quarta-feira, 18 de maio de 2011

UM CACHORRO ENROSCADO NA CRUZ

O Frei Dionísio como um bom franciscano... ou ele era jesuíta? ou... Não sei mais, mas que gostava de animais, gostava mesmo isto eu sei. Tinha um casal de cachorros peludos que era uma maravilha. O casal de caninos ficava preso o tempo todo na casa paroquial cercado de mil cuidados e mil carinhos e desta forma era uma recomendação veemente dele para nós sacristãos:
- Não me deixem nunca a porta aberta porque as minhas crianças podem escapar e ir se misturar aos vira-latas pulguentos e malcheirosos da redondeza.
Não conseguia entender como alguém, principalmente um padre pudesse ser tão racista e discriminador. Coitados dos vira-latas que não tinham o direito de entrar na Igreja e nem comer as míseras migalhas de comida que sobravam de seus peludos.
- Não quero estes sarnentos dentro da minha Igreja. – Sempre recomendava ele para nós e nós mantínhamos um policiamento feroz contra estes inimigos da Igreja.
Comecei a olhar todos os vira-latas que cruzavam pela rua como uma coisa satânica e amaldiçoada. Se algum deles passasse por perto de mim imediatamente me vinha uma vontade incontida de meter um ponta-pé no traseiro dele. O Frei estava fazendo em mim uma verdadeira lavagem cerebral sem que eu me apercebesse. disso Só o casal de peludos dele é que iria para o céu, isto já estava bem claro na minha cabeça.
Toda vez que abria a Igreja de manhã lá estava o sarnento e pulguento deitado, todo encaracolado na soleira da porta.
- Maldito, saia daqui – gritava eu para o pulguento que sossegadamente abria apenas um olho e olhava para mim, punha-se em pé sacudindo de um lado para outro todas as pulgas do seu magro lombo e descia compassadamente a escadaria rumo à rua.
Mal eu virava a costa e lá vinha ele de volta se acomodar no capacho que ficava ao pé da porta da Igreja.
Às vezes me passou pela cabeça que aquele pulguento estava apaixonado pela cadelinha peluda do Padre e era então por isto que o Frei tinha todo aquele cuidado com a porta de entrada da casa paroquial. Talvez tenha até acontecido, no passado algum caso, rolado um clima entre o pulguento e a peludinha e o frei, lamentavelmente tenha descoberto. Mas se isto realmente aconteceu e se existe ainda essa doida paixão entre o sarnento e a peludinha é claro que, para o bem dos bons costumes este romance deverá ser abortado incontinenti mesmo. Ele é um vagabundo, pulguento, latidor das madrugadas e perturbador de portas de igreja e ela, peludinha, bem educada, cheirosinha e amorosa. Jamais daria certo. Ela é de dentro da Igreja e ele das escadarias da Igreja. Ele um amaldiçoado, satânico e ela uma santificada.
- Para o bem da Igreja preciso dar um jeito neste vira-lata – pensava eu.
O meu grande medo era de que ele reunisse, num dia qualquer destes todos seus amigos e viesse fazer um grande cachorrismo ali na escadaria da Igreja exigindo os direitos caninos e eu então estaria fodido perante o Frei por não ser um bom guardião das coisas santas de Deus. Seria despedido e o Frei me excomungaria.
Tomei uma decisão. Vou preparar algo para que este filho de uma cadela não mais venha incomodar a Igreja e colocar em perigo a minha santa ida um dia para o céu.
Pegar o pulguento foi fácil, ele até grunhiu e lambeu as minhas mãos imaginado por certo de que eu finalmente estava me rendendo a ele. Amarrei facilmente umas bombinhas no seu rabo e deixei a coisa acontecer. Depois de alguns dias ele voltou trôpego, assustado e sem rabo.
Num primeiro momento me causou pena ver seu lastimoso estado, mas imediatamente me recompus:
- Você não aprende mesmo – bati o pé e lá foi ele todo trôpego embora com o que sobrou do rabo entre as pernas e cabisbaixo.
No dia seguinte quando abri de manhã a Igreja lá estava o sem rabo todo encorujado aguardando a minha bronca.
- Esta noite a cachorrada vadia em assembléia com uivos esganiçados não me deixou dormir – o Frei já cedo comentou comigo o fato e isto deixou bem claro que estes vadios de rua só podem ser criação do capeta.
Uma notícia deixou-me satisfeito por aqueles dias. Estava na cidade um circo e como todo circo que se preze deve ter animais ferozes, grandes e famintos. Tinha um leão velho, manso como um corno, mas que uivava de fome dia e noite.
O dono do circo dava uma entrada para a matinê por cada bicho que era trazido ao circo. É claro que o dono do circo não dizia claramente que era para alimentar seus bichos e dar um sossega no leão.
A matinê ficava lotada e a bicharada do circo satisfeita. A molecada feliz empoleirada se deliciando com as piruetas e palhaçadas dos palhaços não estava nem aí com o holocausto das vítimas.
A minha grande esperança é de que alguém achasse o pulguento e o levasse ao circo.
Passa dia e mais outro e nada disso aconteceu. Estava cada vez mais angustiado com aquela situação. Eu seria considerado incompetente perante a Igreja se não aproveitasse a oportunidade e desse um fim no sem rabo.
Tomei então uma decisão definitiva.
A torre da Igreja é bem alta, uns 40 metros de altura.
Peguei o sem rabo, amarrei nele um lençol velho. Cada ponta do lençol numa pata. Subi até a torre da Igreja e dela soltei o sarnento.
Minha idéia era pregar um belo susto no filho do capeta e que o lençol como um para-queda, pelo vento o levasse para bem longe; Talvez para perto do circo ou até dentro do circo.
Soltei. O pior aconteceu.
Não tinha vento. O lençol não se abriu e acabou se enroscando no braço da cruz santa que ficava um pouco abaixo. Como o endemoninhado animal começou escandalosamente a latir pude escutar o povo lá em baixo assustado falando:
- Isto só pode ser coisa do sacristão
O Frei deve ter sido tomado por uma louquice estranha ou tudo tenha sido uma bela jogada política religiosa para abafar o caso, pois acabou chamando o corpo de bombeiro para salvar o pestilento e terminou por adotar o animal, coisa que até hoje não entendi.
O Frei só não me excomungou, mas fui expulso da Igreja.

por: Mario dos Santos LIma

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