sexta-feira, 27 de maio de 2011

CAVALGANDO UMA BICICLETA MUITO DOIDA

Quem, quando guri não morreu de vontade de andar de bicicleta? Pois sou um destes indivíduos que quando imberbe ainda, e não pubescente sonhava com a magrela dia e noite. Implorava insistentemente uma para meu pai, mas ele impassível ignorava as minhas doridas súplicas. No meu tempo, lamentavelmente não tinha ainda a grande motivação de –“Não esqueça de minha caloi”.
A bicicleta povoava meus sonhos. Era uma coisa boa e um tormento ao mesmo tempo. Eu sonhava com aquelas lindas propagandas de bicicletas que apareciam nos jornais e revistas. A sueca Monark, por exemplo, era considerada a rainha das bicicletas e era feito em aço de primeira, acabamento esmerado e cores lindas. Era a preferida do Brasil segundo a propaganda. Era a minha preferida também. A danada vinha com dínamo Hackel para os faróis Riemann e estava acoplada com a bomba pneumática Progress. Uma belezinha. Eu vivia fazendo coleções de recortes destas propagandas. Nos meus sonhos eu já havia andado milhares e milhares de quilômetros deslizando ruas, estradas, vielas e campos. Eu estava perito no assunto em botar a bunda no selim.
Para mim, um estilingue no pescoço, um picuá carregado de pedras na cintura, um pião, umas bolinhas de gude e uma magrela para me carregar era o máximo de minha ambição. Nada mais eu queria. O estilingue, o picuá, o pião e as bolinhas de gude eu os tinha, mas a bicicleta em meio a névoas ficava turva em meus anseios. Quando eu a teria? Martelava constantemente em meu cérebro esta pergunta. Quando?
Um dia vou possuir uma, pensava otimista olhando demoradamente aqueles recortes de propaganda.
Este dia não demorou a chegar.
No meu tempo, todo bom moleque que já sabia ler e escrever tinha que procurar alguma ocupação ou ofício para desenvolver. E lá fui eu aprender o ofício de marceneiro. Tinha 12 anos de pura inocência e muitos sonhos a realizar. Muito mais sonhos e pouca realidade.
Na marcenaria trabalhavam alguns marmanjos, eram os meus professores e a um canto, lá mais para o fundo do barracão, tal qual uma princesa encantada permanecia sempre uma linda e indescritível sueca. Pareceu-me, algumas vezes que ela dava umas piscadelas para mim. Eu acredito que foi amor à primeira vista.
Minha iniciação na arte de construir tranqueiras em madeira estava indo muito bem, mas minha paixão pela sueca aumentava desesperadamente dia a dia. O percurso de casa até a oficina de artes em madeira era bem longo, mas minha motivação em estar lá antes da hora e sair depois da hora era esta linda e graciosa sueca que impassível permanecia lá como se estivesse obcecadamente me esperando. Era uma atração fatal.
Dois tímidos. Eu de um lado fazendo minhas tarefas, jogando de quando em quando um olhar furtivo e enamorado e ela de outro lado, calada, linda me espreitando.
Um dia o dono da oficina me surpreendeu passando a mão nela. Fiquei sem jeito, esperei uma bronca, mas ele simplesmente me disse:
- Cuidado com ela, moleque, ela é minha e sou muito ciumento, mas como sou bastante liberal, se você quiser um dia eu o deixo sair com ela.
Minha alegria foi tanta naquele momento que quis gritar, dar um abraço nele, mas apenas timidamente agradeci.
Isto nos fez, eu e a sueca mais próximos um do outro. O nosso namoro estava cada vez mais forte. Ela era caladona, mas me permitia que eu ficasse ali ao seu lado falando qualquer coisa, sobre mim, sobre meus amigos; Era um bla bla danado sem fim.
A minha paixão pela sueca estava em proporções descomunais. Quando em casa não via a hora de retornar ao trabalho para estar ao lado dela. Os finais de semana me pareciam longos e intermináveis.
O grande momento de realizar o meu sonho chegou! Meus lindos sonhos seriam realidade agora. Vou finalmente andar de bicicleta.
Alguém da oficina precisaria ir fazer uma entrega de uma encomenda qualquer do outro lado da cidade. Eu fui o escolhido.
- Você sabe andar de bicicleta? Perguntou-me o dono da Marcenaria.
Esperei um pouco dei um tempo para responder. O treinamento que fiz nos meus muitos e variados sonhos me pareciam reais. Eu sabia, é claro que eu sabia andar de bicicleta e muito bem. Recompus-me não acreditando ainda na pergunta e de imediato, meio gaguejando respondi.
- Sim, sim eu sei.
Colocaram com cuidado a obra de arte restaurada no bagageiro da bicicleta dizendo-me:
- Cuidado com esta peça, ela é antiga e de muito valor.
- Sim, gaguejei.
- Guri, cuidado com a minha Monark, ela é uma coisa preciosa que tenho, acrescentou o dono da marcenaria.
Finalmente a sueca estava em meus braços e logo logo estaria sob minhas pernas. A minha alegria era tanta que acabei acreditando que sabia realmente bicicletar e com isto tive um orgasmo precoce.
Olhei aquela formosura toda reluzindo de impecável pintura preparada para a missão quase impossível.
Os primeiros 100 metros eu os fiz apenas empurrando a sueca. Fui num monólogo tranqüilo com ela. Queria estar longe das vistas do dono dela no memento sublime de dar à primeira trepadinha. A cidade até parecia que parou para me permitir andar sem problema. Suas ruas em colossal areal se estendiam desertas por quase todo o trecho. Até os cachorros vadios se recolheram.
Criei coragem, mas tremendo de medo frente a uma enorme descida me encavalei desajeitadamente em cima dela. Pareceu-me ouvi-la dizendo:
- Vá com calma meu amor!
Eu estava tarado, estava afoito, na realidade eu era naquele momento o noivo virgem doido pela primeira foda e não atendi ao seu reclamo, comecei a descida em desembalada corrida. Ela gemia sob meu corpo que quase solto queria escapulir.
Meus cabelos soltos ao vento acenavam felizes e eu em início de operação radical começava a suar frio. O medo estava solto correndo lado a lado comigo. Meu anjo da guarda suplicou aos céus e me abandonou. A Monark desgovernada, zig zagueando doida engolia a distância, gritando frases desconexas. Meus pés soltos não encontravam os pedais e o selim fazia bolhas na minha bunda.
A sueca gritava frases de ordem, rebolava toda, mas eu juro que ela estava feliz pela liberdade incondicional que eu estava lhe proporcionando.
Como um peão nos corcovos da mula xucra eu tinha presa apenas uma mão no guidão da desgovernada Monark.
Pouco mais de 50 metros, nada mais do que isto foi palco da mais ousada e radical desembalada corrida ciclística que se tem notícia coroando ao final com um fenomenal acidente.
Um banco de areia ao nos ver doidamente se aproximando gritou, acenou, gesticulou, quis sair do lugar e nos seus braços espetacularmente fomos parar.
A sueca quando colocou seu rodado dianteiro no areal, deu um espetacular corrupio no ar, xingou largando-me em pleno vôo. Planei por alguns segundos e vertiginosamente de cabeça cai. A minha fuça foi a primeira a chegar ao areal vindo logo em seguida a Monark que num baque se enrolou toda em mim para amaciar sua queda.
A logística da entrega foi estancada neste ponto. Apenas 50 metros de adrenalina pura. Foi uma experiência incrível cavalgar numa xucra sueca que acabou culminando na realização do meu sonho – Andar de bicicleta. Desastrosa experiência, mas foi o início. Finalmente andei de bicicleta.
No local uma boa alma me ajudou a se desvencilhar da magrela que toda retorcida prendia-me a ela num abraço funeral; juntou cuidadosamente os pedaços da obra de arte que levava na garupa e me entregou com cuidado.
Eu estava todo empoeirado e sangrando, mas estava muito mais feliz que preocupado.
De repente, recompondo-me um pouco bateu loucamente em minha memória a recomendação:
- Cuidado com esta peça ela é uma obra de arte e de muito valor. Cuidado com a minha bicicleta, ela é bla e bla e mais bla.
Comecei a chorar desesperadamente reunindo os restos mortais da obra de arte e juntando do areal maldito a linda sueca toda retorcida.
- O cara vai me matar, pensei eu, enquanto caminhava de volta.
Pensei em fugir, desaparecer deste mundo, mas criei coragem e continuei o meu regresso. Como um bom empregado, ao emprego estou retornando.
Ao chegar de volta com aquele monte de ferro e lata retorcida disse ao dono da marcenaria:
- Fui atropelado e não me lembro de nada.
A sueca, no seu último suspiro teve forças e me deu um beliscão pela mentira. O dono da marcenaria, esbravejou, vomitou impropérios e quando quis me bater desmaiou caindo espetacularmente ao chão.
Mudei de cidade, fui para o seminário e até hoje não tive coragem de ir lá receber o meu salário.

por: Mario dos Santos LIma

terça-feira, 24 de maio de 2011

POR ONDE SAI O OVO?

Criança sempre tem cada idéia que as vezes faz na gente arrepiar os pêlos mais íntimos que temos. Quer pular de um andar para outro imaginando ser o homem aranha ou então quer morrer para ver se de outro lado é mesmo da maneira como os adultos contam. Quando ninguém ajuda, coloca nomes às coisas e aos animais que só mesmo ela entende. É sempre lógica e deduz de forma brilhante qualquer pesquisa de interesse de foro íntimo dela.
Desde que nasce, a criança já entende que o mundo dos adultos não é o mesmo que o dela. Ela entende que o mundo fará dela uma besta, tão besta como o são seus pais, seus avós, seus tios e outras pessoas que se acercam dela fazendo bilu bilu ou então dizendo como se ela fosse um bicho inútil de estimação: “- Que gracinha”.
A criança sabe por experiência e por muita pesquisa que também ela se tornará uma besta um dia. Isto normalmente acontece quando os pêlos começam a brotar aqui e acolá nas partes inferior e anterior do osso ilíaco.
O ser humana nasce, se torna criança e aos primeiros apêndices filamentosos da pele vira uma besta e quando estes filamentos começam a cair retorna ao estado de criança que nunca deveria deixar de ser. Neste estado de criança outra vez, ele ou morre abandonado ou se torna um ente extra terreste, anormal no meio dos bestas considerados normais.
Na realidade não quero falar dos bestas que habitam esta terra e sim dos seres normais impúberes que buscam sabedoria derribando sonhos e arquitetando conceitos e ações.
Fui criança. Hoje sou um besta, mas a beira da criancice.
Eu e minha irmã, antes que as hastes queratinizadas viessem perturbar as axilas e partes íntimas nossas brincávamos tranqüilos pelo quintal de casa.
O quintal era grande e a mãe aproveitava para criar umas penosas a fim de ter o precioso ovo e nos finais de semana uma deliciosa depenada assada.
Adotamos, desde o romper da casca do ovo uma carijó e não sei por qual razão batizamo-a de ximbica. Hoje quis saber o significado da palavra ximbica. Escarafunchando o Aurélio nada pude encontrar e então fui esgaravatar a internet e só então, eriçado completamente hirto descobri o significado quase imundo da palavra. Só não encontrei como nome de uma nobre galinha.
A ximbica era uma graça de galinha; desde pequenina teve um apego sincero por nós dois. Vinha buscar os artrópodes que a gente buscava pelo quintal só para ela. Ela gostava de se aninhar em nosso colo para receber os carinhos na sua empenada cabeça.
Um dia a curiosidade nos abateu e a pergunta bailou feito uma doida em nossas cacholas: Por onde sai o ovo da galinha?
- Mãe, por onde sai o ovo da galinha? Perguntamos para nossa mãe e ela de pronto respondeu:
- Pór um buraquinho debaixo da asa.
Lá fomos nós, pegar a ximbica e esperar pacientemente a hora do ovo sair.
Ficamos montando um plantão cruel; um pouco eu e um pouco a minha irmã com a ximbica no colo aguardando por onde saia o tão esperado ovo.
Finalmente, a pobre ximbica não aguentando mais reter o ovo em suas entranhas despejou-o para fora.
O ovo caiu diretamente em meu colo e eu gritei para minha irmã:
- Eu sei por onde saiu o ovo.
- Toda espavorida, correndo ao meu encontro perguntou incontinente:
- Por onde? Por onde?
Respondi então:
- Por um buraquinho que abriu e fechou aqui debaixo da asa.

por: Mario dos Santos Lima

quarta-feira, 18 de maio de 2011

UM CACHORRO ENROSCADO NA CRUZ

O Frei Dionísio como um bom franciscano... ou ele era jesuíta? ou... Não sei mais, mas que gostava de animais, gostava mesmo isto eu sei. Tinha um casal de cachorros peludos que era uma maravilha. O casal de caninos ficava preso o tempo todo na casa paroquial cercado de mil cuidados e mil carinhos e desta forma era uma recomendação veemente dele para nós sacristãos:
- Não me deixem nunca a porta aberta porque as minhas crianças podem escapar e ir se misturar aos vira-latas pulguentos e malcheirosos da redondeza.
Não conseguia entender como alguém, principalmente um padre pudesse ser tão racista e discriminador. Coitados dos vira-latas que não tinham o direito de entrar na Igreja e nem comer as míseras migalhas de comida que sobravam de seus peludos.
- Não quero estes sarnentos dentro da minha Igreja. – Sempre recomendava ele para nós e nós mantínhamos um policiamento feroz contra estes inimigos da Igreja.
Comecei a olhar todos os vira-latas que cruzavam pela rua como uma coisa satânica e amaldiçoada. Se algum deles passasse por perto de mim imediatamente me vinha uma vontade incontida de meter um ponta-pé no traseiro dele. O Frei estava fazendo em mim uma verdadeira lavagem cerebral sem que eu me apercebesse. disso Só o casal de peludos dele é que iria para o céu, isto já estava bem claro na minha cabeça.
Toda vez que abria a Igreja de manhã lá estava o sarnento e pulguento deitado, todo encaracolado na soleira da porta.
- Maldito, saia daqui – gritava eu para o pulguento que sossegadamente abria apenas um olho e olhava para mim, punha-se em pé sacudindo de um lado para outro todas as pulgas do seu magro lombo e descia compassadamente a escadaria rumo à rua.
Mal eu virava a costa e lá vinha ele de volta se acomodar no capacho que ficava ao pé da porta da Igreja.
Às vezes me passou pela cabeça que aquele pulguento estava apaixonado pela cadelinha peluda do Padre e era então por isto que o Frei tinha todo aquele cuidado com a porta de entrada da casa paroquial. Talvez tenha até acontecido, no passado algum caso, rolado um clima entre o pulguento e a peludinha e o frei, lamentavelmente tenha descoberto. Mas se isto realmente aconteceu e se existe ainda essa doida paixão entre o sarnento e a peludinha é claro que, para o bem dos bons costumes este romance deverá ser abortado incontinenti mesmo. Ele é um vagabundo, pulguento, latidor das madrugadas e perturbador de portas de igreja e ela, peludinha, bem educada, cheirosinha e amorosa. Jamais daria certo. Ela é de dentro da Igreja e ele das escadarias da Igreja. Ele um amaldiçoado, satânico e ela uma santificada.
- Para o bem da Igreja preciso dar um jeito neste vira-lata – pensava eu.
O meu grande medo era de que ele reunisse, num dia qualquer destes todos seus amigos e viesse fazer um grande cachorrismo ali na escadaria da Igreja exigindo os direitos caninos e eu então estaria fodido perante o Frei por não ser um bom guardião das coisas santas de Deus. Seria despedido e o Frei me excomungaria.
Tomei uma decisão. Vou preparar algo para que este filho de uma cadela não mais venha incomodar a Igreja e colocar em perigo a minha santa ida um dia para o céu.
Pegar o pulguento foi fácil, ele até grunhiu e lambeu as minhas mãos imaginado por certo de que eu finalmente estava me rendendo a ele. Amarrei facilmente umas bombinhas no seu rabo e deixei a coisa acontecer. Depois de alguns dias ele voltou trôpego, assustado e sem rabo.
Num primeiro momento me causou pena ver seu lastimoso estado, mas imediatamente me recompus:
- Você não aprende mesmo – bati o pé e lá foi ele todo trôpego embora com o que sobrou do rabo entre as pernas e cabisbaixo.
No dia seguinte quando abri de manhã a Igreja lá estava o sem rabo todo encorujado aguardando a minha bronca.
- Esta noite a cachorrada vadia em assembléia com uivos esganiçados não me deixou dormir – o Frei já cedo comentou comigo o fato e isto deixou bem claro que estes vadios de rua só podem ser criação do capeta.
Uma notícia deixou-me satisfeito por aqueles dias. Estava na cidade um circo e como todo circo que se preze deve ter animais ferozes, grandes e famintos. Tinha um leão velho, manso como um corno, mas que uivava de fome dia e noite.
O dono do circo dava uma entrada para a matinê por cada bicho que era trazido ao circo. É claro que o dono do circo não dizia claramente que era para alimentar seus bichos e dar um sossega no leão.
A matinê ficava lotada e a bicharada do circo satisfeita. A molecada feliz empoleirada se deliciando com as piruetas e palhaçadas dos palhaços não estava nem aí com o holocausto das vítimas.
A minha grande esperança é de que alguém achasse o pulguento e o levasse ao circo.
Passa dia e mais outro e nada disso aconteceu. Estava cada vez mais angustiado com aquela situação. Eu seria considerado incompetente perante a Igreja se não aproveitasse a oportunidade e desse um fim no sem rabo.
Tomei então uma decisão definitiva.
A torre da Igreja é bem alta, uns 40 metros de altura.
Peguei o sem rabo, amarrei nele um lençol velho. Cada ponta do lençol numa pata. Subi até a torre da Igreja e dela soltei o sarnento.
Minha idéia era pregar um belo susto no filho do capeta e que o lençol como um para-queda, pelo vento o levasse para bem longe; Talvez para perto do circo ou até dentro do circo.
Soltei. O pior aconteceu.
Não tinha vento. O lençol não se abriu e acabou se enroscando no braço da cruz santa que ficava um pouco abaixo. Como o endemoninhado animal começou escandalosamente a latir pude escutar o povo lá em baixo assustado falando:
- Isto só pode ser coisa do sacristão
O Frei deve ter sido tomado por uma louquice estranha ou tudo tenha sido uma bela jogada política religiosa para abafar o caso, pois acabou chamando o corpo de bombeiro para salvar o pestilento e terminou por adotar o animal, coisa que até hoje não entendi.
O Frei só não me excomungou, mas fui expulso da Igreja.

por: Mario dos Santos LIma

terça-feira, 17 de maio de 2011

ORAÇÃO DA NOITE


Naquela noite eu saí da sala de aula, antes de seu término iracundo, espumando pelas ventas. Normalmente sou tolerante, mas aquela turma extravasou qualquer limite de tolerância naquela conturbada noite.
Se tivesse que indicar alguém para qualquer cargo administrativo ou gerencial eu os condenaria completamente. Era o sexto período de administração e um bando de moleques travessos e irresponsáveis!
Eu caminhava, a passos largos até a secretaria a fim de entregar o livro de chamada e justificar a não minha presença junto aquele bando de desordeiros.
Na época fiquei realmente bravo considerando uma tremenda falta de respeito, coisa sem propósito, mas hoje eu reconheço que eles foram, além de ridículos, atrevidos e ousados. Ao lembrar a cena hilária não consigo prender o riso.
Fico imaginando cá com os meus botões que provavelmente se estivesse estudando junto com eles provavelmente teria experimentado do mesmo sabor daquela balburdia.
Agora estou me recordando que naquele dia preparei com esmero e carinho a aula de produção para aquele sexto período. Saí com um pouco atraso de casa e com isto entraria em sala com alguns minutos do início.
Cheguei esbaforido a Faculdade.
Atravessei os corredores para alcançar a sala e percebi que naquela noite as outras turmas por onde eu passava aconchegavam espremidos na porta alunos contagiados de uma alegria sem par. Pareciam cães tarados farejando cadelas no cio. Acotovelavam-se com as cabeças no corredor curiosos e ansiosos olhando para a sala em que eu estava por chegar. O murmúrio era tanto que o vozeio perturbava todo o ambiente.
Estranhei, fiquei curioso, mas me coloquei avante.
A sala foi se aproximando perigosamente à medida que meus passos engoliam o corredor. A luz lá fosca e avermelhada me deu a sensação de estar indo para um lugar proibido. Verifiquei primeiro, com um beliscão no braço se realmente estava acordado e medrosamente me vi no umbral da porta de entrada.
O que vi é indescritível, mas vou tentar relatar.
A sala parecia um amplo dormitório.
Aquelas meninas todas nas suas transparentes camisolas, algumas minúsculas deixando lindas tetas quase de fora abraçando sensualmente seus ursinhos de dormir. Suas pantufas lilás ou rosa choque naqueles pés delicados perturbavam meus olhos que safados se deliciavam lambendo suas lindas cochas morenas.
Deveria ter alguns machos por entre elas que por certo desmunhecaram, mas eu nos os vi e nem fiz questão para tanto. Apenas meus olhos se deliciavam e bolinavam aquelas maravilhosas sereias. Musas infernalmente tentadoras.
Foram momentos que quase me levaram ao mais alto grau de excitação olhando tudo aquilo, mas a responsabilidade e o bom senso me acordaram, e então pude, livre de toda a emoção, de todos os calafrios por que passava meu corpo analisar friamente avaliando aquela esbórnia.
A empresa contratada para a formatura estava a postos em diversos ângulos com suas potentes máquinas filmadoras e fotográficas. Por certo o material depois de revelado deve ter saído uma bosta visto que estes tarados profissionais estavam abundantemente babando muito mais que trabalhando apreciando aquelas bundas, aqueles peitos e aquelas cochas. É justificado, pois concordo que ninguém é de ferro.
Por momento petrificado, confesso que também babei, mas me refiz e adentrei sala para tomar conhecimento da desordem, e entendi ali o porquê de toda a Faculdade estar ouriçada também.
- O que significa isto? Perguntei numa voz esganiçada.
- Estamos filmando para a formatura, responderam-me em coro e continuaram:
- Queremos aula!
Quase perguntei se aquele era um curso de administração ou de sacanagem, mas me contive e disse:
- Eu acho que vocês estão mais para dormir que receber conhecimentos, justifiquei.
Por alguns momentos não sabia se saia correndo, se ia até minha casa buscar meu pijama ou...
- Bem pessoal, com minha voz de comando completei:
- Quero todos de joelho! Vamos fazer a oração da noite!
Incontinente todos se puseram de joelho, ao lado das carteiras repetindo a oração da noite comigo.
Eu acho que Deus também gostou muito em ver aquelas lindas criaturas mal vestidas mostrando suas belas formas. Quem não gostou mesmo foi o Diretor que não sendo convidado para a festa aplicou na turma uma semana de suspensão.


OBS. Deixo de mencionar data e a instituição. Quem foi meu aluno na oportunidade com certeza ao ler lembrará do fato que por certo está registrado nos seus álbuns de formatura.

por: Mario dos Santos Lima