Irene tentava por todos os meios explicar para o delegado que aquilo não era resultado de sexo e sim de uma maldita pedra no rim.
O delegado não quis acreditar e mandou chamar o corpo clínico para os exames de rotina.
Depois de muitas horas de berros e de espera chega um babaca vestido de branco que as apalpadelas no meu cacete diagnosticou realmente que só poderia ser a pedra no rim. O delegado e os policiais ficaram decepcionados com o resultado, pois imaginavam estar à frente de um caso inédito de sexo radical com um prolongado e gostoso orgasmo.
Na enfermaria da própria delegacia fui medicado voltando no dia seguinte para casa.
Quando cheguei fui recepcionado por muitos casais com cartazes aonde se lia:
“Você é o cara!” “Mostra pra nós o teu segredo”
Virei lenda nas cercanias.
A vizinha que chamou a polícia foi execrada e expulsa do condomínio.
A Irene por força das circunstâncias transformou-se em consultora sexual a fim de explicar como é que ela conseguiu aquela proeza tão animal, tão radical.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
O SURPREENDENTE NOME DE MEU FILHO
A medicina hoje em dia está uma beleza, principalmente quando se trata de reprodução, Em alguns casos até a forma da relação sexual dá o indicativo do sexo da criança.
- Como é que você fez o sexo? Pergunta a máquina e o casal informa clicando botões, e então solenemente ela responde:
- Ah! Parabéns você vai ter um ... E lá tá anunciado o sexo da criança.
No meu tempo acreditava-se que deixando a janela aberta para que a brisa entrasse sorrateiramente, e deslizasse pelos corpos suados do casal em amores carnais, permitiria rachar a coisa do meio das pernas da criança em gestação, e batata, nascia uma menina.
Eu sempre fui muito recatado, e o sexo para mim é com portas e janelas fechadas e sem iluminação. Talvez por isso eu tenha três moleques. A filha deve ter sido um descuido meu não fechando a porta ou janela.
Bem, a mulher ficou grávida e o coração da criança pulsava a mil.
A lista de nomes se desfilava tanto para menina quanto para menino.
- Meu bem esse nome fica muito bem se for menina ou então esse muito bem se for menina. A gente ficava horas a fio descobrindo nomes.
A lista era interminável e a angustia do dia da chegada da criança era grande.
Nós dois fizemos pesquisas em calendários, em almanaques coletados em farmácias, e na árvore genealógica da família.
Fizemos sorteios e por fim se apaixonamos por dois nomes, um para se fosse menina e outro se fosse menino.
Na véspera do nascimento o médico fez a punção e do líquido amniótico retirado concluiu-se que 80% tinha a possibilidade de ser uma menina.
Pronto, começamos os preparativos para receber a Carmela.
O dia amanheceu complicado com a bolsa estourando, e correria ao hospital.
O parto que era para ser normal acabou sendo Cesária, e exatamente às 13 horas e 40 minutos o menino veio ao mundo. A Carmela ficou para outro parto.
A mãe ainda estava em recuperação, e as visitas que chegavam perguntavam:
- E o nome do menino?
Bem, como veio um menino, tivemos que dar uma passada novamente na lista para escolher um nome.
- Talvez João? Ou talvez Francisco? Ou...
Passamos quase a noite toda nessa labuta.
De manhã a fumaça branca não havia saído ainda pela chaminé da decisão do nome quando chega um casal de amigos.
A Sueli e o Edgar Kraemer eram amigos de pouco tempo e vieram com um ramalhete de lindas flores para a mãe do garoto e um álbum do bebê para o garoto.
Ajeitamos as flores e fomos dar uma olhada no álbum.
Abrimos a primeira página e lá tinha uma dedicatória:
- Gustavo seja bem vindo, desejamos que você tenha uma cuca legal.
Eu olhei para Alice e nós dois caímos numa gargalhada doida sem que o casal tenha entendido o porquê, perguntando:
- O que aconteceu?
- Vocês acabaram de dar nome ao nosso filho!
Ficamos alguns minutos em silêncio e eu disse:
- Pronto o nome de nosso filho será Gustavo.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
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