MEUS CONTOS PERCORREM TODOS OS TEMPOS E MUITOS LUGARES. AQUI NÃO SOU ESCRAVO, SOU LIVRE, SOU #IRREVERENTE E "ESCRACHADO". MEUS CONTOS SÃO ORAÇÕES DO BOM VIVER.
terça-feira, 7 de março de 2017
BUSCAPÉ SEM RABO NA IGREJA
Sempre me encantou, mas tinha um medo danado dos fogos de artifícios. Aquele céu colorido das mil lágrimas e das estrelinhas, o barulho do estampido e o rastro riscado no céu pelas mil fagulhas como cuspidas do rabo de um cometa deixava-me um tanto extasiado e medroso. Já até corri apavorado de busca-pé.
Segundo Roberto Benjamin o busca-pé está classificado como fogos de tiro juntamente com o rojão, salva, foguete de vara e pistola. Precisa ter cuidado e habilidade para solta-los para não se tornarem perigosos
O busca-pé consiste em um pequeno cilindro de papelão grosso carregado de pólvora fraca, dotado de um orifício de escape e uma vareta estabilizadora, ordinariamente feita de taquara. Uma vez aceso o seu pavio, o busca-pé, por efeito do peso da taquara, desloca-se velozmente e rente ao chão, sempre na mesma direção sugerindo buscar os pés dos circunstantes; daí o seu nome.
Lembro-me que a molecada, não gostando da tecnologia do busca-pé sempre cortava uma parte do comprimento da taquara. Com a vareta cortada e o fogo no rabo o artifício saia feito um filho da puta sem direção certeira apavorando quem estivesse por perto. Era divertido, mas inconseqüente.
O padre da paróquia, um ex prisioneiro de guerra não suportava qualquer estampido e ao ouvi-los se jogava incontinente ao chão; por conta disto tinha excomungado todos os fabricantes de bombinhas e também todo aquele que comprava ou soltava estes malditos artifícios.
No início da noite a Igreja estava lotada principalmente das senhoras do Sagrado Coração, das mocinhas filhas de Maria e dos homens Congregados Marianos. O padre de costas para o altar, ao centro do corredor principal da nave, sentado confortavelmente em uma poltrona conduzia fervorosamente a oração do terço.
Os moleques na frente da Igreja, provavelmente filhos daqueles que em oração se encontravam no interior da nave conversavam, riam e brincavam despreocupadamente. Para aqueles meninos o mundo dos pecados, da morte, do inferno e das excomunhões pertencia aos adultos. Era tudo balela.
Quando tudo parecia paz, abençoada pelo vozeio que vinha do interior da Igreja pelas ave-marias repetidas de forma lamuriosa apareceu um moleque trazendo um picuá com dezenas de taquaras a vista. Deus atendia pacientemente aquelas preces e anotava os pedidos de graça de cada um e não estava com muito tempo para atender a molecada e com isto deu brecha para o capeta fazer a festa.
- Eu descobri uma forma mágica de melhorar o busca-pé, dizia o chegante todo faceiro para a turba.
A molecada fez um círculo para ouvir a palestra e participar de uma oficina de como construir um busca-pé potente. Explica daqui e explica dali e a conferência teórica foi finalizada com o início da demonstração prática.
Retirou cuidadosamente do picuá dez artifícios que já estavam caseiramente preparados em pólvora forte para dar maior volume ao estampido e as colocou alinhadas no chão. As varetas de curta metragem não passariam pela inspeção do IMETRO.
O capeta, agrupado com os seus possíveis futuros clientes do inferno estava atento e dando maior apoio a tudo isto.
- Vocês devem ficar de costas enquanto eu coloco fogo no rabo dos busca-pés, ordenava o moleque.
O capeta se materializando implorou para ele esta responsabilidade ao que foi atendido.
Rindo a gargalhada solta, não precisou de fósforos, trouxe um pedaço do inferno e iniciou o tumulto.
Os artifícios acesos pegaram rumos diversos provocando uma gritaria infernal na frente da Igreja. Os fieis pararam com as orações e por segundos dentro da nave ficou em suspenso um silêncio sepulcral. Deus antevendo a encrenca se mandou para o céu.
Enquanto alguns busca-pés regidos pelo capeta se divertiam voando de um lado para outro entre as pernas da apavorada molecada três deles, conduzidos pelo chifrudo adentravam a nave vomitando uma labareda enorme pelo orifício traseiro. Depilavam as pernas peludas das velhas, lambiam despudoradamente as virilhas das moças e chamuscavam as pernas das calças dos homens.
Os fieis em terror deixaram de lado as lamuriosas orações para com palavrões se juntarem aos estampidos dos busca-pés; Desesperados se apinhavam tentando sair pela porta central. Na falta de Deus o capeta fez da Igreja um inferno.
O padre de bruços, com a batina chamuscada desfiava maldições e distribuía excomunhões.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
MINHA MAGRELA HOLANDESA
Só bem mais tarde eu fiquei sabendo do que aconteceu.
Ela desapareceu e nunca mais fiquei sabendo do seu paradeiro!
Certa vez!...
A saudade já corroia minha alma e eu absorto em mil pensamentos perambulava pelas ruas naquela madrugada fria. Aqui e ali um pulguento ladrava e em vôos rasteiros alguma ave noturna farfalhava suas asas, de um lado ao outro, na busca de alimento.
E nada mais existia, apenas eu e o mundo.
A lua, companheira das madrugadas, caminhava comigo silenciosa iluminando meus passos hesitantes. Ela, branca tal qual uma noiva, respingava em luzes respeitando meu silêncio.
A viela, margeada de flores, cercas podres caindo, poças de água podre e postes bêbados enfileirados, dava um tom melancólico as minhas tristes lembranças.
Caminhava no meu caminhar, de passos perdidos, quando ouço uma voz lânguida, medrosa, suplicante que em desespero me chama de um jeito especial. Reconheço aquela voz metálica. – Por certo é ela, pensei comigo, e perturbado, assustado, parei e feito sonâmbulo fui atraído involuntariamente para o local.
- Meu chefe!
Aquela voz sumida, triste foi melodia para meus ouvidos naquele momento.
- É ela, é ela! Sim é ela, eu reconheço, pois era assim que me chamava.
Um misto de tristeza e alegria invadiu minha alma. Alegria por encontrá-la finalmente depois de tanto tempo e tristeza pelo lamentável estado em que a encontrei.
Quase de joelhos, ao lado dela, passei delicada e demoradamente meus dedos por todo o seu frio corpo. Queria absorver aos poucos, numa sensação de retrocesso, todo o tempo perdido. Uma lágrima morna desprendeu-se de meus olhos e correu salgada molhando o canto de minha boca.
- O que aconteceu com você? Supliquei para ela.
E assim, enquanto eu a acariciava, ela começou em profundo soluço falando.
- Eu e a Laura nos divertíamos muito!
Alguns segundos de sepulcral silêncio, e ela então continuou:
- Eu me lembro bem que você me deixava a um canto pedindo para que dali não saísse até a sua volta, mas sua irmã vinha e dizia:
- Vamos, vamos sair! Ninguém vai ficar sabendo!
- Eu acho que não vou não. Meu chefe vai ficar zangado.
- Vamos sim! Eu prometo que deixo você no mesmo lugar.
E ela, demonstrando uma saudosa alegria continuou.
- E saíamos às duas feitas doidivanas correndo de um lado para outro. Muitos tombos eu levei e ela preocupada cuidadosamente me limpava.
Ela suspirou e por algum tempo ficou silenciosamente como que remoendo saudosos momentos passados.
Respeitei o seu silêncio, mas com um pouco de raiva, neste intervalo de tempo, pensei:
- Ah! Minha irmã, então era você que brincava escondida com a minha holandesa?
Em voz sumida completou dizendo:
- A minha vida era tão boa, com você e às escondida com sua irmã, mas numa noite escura, lamentavelmente fui seqüestrada.
Suspirou demoradamente e continuou:
- Enquanto ele me levava eu gritava em vão -“Deixa-me, deixa-me vil ladrão! Quero voltar para meu chefe; Quero brincar com a irmã dele. Deixe-me, deixe-me”
E com uma tristeza infinda completou:
- Inutilmente eu supliquei para aquele desalmado ladrão e assim fui usada, abusada e abandonada aqui neste local.
- Maldito ladrão! Pensei eu.
Seu sepulcral silêncio indicou que tudo era tristemente finalizado. Inutilmente eu a chamei. Gritei num grito de dor, e meu grito se perdeu confuso no grito de tantos outros gritos naquela madrugada fria. Chorei lágrimas de dor, raiva e desespero.
Juntei o que restou dela e continuei meu caminhar solitário.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
BARQUINHO DE PAPEL
A tarde caia preguiçosa e se arrastava serpeando por entre os montes indo morrer negra nos baixios e vales distantes. O Rio Iguaçu estufava fora de seus sulcos cavados no chão e derramava suas águas como lágrimas de súplica pelas cercanias. O Porto Amazonas estava apinhado de gente que esperava ansiosa a chegado do Vapor Peri para recepcionar quem chegava de Porto União ou de São Mateus ou então para o embarque. Eu brincava o meu brincar de cinco anos e ficava admirando aquele fervilhar de final de tarde como se fosse num sonho lindo desenrolando alegremente.
Eu ansiava por chegar a São Mateus e me perdia em contemplações seduzido pelas coisas que jamais tinha visto.
Mais sonhava que brincava e lembrava.
A viagem de trem de Curitiba até Porto Amazonas foi de uma beleza inexplicável. Praticamente desenrolou-se o dia todo e não me cansava de ver pela janela a paisagem que verde e densa corria em sentido contrário; observava lá adiante a Maria fumaça que gemendo, se contorcendo vomitava rolos de fumo e fagulhas pela chaminé engolindo pouco a pouco os trilhos a sua frente. O povo que entrava e saia a cada parada sempre alegre, falando línguas estranhas carregando malas de couro, sacos e caixas despertavam em mim a curiosidade. Tudo tão estranho, tudo tão belo.
De repente um apito surdo e meu pai avistando na curva do rio o vapor que surgia grita para mim:
- Mario vem pra cá, o vapor está chegando.
Minha mãe, com a Laura no colo tratou de reunir a Inca e eu e deixar perto de si os apetrechos da viagem.
O povo, como num formigueiro mexido se alvoroçou. Como se fosse numa festa festejou alegremente aguardando o vapor Peri que ao som do seu apito rasgando as águas do rio preparando-se para acostar parecia que feliz também festejava. O povo do vapor fazia acenos loucamente; As mulheres, lindamente vestidas movimentavam de um lado para outro os seus lenços brancos e os homens segurando pelas abas os seus chapéus ramenzoni acenavam também. O povo em terra respondia com a mesma alegria. Chapéus e lenços brancos num quadro místico se misturavam ao entardecer que veio tomar parte da grande festa.
Que cerimonial demorado. Mais de uma hora para o desembarque do povo; Para retirar dos porões pelas escotilhas e colocar em terra firme a erva mate, os couros, as crinas, a madeira e os charques e para depois embarcar no lugar o sal para gado, o querosene, os tecidos, as bebidas, as comidas e as quinquilharias. Por fim lá fomos nós medrosamente passando na prancha para entrar no convés do vapor.
Fiquei na popa do vapor sob os cuidados de minha mãe enquanto o pai arrumava o camarote onde passaríamos a noite.
Permaneci ali por longo tempo absorto naquela pintura de cenário nunca imaginado. Vi lá no alto do barranco o trem chegando à estação e todo aquele povo, na plataforma embarcando. Olhava aqueles operários que incansáveis recolhiam nos vagões as mercadorias chegadas pelo vapor. Quase no lusco fusco, ouvi o apito estridente da locomotiva que dizia àquela gente que estava na hora da partida. Admirei aquele colosso de ferro comprido, que resfolegando soltava fumaça se esgueirando vagarosamente e novamente engolindo os trilhos. Tudo me fascinava. O clec cleque clec cleque de suas rodas de ferro foi rapidamente aumentando de ritmo e aos poucos como num sonho de criança o trem desapareceu devorado pelas matas, pela noite, ou... nem sei mais.
A barulheira de agora pouco foi se aquietando. No céu em revoadas a passarada buscava seus ninhos, seus recantos. O povo, no interior do vapor foi se acomodando aos poucos. Reinava a ansiedade, pairava a angustia e a solidão da noite e o balouçar da nau amedrontava as entranhas do Peri. De repente o cheiro gostoso de um feijão, de um toucinho frito com arroz e da batatinha impregnou o ambiente trazendo o ânimo e o apetite.
A vozearia então inflou novamente o convés.
Achei engraçados aqueles marinheiros todos; pareciam noivas. Vestiam calças e camisas brancas. Usavam quepes brancos que adoraria ter um. Davam ordens. Recolheram a prancha e desamarraram as cordas que prendiam o vapor no cais. Conferiram e ajeitaram toda a palamenta para poder zarpar.
A noite sem pedir licença chegou e abraçou tudo que encontrou.
A máquina a vapor aliviou um pouco a pressão de sua caldeira num apito rouco indicando o início da viagem. A passarada assustada ou alegre abandonou incontinente seus aposentos dos altos dos arvoredos.
Aquela enorme roda começou vagarosamente a girar, batendo cada uma das paletas na água fazendo o vapor aos poucos se afastar da margem desviando dos parcéis em busca do canal de navegação.
Quase mais nada se via apenas o ruído borbulhante da água.
- Venha jantar, minha mãe me chamou.
Dormi tranqüilo ao som das orações pedindo ao Bom Deus uma viagem sem problemas e acordei todo molhado quando o dia se fazia presente.
Meu pai, como sempre acertou o ocorrido dizendo:
- A água do rio deve ter entrado no camarote pelas vigias mal embaçadas.
Voltei para a popa e fiquei vendo hipnotizado o borbulhar das águas do rio fazendo rendas que ficavam estendidas e perdidas para trás.
Um marinheiro chegou e vendo o meu entretenimento fez de um jornal um barquinho e amarado a um barbante soltou na água e me deu para segurar. Aquele barquinho era lindo singrando as águas espumantes deixadas pelo vapor. Parecia o filho pequeno seguindo feliz os passos do pai. Eu conversei longamente com ele no meu conversar de gente pequena; Segredei mil coisas e no seu jeito desajeitado, mas lindo confesso que me entendeu e até me disse alguma coisa que hoje não sei. Quis estar lá dentro dele no balançar das ondas. Nossa amizade casou-se ali no véu de espumas que o vapor e ele faziam.
São Mateus aos poucos foi surgindo na curva do rio. Foi crescendo, foi crescendo e o apito rouco do Peri deixou no convés o povo feliz acenando para o povo do cais.
Deixei tristemente o barquinho amarado na popa e pela mão desembarquei com minha mãe. Implorei para que minha mãe esperasse o vapor zarpar no que fui atendido. Algumas mercadorias desembarcadas e outras tantas embarcadas e novamente o apito rouco do vapor dizendo adeus e ele começou a navegar.
Uma tristeza imensa invadiu o meu coração de menino.
Vi de longe o meu barquinho feliz deslizando no embalo das ondas que o vapor deixava. Mais adiante, antes de desaparecer na curva do rio o vapor deu rouco seu último apito e me pareceu ouvir o meu barquinho de papel imitar o Peri e apitar também e no seu apitar dizer:
- Adeus meu amiguinho, até qualquer dia.
Uma lágrima incontida deslizou infame pela minha face indo morrer no canto de meus lábios. Ergui meu braço num adeus saudoso virei-me e segui os passos de minha mãe. Quedo de quando em quando me ponho a lembrar do meu barquinho de jornal
No vapor Peri que se encontra recuperado em São Mateus se você olhar com atenção na popa dele encontra o sinal de um barbante amarado.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
O PRIMEIRO LIVRO QUE GANHEI
Tudo o que acontece ou surge pela primeira vez em nossa vida fica indelevelmente marcado. É o primeiro beijo, a primeira namorada, a primeira vez, bem... Tudo fica registrado e lá de vez em quando recordamos e nos deliciamos com isto.
O que me traz um gozo íntimo e suave é a lembrança do primeiro livro que ganhei. Tinha eu aproximadamente de seis para sete anos e a nossa família morava em uma casa, de parede e meio bem próximo de onde hoje se assenta a igreja matriz de Arapongas.
Eu me encantava vendo, ao entardecer, logo após o jantar, meu pai desfolhar o jornal que ele recebia não sei de quem, mas que sempre era colocado por debaixo da porta da sala de casa. Ele me punha sentado em sua perna para eu ver e admirar a figura de um lindo cavalo que era reproduzido em tamanho quase total da página do jornal. Era uma propaganda impressa naquele jornal, mas para mim aquilo era real, e tinha o fascínio de me transportar para uma viagem a um mundo de fantasias. Eu ficava embebido na figura majestosa do animal ouvindo meu pai contar mil e umas maravilhosas histórias sobre o tal cavalo. Meu pai me envolvia no conto, e eu adorava isto. Estas histórias ficavam povoando na minha memória, e isto fazia com que eu sonhasse dia e noite cavalgando este belo animal. Nos meus devaneios o meu lindo alazão era parecido ao do jornal. Eu cavalgava sonhos e vencia barreiras. Meu alazão conversava numa conversação animada comigo, e nós riamos muito fazendo nossas traquinagens, nossas estripulias, correndo soltos pelo campo sem o compromisso com a realidade. Era meu amigo inseparável.
Ainda bem que a nossa memória tem a capacidade de armazenar e evocar informações ao momento que desejamos. Este cavalo ainda está vivo em minhas recordações. Já não é um alazão novo e nem estamos por aí fazendo confusões, e nem mais eu mantenho um diálogo como dantes com ele, mas ainda lhe tenho grande estima. Às vezes sentamos nós dois, lado a lado e falamos, recordando das coisas que fazíamos naqueles tempos. Ele relincha tristemente ao meu lado num relinchar saudoso, e eu lhe afago a cabeça.
Um dia meu pai, ao entardecer chegou como sempre chegava, e logo após o jantar disse-me que tinha alguma coisa para me mostrar. Não pegou o jornal como de costume, mas trazia na mão um livro. Lembro-me que era bem colorido. Sentei na sua perna e ele leu, de cabo a rabo uma bonita história de um cavalo. Lembro-me ainda bem que em cada página tinha um potrinho e um menino em diversas situações empinando e correndo por belas paisagens, e logo abaixo das figuras algumas linhas escritas que por certo era de onde meu pai fazia a leitura.
- Ah! Esta é a história de meu alazão, pensei acreditando ser verdadeira ao ouvir a leitura que meu pai fazia.
A história era quase real. Narrava a vida de um cavalinho que nasceu numa fazenda e fez amizade com um menino e etc, etc e tal. - Sim, esta é a minha história com o meu alazão, pensei comigo. Eu me coloquei vivenciando as aventuras do personagem menino do livro.
Meu pai terminou de ler a emocionante narrativa e me disse:
- Amanhã vamos levar este livro para a biblioteca da escola. Você vai fazer uma doação dele.
No momento fiquei p. da vida e perguntei:
- Mas por quê? Ele é meu.
- Não meu filho, o livro na biblioteca irá proporcionar e incentivar muita gente à leitura, e você vai ser o agente participando ativamente desta atividade configurada na doação deste livro. Muitos meninos vão poder ao lê-lo sentir as mesmas sensações, as mesmas emoções que você vivenciou e sentiu.
- O livro é o invólucro do espírito transformado em caracteres e figuras, continuou ele para mim. Quanto mais pessoas abrirem e folhearem suas páginas, mais e mais vivo, e penetrante ele estará em outras mentes.
Meu pai deve ter escrito alguma dedicatória na página inicial em meu nome; No dia seguinte lá fomos nós entrega-lo na escola.
O meu primeiro livro tão rapidamente se foi como veio. Ele trazia a história de meu alazão num mundo imaginário. Entregando o livro, naquele momento, estava me sentido como um pai, num campo de concentração, vendo seu filho ser arrastado ao holocausto do banho, no forno a gás. Meu pai, segurando-me pela mão, e a passos largos se afastava cada vez mais da biblioteca. Experimentei olhar para trás, e lá estava ainda o livro no balcão da biblioteca, que sorriu e me deu um adeus com suas folhas em revoada. Uma lágrima correu sem vergonha pela minha face.
Nunca mais vi o livro, mas guardo na memória a sua narrativa na voz de meu pai.
POR: MARIO DOS SANTOS LIMA
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